Notícia

Orientações às(aos) gestoras(es) sobre as especificidades da atuação da Psicologia Hospitalar no contexto da Covid-19

Desde março de 2020 o Brasil tem vivenciado os impactos da pandemia da Covid-19, fato este que exigiu adaptações no dia a dia da população, bem como na organização e estruturação dos serviços de saúde em todo território brasileiro. Diante do aumento do número de casos e a possibilidade de sobrecarga do sistema de saúde, as instituições hospitalares têm elaborado planos de contingência para enfrentar o aumento da demanda por internações de média e alta complexidade. Neste contexto, é inegável que, além do aporte estrutural e tecnológico, o enfrentamento da crise requer profissionais de saúde qualificadas(os) e disponíveis para a assistência integral aos pacientes e seus familiares. Compreende-se ainda que os impactos do novo coronavírus vão além da saúde física, afetando também a saúde mental e emocional de todos os envolvidos.

 

Assim, a presença da Psicologia Hospitalar junto à equipe multiprofissional pode contribuir tanto na assistência ao paciente e seus familiares, quanto no apoio à equipe, buscando minimizar o sofrimento psíquico diante do adoecimento ou do risco de contaminação. Com vistas a auxiliar a Gestão Hospitalar na implementação ou reestruturação de Serviços de Psicologia Hospitalar para atendimento à Covid-19, a Comissão de Psicologia Hospitalar do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) traz considerações quanto às especificidades de atuação e as atribuições da(o) profissional Psicóloga(o) para execução de serviços de qualidade.

 

Ressalta-se que o presente documento considera a autonomia das instituições e suas particularidades, bem como o contexto econômico complexo no qual estão inseridas, sendo as considerações de caráter orientativo e consultivo.

Sobre a Psicologia Hospitalar

A Psicologia Hospitalar é uma especialidade reconhecida pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) desde 2000 e, atualmente, é regulamentada pela Resolução CFP nº 13/2007. Tem como principal objetivo o acolhimento a pacientes e familiares em sofrimento psíquico decorrente de suas patologias, internações e tratamentos (LAZARETTI et al., 2007). A atuação deve estar pautada no rigor ético e científico que a profissão exige e abrange as seguintes atribuições:

 

· Atendimento a pacientes, familiares e assessoramento às(aos) profissionais da equipe de saúde no que concerne ao cuidado com as(os) pacientes;

· Realização de avaliações e intervenções psicológicas para a(o) paciente e/ou familiar;

· Estabelecimento, operacionalização e gerenciamento de programas de saúde;

· Participação em reuniões interdisciplinares e atualização das informações psicológicas com as(os) demais profissionais da equipe;

· Facilitação dos processos de comunicação na interface paciente-família-equipe, inclusive no suporte à equipe na transmissão de notícias difíceis;

· Gerenciamento de atividades administrativas, como formulação de protocolos de atendimento, registro em prontuário e distribuição das demandas de trabalho.

Sobre a formação da(o) Psicóloga(o) para atuar no contexto hospitalar

Pensar na formação da(o) Psicóloga(o) Hospitalar remete a pensar na formação em Psicologia. Embora algumas universidades tenham um foco maior nas disciplinas que envolvem a Psicologia da Saúde, incluindo a atuação nos hospitais, essa ainda não é uma realidade unânime (MÄDER et al., 2016). Assim, é desejável que a(o) profissional que irá atuar nessas instituições tenha formação específica para sustentar essa prática, tais como:

 

· Pós-graduação Latu Sensu nível de Especialização ou Residência Multiprofissional em Saúde;

· Título de Especialista em Psicologia Hospitalar concedido pelo Conselho Federal de Psicologia.

 

Portanto, dada a relevância da capacidade teórica e técnica exigida no desempenho da função, é alvo de preocupação o fato de que muitas(os) profissionais da Psicologia que atuarão na linha de frente dos serviços hospitalares para atendimento à Covid-19 podem não ter especialização na área. Desta forma, sugere-se a implementação de ações de capacitação e educação permanente, promovendo formação breve e específica em ações de saúde mental e atenção psicossocial neste contexto de pandemia. Destaca-se também que outro viés de formação muito importante e utilizado em Psicologia é a supervisão com profissionais mais experientes.

Sobre a inserção da(o) Psicóloga(o) na instituição hospitalar

Considerando a(o) profissional Psicóloga(o) como integrante da equipe multiprofissional, parte-se do fato de que receba, diante do atual momento, todos os treinamentos necessários quanto ao uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI), bem como orientações gerais acerca das medidas de biossegurança e controle de infecção na instituição hospitalar, medidas habitualmente realizadas pelos Serviços de Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho (SESMT) e Comissões de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) ou equivalentes.

 

É fundamental que o Serviço de Psicologia Hospitalar se articule com os demais gestores da instituição de forma a construir um posicionamento técnico a respeito da prestação do trabalho neste contexto de pandemia.

Sobre a estruturação de Serviços de Psicologia Hospitalar no contexto da pandemia

Ao estruturar o Serviço de Psicologia Hospitalar no contexto da Covid-19, a Fiocruz sugere que as(os) Psicólogas(os) Hospitalares (BRASIL, 2020):

 

· Tenham conhecimento das características do cenário antes do planejamento das suas ações;

· Fundamentem suas ações em evidências de outras experiências;

· Mantenham propostas de ações alinhadas com o Sistema Único de Saúde.

