psicologia

Mulheres negras são o grupo com maior vulnerabilidade social

O primeiro Encontro de Mulheres Negras Latinas e Caribenhas aconteceu em 25 de julho de 1992, em Santo Domingo, na República Dominicana. O evento foi uma organização importante para discutir as demandas específicas do movimento feminista negro. A articulação resultou na criação de uma rede de mulheres afro-latinas e caribenhas, e no Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha (25 de julho), reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) como um marco de luta e resistência contra a desigualdade social, o racismo e o machismo. No Brasil, a data foi instituída por lei em 2014, e comemora também o Dia Nacional de Tereza de Benguela, em homenagem à líder do Quilombo de Quariterê que viveu no século XVIII.

A história de colonização dos países da América Latina e do Caribe, mesmo que cada um possua suas especificidades, é muito semelhante. A Psicóloga Michely Ribeiro da Silva (CRP-08/18161), coordenadora na Ação de Mulheres pela Equidade (AME) e conselheira consultiva na Rede Mulheres Negras do Paraná, comenta que a maneira como as negras e negros chegaram nas Américas é refletida em uma constituição parecida de suas identidades. A data, portanto, aproxima os movimentos, suas necessidades e lutas. Este dia é também um momento em que a Psicologia deve voltar o seu olhar para as mulheres negras, a fim de promover a garantia de direitos e o combate das opressões que sofre essa população.

A Psicologia, com um trabalho que envolve a escuta, a aprendizagem e o acolhimento, tem a potencialidade e o compromisso no desenvolvimento de estratégias para o combate ao racismo e ao machismo, na redução das vulnerabilidades e desvalorização das mulheres negras.

"Morreram assassinadas, proporcionalmente ao tamanho das respectivas populações, 66,7% mais meninas e mulheres negras do que brancas"

Mapa da Violência de 2015: homicídio de mulheres no Brasil

Psicologia

A representante do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) no Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial do Paraná (Consepir), e também colaboradora do Núcleo de Questões Étnico-Raciais da Comissão de Direitos Humanos do CRP-PR, Daniela Francesca Malta dos Santos (CRP-08/IS-359), ressalta que o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha é importante para trazer reflexão e visibilidade ao que permeia a subjetividade dessa mulher. “O debate sobre isso não é ampliado na formação em Psicologia. Primeiro, a gente estuda para entender a cultura em que vivemos. Mas, estudamos mesmo sobre a nossa cultura? Eu sei sobre a subjetividade do que é ser uma mulher negra no Brasil?”, questiona Daniela.

Para Michely, uma estratégia possível a ser adotada pela Psicologia é pensar em uma linha que converse com as relações raciais, considerando a responsabilidade das(os) profissionais da categoria para o desenvolvimento dos indivíduos e dos grupos. “É essencial reconhecer que o racismo é um elemento na constituição das vivências de violências das populações negras, e que isso causa um sofrimento e um adoecimento psicológico”, enfatiza.

Vulnerabilidade

Ainda que a organização das mulheres negras tenha se iniciado há mais de 20 anos, as motivações para o enfrentamento das desigualdades que elas sofrem continuam existindo até hoje. Segundo pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), as mulheres negras são o grupo com mais vulnerabilidade social. Esse panorama está na publicação de 2013 “Dossiê Mulheres Negras: retrato das condições de vida das mulheres negras no Brasil”, mas as pesquisas que demonstram essa realidade são numerosas e de diversas instituições.

Michely explica que antes não existiam dados que comprovassem as vulnerabilidades das mulheres negras. As demandas por saúde, educação, trabalho e segurança eram consideradas apenas parte de um discurso do movimento. A estratégia então foi trabalhar na produção desses dados e pesquisas nas universidades, e a posterior reivindicação para o setor público. “Os dados refletem as vivências das mulheres negras. Eles impedem que as pessoas ignorem a situação”, ressalta a Psicóloga.

Violência

Segundo a ONU Mulheres, entre os 25 países com maiores índices de feminicídio no mundo, 14 estão na América Latina e no Caribe. A situação se agrava quando são analisados os dados referentes às mulheres negras.

No Brasil, entre 2003 e 2013, os homicídios de mulheres brancas tiveram uma queda de 9,8%, sendo que, no mesmo período, os homicídios de mulheres negras aumentaram 54,2%. As estatísticas, que são do Mapa da Violência de 2015: Homicídio de mulheres no Brasil, também demonstram que a partir da vigência da Lei Maria da Penha (lei nº 11.340/2006) o número de vítimas entre as mulheres brancas caiu 2,1%; a realidade é muito diferente entre as mulheres negras, pois, no mesmo período, houve um aumento de 35% na violência. O documento também salienta que, em 2013, “morreram assassinadas, proporcionalmente ao tamanho das respectivas populações, 66,7% mais meninas e mulheres negras do que brancas”.

Mercado de trabalho

As consequências do machismo e do racismo influenciam em diversos contextos. Se as mulheres são historicamente desvalorizadas em relação aos homens no mercado de trabalho, a disparidade é maior para as mulheres negras, que, além da desigualdade de gênero, sofrem desigualdade racial e social. Em 2014, dados da pesquisa Mulheres e Trabalho, também do IPEA, mostram que  as mulheres negras recebiam uma média de R$ 946, contra R$ 2.393 mensais dos homens brancos – o que representa menos de 40%.

A análise demonstra também diversas desvantagens que têm as mulheres negras se comparadas às mulheres brancas e aos homens (sejam negros ou brancos) nas possibilidades e condições de participação na economia. Por exemplo, mulheres negras tornam-se inativas no mercado muito mais novas do que os homens brancos. Elas também permanecem em trabalhos mais precários, recebem menores salários e possuem jornadas de trabalho mais extensas, combinando o trabalho com as atividades domiciliares e de cuidados não remuneradas. Além disso, as mulheres negras são a maioria nas chefias de família e precisam criar e sustentar seus filhos sozinhas.

