Notícia

Vidas negras importam: por uma Psicologia antirracista e antifascista

O assassinato brutal de George Floyd, asfixiado pelo joelho de um policial branco, incendiou as ruas de diferentes cidades dos Estados Unidos: as vias foram tomadas por manifestações de protesto contra a violência racista e letal cometida em Minneapolis no dia 25 de maio de 2020. A morte do homem negro de 46 anos reverberou em diferentes manifestações inicialmente pacíficas e, depois, multiplicadas e intensificadas em diversos lugares de todo o mundo, incluindo o Brasil.

Uma das cenas mais icônicas envolvendo os protestos foi o prédio de Minneapolis em chamas, imagem compartilhada exaustivamente em diferentes meios de comunicação e redes sociais. Além das manifestações ocuparem as ruas de diferentes formas a hashtag blacklivesmatter (vidas negras importam) também tomou conta das redes sociais nos últimos dias.

No Brasil, os atos foram impulsionados pela indignação frente à violência policial sistemática nas periferias que resultam em mortes negras deliberadas e com aceite da naturalização social dessas violências. Ágatha Felix, João Pedro Mattos, Kauê Ribeiro dos Santos, Kauã Rozário, Kauan Peixoto, Jenifer Cilene Gomes são algumas crianças e adolescentes vítimas do Estado, assassinadas durante operações policiais violentas em favelas no Rio de Janeiro. O genocídio da população negra é denunciado há décadas pelo Movimento Negro: o Mapa da Violência aponta que, no Brasil, a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado.

A Covid-19 e a falta de políticas públicas

Além disso, vale destacar que nesse momento o Brasil se encontra na quarta posição no número de mortes pela Covid-19, e que o governo federal pouco tem agido de forma a combater a pandemia e proteger a população; pelo contrário, instiga e proporciona que seus defensores vão às ruas protestar por modelos fascistas e autoritários, ignorando todas as recomendações da Organização Mundial de Saúde, de cientistas e epidemiologistas pelo isolamento social.

É conhecido o fato de que existem segmentos na sociedade que são impedidos de realizar a proteção diante da pandemia, pois utilizam transportes públicos, vivem em condições precárias de moradia e higiene, precisam de seus empregos (que são precarizados, isso se não perderam os empregos) e que não estão recebendo atenção e cuidado do Estado, estratégias condizentes com o projeto genocida contra a população negra e indígena.

O racismo estrutural nos EUA e no Brasil

O racismo estrutural é resultado do processo de colonização e escravização atualizado na sociedade. A marginalização das populações negras e indígenas as tornam as maiores vítimas não apenas da pandemia, mas da violência do Estado concretizada na falta de políticas públicas, retirada de investimentos em saúde, educação e assistência social, e principalmente no incentivo estatal e avanço dos assassinatos de jovens negros e negras nas favelas brasileiras pela polícia militar, bem como nos assassinatos de indígenas por grileiros e proprietários de terra. É importante ressaltar que o racismo estrutural e as lógicas coloniais são evidentes em nossa sociedade pelo fato de o racismo atuar também do imaginário da população sobre o que poderia significar ser negro, branco, indígena, asiático, etc.

Embalado pelos protestos antirracistas nos EUA, o povo brasileiro também iniciou um processo de respostas antifascistas contra os ataques do governo Bolsonaro, este que cedeu apoio ao projeto de Winson Witzel no Rio de Janeiro – operações militares em helicópteros com aval para dar tiros em escolas e espaços comunitários – que provocou muitas mortes de pessoas negras. O mesmo governo ancora Paulo Guedes, defensor de reformas contra os direitos de trabalhadores e trabalhadoras, com um discurso contra serviços públicos.

Faz-se necessário contextualizar o cenário, pois esses elementos compõem a luta antifascista que viralizou também nas redes sociais nas últimas semanas e evidencia que a luta antirracista é condição para o enfrentamento antifascista. Ou seja, ser antifascista requer necessariamente o posicionamento na luta contra o racismo, assim como outras formas de desigualdade que estruturam a sociedade brasileira. Acompanhamos esses movimentos ganharem força a partir dos atos de torcidas organizadas em São Paulo pela defesa de uma democracia de fato. Tarda o momento de levantarmos nossas vozes e colocar em xeque o privilégio branco e a consequente manutenção das desigualdades raciais que tiram vidas diariamente.

A Psicologia antirracista e antifascista

O racismo é um fenômeno multifacetado e complexo e cabe a nós, Psicólogas e Psicólogos, o entendimento desse fenômeno, pois o Código de Ética Profissional da(o) Psicóloga(o) nos orienta a denunciar e ser contra todas as formas de discriminação e violência, valorizando uma ética pautada nos Direitos Humanos. Não menos importante são a Resolução CFP nº 08/2002 e as Referências Técnicas para atuação profissional sobre relações raciais. Ainda temos na formação em Psicologia um grande déficit de aprendizado em relação ao tema, embora existam diversas pesquisas sobre as relações raciais no Brasil. Isso evidencia também o que valorizamos e o que deixamos de valorizar enquanto categoria profissional e enquanto sociedade.

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