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Violência contra pessoas idosas assume várias formas e pode crescer durante a pandemia

Grupo de maior risco em relação à Covid-19, muitas pessoas idosas enfrentam ainda nesse período a violência em várias formas. Nas ruas, mesmo aquelas(es) que quebram o distanciamento social para atividades essenciais como ir ao médico passaram a enfrentar hostilidades por parte de pessoas mais jovens. Nas casas, muitas vezes estão sujeitas(os) à negligência, violência patrimonial ou física. Por vezes, a violência assume formas mais sutis – embora não menos prejudiciais – como o isolamento do restante da família e a violência psicológica.


Neste dia 15 de junho, no qual é lembrado o “Dia Mundial de Conscientização da Violência Contra a Pessoa Idosa”, o Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) conversou com Cloves Antonio de Amissis Amorim (CRP-08/03741), professor titular do curso de Psicologia da PUCPR, sobre a temática. Confira a seguir:

CRP-PR: Existem várias formas de violência. Na sua experiência e área de pesquisa, qual tipo de violência tem afetado mais a população idosa?

 

Cloves Amorim – Dependerá de algumas variáveis. Homens e mulheres sofrem violência de formas diferentes. Há também diferenças de acordo com a classe social da idosa e do idoso. Na classe menos abastada, você vai encontrar golpes econômicos na aposentadoria e abusos financeiros utilizando os direitos dos aposentados. Nas camadas sociais com poder aquisitivo mais elevado, o que se observa mais é a solidão, o distanciamento da família e a falta de tempo de qualidade.  Mesmo agora, durante o período da pandemia, as pessoas estão em casa, mas, curiosamente, trabalhando muito mais. As pessoas que têm a possibilidade de ter essa modalidade de trabalho chamada home office estão acumulando atividades: além da profissional, é preciso cuidar das crianças, dos animais, higienizar e organizar a casa, entre outras tarefas.  Então há também um acúmulo de estresse, cansaço e preocupações financeiras e tudo isso contribui para amplificar os conflitos e para piorar as dificuldades nas relações interpessoais.

 

E sabemos que o distanciamento social é fundamentalmente necessário neste momento, mas ainda são necessários estudos mais aprofundados sobre seus impactos e efeitos psicológicos. Os primeiros estudos já demonstram índices elevados de estresse, ansiedade e depressão. É preciso considerar, também, de que há uma necessidade constante de atualização e, se a pessoa está cognitivamente bem, tem autonomia e bem-estar, ela com certeza pode aderir aos cuidados que são solicitados com mais facilidade. Mas, eu também acredito que aquelas casas, que são casas pequenas, com pouco espaço físico e preocupações financeiras também contribuem para um aumento da frequência de condutas violentas para com as pessoas idosas.

CRP-PR – O que as famílias podem fazer para minimizar essas dificuldades e como integrar melhor essa pessoa idosa, minimizando impactos psicológicos deste período?

 

Cloves Amorim – Penso que, sempre que seja possível, respeitar ao máximo a cultura dessa pessoa idosa que está em casa. Por exemplo: se esta pessoa gostaria de fazer um momento de oração e alguns membros da família, pelo menos, que possam acompanhar ou contribuir. É muito importante que essa pessoa não se sinta inválida ou desqualificada, que no seu ritmo ela possa ter algumas atividades, desde ajudar a cuidar da casa, estar acompanhando um neto menor, ou seja, alguma habilidade que esta pessoa tenha e que possa ser posta em prática e reconhecida pela família. Também é importante, se e quando possível, ter alguma atividade intencionalmente planejada como por exemplo, pintar ou bordar algo. Se a pessoa gostar de ler, ela própria pode ter momentos ou períodos de leitura ou se ela tem dificuldade, por alguma razão, que alguém possa ler um pouco pra esta pessoa. Outro fator importante é tentar, ao máximo possível, ter rotinas. Ter hora para levantar, para dormir, para se alimentar, seguir mais ou menos o costume das demais pessoas da casa.  

 

Nós estamos também bastante visuais, com a televisão e os aparelhos eletrônicos ligados o tempo inteiro, vendo filmes, seriados ou nas redes sociais. O ideal seria em alguns momentos interromper isto para que o idoso conte uma história, relate um fato, conte algum episódio da sua vida em enfrentamento de outras situações difíceis, que ele se sinta valorizado e integrado. E não apenas alguém que está recebendo cuidados e que pode sentir que passa a se tornar um peso para o cotidiano da família.  Então, se a pessoa receber reforços positivos no sentido de que sua presença colabora, sua presença nos ajuda, “que bom que você está conosco”, “sua fé é para nós um bálsamo”, isso pode ser muito protetivo para a própria pessoa e tudo isso pode contribuir para que haja um bem-estar para idosos e não idosos que estejam convivendo tão intimamente por um tempo tão prolongado.