Apesar de receberem menos e fazerem parte de famílias de baixa renda, em sua maioria, as mulheres negras giram a economia na busca por sustento. A Psicóloga Michely destaca que não é à toa que programas governamentais passaram a investir mais nas mulheres negras, notando a suas incidências nas comunidades e na economia. “O investimento nas mulheres negras não é apenas para elas, é um investimento na sociedade. Como elas são chefes de família e lideranças em suas comunidades, o impacto disso reverbera na comunidade, seja no cuidado das crianças, no amparo a outras mulheres, assim como no desenvolvimento econômico no local onde vivem”, explica.

Saúde

Michely pontua que o atendimento na saúde é desigual para as pessoas negras. As situações podem envolver dificuldade no atendimento, negligência e tratamento preconceituoso.

Em 2014, o Ministério da Saúde lançou a campanha “SUS sem racismo”. Segundo os dados, 60% das vítimas de mortalidade materna no país são negras. Além disso, 27% das mulheres negras tiveram acompanhamento durante o parto, contra 46,2% entre as mulheres brancas; 62,5% das mulheres negras receberam orientações sobre a importância do aleitamento materno, enquanto 77% das mulheres brancas tiveram o mesmo auxílio.

Nessa área, a Psicóloga coloca que, além de assegurar os direitos e reduzir a mortalidade e a violência, é preciso pensar sobre “como vivenciar a cultura e tradições de matriz africana tem impacto significativo na manutenção do cuidado em saúde”.

As Psicólogas Daniela e Michely consideram que a primeira forma de avançar nas questões que prejudicam o bem-estar das mulheres negras é conversar sobre o tema em sociedade, compreendendo suas demandas. A Psicologia, com um trabalho que envolve a escuta, a aprendizagem e o acolhimento, tem a potencialidade e o compromisso no desenvolvimento de estratégias para o combate ao racismo e ao machismo, na redução das vulnerabilidades e desvalorização das mulheres negras.

XVI EPP e II CIPTF | Minicurso teórico-vivencial trabalhará a arte em terapia

O XVI Encontro Paranaense de Psicologia e o II Congresso Internacional de Psicologia da Tríplice Fronteira (XVI EPP e II CIPTF) serão realizados em Foz do Iguaçu, entre os dias 22 e 25 de agosto. Estudantes, profissionais e interessados na área poderão participar de mesas-redondas, palestras e oficinas de diversos campos da Psicologia. Durante os eventos, a Psicóloga Ivana Lúcia Hilgenberg Guimarães Vieira (CRP-08/3932) irá ministrar um minicurso sobre “A arte em terapia como caminho de transformação”.

Segundo Ivana, o objetivo é apresentar de que maneiras a arte pode ser aplicada enquanto recurso e ferramenta na terapia psicológica. A oficina terá explicações a respeito do histórico da terapia artística e o método utilizado pela Psiquiatra Nise da Silveira. O minicurso será teórico-vivencial, com atividades práticas a fim de que as(os) participantes compreendam melhor o potencial revelador da arte em terapia.

Ivana explica que temos várias maneiras de expressar os sentimentos, então “é importante mostrar um método diferente que intensifique e transforme questões a serem trabalhadas”. A arte, nesse sentido, pode favorecer o processo terapêutico.

O minicurso será introdutório. Os materiais utilizados serão aquarela, argila e giz pastel, de acordo com a terapia artística proposta pela antroposofia.

Serviço

XVI Encontro Paranaense de Psicologia (EPP) e o II Congresso Internacional de Psicologia da Tríplice Fronteira (CIPTF)

Quando: 22 a 25 de agosto

Local: Rafain Palace Hotel & Convention Center (Av. Olímpio Rafagnin, 2357, Parque Imperatriz, Foz do Iguaçu)

Para mais informações sobre a programação dos eventos, acesse o site www.epp.crppr.org.br

Estatuto da Criança e do Adolescente completa 28 anos

*Texto de Gabrielle Kepka (CRP-08/16818), colaboradora do Núcleo de Infância e Juventude da Comissão de Direitos Humanos de Curitiba

No dia 13 de julho comemoramos uma data importante no que se refere à garantia de direitos humanos: a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) – instituído pela lei nº 8.069/1990 – completa 28 anos. A lei é um marco porque trouxe uma mudança importantes: se hoje as crianças e os adolescentes são vistos como sujeitos de direito e em fase peculiar do desenvolvimento, antes eram considerados “adultos em miniatura”; não havia diferenciação das atividades e das responsabilidades de um adulto e eram tratados por termos pejorativos, sem respeito à sua singularidade e sua história.

História

Nesta data, é importante analisar as etapas que antecederam este marco histórico. A legislação brasileira sofreu mudanças bastante significativas durante o século XX até a promulgação do ECA, em 1990, o que aprimorou também a prática das(os) profissionais que atuam com este público.

Década de 1920

O decreto nº 5.083, de 1º de dezembro de 1926, organizou o Código de Menores* – termo usado à época se referindo à distinção de idade no âmbito jurídico, mas, principalmente, fazendo alusão a crianças ou adolescentes pobres, abandonados(as) e delinquentes, que apresentavam comportamentos desviantes e por isso eram desprestigiados, considerando “vadios” os “menores” encontrados em situação de risco e vulnerabilidade.

Em seguida o decreto nº 17.943-A, de 12 de outubro de 1927, conhecido como Código Mello Mattos, deliberou a consolidação das leis de assistência e proteção aos sujeitos “abandonados ou delinquentes”, menores de 18 anos, de ambos os gêneros, que estavam em situação de orfandade ou em famílias “desestruturadas”*, tendo como prioridade a correção – o termo “desestruturadas” era subentendido no Código e Menores, que fazia menção ao fato de que “o problema da pobreza e da criminalidade do menor era de origem familiar, isto é, uma decorrência da pobreza e do mal cuidado para com os filhos”.

