O Outubro Rosa é um mês de mobilização mundial em torno da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama, mas que, cada vez mais, também se consolida como um espaço de reflexão sobre o que significa, de fato, cuidar da saúde de forma integral. Por trás das campanhas, estão histórias de mulheres que enfrentam não apenas o tratamento médico, mas também os desafios emocionais, sociais e psicológicos que o diagnóstico de câncer pode trazer.
Para aprofundar esse debate, conversamos com Marina Pires Alves Machado Sfreddo (CRP-08/10216), psicóloga clínica, mestre em Psicologia pela UFPR, especialista em Psicodrama Terapêutico e especializanda em Psicologia Baseada em Evidências. A conselheira-secretária do CRP-PR é também sócia-fundadora da Clínica TBrain e do ISAH – Instituto de Saúde e Atendimento Humanizado, especializada em pacientes oncológicos.
Nesta entrevista exclusiva, Marina Sfreddo aborda a saúde sob uma perspectiva multidimensional, evidenciando como o Outubro Rosa é o momento ideal para destacar que o tratamento do câncer de mama não se restringe ao corpo físico, mas exige o acolhimento da dimensão emocional. A psicóloga detalha o papel crucial da Psico-Oncologia, ressaltando sua importância na humanização do tratamento, no manejo do impacto psicológico do diagnóstico e na melhoria da qualidade de vida das pacientes. Por fim, reforça que o cuidado integral se estende também à família, que necessita de suporte para atravessar essa jornada.
Confira, a seguir, as reflexões da conselheira-secretária Marina Pires Alves Machado Sfreddo sobre a interconexão vital entre corpo, mente e apoio familiar no enfrentamento do câncer de mama.
Como a campanha do Outubro Rosa se relaciona com a importância do cuidado com a saúde mental? Você avalia que este é um momento para falarmos de cuidado integral?
O Outubro Rosa é, sem dúvida, um momento fundamental para falarmos sobre o cuidado integral. Embora a campanha tenha nascido com o foco na prevenção e detecção precoce do câncer de mama, hoje compreendemos que o cuidado com essa doença vai muito além do aspecto físico. A saúde mental não é um elemento acessório no tratamento oncológico, ela é uma parte essencial do cuidado integral do paciente. Estudos científicos demonstram que o diagnóstico de câncer de mama causa um impacto psicológico importante, desencadeando experiências de surpresa, tensão, medo e ansiedade.
O câncer de mama incide sobre o principal símbolo corpóreo da feminilidade, da sensualidade, da sexualidade e da maternidade, comprometendo não somente a condição física da paciente, mas também sua saúde mental. Pesquisas recentes mostram que transtornos como ansiedade, depressão e estresse pós-traumático são muito frequentes em pacientes com câncer de mama. Além disso, há evidências de que a depressão e os transtornos de ansiedade estão relacionados a maior incidência, menor sobrevida e maior mortalidade por câncer.
Isso reforça a importância de abordarmos a saúde mental como parte indissociável do tratamento. Portanto, o Outubro Rosa é uma oportunidade valiosa para ampliarmos a conversa e conscientizarmos a população de que cuidar da saúde da mulher significa cuidar do corpo e da mente. O cuidado integral reconhece que cada paciente é um ser humano completo, com suas dimensões física, emocional, social e espiritual, e todas essas dimensões precisam ser acolhidas e tratadas.
Qual o papel de profissionais da Psicologia em tratamentos oncológicos e como esta categoria pode apoiar as pacientes? Qual a importância da área da Psico-Oncologia?
A Psico-Oncologia é uma área de interface entre a Psicologia e a Oncologia, voltada à exploração e ao cuidado das dimensões emocionais do câncer. Ela surgiu como um desdobramento da redução dos índices de mortalidade da maioria dos tipos de câncer, quando os avanços técnico-científicos tornaram os tratamentos mais resolutivos e a qualidade de vida dos pacientes passou a ser uma preocupação central.