CRP-PR – Mesmo com os riscos, há muitas(os) idosas(os) que desejam continuar saindo, indo ao mercado e ao banco, por exemplo. Como lidar com essa situação de uma forma que não se torne agressiva ou violenta?

 

Cloves Amorim – Você tem uma variável que alguns traços de personalidade, com a idade, podem ficar piores. Então, se é uma pessoa que a vida inteira foi teimosa e ela vê que o presidente da república tem dúvidas se, de fato, as pessoas podem ou não ser contaminadas, deve ou não usar máscara etc., essas pessoas estão recebendo informações ambíguas, informações que não estão todas na mesma direção. Então para esses indivíduos, com certeza será muito mais difícil o manejo.

 

Agora, em qualquer das situações, acredito que o diálogo seja sempre a melhor forma de ação. Então, mostrar para pessoas estatísticas, principalmente mostrando que as pessoas mais idosas parecem ser mais vulneráveis, que é um risco muito significativo, que pessoas públicas, atores, políticos e pesquisadores têm dado depoimentos constantes de que estão conseguindo reinventar a vida em casa. Esta semana mesmo, no dia de ontem, o ator Ari Fontoura, que tem 87 anos, deu um depoimento de como ele está se reinventando. Então eu acredito que para uma comunicação não-violenta é preciso ter habilidades no sentido de apresentar dados e insistir com a pessoa de quanto ela é importante para a família. E, eventualmente, pedir ajuda para outra pessoa da confiança da pessoa idosa, alguém que esta pessoa tenha como referência e tenha como respeito, pode ser líder religioso, profissional da saúde próximo da família, que possa trazer as informações que sair de casa é o maior risco que essa pessoa pode ter para a própria vida e para a saúde da família.

CRP-PR – De que forma as pessoas podem acompanhar aquela(e) idosa(o) que está sob cuidado de outros familiares? O que o senhor recomenda?

 

Cloves Amorim – Acredito que, como sociedade, podemos acompanhar. Temos exemplos de vizinhos que acabam até ajudando as pessoas a fazer compras, por exemplo. Temos em alguns municípios, a agente de saúde que vai até a casa para levar o medicamento de uso contínuo, por exemplo, para diabetes, para hipertensão arterial e pode ficar atenta para ver se existe algum sinal de violência e buscar sempre conversar com a pessoa idosa. É preciso também mais campanhas de alerta para a questão na mídia, como se está sendo feito com relação à violência doméstica de um modo geral. Talvez também seja benéfico alguma política pública mais voltada para síndicos, por exemplo, e pessoas que talvez tenham um acesso mais fácil às pessoas idosas para a divulgação do disque-denúncia. É preciso criar e divulgar canais para ajudar a pessoa que provavelmente não teria outro recurso.

CRP-PR – As pessoas idosas também estão sendo hostilizadas nas ruas. O que justifica essas manifestações e como podemos conversar com as pessoas idosas a respeito desta situação e da dor gerada por ela?

 

Cloves Amorim – Acredito que basicamente a agressividade está sendo ampliada e intensificada por um contexto de insegurança, incerteza e frustração. Provavelmente, algumas pessoas que já fossem muito agressivas, que historicamente já eram abusadoras, nesse contexto tendem a ficar pior. Agora, por outro lado, como ajudar a vítima? Esse senhor, essa senhora que precisa ir ao médico, que não tem outra alternativa, que suas doenças crônicas assim exigem. Nós podemos fazer um trabalho de autoestima, ajudando-a a reconhecer suas motivações. É possível dizer para esta pessoa: “Você sabe o porquê você está saindo. Você só está indo à rua para cuidar de sua saúde. Você tem esse direito. Quem tem problema não é você, é aquele que está te agredindo”. Então trabalhar o autoconceito e a autoestima pode ajudar bastante a esses indivíduos a melhorar a sua resiliência e a lidar de uma forma menos dolorosa e com menos sofrimento com a situação de agressão verbal.

CRP-PR – Outra questão bastante difícil é o medo de adoecer. As pessoas são bombardeadas durante todo o dia com informações de que estão na temível “faixa de risco” e algumas vezes duplamente, uma vez que, além da idade, possuem doenças crônicas como diabetes ou hipertensão. Agrava o medo a dificuldade de acesso à atenção médica e os anúncios de que essa não é a população prioritária na locação dos respiradores e dos equipamentos de manutenção da vida no tratamento de Covid-19. Como lidar com essa situação?

 

Cloves Amorim – É preciso considerar que há, ainda, um primeiro ponto em relação aos respiradores, o princípio do maior benefício ou malefício, uma vez que para algumas pessoas idosas apenas o procedimento já pode levar ao óbito e nos quais é preferível cuidados paliativos, serem assistidas, ter o seu sofrimento diminuído, minimizado, mitigado, mas não serem colocadas nessas máquinas, porque provavelmente só o procedimento de instalar o respirador já seria uma condição de risco maior de morbidade, o que não é aceito inclusive por muitas famílias.