Década de 1970

Já no ano de 1979 foi promulgado o segundo Código de Menores, pela lei nº 6.697, tendo como base ideológica a “Doutrina da Situação Irregular”. Este código dispunha sobre assistência, proteção e vigilância de “menores” de até 18 anos que se encontrassem em situação irregular (artigo 1º, 1979), além de proporcionar ao Estado o poder de aplicar medidas de “caráter preventivo” a qualquer “menor de dezoito anos, independentemente de sua situação” (artigo 1º, parágrafo único, 1979).

Este Código considerava estar em situação irregular a criança ou adolescente “Privado de condições essenciais à sua subsistência, saúde e instrução obrigatória, ainda que eventualmente”, seja por falta ou omissão dos pais ou responsáveis, deliberada ou por incapacidade financeira, maus tratos ou castigos imoderados impostos pelos pais ou responsável, perigo moral “em ambiente contrário aos bons costumes”, entre outras razões expostas no artigo 2º do Código.

Códigos de Menores: exclusão e violação de direitos

Os dois Códigos de Menores se dirigiam a um recorte específico de crianças e famílias, pois eram constituídos e influenciados pelos discursos médico/higienistas e jurídico/moralizantes da época, os quais desconsideravam as condições indignas vividas pelas famílias e as culpabilizavam pelo caos social. A pobreza era associada à instauração de violência e à ociosidade como pré-disposição para a criminalidade, por exemplo. Assim sendo, essas normativas jurídicas reforçavam as desigualdades sociais advindas da época da colonização do Brasil, dirigindo-se às populações que ainda sofrem com sua dificuldade de inserção no mercado de trabalho e acesso aos direitos, após a abolição da escravidão.

Os tempos do Código de Menores é o das FEBENS, instituições de internação em massa de crianças e adolescentes em situação de pobreza. O afastamento da família era tido como uma oportunidade de “reset na personalidade” das crianças e adolescente, já que se julgava estar nela o problema. Dessa forma, há o afastamento do convívio familiar e comunitário e, a partir disso, inúmeras violações dos direitos dessas crianças, adolescentes e famílias.

Ainda há muito a fazer, aplicar, estudar e desenvolver. Mas, a evolução que foi conquistada é motivo de comemoração. Agora, o trabalho é no sentido de que suas premissas atinjam a concretude da prática profissional com crianças e adolescentes.

Doutrina da Proteção Integral

Durante a ditadura militar presente, as diversas revoluções sociais passam a se preocupar com pessoas que carecem de atenção diferenciada, como crianças e adolescentes, que sofrem mais com a violência do Estado nesse período. Com isso, há a promulgação da Constituição da República Federativa do Brasil, a qual a adotou a Doutrina da Proteção Integral e trouxe uma mudança efetiva, uma vez que crianças e os adolescentes foram colocados na posição de sujeitos de direitos, deixando de lado a doutrina de situação irregular.

A base da Doutrina da Proteção Integral foi definida pela Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança ao fazer referência a um “conjunto de direitos de natureza individual, difusa, coletiva, econômica, social e cultural, reconhecendo que criança e o adolescente são sujeitos de direitos e, considerando sua vulnerabilidade, necessitam de cuidados e proteção especiais” (MULLER, 2011, on-line).

Então, substituindo completamente o Código de Menores, o Estatuto da Criança e do Adolescente foi promulgado visando à proteção integral e defesa dos direitos das crianças e adolescentes do Brasil, embasado por conjuntos de instrumentos nacionais e internacionais.

Desafios

Apesar das arbitrariedades que ainda ocorrem em relação às crianças e adolescentes, fica nítido o salto evolutivo dado pela letra da lei que faz referência a esse público brasileiro. Esses sujeitos em fase peculiar de desenvolvimento, antes tratados como meros objetos de intervenção do Estado, passaram a ser vistos como indivíduos singulares e a ter um ordenamento especial que vise, de fato, à garantia de direitos inerentes a eles.

Ainda há muito a fazer, aplicar, estudar e desenvolver. Mas, a evolução que foi conquistada é motivo de comemoração. Agora, o trabalho é no sentido de que suas premissas atinjam a concretude da prática profissional com crianças e adolescentes.

 * Os termos “menor” e “desestruturadas” possuem carga estigmatizante e estão em desuso.

CRP-PR acompanha projeto de lei que prevê piso salarial para Psicologia

A conselheira Carolina Walger (CRP-08/11381) esteve em Brasília-DF na manhã da última quarta-feira (06) para acompanhar a votação do Projeto de Lei nº 1015/2015, que prevê a instituição de um piso salarial para Psicólogas(os). O projeto, que tramita na Câmara dos Deputados e atualmente está na Comissão de Tributação e Finanças, visa a estabelecer o salário de R$ 3.600,00 para Psicólogas(os).

Carolina Walger destacou a importância de o Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) acompanhar a tramitação do PL, uma vez que impacta diretamente a categoria. Com o adiamento da votação, o CRP-PR continuará acompanhando a tramitação do projeto.

Atendimentos a distância passam a ser regidos por nova resolução

Atendimentos psicológicos realizados por meios tecnológicos de comunicação a distância – como Skype, e-mail, sites, aplicativos, etc. – passam a ser regidos pela Resolução nº 11/2018 do Conselho Federal de Psicologia (CFP). O texto publicado em maio, que substitui a Resolução nº 11/2012, elimina a necessidade de cadastramento de um site junto ao CFP e delega à(ao) profissional a responsabilidade da prestar um atendimento adequado e de acordo com as normativas da profissão.

