O outubro rosa é uma das campanhas de conscientização mais bem sucedidas da atualidade. Todo ano, as mais diversas esferas da sociedade civil e da administração pública se unem pela prevenção e tratamento do câncer de mama – a maior causa de morte por câncer em mulheres, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA) – e do colo do útero.
Esta união gera anualmente diversos frutos, seja na forma de investimentos ou da maior conscientização da sociedade sobre o tema. Em 2025, por exemplo, o Governo Federal anunciou medidas que ampliam o acesso a mamografias para mulheres com idades entre 40 e 49 anos e 69 e 74 anos na rede pública de saúde (SUS), além de projetos como unidades móveis de diagnóstico e o investimento de R$ 120 milhões em kits de biópsia.
Nesta campanha, contudo, nem todas as populações são contempladas de forma equitativa. Pessoas neurodivergentes, por exemplo, assim como pessoas trans e negras, costumam encontrar barreiras adicionais na busca por prevenção e tratamento.
Nesta reportagem, conheça os principais aspectos a que devemos prestar atenção para garantir que a saúde seja um direito de todas as pessoas.
Neurodivergências: o capacitismo que leva a preconceitos e negligências
Pessoas com os chamados transtornos do neurodesenvolvimento, classificação que engloba indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e síndrome de Down, além de outras condições, muitas vezes acabam sofrendo um processo de exclusão que é baseado no não reconhecimento de suas autonomias, identidades, desejos e características.
No contexto do tratamento para câncer de mama, isso implica uma série de violências e negligências médicas que podem acabar afetando não só processos como o diagnóstico e o tratamento precoces, mas até mesmo a sobrevivência e autoestima desses pacientes.
O artigo “Intellectual or developmental disabilities and curative female breast cancer treatment: A population-based retrospective cohort study”, publicado em 2025 por pesquisadores da Queen’s University do Canadá, expõe que, mesmo em casos nos quais o diagnóstico já foi feito, há uma série de procedimentos que destoam dos empregados usualmente. Um exemplo é a cirurgia de remoção de tumores em estágios iniciais com a preservação da mama, tratamento preferencial para muitos casos, mas que com frequência é negado a mulheres neurodivergentes devido a uma percepção equivocada de que estas pessoas não possuem noções de gênero e sexualidade bem desenvolvidas.
Além disso, a mamografia, um dos métodos mais comuns para o diagnóstico de câncer de mama, pode ser de difícil tolerância para uma mulher no espectro autista: o barulho das máquinas, a compressão das mamas, a imobilização – fatores que já podem ser estressantes para mulheres neurotípicas – se tornam mais violentos nesse contexto. A comunicação de sintomas em estágios iniciais também pode ser prejudicada se fatores como o desenvolvimento da comunicação não forem corretamente acompanhados.
A conselheira do CRP-PR, psicóloga clínica e autista Lara Helena de Souza Frasson (CRP-08/33121) explica que o capacitismo estrutural leva profissionais da saúde, por vezes, a acreditarem que a mulher autista é “uma mulher assexuada, infantilizada, que não tem a capacidade para autonomia em suas decisões”, o que pode impedi-las de ter acesso ao tratamento adequado.
“É o mesmo capacitismo que faz não respeitarem ou tratarem com desprezo [as mulheres autistas]. Essa suposição em cima do que se espera da mulher autista vai limitar a participação e o engajamento dessa mulher no próprio cuidado, no próprio tratamento, e há uma tendência de fugir desses ambientes, dessas situações, fazendo com que muitas vezes ela sequer vá ao médico”, explica.
Quando o racismo dificulta o diagnóstico de mulheres negras
O racismo estrutural, que persiste na sociedade ocidental após séculos de exploração e desigualdades que afetam as populações negras, também se reflete no acesso à saúde da mulher.
Dados de um estudo científico publicado na revista Internacional Breast Cancer Research and Treatment revelam que a taxa de mortalidade por câncer de mama é três vezes maior entre mulheres pretas em comparação a mulheres brancas. As pacientes negras representam 47% dos diagnósticos de câncer em estágio avançado no Brasil, enquanto apenas 24% das mamografias são realizadas neste recorte da população.
No Sistema Único de Saúde (SUS) – no qual 70% das usuárias são negras –, somente 34% dos casos são diagnosticados via rastreamento, sendo o restante das identificações realizadas por meio de sintomas, quando a doença, em geral, já se encontra em estado mais avançado.
O racismo institucional também atravessa as práticas médicas. Mulheres negras são menos propensas a receber quimioterapia neoadjuvante, de acordo com dados compilados pelo Grupo Brasileiro de Estudos do Câncer de Mama (GBECAM), e a atingir resposta patológica completa – mesmo quando comparada a outras pacientes em estágios semelhantes. Elas também são menos convidadas a participar de ensaios clínicos (embora participem em números semelhantes quando há o convite).