 

Segundo ponto é o medo da morte, que tem sido tema de estudo por muitos anos. Há algumas variáveis que interferem no medo da morte. A primeira delas é: antes dessa contingência, uma pessoa que já tinha muito medo da morte, nesse momento, piora. A morte tem, antes da morte definitiva, a morte social, a morte do isolamento. Há um livro que se chama “A solidão dos moribundos”. Neste livro, o autor vai discutir que antes da pessoa morrer ela pode passar por um período de solidão, de desqualificação, onde tomam decisões por ela e ela não consegue fazer valer os seus desejos, as suas vontades. O livro “Mortais” também aborda essa questão da relação do idoso com a morte e o medo da morte.

 

Acredito que vivemos numa sociedade que nega a morte e que nos faz acreditar que viveremos para sempre. Isto é muito triste porque nós não temos uma educação para a morte. Durante os 20 anos que trabalhei no curso da terceira idade, as minhas alunas diziam: “Professor, nós sabemos que o senhor estuda a morte, mas nós não queremos falar sobre isto. Por favor, não nos dê aula de morte. Nós queremos ter saúde, ter autodomínio, ter autonomia e um dia não acordarmos mais. Mas não precisa vir falar conosco sobre este assunto”. Isto é um exemplo de que nós somos educados, desde a mais tenra idade, para negar a morte.

 

E há também outras duas variáveis. A primeira, é que, se a gente não nomeia, não existe. E, por outro lado, para a psiquiatra suíça Elisabeth Kübler-Ross, no livro sobre a morte e o morrer, ela nos adverte que para dimensão do inconsciente, não há registro de morte. Então eu penso na morte dos meus amigos, dos meus companheiros, do meu primo mais velhinho, da minha prima que está um pouco adoentada, da minha prima que é fumante, mas eu não penso que eu próprio seja mortal. É quase impossível reconhecer-se como mortal do ponto de vista do registro no inconsciente. Então, parece que tudo isso vem dificultar a maneira como nós podemos lidar com o tema da morte.

 

Algo que parece acalmar algumas pessoas, é a dimensão da transcendência, de que a morte não é um fim, mas uma transformação, um novo caminho. E, para os que ficam, eles terão que fazer um exercício de mudar de fora para dentro o seu ente querido que antes tinha uma realidade física e agora precisam encontrar um lugar dentro de si para acomodar esta pessoa que talvez não esteja mais entre nós. Então falar sobre a morte também nos ajuda a ter um luto melhor e a diminuir o medo.

CRP-PR – Como, de forma geral, o senhor vem observando as políticas voltadas às pessoas idosas, sobretudo voltadas ao combate à violência, nos últimos tempos? No que precisamos avançar para garantir mais segurança e mais qualidade de vida para essa população?

 

Cloves Amorim – Talvez o primeiro passo já fosse pensar sobre “idosos”. De que idosos nós estamos falando? Esse senhor ou senhora que pode sobreviver graças ao benefício de prestação continuada ou esta pessoa aposentada que ganha R$ 60 mil reais por mês? É uma pessoa alfabetizada? É uma pessoa que tem família? Tem vínculos? Talvez tenhamos que desdobrar um pouco essa categoria “idosos” para começo de conversa.

 

Penso também que estamos regredindo a passos largos nas políticas públicas em geral, e, em especial, sobre o idoso. Seria preciso resgatar a Renad – Rede Nacional de Proteção e Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa – e fazer desta uma ação interministerial onde esteja o ministério que cuida da Saúde, o ministério que cuida dos Direitos Humanos e ter como parceiro o Ministério Público. É preciso pensar em transporte, habitação, alimentação e demais condições a partir das necessidades dos idosos, para que possam ter bem-estar e saúde e combater a violência. Mas, nem tudo está ruim. Um dos progressos que nós tivemos foi uma participação dos idosos na decisão das políticas públicas. Acho isso fantástico. Pessoas idosas tendo voz.

 

As políticas públicas, para serem efetivas precisam ser intersetoriais, interministeriais e estar principalmente, do ponto de vista executivo, na mão do município, porque é o município que conhece o seu cidadão. É o município que sabe da história de cada indivíduo. É aquela assistente social, daquela área, daquele setor, que conhece a sua comunidade. E não em nível federal que a gente encontra muita burocracia, como nós estamos vendo agora, no acesso ao auxílio emergencial. Gente que não consegue preencher um documento, gente que não tem acesso à Internet, gente que não tem documento fica sem acesso aos seus direitos. Só o fato desse direito ser acessado por um aplicativo ou um site, já exclui pelo menos 50% dessa população.

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