De acordo com a Comissão de Orientação e Fiscalização (COF), as principais alterações na prática da(o) profissional são:

“É importante frisar que a respectiva resolução respeitará a autonomia e reiterará a responsabilidade da(o) Psicóloga(o) em garantir um serviço de qualidade, fundamentado na ciência psicológica, respeitando os direitos do usuário e em conformidade com o Código de Ética e demais resoluções da Psicologia”, afirma a Presidente da COF, Psicóloga Ludiana Cardozo Rodrigues (CRP-08/01494).

A Resolução nº 11/2018 entrará em vigor em 10 de novembro, seis meses após publicação.

CRP-PR demonstra preocupação com ensino a distância na área de saúde

O Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) se une aos demais conselhos regionais da área de saúde do Estado e acompanha com preocupação o crescimento na abertura de vagas para a realização de cursos de graduação em saúde na modalidade a distância na maior parte da carga horária. Apesar de não ocorrer na Psicologia, essa já é a realidade de cursos como Serviço Social, com 150 mil vagas em EAD pelo país; Nutrição, com 80 mil vagas; e até Medicina Veterinária, que já tem 11 mil vagas de graduação na modalidade. No total, de acordo com levantamento do Conselho Federal de Farmácia (CFF), existiriam, em março deste ano, 616,5 mil vagas autorizadas em EAD na área de saúde, um aumento de 124% na comparação com dados de fevereiro de 2017.

O assunto também é visto com preocupação por parlamentares e foi debatido em audiência pública na Comissão de Seguridade Social e Família realizada na Câmera Federal no dia 15 de maio. Na Casa, a proibição do ensino a distância em cursos de saúde é tema de uma série de projetos de lei, sendo o principal o PL 5414/16. Em âmbito estadual, o assunto também já havia sido discutido na Assembleia Legislativa do Paraná no último dia 8, oportunidade que contou com a presença de representantes de diversos conselhos regionais, entre eles o CRP-PR.

Para a conselheira do CRP-PR e professora universitária Mari Angela Calderari Oliveira, o ensino totalmente a distância é inviável na área de saúde, sobretudo na Psicologia. “A graduação prepara o profissional justamente para atuar nos relacionamentos e comportamentos humanos e o contato é imprescindível para a formação. As disciplinas técnicas como a avaliação psicológica, estágios e disciplinas aplicadas também não têm possibilidade de realização com qualidade mínima nessa modalidade”, avalia. “Nosso posicionamento é de manutenção dos 20% da carga horária total que já estão previstos para o curso de Psicologia. A ampliação desse percentual pode prejudicar a qualidade de formação dos profissionais”, afirma.

Para o coordenador de curso de Psicologia e colaborador do CRP-PR, Milton Magnabosco, a(o) Psicóloga(o) é a(o) profissional que trabalha justamente as questões relacionadas às dificuldades de relacionamento, de vínculo, de avaliação, de dificuldades no aprendizado, e tantas outras possibilidades, enfim, mas sempre será um trabalho que envolve pessoas, uma ou mais, e a afetividade envolvida. “Falar de emoção, falar de encontro, falar de acolhimento, falar de calor humano sem a presença deste nos parece difícil. A Psicologia não é uma ciência que lida bem com o distanciamento. Aliás, as pessoas buscam este profissional por se sentirem cada vez mais distanciadas, sem quem as ouça, sem quem as acolha, sem afeto. Experimentar e viver isto na formação deste profissional é primordial, porque que não se pode admitir que um profissional da Psicologia seja emocionalmente ‘frio’. Frio basta o mundo”, complementa.

O tema está sendo também tratado nos Fóruns de Coordenadores de Curso de Psicologia, Professores de Ética, Responsáveis Técnicos de Serviços-Escola e Professores de Avaliação Psicológica, mantidos com o apoio do CRP-PR.

Estrutura adequada

Outra preocupação dos Conselhos Regionais é com a infraestrutura mínima requerida pelas resoluções e decretos em vigor. A coordenadora da Comissão de Educação do Conselho Regional de Farmácia do Paraná, Ester Dalla Costa, que representou os CRs na audiência pública realizada no Paraná, comenta que a estruturação dos cursos é um ponto que demanda análise. “Um relatório elaborado pelo Conselho de Enfermagem nos deu uma demonstração de que os polos de ensino, mesmo os que têm regimentos mais rígidos, estão desestruturados, sem pessoal qualificado e estruturas de laboratórios desconsideradas”, explicou.

Segundo ela, as estruturas físicas são obrigatórias para todos os cursos a distância semipresenciais. No entanto, a instalação de novos polos de EAD tem crescido consideravelmente. “Mais sob um viés econômico de mercado de educação, com a proposta de levar condição às pessoas que não têm acesso, porém sem a preocupação de qualificar os profissionais que neles atuam”, conta. Segundo Ester, um decreto de 2005 flexibiliza, por exemplo, a presença obrigatória de professores como responsáveis pelo conteúdo repassado aos alunos na educação a distância, listando para tal, por exemplo, a figura de tutores.

Outra questão é a própria vivência acadêmica, como pondera o professor Milton. “A vivência na graduação nos permite ver a dificuldade atual do aluno em trabalhar de forma cooperativa, no compartilhamento grupal, na produção de consenso e na aceitação do outro ou do diferente. Numa graduação EAD podemos supor que haveria uma tendência à maximização disto, que representa tudo o que não se quer neste profissional. Os cursos já têm uma carga de disciplinas mediadas a distância suficientes. O ser humano é social. A frieza e o distanciamento do contato humano são, justamente, fatores desencadeantes de muitos sofrimentos de que se queixam quem nos procura”, avalia.