O papel de profissionais que atuam na Psico-Oncologia é oferecer um espaço de escuta qualificada e de acolhimento, no qual a paciente possa expressar seus medos, angústias e dúvidas sem julgamentos. É um lugar seguro para que ela possa se sentir vulnerável e, ao mesmo tempo, encontrar forças para seguir em frente. Profissionais da Psico-Oncologia podem auxiliar a paciente a:
– Lidar com o impacto emocional do diagnóstico: ajudando a compreender e a processar as emoções que surgem nesse momento tão delicado.
– Enfrentar o tratamento com mais serenidade: oferecendo suporte para lidar com os efeitos colaterais, como queda de cabelo, fadiga, alterações na imagem corporal e na sexualidade.
– Melhorar a comunicação: auxiliando a paciente a expressar suas necessidades à família e à equipe de saúde.
– Resgatar a autoestima e a qualidade de vida: ajudando a mulher a se reconectar consigo mesma, a redescobrir seus valores e a encontrar novas formas de viver com mais qualidade.
A literatura científica demonstra que pacientes que passam por acompanhamento psicológico durante o tratamento do câncer de mama obtêm ganhos significativos. Intervenções psicológicas, especialmente as realizadas em grupo, são eficazes na promoção da adaptação à doença, na redução de estresse, no incremento da qualidade de vida e na melhora do humor. Os grupos de apoio, por exemplo, ajudam a amenizar manifestações de ansiedade, depressão, raiva e hostilidade, além de potencializar o enfrentamento do medo da recidiva.
A psicoterapia auxilia as pacientes a identificarem e modificarem padrões de pensamento disfuncionais, desenvolvendo estratégias de enfrentamento mais adaptativas. A importância da Psico-Oncologia está, portanto, em humanizar o tratamento, em reconhecer que o câncer não afeta apenas o corpo, mas toda a existência da pessoa, e em oferecer ferramentas para que ela atravesse essa jornada com mais equilíbrio emocional e esperança.
É importante que os familiares dessas pacientes também estejam envolvidos no tratamento, prestando atenção aos cuidados com a sua própria saúde mental?
Sim, é absolutamente fundamental que os familiares estejam envolvidos no tratamento e que também cuidem de sua própria saúde mental. O câncer não é uma doença que afeta apenas a paciente: ele impacta toda a família. Estudos mostram que mais de 70% dos cuidadores familiares experimentam efeitos psicológicos severos nos seis meses seguintes ao diagnóstico de câncer de mama de um ente querido. Os familiares, especialmente os cuidadores principais, frequentemente vivenciam ansiedade, depressão, fadiga, sentimentos de impotência e sobrecarga emocional. Eles assumem múltiplos papéis: precisam dar suporte emocional à paciente, lidar com suas próprias emoções, reorganizar a rotina familiar, muitas vezes conciliar trabalho e cuidados, e ainda enfrentar incertezas sobre o futuro.
Essa sobrecarga pode levar ao que chamamos de “sobrecarga do cuidador”, que afeta tanto a saúde mental quanto a física. Pesquisas longitudinais demonstram que os cuidadores podem apresentar níveis de ansiedade e depressão tão elevados quanto os das próprias pacientes, e que esse sofrimento psicológico pode persistir ao longo de todo o tratamento. Por isso, é essencial que os familiares também recebam apoio psicológico.
A comunicação aberta, o apoio mútuo e a presença constante são fundamentais para que o tratamento seja conduzido com uma base emocional mais sólida. Quando a família está emocionalmente amparada, ela consegue oferecer um suporte mais efetivo à paciente, criando um ambiente de cuidado e acolhimento que favorece a recuperação. Orienta-se os familiares a:
– Buscar apoio psicológico: seja individual ou em grupos de apoio para familiares.
– Cuidar de si mesmos: manter hábitos saudáveis, respeitar seus limites e reservar momentos de autocuidado.
– Comunicar-se abertamente: expressar seus sentimentos e necessidades, tanto com a paciente quanto com outros membros da família.
– Compartilhar responsabilidades: evitar que o cuidado recaia sobre uma única pessoa, distribuindo tarefas entre a rede de apoio.
O cuidado integral, portanto, estende-se à família. Quando todos estão emocionalmente saudáveis, a jornada se torna mais leve e o enfrentamento da doença, mais efetivo.
Referências científicas citadas
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