Notícia

Nota Técnica sobre a Confissão de Fé e a Atuação Profissional

Apresentação da Nota Técnica

A(O) Psicóloga(o), nos diversos contextos de sua atuação, depara-se com questões que envolvem a religiosidade, devendo debruçar-se sobre elas, buscando a compreensão dessa experiência na vida dos sujeitos e auxiliando-os na superação do sofrimento humano.

A(O) profissional que atua em organização de cunho religioso, seja ela de fins doutrinários (igrejas e templos) ou de prestação de serviços (ONGs de base religiosa que prestam serviços à comunidade, por exemplo), deve fazê-lo de forma centrada nas experiências e nas relações estabelecidas pela pessoa que busca seus serviços, podendo fazer referências a posturas dessas instituições ou a questões doutrinárias, no sentido de provocar uma reflexão do sujeito frente àquilo que ele apresenta como importante em sua vida, resguardando sempre os princípios éticos da profissão. Os princípios morais estabelecidos pela religião não podem servir, à(o) profissional, como parâmetro ideal de ajustamento do cliente.

Neste sentido, cabe ressaltar o estabelecido pelo Art. 2º, alínea b do Código de Ética Profissional do Psicólogo, o qual estabelece que:

Art. 2º – Ao psicólogo é vedado:

b. Induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual ou a qualquer tipo de preconceito, quando do exercício de suas funções profissionais;

Assim, a religiosidade precisa ser encarada como parte do sistema de crenças, práticas e rituais do ser humano, os quais devem ser trabalhados com profissionalismo ético, conhecimento e habilidades para alinhar as informações coletadas ao benefício do sujeito que se apresenta. É preciso cuidado com a influência dos valores da(o) Psicóloga(o) sobre aquele que atende, uma vez que, conforme alguns achados empíricos, os clientes adotam os valores da(o) Psicóloga(o), que incorre no risco de reduzir a liberdade do cliente, perdendo sua imparcialidade (TJELVEIT, 1986).

Dentro desse contexto, é importante ressaltar o papel não apenas da experiência da religião, enquanto instituição, sistema de credo e de orientação moral, mas sim da experiência do sagrado, a qual Mircea Eliade (1992) denominou “hierofania”, “algo de sagrado se nos revela”. Explicita ainda que tal experiência foge à expressão da linguagem, pois ultrapassa a experiência natural do homem, sendo a manifestação do sagrado inteiramente diferente das realidades “naturais”. Este mesmo autor aponta para dois modos de ser no mundo, duas situações existenciais assumidas pelo homem, o sagrado e o profano (natural ou dessacralizado), e que, portanto, interessam “(…) a todo investigador desejoso de conhecer as dimensões possíveis da existência humana.” (ELIADE, 1992)

Sendo assim, a ciência psicológica não pode se eximir do estudo da experiência do sagrado, mas deve ter cautela para não reduzi-la apenas a aspectos psicológicos ou instrumentalizá-la como prática profissional, pois tal redução descaracteriza o que há de mais essencial em tal experiência, que aquela dimensão do inefável, do inexplicável e do indescritível, ou melhor, de algo além da descrição. Não se trata de buscar afirmar ou negar a existência do sobrenatural, mas de aceitar essa forma da experiência humana como legítima e que nos coloca questões relacionadas ao comportamento humano e ao sentido que o humano dá à sua existência.

Há ainda que se apontar para conhecimentos de outras bases epistemológicas, como o Yoga, a Medicina Tradicional Chinesa (MTC), a Medicina Tradicional dos Povos Indígenas, cujas origens históricas e culturais se deram de forma outra daquela da Psicologia e, portanto, fundamentam-se em outra compreensão de mundo, mas que contemplam uma dimensão e um campo de ação, que nos permite identificar como psicológicos. Junto a esses conhecimentos nos cabe estabelecer um diálogo permanente, respeitando-os em sua totalidade, numa postura de transdisciplinaridade, rigor científico e profissionalismo ético.

Conforme apontado nas discussões realizadas, este tema é de grande complexidade, de forma que não temos a pretensão de esgotá-la nestes parágrafos, sendo imprescindível a continuidade do debate no âmbito do Sistema Conselhos, na Academia e nas Associações da Psicologia, de forma séria, rigorosa e aprofundada. Portanto, a gestão “É Tempo de Diálogo” aproveita para convidar esses atores para construir este espaço dentro da Psicologia do Paraná, pautando-se pela ética, pelo respeito e pelo diálogo.

Nota Técnica sobre a Confissão de Fé e a Atuação Profissional

Diante dos questionamentos feitos ao CRP-PR, pela categoria e pela sociedade, sobre a vinculação de confissão da fé religiosa à titulação de Psicóloga(o) e considerando o disposto no Código de Ética Profissional do Psicólogo, assim como a Resolução do CFP 10/97 – este CRP-PR realizou debates junto à categoria no ano de 2014, durante as “Quartas-Feiras no CRP”, sobre “Práticas Integrativas e Complementares” e “A Psicologia e o Sagrado”, assim como publicou matérias na revista Contato ampliando a discussão do tema.

Diante do exposto, o CRP-PR entende que a nomenclatura posta de maneira subsequente ao título de Psicóloga(o) tem a finalidade de qualificar o trabalho desta(e) profissional, portanto é importante que faça referência à área ou forma de atuação do mesmo, dentro dos parâmetros da ciência e da profissão. A(O) Psicóloga(o), assim como todo ser humano, pode ou não ter uma identificação religiosa, mística e/ou espiritual. Entretanto, trata-se aqui de esclarecer a relação da expressão da identidade religiosa, sobre a qual não há restrições, com a atividade profissional, essa sim regulamentada pelo código de ética da profissão, e evitar possíveis conflitos com este. De tal forma que reafirma: a nomenclatura na identificação da(o) profissional deve referir-se à atuação deste e não a aspectos de foro íntimo, como sua confissão de fé.

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