Com informações das agências Câmara e Alep

XVI EPP e II CIPTF | Terapia Relacional Sistêmica e equilíbrio entre vida profissional e pessoal serão temas de atividades

O XVI Encontro Paranaense de Psicologia (EPP) e o II Congresso Internacional de Psicologia da Tríplice Fronteira (CIPTF) acontecerão entre os dias 22 e 25 de agosto deste ano na cidade de Foz do Iguaçu. Os eventos contam com uma programação diversificada sobre as teorias e práticas na Psicologia. Entre os temas a serem discutidos, a terapia de família e de casal estará presente em um minicurso e em uma oficina.

No minicurso “Terapia de família e de casal na Terapia Relacional Sistêmica”, a Psicóloga Solange Maria Rosset (CRP-08/00204) apresentará o histórico e a teoria da abordagem, além de trazer exemplos e as posturas específicas no atendimento clínico.

O tema será aprofundado na oficina vivencial “Famílias e casais – desafios para o terapeuta”. Os participantes serão convidados a pensar quais questões precisam ser trabalhadas em si mesmos para aprimorar suas práticas enquanto terapeutas. Solange explica que “quanto mais consciência eu tenho com as minhas questões de origem, mais hábil serei como terapeuta, e melhor enxergarei as aprendizagens necessárias de cada família ou casal em terapia”. Ela complementa que é importante combinar o trabalho pessoal com a bagagem técnica.

Na Terapia Relacional Sistêmica, os padrões de funcionamento acontecem em três pilares: consciência, aprendizagem e mudança. Segundo a Psicóloga, esse processo aplicado na terapia deve ser o mesmo realizado pelo próprio terapeuta com as suas questões. Para Solange, se há consciência, terapia, supervisão e formação da(o) profissional, mais preparado ele estará para atuar.

A Psicóloga afirma que, frente às novas configurações e situações familiares, as(os) terapeutas são colocadas(os) em cheque sobre os seus valores e seus próprios assuntos familiares. Por isso, ela enfatiza a necessidade de a(o) profissional se livrar de preconceitos e dificuldades pessoais com os temas de seus pacientes.

Palestra

Solange também apresentará uma palestra no dia 23 de agosto, aberta à comunidade, sobre o “Equilíbrio entre profissional, pessoal e familiar”. Ela irá propor uma reflexão sobre como é possível integrar essas áreas da vida, de maneira a encontrar um equilíbrio e aprimorar uma área a partir da outra.

XVI Encontro Paranaense de Psicologia (EPP) e o II Congresso Internacional de Psicologia da Tríplice Fronteira (CIPTF)

Quando: 22 a 25 de agosto

Local: Rafain Palace Hotel & Convention Center (Av. Olímpio Rafagnin, 2357, Parque Imperatriz, Foz do Iguaçu)

Canto da Sereia S/A: sequestro da subjetividade coloca trabalhadores 100% a serviço da produtividade

O CRP-PR deseja a todas(os) as(os) trabalhadoras(os) um feliz Dia do Trabalho. Em especial às(aos) Psicólogas(os), que contribuem para a construção de uma sociedade melhor!

Neste Dia do Trabalho, relembre uma entrevista publicada na Revista Contato em 2017! 

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Entre as empresas mais cobiçadas por jovens estão as gigantes da tecnologia, que oferecem benefícios como tempo livre para jogar videogame, áreas de descanso e brincadeiras, enfim, não controlam a jornada de trabalho como as organizações mais tradicionais. Longe de oferecerem liberdade, no entanto, o que estas empresas conseguiram foi atingir o mais alto grau de sequestro da subjetividade. “Estas empresas já possuem a alma do sujeito. Eles já estão tão identificados com a cultura organizacional que não é preciso controlar seu tempo”, explica José Henrique de Faria, economista e professor titular da Universidade Federal do Paraná.

Segundo Faria, o processo de sequestro da subjetividade é aquele em que o trabalhador passa a se identificar totalmente com a empresa, de modo a empregar mais que apenas a sua força de trabalho. “Sequestro da subjetividade é a forma mais sutil e desenvolvida de controle que as organizações utilizam sobre os seus trabalhadores e sobre o processo de trabalho. É uma forma planejada e executada através de programas na área de gestão de pessoas. Estes programas não se referem ao sequestro propriamente dito, mas fazem exatamente isso”.

A reportagem da Revista Contato conversou com José Henrique de Faria sobre o processo de sequestro da subjetividade e as relações de trabalho na atualidade. Faria, que possui doutorado em Administração pela Universidade de São Paulo e pós-doutorado pela Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, falou também sobre as consequências da terceirização para os trabalhadores e empresas e sobre o papel da Psicologia Organizacional e do Trabalho: “o Psicólogo teria que ter a condição de ser o analista crítico do próprio sistema em que o sujeito está inserido para ser capaz de fazer uma intervenção adequada”, opina. Confira abaixo a entrevista completa.

Contato: Como se desenvolve o processo de sequestro da subjetividade nas empresas?

José Henrique de Faria: Quando a pessoa estabelece um contrato de trabalho com qualquer tipo de organização, coloca no processo sua força de trabalho, que é a capacidade física e mental. Estas capacidades não se distinguem, ou seja, estão ao mesmo tempo no mesmo sujeito. Historicamente, as empresas procuram controlar o processo de trabalho tendo em vista a produtividade e os resultados. Assim, elas desenvolveram um controle físico do trabalho, como tempos de movimentos, cumprimento da jornada, uso de uniforme, etc. Com o desenvolvimento dos conhecimentos da Psicologia aplicados à administração, que não foram, na maioria dos casos, desenvolvidos para isso, o ataque à subjetividade foi se tornando cada vez mais frequente e desenvolvido.

A organização não interessa por controlar qualquer subjetividade, mas aqueles elementos que interferem direta ou indiretamente no processo de trabalho. Aí começam a aparecer os primeiros programas na área de recursos humanos, com discussões sobre meritocracia, comprometimento, liderança, etc. As empresas passam a investir cada vez nestes programas ao se darem conta de que o controle da subjetividade resulta em aumento da produtividade. Com isso se desencadeia todo um processo que eu chamo de controle da subjetividade.

