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Outubro rosa e o câncer de mama: precisamos falar sobre isso!

Por psic. Vanessa Kowalek (CRP-08/33222) e psic. Natália Cesar de Brito (CRP-08/17325), da Comissão de Mulheres do CRP-PR

Descrição da imagem: lê-se Outubro Rosa (letra rosa escuro sobre fundo rosa claro). O laço e flores complementam a imagem. Logo do CRP-PR.

Todos os anos, o Outubro Rosa faz alusão à campanha contra o câncer de mama, que afeta principalmente mulheres em idade fértil, mas também pessoas com outras identidades de gênero, como mulheres e homens trans e pessoas não binárias, de acordo com a Sociedade Brasileira de Mastologia. No entanto, é alarmante a quantidade de casos graves que poderiam ter sido descobertos precocemente, se não fossem tantas barreiras sociais, raciais e financeiras que dificultam o acesso destas pessoas ao sistema de saúde, para que pudessem, de fato, se cuidar. 

Começamos pelas questões sociais envolvidas. Mulheres são desencorajadas, ao longo de toda sua história, a tocar seus corpos, por diferentes motivos (alguns religiosos, outros por vergonha, ou simplesmente porque foram ensinadas que “tocar o próprio corpo é feio”). O fato é que muitos casos poderiam ser evitados ou serem de mais fácil intervenção caso fossem descobertos antes. É necessário derrubar o tabu que existe, para que as mulheres tenham mais qualidade de vida e mais chances de uma vida melhor. 

Em um estudo conduzido por Graziele Marques Rodrigues (et al, 2021), verifica-se que questões raciais também impactam o acesso aos cuidados de saúde da mulher. Aqui, adentramos as desigualdades sociais que se perpetuam por séculos na sociedade brasileira e que acarretam problemas como: dificuldade de acesso aos centros de detecção e tratamento de doenças, racismo estrutural que essas mulheres sofrem ao buscar atendimento em centros de saúde, necessidade de trabalhar para garantir a subsistência da família (e, nisso, o autocuidado fica em segundo plano), baixo acesso às informações (nem sempre as campanhas alcançam o público que mora na periferia ou locais afastados dos centros urbanos), entre outras questões. 

Como consequência, esse estudo revelou que mulheres negras apresentam 63% mais de chances de serem diagnosticadas com câncer no estágio II ou III, em comparação com mulheres brancas (Rodrigues; et al, 2021). Sabe-se da importância da detecção precoce, o que aumenta as chances de cura no tratamento. Diante disso, levanta-se essa questão: por que mulheres negras não têm direito de acesso a esse diagnóstico precoce? 

Além disso, pessoas trans e não binárias podem sofrer com outra camada de preconceitos, bem como escassez de dados científicos e profissionais com capacitação nos serviços de saúde, que, muitas vezes associados aos fatores de vulnerabilização que afetam mulheres cis, as impedem de acessar exames preventivos e tratamentos adequados. 

A resposta pode estar nos serviços de saúde e nas políticas públicas da área. O SUS (Sistema Único de Saúde) garante acesso universal e integral, buscando a equidade: tratar diferente os desiguais, investindo onde a carência é maior para diminuir as desigualdades (Brasil, 2023). Contudo, vemos na prática que a realidade é outra: há carência de investimentos em equipamentos, na disponibilidade de profissionais para atender a essas demandas, falta ou precariedade nas estruturas utilizadas para o atendimento, desvios de recursos públicos que seriam aplicados na área da saúde e até mesmo negligência dos governos para a formulação de políticas públicas próprias. 

Embora enfrente desafios, o SUS precisa ser defendido e valorizado, enquanto as dificuldades devem ser reconhecidas e combatidas, não só em nível estatal, mas com a participação da população civil, em espaços como as Conferências de Saúde e Conselhos Municipais. Assim, os seus princípios poderão ser assegurados e mais vidas salvas, sobretudo destas mulheres que adoecem e não são assistidas. 

Considerando os dados do Observatório de Oncologia, o tempo médio entre a primeira consulta no SUS e o fechamento do diagnóstico é de 37 dias. Contudo, verifica-se que as cidades do Sudeste e do Sul do Brasil possuem um tempo menor, enquanto pacientes dos Estados de Sergipe e Amazonas levam em média 85 dias para esse processo diagnóstico ser concluído. Da mesma forma, enquanto a média brasileira sobre o início do tratamento é de 174 dias, nos Estados citados o tratamento se inicia após 250 dias (Almeida, 2023). Portanto, é necessário discutir sobre essas discrepâncias e avançar onde apresentam-se fragilidades. 

E qual é o papel da Psicologia nesse contexto? 

Atuamos nos níveis de promoção e prevenção em saúde, tratamento e reabilitação. Diretamente com as pessoas acometidas pelo câncer de mama, trabalhamos para reduzir os sofrimentos causados durante o tratamento e auxiliamos a ressignificar a experiência de ter essa doença. De forma multidisciplinar, articulamos ações para proporcionar bem-estar e qualidade de vida, além de garantir que as pacientes tenham acesso a um tratamento digno e respeitoso, estendendo esse acolhimento aos seus familiares (Pio; Andrade, 2020). 

Outra forma de atuação de suma importância é na prevenção. Podemos fazer isso por meio da oferta de informações e orientações adequadas para essas pessoas: incentivar nossas pacientes, clientes e consulentes a buscar as Unidades de Saúde para que realizem seus exames preventivos (inclusive, nós mesmas buscarmos esses espaços para atualizar nossos exames), acolher e validar a experiência das mulheres com relação ao câncer, seus medos, dificuldades de acesso e outras inquietações. 

Diante disso, é importante considerar o Outubro Rosa para além de ser (mais) uma campanha de “mês colorido”, com um viés comercial, uma “trend” de que todos estão participando. Enquanto Psicologia comprometida com a defesa dos Direitos Humanos, com a saúde integral das pessoas e com o desenvolvimento da sociedade, precisamos adotar uma postura crítica e reflexiva, prestando atenção ao adoecimento físico, psicológico e, também, aos determinantes sociais que se tornam fator de risco para essas mulheres e contribuem para a taxa de mortalidade em decorrência do câncer de mama. 

Referências 

ALMEIDA, A. Panorama da atenção ao Câncer de Mama no SUS. Observatório de Oncologia, estudos, 2023. Disponível em: < https://observatoriodeoncologia.com.br/panorama-da-atencao-ao-cancer-de-mama-no-sus2/>. Acesso em 05 out. 2023. 

BRASIL, Ministério da Saúde. Sistema Único de Saúde. Disponível em: < https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/sus>. Acesso em 05 de out. 2023. 

PIO, E. S. S.; ANDRADE, M. C. M.; Psico-oncologia: a atuação do Psicólogo junto aos familiares e ao paciente oncológico. In: v. 11 n. 1 (2020): Revista Mosaico v11 n1. RODRIGUES, G. M.; et al; Desigualdades raciais no estadiamento clínico avançado em mulheres com câncer de mama atendidas em um hospital de referência no Rio de Janeiro, Brasil. In: Saúde Soc. São Paulo, v.30, n.3, e200813, 2021. 

CARVALHO, M. S; et. al. Desafios do rastreio do câncer de mama em pessoas transgêneros. Research, Society and Development, v. 10, n. 9, 2021. Disponível em https://rsdjournal.org/index.php/rsd/article/download/17772/15960/224712. Acesso em 06 de out. 2023.

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