Psicólogas(os) debatem em evento a atuação da Psicologia na segurança pública e em emergências e desastres

Atuar em corporações de polícia e bombeiros ou em outros ambientes militares pode gerar estresse elevado ou mesmo depressão e ideações suicidas. Para garantir qualidade de vida para estes(as) profissionais, a Psicologia exerce um importante papel, nem sempre conhecido da sociedade ou mesmo das gestões dos serviços. “No começo, ninguém sabia a nossa função, parecia que estávamos chegando em uma nave espacial”, conta Fernando Carvalho Derenusson (CRP-05/25378), que atua na Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, acrescentando que a atuação contava com poucos recursos e muitos desafios.

 

Ele foi um dos palestrantes convidados para o evento “Psicologia e Segurança Pública”, que aconteceu no último dia 25 de maio na Sede do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR), em Curitiba, e destacou a pressão social que militares sofrem por uma atuação sem falhas, o que, entre outros fatores, leva a um alto número de afastamentos: “Os dados apontam que 46% dos afastados tinham menos de cinco anos de serviço. São meninos de 18 anos aprendendo a resistir a tudo”.

 

Além de Fernando, outros palestrantes destacaram estas exigências, muitas vezes permeada pelo machismo institucional. A ideia de que “homem não chora, policial muito menos” foi trazida pela Psicóloga Daniele Amar Buttner (CRP-05/18720), da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro. As consequências, segundo ela, são mais de 300 policiais afastados da corporação e sofrimentos mentais que extrapolam o trabalho. O caminho, segundo Fernando e Daniele, passa pela prevenção: é preciso que a instituição olhe para o(a) trabalhador(a) e conheça seus limites.

 

Situação parecida foi relatada pela Psicóloga Franciane Alves de Siqueira (CRP-08/20829), do Corpo de Bombeiros Militar do Paraná, ao relatar um caso de suicídio ocorrido dentro da corporação. “Precisamos abrir os olhos para o sofrimento humano. Não é frescura. Não é imaginado. Conscientizar as instituições para o sofrimento que destrói vidas e carreiras”, disse durante a mesa-redonda.

 

A Psicologia, de acordo com a profissional, ainda precisa ganhar espaço nestes contextos, uma vez que os bombeiros tendem a prescindir da ajuda por acreditarem que vão superar as situações sozinhos. Franciane defende que a Psicologia está preparada para escutar e apoiar, mas salienta: “Não existe receita para preparar um militar para situações adversas, pois cada ser humano tem uma resposta diferente”.

 

Sobre esta questão também falou o Psicólogo Olavo Sant’Anna Filho (CRP-06/05386), da Polícia Militar do Estado de São Paulo e Cruz Vermelha Brasileira, que abordou os impactos de desastres como o de Brumadinho sobre a saúde mental das pessoas. Segundo ele, diversas situações inerentes aos desastres mudam a forma como reagimos aos traumas, entre elas a iminência da morte, a exposição à dor, a perda de referências, a destruição de espaços vitais e sensação de desamparo e impotência.

 

Eliane Cristine Bezerra de Lima (CRP-05/26769), que já atuou pelo Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro em desastres como o recente desabamento de dois prédios no bairro da Muzema-RJ, em abril de 2019, falou sobre as principais características deste trabalho. Em situações altamente estressantes, já que bombeiros são preparados para salvar vidas e, nestes casos, muitas vezes resgatam corpos, a Psicologia tem o papel de acolhimento. “A atuação da Psicologia no desastre está além da escuta e da técnica; há linguagem corporal, facial. A relação é horizontal, todo mundo é humano. No desastre um cuida do outro”, resumiu.

 

Eliane de Lima e Eveline Fávero (CRP-08/22252), que falou na sequência e relatou suas experiências como Psicóloga Civil voluntária em emergências e desastres, destacaram a importância de seguir as orientações do Conselho Federal de Psicologia (CFP) – dispostas na “Nota Técnica sobre atuação da Psicologia na Gestão Integral de Riscos e de Desastres, relacionadas com a Política de Proteção e Defesa Civil” – e de fazer o registro documental dos atendimentos.

 

Eveline contribuiu também com alguns aprendizados de quando se voluntariou na tragédia da Boate Kiss, em 2013, e da queda do avião da Chapecoense, em 2016. “O acolhimento nessas ocasiões é muitas vezes feito mais por gestos do que por palavras”, contou ao mostrar a fotografia de uma Psicóloga caminhando com os braços sobre os ombros da mãe de um dos jogadores vitimados pelo acidente. Ela lembrou ainda que é importante definir estratégias de acordo com a singularidade de cada situação e que algumas coisas não podem ser feitas, como tirar e publicar selfies no local e dar declarações errôneas para a mídia.