Começam a se desenvolver, então, programas que não controlam apenas a subjetividade, como o conhecimento, os sentimentos e as relações sociais. A empresa quer mais, ela quer sequestrar! Ela quer tomar para si a subjetividade além do processo de trabalho. Ou seja, é o comprometimento, a identificação com o chamado DNA da empresa, a ideia da grande família organizacional.

Então o sequestro se concretiza quando o trabalhador dedica mais que apenas algumas horas de trabalho à empresa?

Sim, quando o controle da subjetividade do sujeito vai além da jornada. Então a pessoa sai da empresa e continua pensando no trabalho, usa o final de semana para trabalhar, trabalha no aeroporto, etc. Especialmente hoje, com o celular, tablet, computador, elas ficam o tempo todo ligadas na empresa. Isso é uma subjetividade sequestrada. A empresa pretende ter o monopólio da sedução. Ela quer o indivíduo na semana, mas também oferece programas de final de semana, como competições, atividades em que se pode levar a família, de modo que ela vai se apropriando do tempo livre.

Existem processos de engajamento de funcionários que não sequestrem a subjetividade?

Não, o sequestro da subjetividade do sujeito é inerente aos programas de engajamento.

Há como estar empregado em uma empresa e não ter a subjetividade sequestrada?

Sim. Claro que a subjetividade é naturalmente controlada no processo de trabalho, mas há pessoas que cumprem sua jornada, saem da empresa e só voltam no dia seguinte. O fato de a pessoa empregar a subjetividade no trabalho não significa que ela seja sequestrada. O sequestro se dá num nível em que há uma identificação do sujeito com a empresa. Quando ela consegue sequestrar, desenvolve-se a Síndrome de Estocolmo, que é a identificação do sequestrado com o sequestrador. O sequestrador passa a ser idolatrado e a pessoa não se percebe como sequestrada. Esta é a grande sutileza do sequestro. Mas, o trabalhador pode fugir deste sequestro.

Se o sequestro da subjetividade leva a uma identificação completa, as pessoas deixam de ter uma visão crítica?

Como toda a dialética, você tem um problema: ao mesmo tempo em que você controla a subjetividade, e isso resulta em aumento da produtividade, a empresa perde a capacidade de criatividade e crítica do sequestrado. O problema é que não há desenvolvimento sem crítica. Aí a empresa começa a criar programas de incentivo à crítica. Mas como ela quer manter as duas coisas ao mesmo tempo e isso não é possível, a crítica passa a ser disciplinada, com regras de não exposição e manutenção do anonimato, ou, então, tem-se apenas a crítica permitida, ou seja, aquela que é aceita. A crítica mais contundente é colocada de fora. E, se há um processo de crítica, a empresa vai naturalmente mandar o sujeito para a rua.

Então, como o trabalhador pode fugir do sequestro sem sair do sistema, ou seja, mantendo seu emprego?

A pessoa vai receber suas tarefas e cumprir da melhor maneira possível como resposta em função do salário que recebe. Ela pode muito bem viver sem ter identidade com a empresa. Não precisa vestir a camisa, amar a empresa, nem se dedicar para além da jornada de trabalho. Ela pode desenvolver um bom trabalho sem colocar o seu emocional. Ocorre que qualquer um de nós coloca energia emocional nas relações e local de trabalho. Isso é fundamental para não termos problemas de saúde física e emocional. O trabalho precisa te dar um grau de satisfação. O que o trabalhador deve fazer é conviver com isso tomando consciência de que ele não precisa ter uma relação amorosa com a empresa, até porque esta é uma relação platônica: você ama a empresa, mas a empresa não te ama. Isso demanda uma consciência crítica das pessoas.

Entregar somente o que trabalho exige sem se dedicar mais não pode causar prejuízos à carreira?

O que a empresa quer é que você dê resultados. Você pode dar o resultado sem necessariamente se entregar para ela. Você pode estar altamente identificado com a empresa, mas se não der resultados vai ser dispensado de qualquer forma.

Atualmente, as relações de trabalho estão em evidência devido a reformas como a que permite a ampla terceirização das atividades-fim da empresa. Como o senhor vê esta questão sob a ótica do sequestro da subjetividade?

A terceirização é uma agressão perversa aos direitos históricos dos trabalhadores. No atual momento em que o Brasil está, com alto número de desempregados, investe-se contra os direitos do trabalhador, pois isso trará uma redução nos custos de mão-de-obra. No entanto, ao não estabelecer vínculo, a empresa vai perder o envolvimento das pessoas com o trabalho. Ou seja, com os trabalhadores terceirizados não há sequestro da subjetividade, uma vez que eles não se envolvem com a empresa por muito tempo. O sequestro vai se operar nos cargos estratégicos, de gestão e liderança, que são responsáveis diretos pela produtividade e fazem a gestão dos terceirizados. Estes cargos não serão terceirizados, pois seria ruim para a empresa e o capitalismo não se tem mostrado estúpido para tomar decisões ruins. Serão terceirizados os trabalhadores de chão de fábrica, que fazem um trabalho que pode ser substituído por qualquer outra pessoa. Exatamente a parte mais fraca da sociedade.

Dentro das empresas, a Psicologia Organizacional e do Trabalho atua tanto em prol da organização como dos trabalhadores. Como o senhor vê esta relação do ponto de vista ético?