 

Os atendimentos podem ocorrer tanto de forma presencial quanto a distância. Conforme Notas Técnicas CRP-PR nº 001 e 002/2020, cabe às(aos) Psicólogas(os) a adequação dos métodos e técnicas para prestação de serviços em cada contexto de trabalho. O uso das Tecnologias de Informação e Comunicação tornam-se uma possibilidade para realização do cuidado, porém, muitas vezes, especialmente no contexto hospitalar, a atuação presencial da Psicologia ainda é demandada.

 

Para escolha da modalidade de atendimento mais adequada, cabe às(aos) profissionais analisar as complexidades das demandas de seus serviços. Ressalta-se que os casos de urgência e emergência, preferencialmente, devem ser atendidos presencialmente.

 

No que se refere aos atendimentos virtuais, ressaltam-se as diretrizes fornecidas pelas Resoluções CFP nº 11/2018 e nº 04/2020, principalmente quanto ao cadastro prévio na plataforma E-Psi.

 

Quanto ao contingente necessário de profissionais para a prestação dos serviços de Psicologia Hospitalar, compreendem-se os desafios e a especificidade deste momento de pandemia, inclusive no âmbito econômico e alocação de recursos financeiros. Ainda assim, objetivando a qualidade da assistência, a Fiocruz (BRASIL, 2020) recomenda o seguinte dimensionamento da equipe de Psicologia Hospitalar:

 

· Presença de um(a) Psicóloga(o) a cada 15 leitos ou fração na Unidade de Internação Adulto;

· Presença de um(a) Psicóloga(o) a cada 12 leitos ou fração na Unidade de Internação Pediátrica.

Obs: nas unidades de internação, adulto ou pediátrica, sugere-se a cobertura mínima de seis horas diárias e jornada de trabalho de seis horas/dia.

· Presença de um(a) Psicóloga(o) exclusiva(o) e presencial para cada 10 leitos ou fração na Unidade de Terapia Intensiva.

Obs: nas unidades de terapia intensiva sugere-se cobertura de 12 horas diárias e jornada de trabalho de seis horas/dia.

 

Para distribuição da carga de trabalho sugere-se ainda que seja utilizado o conceito de hora-assistencial. No contexto hospitalar, este conceito abrange o tempo destinado para preparação para o atendimento, realização de procedimentos e/ou técnicas psicológicas, discussão de caso e reuniões de equipe, registro dos atendimentos em prontuário e elaboração de documentos (BRASIL, 2020).

 

Na estruturação das equipes de Psicologia Hospitalar, de acordo com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS, 2020) para manutenção da saúde mental no ambiente de trabalho, reitera-se a recomendação de compor equipes com profissionais que possuam diferentes tempos de experiência na área, de forma a mesclar colaboradores mais e menos experientes. Além de promover apoio e minimizar o estresse laboral (OMS, 2020), esta estratégia vai de encontro às estratégias de capacitação e supervisão em serviço, possibilitando a execução de um serviço de Psicologia de alta qualidade.

Sobre o acompanhamento em saúde mental às(aos) profissionais de saúde

Sabe-se da relevância da assistência em saúde mental às(aos) profissionais da saúde. Importante destacar, entretanto, que a(o) Psicóloga(o) Hospitalar atua dentro de uma equipe interdisciplinar e é, portanto, parte integrante dela. Ao zelar pela posição de integrante da equipe, muitas vezes faz-se necessário que o trabalho de escuta às(aos) colaboradoras(es) seja realizado por um(a) profissional externa(o) a ela (MÄDER et al., 2016; BRASIL, 2020).

 

Cabe à(ao) profissional de Psicologia a delimitação de seu campo de atuação, com autonomia para avaliar se o vínculo favorece ou interfere negativamente na realização de um trabalho de suporte emocional à equipe, visando à prestação de um trabalho de qualidade e conforme ao Código de Ética Profissional do Psicólogo.

Outras orientações

Mais informações e orientações quanto à atuação da Psicologia e das especificidades da Psicologia Hospitalar podem ser acessadas pelos sites do Conselho Federal de Psicologia (site.cfp.org.br) e do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (www.crppr.org.br). Ambos os sites possuem seção específica destinada a conteúdos referentes à pandemia da Covid-19 de forma a facilitar o acesso à informação.

 

Acesse: Especial Covid-19 CRP-PR

 

A Comissão de Psicologia Hospitalar permanece à disposição para maiores elucidações, assim como aberta a receber Psicólogas(os) e gestoras(es) para aproximação e discussão de temas convergentes. Para contato, enviar e-mail para milena.poletto@crppr.org.br.

Referências

BRASIL. Ministério da Saúde. FIOCRUZ. Orientações às/aos psicólogas/os hospitalares. Disponível em: https://www.fiocruzbrasilia.fiocruz.br/wp-content/uploads/2020/04/cartilha_psicologos_hospitalares.pdf Acesso em 15 de junho de 2020.

 

LAZARETTI, C. et al. Manual de Psicologia Hospitalar, CRP-PR. Coletânea ConexãoPsi. Curitiba: Unificado, 2007.

 

MÄDER, B.J. et al. Caderno de psicologia hospitalar: considerações sobre assistência, ensino, pesquisa e gestão. Curitiba: CRP-PR, 2016.

 

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE et al. Mental health and psychosocial considerations during the COVID-19 outbreak, 18 March 2020. World Health Organization, 2020.

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