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Dia Mundial da Saúde | O que significa ter saúde?

Corpo são, mente sã. O popular e antigo ditado encontra respaldo na ciência – ainda que a sociedade tenda a hipervalorizar a saúde do corpo em detrimento da mental. Saúde física e mental são interconectadas, e compõem este estado geral de saúde. Não à toa, a Organização Mundial da Saúde (OMS) define saúde, desde 1948, como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social”. Desde então, a ciência vem avançando na forma de abordar o tema, tendo em consideração as características de cada tempo e sociedade.

No entanto, o Psicólogo e Professor da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Fábio José Orsini Lopes (CRP-08/09877), explica que a busca por um conceito único de saúde é um desafio até os dias atuais, e aquele cunhado pela OMS há mais de sete décadas foi, ao menos parcialmente, superado.

O uso do termo “estado” como algo constante, sem interrupções nem variações, não condiz com a realidade, ele explica. Saúde é, na realidade, um conjunto de condições que mudam com o passar do tempo e variam entre um período e outro. “A saúde é um saldo final que me coloca em melhores ou piores condições de saúde, e isso tem a ver tanto com a minha condição objetiva da saúde física e emocional quanto com a minha condição de vida social, econômica, ambiental, relacional… as condições concretas de vida”, resume o profissional, que representa do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) no Conselho Estadual Sobre Drogas (CONESD).

A saúde é um saldo final que me coloca em melhores ou piores condições de saúde, e isso tem a ver tanto com a minha condição objetiva da saúde física e emocional quanto com a minha condição de vida social, econômica, ambiental, relacional... as condições concretas de vida.

Psic. Fábio José Orsini Lopes (CRP-08/09877)

A Psicóloga e docente também na UEM, Natália Aparecida Barzaghi (CRP-08/20034), compartilha de opinião semelhante, e acrescenta que o sofrimento humano é inevitável. “O sofrimento faz parte da vivência humana. Se não pensarmos dessa forma, corremos o risco de patologizar qualquer experiência que saia de um ‘pseudonormal’. Ter saúde pode ser também os modos de levar a vida, buscando viver do modo mais confortável possível”, afirma. De forma complementar, Fábio lembra que a saúde mental não é ausência de problemas. “Não existe ninguém que não tenha medo, anseio, dúvida, questionamentos. Ninguém saudável é assim. A saúde é um saldo, é o que você faz com isso e continua se mantendo em condições de criação, sonho e desejo.”

A patologização – e medicalização – da vida atendem, aliás, a interesses específicos de certos grupos. Os manuais diagnósticos como CID (Classificação Internacional de Doenças) e DSM (Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais), Fábio lembra, aumentam a cada edição o número de condutas patologizáveis, a ponto de incluir o próprio luto prolongado como doença. “É evidente que a gente precisa ter pelo menos o direito ao luto, seja ele prolongado ou pontual, nestes momentos em que a gente tem toda essa tristeza e principalmente a morte nos atravessando. Então o direito ao luto passou a ser uma condição clínica, não só patologizável como medicalizável.”

É preciso ter cuidado, porém, para não individualizar a responsabilidade pela saúde. A sociedade e o Estado exercem papel fundamental neste processo. Um exemplo foi a própria pandemia da Covid-19, em que o cuidado coletivo e as ações governamentais eram tão importantes quanto os cuidados individuais. “O social tem um compromisso com ele mesmo, e considerar o coletivo é parte fundamental da saúde. Não podemos deixar de mencionar que o Brasil está passando por uma dificuldade concreta, social e econômica, e isso implica diretamente na condição de saúde das pessoas. A condição de vida piorou nos últimos anos e não tem como simplesmente dizer para a pessoa ‘faça atividade física, se alimente e se hidrate que você estará bem’”, resume Fábio. 

O sofrimento faz parte da vivência humana. Se não pensarmos dessa forma, corremos o risco de patologizar qualquer experiência que saia de um ‘pseudonormal’. Ter saúde pode ser também os modos de levar a vida, buscando viver do modo mais confortável possível.

Psic. Natália Aparecida Barzaghi (CRP-08/20034)

Desmonte do SUS

O Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro é, conceitualmente, a concretização da ideia de que saúde é democracia. No entanto, contínuos subfinanciamento e sucateamento vêm precarizando o acesso aos serviços de saúde. A PEC dos Gastos (Emenda Constitucional nº 95, que congela os gastos em saúde por 20 anos no Brasil), é citada tanto por Fábio quanto por Natália como empecilhos para a concretização da saúde como direito universal.

O desmonte em saúde, especialmente no que tange à Reforma Psiquiátrica e à Luta Antimanicomial, já acontece há algum tempo e não se limita à desidratação financeira. “O plano de saúde mental, nos últimos governos, vem apontando para este retrocesso e vem ferindo aquilo que é muito caro à categoria de saúde mental”, afirma o docente, referindo-se aos cuidados territoriais e com participação social implementados pela Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Fábio elenca, ainda, alguns problemas enfrentados na ponta do Sistema de Saúde, nos equipamentos públicos de atendimento à população, como sucateamento, falta de contratação novos servidores e desvalorização das equipes, além da não reposição de perdas inflacionárias dos salários.