Eu vejo grande parte dos Psicólogos Organizacionais como operadores do sequestro. Poucos têm uma visão crítica do trabalho. E a ação do Psicólogo se concentra quase em uma relação clínica, embora seja organizacional. Ele olha o indivíduo como indivíduo, isolado da própria realidade. Claro que isso não é para todos os Psicólogos. Mas, em geral, eles são operadores. Havia uma frase que dizia que o pessoal da área do RH era o algodão entre cristais. Isso é falso. Eles são o próprio martelo do cristal. Porque eles estão de um lado: o da organização. Então eles são empregados para promover o controle e o sequestro da subjetividade. O que o Psicólogo mais crítico pode fazer? Na frente dele há um trabalhador com demandas, carências, necessidades, problemas… Atendê-lo não precisa ser sinônimo de manipular. Um exemplo [em que a Psicologia atuou do lado da empresa] foi um caso em que uma pessoa apresentava diversos sintomas de estresse e estava somatizando. A Psicóloga responsável entendia que ele era totalmente responsável por aquilo. Ela dizia: ‘você não se trata, você não se cuida’. Conversando com esta pessoa, que foi parar no hospital e acabou fazendo uma cirurgia de úlcera, ele disse: ‘estou estressado porque não consigo dar conta das metas, porque cada vez mais eles tiram gente da minha equipe e aumentam a minha meta. Eles não me dão condição, eu estou estressado, eu fico no trabalho porque senão não dou conta’. Só que isso não foi visto pela Psicóloga que estava tratando do caso. Ela só via aquele sujeito como se fosse uma pessoa que não tomava conta de si mesmo, não se cuidava, não fazia tratamento, dormia mal, etc. Então ela isolava o indivíduo de todas as condições que fizeram com que ele estivesse sofrendo. É como se o trabalho não gerasse o sofrimento e o sofrimento fosse uma responsabilidade do indivíduo. O Psicólogo teria que ter a condição de ser o analista crítico do próprio sistema em que o sujeito está inserido para ser capaz de fazer uma intervenção adequada. Mas, são raros aqueles que se posicionam criticamente em relação a esta função de reprodução do discurso da empresa. Eles próprios são sequestrados e operadores do sequestro. Não significa que o sequestrador seja um sujeito assumido. Ele faz isso porque reproduz aquela lógica da organização que ele assume para si. A maior parte das pessoas que a gente entrevista não tem consciência. Faz porque acha que isso é assim mesmo.

Para assistir

Para ler

O amor sem escalas, 2009, Drama/Comédia, 109 minutos, dirigido por Jason Reitman

O filme relata a história de um executivo (vivido por George Clooney) cuja função é demitir pessoas. Ele executa esta função com muita frieza e gosta do seu trabalho. Por isso, José Henrique de Faria indica este filme como um exemplo do sequestro da subjetividade operado nos executivos.

Poder, controle e gestão

José Henrique de Faria

Editora Juruá, 2017

Análise crítica das teorias e práticas organizacionais

Organização de José Henrique de Faria

Editora Atlas, 2007

Disponível para download aqui.

Como educar na era do “ctrl c ctrl v”?

Se você nasceu até o início dos anos 1990, provavelmente pediu para os seus pais comprarem uma enciclopédia Barsa, que continha “todos os conhecimentos do mundo”, segundo o imaginário infantil da época. Hoje em dia, esta aquisição é, em muitas famílias, desnecessária, já que qualquer resposta está a menos de 1 segundo de distância em sites de busca na internet. Mas, juntamente com tantos e tão diferentes conhecimentos disponíveis, utilizamos um recurso perigoso para a aprendizagem: o “ctrl c ctrl v”, ou copiar e colar.

Segundo o Psicólogo Nelson Fernandes Junior (CRP-08/07298), coordenador da Comissão de Psicologia Escolar e da Educação do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR), ao fazer trabalhos com uma montagem de vários conteúdos o aluno não reflete sobre o conhecimento que está estudando. “Quanto mais significados e conteúdos elencamos ao investigarmos uma temática, possivelmente iremos empreender a construção do conhecimento de forma mais ampla e coesa. No entanto, muitos conhecimentos são obrigatórios para que, de posse deles, o profissional extrapole o senso comum e caminhe na cientificidade da formação. Mesmo que interpretados como menos significativos, eventualmente”, afirma o Psicólogo.

Então, a preocupação que chega às escolas nesta era ultratecnológica é da memorização mecânica em detrimento da compreensiva. “Existe um imediatismo para realizar as tarefas, o que não favorece a reflexão. A Psicologia Escolar, entre outras funções, deve propiciar a tomada de consciência de que este problema está acontecendo”, explica. Algumas ações que podem auxiliar são reuniões e treinamentos com pais e professores, além de dinâmicas com os alunos que os auxiliem a ter mais atenção. “É preciso parar um tempo em sala de aula para pensar sobre estas questões, ou então o processo de ensino e aprendizagem corre risco de não ser efetivo”, diz.

Formação da(o) Psicóloga(o): da abordagem à reflexão

Você estuda todos os autores importantes da Psicologia e já sabe de cor as teorias de cada abordagem. Mas, na hora de atender o paciente ou realizar outra tarefa prática, é preciso refletir sobre estes conhecimentos. “Cada indivíduo é único. É preciso utilizar todo o arcabouço teórico da Psicologia para formular um projeto terapêutico individual, e isso só é possível com capacidade de reflexão”, analisa Nelson, que também é professor em um curso de Psicologia.

Se não há como lecionar sem considerar o uso das tecnologias – que, afinal, possuem um lado positivo – uma estratégia que pode ser adotada pelos docentes é pedir para que os alunos utilizem vários textos e construam uma reflexão própria baseada neles. “Precisamos formar Psicólogas e Psicólogos capazes de contribuir com a sociedade de maneira única, a partir de todo um histórico de teorias, construindo novos conhecimentos e colaborando para o fortalecimento de uma Psicologia contemporânea, que auxilia a sociedade em suas demandas atuais.”

Londrina recebe reunião plenária aberta no dia 05 de maio

A cidade de Londrina receberá, no dia 05 de maio, a reunião plenária, que reúne conselheiras(os), colaboradoras(es), representantes setoriais e demais profissionais para debater questões importantes que impactam no desenvolvimento da Psicologia como ciência e profissão.

