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Nossa relação social com o trabalho precisa ser repensada: como a Psicologia Clínica pode ajudar?

Descrição da imagem: 1ª de maio | Dia da População Trabalhadora | Nossa relação social com o trabalho precisa ser repensada: como a Psicologia Clínica pode ajudar? Sobre fundo cinza, desenhos diversos coloridos representam pessoas, ideias (lâmpada) e objetos em uma cidade. Logo do CRP-PR.

O trabalho está nos adoecendo. A Organização Mundial da Saúde estima que um bilhão de pessoas vivem com algum sofrimento mental, entre os mais comuns a ansiedade e a depressão. Além disso, a pandemia de Covid-19 gerou um aumento de 25% nos casos de ansiedade e depressão em todo o mundo. As perdas financeiras deste quadro são da ordem dos trilhões de dólares. No entanto, são as consequências para a saúde física e mental das pessoas que devem ser mais notadas para que sejam dirimidas.

Em alusão ao Dia da População Trabalhadora (1º de maio), convidamos a psicóloga clínica Renata de Fátima Ferreira da Silva (CRP-08/25836) a avaliar de que forma o trabalho vem causando este adoecimento psíquico tão espraiado e como a Psicologia Clínica pode lidar com tais questões. “O trabalho é um lugar de significação subjetiva, de identificação e, portanto, de autoestima, que é tomado dentro do sistema de uma forma completamente exploratória,” explica. “E isso tem efeitos muito sérios sobre a organização psíquica e sobre a subjetividade, assim como sobre a saúde física e a saúde mental.”

O papel da Psicologia Clínica, segundo ela, é questionar e ressignificar este lugar do trabalho em nossas vidas. “A prática clínica deve levantar essas questões subjetivas e de significação de trabalho com uma pessoa. Não vai ter como, enquanto a sociedade, a gente não assegurar direitos trabalhistas, não respeitar pessoas trabalhadoras, não findar o desemprego maciço como um fenômeno permanente. Enquanto a gente não resolver isso, não vai dar para pensar no fim do adoecimento coletivo.”

Leia estas e outras reflexões na entrevista completa abaixo.

CRP-PR: Por que o trabalho adoece?

Renata: O adoecimento não é individual, é coletivo. A formação do sistema social é o lugar em que os sujeitos vivem os fenômenos que circunscrevem a sua realidade. Pensar na formação do sistema social é pensar na história do trabalho. Os pressupostos sinalizados na modernidade, que começam a construir essa história, vigoram até hoje. Então, a relação entre trabalho, economia e desenvolvimento social, apesar das transformações dos últimos 200 anos, continuam seguindo a mesma esteira que [Karl] Marx, por exemplo, conseguiu observar no século XIX. 

É uma esteira em que a gente busca produção, capital, colocando o trabalho em detrimento da vida humana. E isso tudo visando ao quê? Ao desenvolvimento social? Ao desenvolvimento da sociedade? Não exatamente. Tudo isso visa ao lucro. Como Marx conseguiu perceber na época, existe uma pessoa trabalhadora que produz e existe também quem detém os meios de produção, que é quem vai deter o lucro do trabalho num projeto de acumulação de capital e não mais de desenvolvimento social. A partir daí a gente começa a observar fenômenos como uma produção incessante, em que existe uma exploração imensa de pessoas em condições de trabalho que não respeitam a integridade e a saúde de um sujeito. E a gente observa esse problema se manifestando hoje, nas relações de trabalho no século XXI. 

Hoje, a gente tem quase naturalizada a ideia de subemprego como trabalho informal. O desemprego tornou-se um fenômeno maciço e permanente. Mesmo pessoas com vínculo em uma empresa cada vez menos têm suas condições de trabalho asseguradas. E isso tem efeitos muito sérios sobre a organização psíquica e sobre a subjetividade, assim como sobre a saúde física e a saúde mental. 

O trabalho, antes de ser emprego, é primeiramente um lugar de significação subjetiva. É um lugar de identificação e, portanto, de autoestima. Então, o trabalho, que é um lugar de desenvolvimento pessoal, é tomado dentro desse sistema de uma forma completamente exploratória. Essa materialização da relação de exploração do capital tem feito cada vez mais com que as pessoas deixem de exercer controle sobre o objeto, sobre os instrumentos e sobre a organização do seu trabalho. 

A partir daí, o que a gente observa hoje cada vez mais acontecendo é que o trabalho passa a se tornar uma extensão sobre a vida, invadindo a esfera das relações e exigindo do sujeito mais produtividade. A epidemiologia crítica mostra o quanto o aumento de cargas físicas e psicológicas que limitam a possibilidade de recuperação do cansaço numa jornada de trabalho tem afetado o desenvolvimento de quadros de adoecimento psicológico.

Como você observa estas questões sendo apresentadas por pacientes na clínica?  

A prática clínica mostra de uma forma bastante curiosa o quanto o trabalho tem um lugar central dentro da organização subjetiva das pessoas, porque ele é um dos principais indicadores de adoecimento psíquico para as pessoas que chegam no processo psicoterapêutico. É a principal queixa, e eu não falo só sobre emprego agora, mas sobre trabalhar e transformar sua realidade, sabe? A pessoa está mal há muito tempo, com ela mesma, com os relacionamentos pessoais. Mas, como é tudo centralizado no trabalho, é só quando a produtividade dela é afetada que ela vai parar no consultório. 