A conselheira do CRP-PR, mentora de carreira e mulher negra, psicóloga clínica Érika Ribeiro da Silva (CRP-08/28557), explica que o corpo da mulher negra é, historicamente, desumanizado, em um imaginário social que a coloca como “mais resistente” e com “menos necessidade de cuidado”. “Isso afeta desde a forma como ela é inserida nessas campanhas e tratada pela mídia até como ela recebe o cuidado. O tratamento destinado a essa mulher, que tem menos credibilidade na sua queixa, na sua dor, é mais precário, mais moroso”, comenta a profissional.
Além disso, as condições de vida enfrentadas pela maior parte das mulheres negras, com menores níveis gerais de renda, condições sanitárias e de alimentação menos adequadas, maior exposição a violência, desemprego e outros fatores estressores, também afetam a saúde física e mental.
“Por ela estar em um lugar periférico, dependente do sistema público, que já é sobrecarregado, as chances de receber uma cirurgia reparadora, por exemplo, são menores. Além disso, por ela ser normalmente a principal fonte de renda e cuidado da família, é mais difícil ter tempo para se cuidar”, finaliza a conselheira Érika.
A transfobia que invisibiliza pacientes
As pessoas trans, ou seja, que não se identificam com o gênero de nascimento ou com o sistema binário de gênero, representam aproximadamente 2% da população adulta no Brasil, de acordo com estudo da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e sofrem com a invisibilização em campanhas e no acesso ao cuidado em saúde.
Ainda que o câncer de mama possa afetar, em número muito reduzido, até mesmo homens cis (os termos “homem cis” ou “mulher cis” indicam pessoas que se identificam com o gênero atribuído no nascimento), a sociedade ainda desconsidera, muitas vezes, que a população trans possa ser afetada pelo câncer de mama. Isso faz com que o acesso a políticas públicas de prevenção e à informação seja prejudicado.
Como explica o psicólogo clínico e educacional Serafim Lissa Koga (CRP-08/37362), associar o câncer de mama apenas a mulheres cis invisibiliza mulheres e homens trans, bem como pessoas não binárias, reduzindo a busca por informação e prejudicando o rastreio, diagnóstico e a qualidade do acesso à saúde.
“A transfobia institucional afeta e muito [o acesso à saúde], aparece em cada momento em que as regras de cada serviço continuam a ignorar a existência de pessoas trans. Um exemplo é exigir o ‘sexo feminino’ no sistema para liberar mamografia ou insistir em um discurso cisnormativo de que no Outubro Rosa, porque existe todo uma conjunto de ideais que insistem que rosa é feminino, só importa falar de câncer de mama em mulheres cis”, explica Serafim.
Ele complementa que o CIS-tema (termo que indica um sistema que privilegia pessoas cisgênero) marginaliza e vulnerabiliza as pessoas trans em diversas esferas. “Não há fluxos para hormonioterapia e rastreio oncológico, ou quando o uso de nome social e pronomes adequados não é garantido como direito. O resultado é abandono do cuidado, atraso no diagnóstico e piora prognóstica, com mais um campo em que a saúde de pessoas trans permanece vulnerabilizada.”
Uma campanha por todas as pessoas
Neste contexto, o Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) reafirma seu apoio ao Outubro Rosa, lembrando da importância do cuidado – físico e psicológico – ser ofertado de forma igualitária a todos os corpos e identidades de gênero.
A saúde física e mental de todas as pessoas devem ser tratadas como partes indissociáveis, o que exige a conscientização de profissionais da saúde e a formulação de políticas públicas de valorização dos serviços e equipes.
O psicólogo Serafim comenta que o suporte psicológico frequentemente está condicionado a encaminhamentos informais e à sensibilidade individual de profissionais que prestam os atendimentos, algo que se “agrava quando a equipe de saúde mental não é capacitada em questões básicas de diversidade de gênero, o que pode reproduzir microviolências”. “É importante frisar a necessidade de integrar saúde mental ao cuidado oncológico trans-inclusivo desde o início e em todas as suas etapas”, explica.
A necessidade de uma integração já no processo de formação de profissionais de saúde também é uma demanda trazida pela psicóloga Erika. “A gente precisa de formação antirracista, não só saber que o racismo existe, mas preparar esses profissionais para acolher a população preta de uma forma qualificada. Esses profissionais precisam entender que o racismo impacta a vida, a saúde [física] e a saúde mental de uma mulher preta e da população negra em geral. Fazer uma escuta realmente adequada é essencial”, declara.