Em 2017, o Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) esteve mais perto das(os) Psicólogas(os) de fora da capital do Estado como parte das ações previstas no Planejamento Estratégico para promover a aproximação com a categoria. Isso porque, devido à realização de reuniões plenárias em cidades do interior, onde há Subsedes, houve um crescimento de quase 40% na taxa de participação da categoria nestas instâncias de debate e decisão.

Além das plenárias, profissionais do interior contam com eventos em diversas áreas e podem contribuir com o planejamento participativo, que percorre diversas regiões do Estado até setembro (clique aqui para ver a agenda).

Serviço

Data: 05 de maio de 2018

Horário: 9h às 18h

Local: Hotel Crystal Londrina (Rua Quintino Bocaiúva, 15, Centro)

No Dia do Indígena, especialistas destacam importância do território na saúde mental desta população

Segundo o Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), quase 900 mil pessoas se declaram indígenas no país. A população é composta por 305 etnias diferentes que falam 274 línguas diferentes. Estes povos são vítimas históricas da perda de território, e em 2018 a situação ainda é preocupante. Ainda que a posse permanente das Terras Indígenas seja garantida pela Constituição Brasileira de 1988, existem iniciativas parlamentares que pretendem reverter os direitos já previstos.

Um exemplo é o Parecer 001/17 da Advocacia-Geral da União, adotado pelo presidente Michel Temer no ano passado, o qual restringe as demarcações de terras indígenas e impõe o chamado “marco temporal”, que estabelece o direito apenas para terras que eram ocupadas a partir de 5 de outubro de 1988, dia da promulgação da Constituição Federal. A decisão provocou a manifestação contrária de diversos setores da sociedade por desconsiderar as violências e expulsões das comunidades indígenas de seus territórios anteriores à data.

Para o doutorando em Antropologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador de territórios e movimentos sociais, Gustavo Belisário, a demarcação de terras é uma política de reparação insuficiente se comparada à história de massacre desses povos pelo colonialismo. Mesmo pequena, a política ainda sofre ameaças: “as terras indígenas já demarcadas são ameaçadas pelos interesses de latifundiários ou grandes mineradoras. No Mato Grosso do Sul, por exemplo, existem mineradoras que fazem a extração dentro de reservas indígenas, destruindo não só a mata, como as casas dos indígenas que moram na região. Também temos exemplos de latifundiários que desrespeitam as terras já demarcadas em todo o país”, explica Gustavo.

Importância do território

Na cultura das populações tradicionais, a terra não pertence ao indígena; ele pertence à terra. Gustavo supõe que é por essa razão que o desmatamento é menor em comunidades tradicionais, já que nelas se entende a natureza como parte do ser humano, e não como algo externo que deve ser explorado.

Maria Angelita Djapoterama da Silva, educadora social e mestre em Cultura da Infância Xetá que atua com o povo Xetá há quase oito anos, comenta que essa concepção de território é difícil de ser compreendida por nós, porque estamos sob um “apelo mercadológico que insiste em avaliar o mundo e suas realidades do ponto de vista comercial e amoral, sem atinar que essa postura nos conduz à destruição dos afetos e sentimentos de pertença, e à derrocada de um multissistema [dos indígenas] que podemos definir como ecológico, humano e espiritual, identitário”.

Psicologia

São poucas as pesquisas que se debruçam sobre o tema da saúde mental dos povos tradicionais. Segundo o artigo “Saúde mental em contextos indígenas: Escassez de pesquisas brasileiras, invisibilidade das diferenças”, de Marianna Queiróz Batista e Valeska Zanello, entre 1999 e 2012 foram produzidos 14 artigos sobre a temática, sendo que oito são pluridisciplinares e seis têm o recorte da Psicologia. Diante desta baixa produção acadêmica, as autoras destacam a importância da “criação de políticas públicas de incentivo, para que seja possível não apenas o estudo de campo sobre e com os povos específicos que vivem no Brasil, mas também que haja um impacto do reconhecimento destas diversidades no arcabouço epistemológico que possuímos para pensar a saúde mental”.

Aliada à falta de estudos na área, existem desafios a serem enfrentados pela Psicologia em relação aos povos indígenas, de acordo com a pesquisa de Isabella Tormena Ferraz e Eliane Domingues, da Universidade Estadual de Maringá. Um deles é o desconhecimento destas populações sobre as possibilidades do trabalho das(os) Psicólogas(os). Além disso, segundo o artigo “A Psicologia Brasileira e os Povos Indígenas: Atualização do Estado da Arte”, existe uma dificuldade de muitas(os) Psicólogas(os) em trabalhar com grupos com “traços culturais diferentes dos seus, a infraestrutura deficitária, a linguagem diferenciada, enfoques epistemológicos distintos, além da falta de articulação entre as instâncias governamentais que promovem as políticas públicas”.

História

Em 1940, no México, foi realizado o Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, com a participação de autoridades governamentais para discutir políticas que garantissem os direitos dos povos indígenas. Representantes destas comunidades foram convidados para participar do evento, mas não compareceram aos primeiros dias, receosos e desconfiados com a situação, já que estavam acostumados com um histórico de perseguição e extermínio dos colonizadores europeus. Após alguns dias, os líderes decidem comparecer à reunião pela relevância do debate.

Foi estabelecido, como resultado do Congresso, o dia 19 de abril como o Dia do Indígena, dedicado ao estudo das questões indígenas pelos países americanos. No Brasil, o dia foi decretado por Getúlio Vargas em 1943.

Neste Dia do Indígena, o Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) reforça a importância de preservar a cultura e a identidade dos povos indígenas brasileiros, assim como assegurar os direitos dessa população, principalmente em um período de retrocessos nas políticas públicas.

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