Violência nas escolas

A Psicóloga Ionara Rabelo (CRP-09/1661), da Comissão de Psicologia na Gestão Integral de Riscos e de Desastres do Conselho Regional de Psicologia de Goiás, abordou um tema que tem mobilizado profissionais, especialmente por casos recentes: a violência nas escolas. Segundo ela, o ideal é que se realize um trabalho preventivo, em que a(o) Psicóloga(o) Escolar esteja inserida(o) no ambiente e conheça o contexto. “É preciso estimular a autonomia e a dignidade, de forma a prevenir atentados em escola, baseados nos princípios dos Direitos Humanos”, explanou. “Não é palestra que faz prevenção. São projetos colaborativos contínuos que dão conta de falar de automutilação, suicídio e violência. Palestra é placebo.”

 

Uma vez que um ataque acontece, Ionara destaca que a(o) Psicóloga(o) que se disponibiliza a auxiliar, especialmente as(os) que vêm do contexto clínico, precisam ter atenção para não individualizar o problema sem considerar o contexto e para não expor na mídia falas que culpabilizem, focando nas causas e não na complexidade do problema. “A atuação precisa ser no sentido de restabelecer e fortalecer os laços. A confiança e a proteção que a escola representava desabou”, explica.

 

Por fim, Ionara também destacou a importancia de fazer registros documentais de todo atendimento, de forma a possibilitar análises e estudos posteriores.

Avaliação psicológica no contexto da segurança pública

O evento contou com mesas-redondas para debater a questão da avaliação psicológica nos contextos de seleção e acompanhamento de profissionais militares. Sobre o tema, o delegado da Polícia Federal de Brasília-DF Andersson Pereira dos Santos, salientou a importância do processo de avaliação psicológica na seleção de pessoal, mas relatou as dificuldades que encontra em seu dia a dia, como a oferta de testes na internet e cursos preparatórios, o que reduz a capacidade de identificar a aptidão do candidato ao cargo.

 

Cassia Aparecida Rodrigues (CRP-08/12944), da Comissão de Avaliação Psicológica do CRP-PR em Curitiba, grupo responsável pela série Boas Práticas em Avaliação Psicológica da Revista Contato, frisou que Psicólogas(os) não podem compactuar com práticas antiéticas como estas e que é preciso ampliar ações políticas em torno destas temáticas, além de garantir a presença da(o) Psicóloga(o) na construção do edital para evitar equívocos. Ainda que valorize a importância dos testes psicológicos, a Psicóloga relembra que o processo é bastante amplo e, na área da segurança pública, é preciso olhar outras questões.

 

Os desafios desta área foram elencados também por Cristiane Faiad de Moura (CRP-01/08335), da Universidade de Brasília: a construção de documentos orientadores; a definição de requisitos psicológicos; a escolha de técnicas; o estabelecimento dos papéis da Justiça e da Psicologia; e os investimentos que precisam ser feitos na área. Ao final da fala, ela traz alguns caminhos que também passam pela atuação política mencionada por Cássia. Segundo a pesquisadora, um processo de avaliação contínua também é essencial para garantir a efetividade do trabalho, com investimentos em pesquisas e estudos de evidência de validade.

Pesquisas e eventos

A importância de se realizar pesquisas sobre a Psicologia no contexto da segurança pública foi salientada pelo Psicólogo Marcos Aguiar de Souza (CRP-05/19497), da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Segundo ele, existe uma discriminação muito grande nesta área, já que as pessoas a associam com o fomento ao autoritarismo, o que faz com existam poucos programas de pós-graduação na área.

 

Ele e a Psicóloga Maria Auxiliadora Salcedo Giolo (CRP-05/32502), da mesma universidade, falaram sobre seus recentes estudos e apresentaram aos participantes do evento alguns resultados obtidos junto a profissionais militares.

 

O proponente do evento, Psicólogo Adriano de Lemos Alves Peixoto (CRP-03/002222), da Universidade Federal da Bahia, avalia que a abertura do CRP-PR é fundamental para a ampliação dos debates nesta área, e concorda que há pouco espaço para o tema: “O fundamental é a abertura do Conselho Regional de Psicologia do Paraná para as múltiplas formas de Psicologia. É um tema importante e uma área que sofre um certo preconceito [a Psicologia na segurança pública], e a gente viu a importância do trabalho destas pessoas e como isso afeta o cotidiano”, avaliou ao final das mesas-redondas, que se estenderam por todo o sábado.