Na contemporaneidade, o trabalho e a alta performance se tornaram indicadores de saúde, enquanto a baixa performance se tornou um sinalizador de que uma pessoa não está bem. Isso pouco tem a ver com uma questão de alinhamento de um sujeito com ele mesmo, com desejo, e muito mais tem a ver com alienação e essa demanda de reconhecimento social, que é um dos efeitos do processo alienatório. 

E aí vem a medicalização para conseguir desenvolver alta performance. Você não vai para o consultório para criticar uma estrutura social exploratória, você vai para o consultório de início para se criticar e reproduzir o discurso que não se importa com a vida, mas sim com o lucro. 

Como profissionais da Psicologia devem abordar tais questões?

Um dos primeiros objetivos do processo psicoterapêutico é reconhecer as nossas expectativas em relação às responsabilidades que nós mesmos nos incumbimos de exercer ao longo da nossa vida por acreditar que é aí que encontraremos um pouco de amor, um pouco de reconhecimento, mas que muitas vezes elas são pautadas dentro de ideais que são profundamente exploratórios, que não respeitam o que é a organicidade da vida humana. A nossa sociedade está estruturada de forma com que ocorra uma naturalização do sofrimento e, portanto, do adoecimento.

Com isso, eu não quero dizer que não existam fatores extremamente subjetivos do sofrimento, mas que se você não reconhece a complexidade do adoecimento como um fator que se dá numa vertente biopsicossocial, você não consegue dar conta da dimensão da problemática em que se subscreve o sofrimento humano e o adoecimento psicológico. 

Quando você recebe uma pessoa no consultório com medo do desemprego como um significante de um problema na sua relação com o trabalho, medo de perder seu lugar de existência no mundo, a prática clínica deve trabalhar esse exercício de entender em quais lugares existe movimento em função de desejo, em quais lugares existem movimentos em função de alienação, levantar essas questões subjetivas e de significação de trabalho com uma pessoa. 

Quando uma pessoa passa a questionar sobre isso, ela passa a ter consciência de que o problema não é ela não apresentar um índice de alta performance de um jeito que é irreal, que o corpo e a existência humana não são máquinas. Aí as pessoas começam a se respeitar em relação ao seu trabalho. 

A gente pôde observar recentemente, ao atravessar uma pandemia sem precedentes, que colocar o lucro acima da vida é uma fantasia profundamente paranoica e obsessiva. A vida e a saúde não podem ficar em detrimento do lucro. Não vai ter como, enquanto a sociedade, a gente não assegurar direitos trabalhistas, não respeitar pessoas trabalhadoras, não findar o desemprego maciço como um fenômeno permanente. Enquanto a gente não resolver isso, não vai dar para pensar no fim do adoecimento coletivo.

Hoje se reduz a mortalidade, se prolonga a vida, mas é uma vida profundamente sofrida. Então, atuar sobre esses lugares é a responsabilidade que cada um de nós temos se a gente entende que o adoecimento psi caminha por mais esferas do que processos fisiológicos que ocorrem dentro da neurotransmissão no cérebro. 

A formação acadêmica e as produções científicas têm preparado a categoria clínica para estas demandas sociais? 

Nossos cursos de formação são lugares em que se deve ter acesso a esse tipo de crítica, entendimento e orientação para as suas práticas como profissional da área da Psicologia. Eu sempre percebi a Psicologia Social dentro do curso de formação quase que como uma abordagem da Psicologia. Mas o que a minha prática clínica tem mostrado nos últimos tempos é que a Psicologia Social não detém como seu objeto de trabalho apenas uma perspectiva, um viés, uma forma de interpretação da realidade. Ela não pode ser vista como uma abordagem. 

Assim como profissionais de qualquer abordagem têm que saber o que é uma depressão com características bipolares ou o que é um transtorno de bipolaridade, por exemplo, também precisam saber o que é a Psicologia Social, porque a problemática apresentada por ela não diz respeito a um modelo de compreensão e intervenção sobre a realidade: ela fala sobre fenômenos que estão circunscritos e promovem objetivamente o adoecimento da psi.

Então, se pudéssemos compreender isso não só a partir de uma perspectiva da racionalidade biomédica do que é depressão, mas o que é adoecimento psicológico como produto do adoecimento coletivo, talvez a psicoterapia não corresse o risco de ser um lugar em que pessoas vão procurar o seu reajuste e o desenvolvimento de uma alta performance. Talvez a terapia pudesse ser um lugar a serviço da transformação social, de uma contraposição e uma crítica ao que é o capital. 

Se começarmos a compreender, conhecer, prestar cada vez mais atenção no que é a nossa política, talvez entendêssemos que o fenômeno social é muito mais do que as microesferas que um sujeito está inserido. É a cidade que ele vive, o país, as políticas públicas ofertadas a esse lugar. Então, a consciência política e de classes talvez seja uma ótima forma de profissionais da Psicologia começarem a entender qual o lugar da Psicologia Social dentro do trabalho que eles possam vir a fazer numa clínica.

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