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No Dia da Consciência Negra, CRP-PR debate impactos do racismo na saúde mental e o papel da Psicologia no cuidado à população negra

O Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, feriado nacional decretado recentemente após a Lei nº 14.759/2023, marca não apenas uma data de memória histórica, mas um chamado à reflexão sobre os efeitos persistentes do racismo na sociedade brasileira e, como consequência, sobre as responsabilidades éticas e profissionais da Psicologia no enfrentamento dessas violências. 

Em um país em que 56% da população se autodeclara preta ou parda – ou seja, cerca de 110 milhões de pessoas no Brasil e aproximadamente 3,9 milhões de pessoas no Paraná (34,3% da população estadual), segundo Censo 2022, compreender como o racismo atravessa a vida cotidiana e impacta a saúde mental é indispensável para uma prática psicológica comprometida com os direitos humanos e com a eliminação de todas as formas de discriminação.

 

Racismo estrutural e sofrimento psíquico

O Brasil carrega cicatrizes profundas deixadas por séculos de escravização e exclusão. Quase cinco milhões de pessoas negras foram traficadas e escravizadas no território brasileiro, e os efeitos desse processo seguem presentes no acesso à educação, moradia, renda, saúde e segurança, núcleos que moldam a vida psíquica de indivíduos e comunidades. Dados do Ministério da Saúde indicam que o racismo aumenta o risco de ansiedade, depressão, transtornos de estresse e até ideação suicida entre jovens e adultos negros.

A psicóloga e psicanalista Maria Lúcia da Silva (CRP-06/21298), em entrevista concedida ao Portal CUT, aprofundou a compreensão sobre esse impacto contínuo, afirmando: “O racismo estrutural atravessa todos os aspectos da vida social – da moradia à educação, da saúde à justiça – e impõe uma carga constante de estresse psíquico às pessoas negras. Não se trata apenas de episódios isolados de discriminação, mas de um modo contínuo de existir em uma sociedade que nega humanidade, voz e pertencimento. O sujeito negro é muitas vezes interpelado não como sujeito de desejo, mas como objeto de projeções coloniais e violentas, o que gera marcas psíquicas profundas, vividas como humilhação, silenciamento, hipervigilância e medo. A saúde mental, nesse contexto, não pode ser pensada fora das relações de poder racializadas.”

Esses atravessamentos também se expressam nas desigualdades de acesso aos serviços de saúde, nas vivências de violência racial cotidiana e na dificuldade de encontrar profissionais preparados para compreender o impacto do racismo na constituição subjetiva – já que o tema também é ausente, via de regra, nos currículos universitários, tanto no âmbito da graduação como na formação continuada. 

A insuficiência de cuidados culturalmente sensíveis e fundamentados em uma perspectiva antirracista agrava o sofrimento psíquico e perpetua ciclos de exclusão. Assim, reconhecer o racismo como determinante social de saúde é fundamental para garantir cuidado integral, ético e efetivo à população negra.

 

O compromisso da Psicologia no enfrentamento do racismo

O Código de Ética Profissional da Psicologia e normativas como a Resolução CFP nº 018/2002 estabelecem o compromisso da categoria com a eliminação de práticas discriminatórias e com a promoção de cuidados pautados na equidade racial. A Psicologia, enquanto ciência e profissão, desempenha papel essencial na compreensão dos efeitos do trauma racial, no acolhimento de violências e na construção de práticas clínicas e institucionais que reconheçam o racismo como parte das condições que determinam a saúde mental.

Em entrevista exclusiva ao CRP-PR, o psicólogo Bruno Reis (CRP-06/93277), autor do livro “Terapia Cognitivo-Comportamental para a População Negra: contribuições para a prática clínica sensível às questões étnico-raciais”, reforça a importância de que a formação profissional avance nesse sentido. 

“É realmente muito importante que toda a categoria estude as questões étnico-raciais como um todo. […] Quando dizemos que a Psicologia precisa aprofundar esses estudos, estamos dizendo que a profissão deve se preparar para oferecer um atendimento qualificado a mais da metade da população brasileira.” Mais que incluir o tema nas disciplinas, a formação precisa reconhecer que o racismo afeta diretamente a saúde mental e deve ser considerado em qualquer prática psicológica ética e responsável.

O desenvolvimento dessas competências envolve revisar referenciais teóricos, ampliar espaços de supervisão e de diálogo, reconhecer os próprios vieses e compreender como os marcadores raciais se manifestam no atendimento clínico, nos contextos escolares, organizacionais, comunitários e nas políticas públicas. Em outras palavras, trata-se de construir práticas coerentes com a realidade racial do país e com os princípios éticos da profissão.

 

Atuação institucional: a contribuição da CER

No âmbito do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR), a Comissão Étnico-Racial (CER) tem atuado de forma contínua na produção de orientações técnicas, na oferta de formações e na articulação institucional para fortalecer práticas antirracistas na Psicologia. A comissão promove debates sobre racismo e saúde mental, elabora materiais de referência, estreita diálogos com diferentes instituições e amplia a participação de pessoas negras em espaços de construção profissional, decisão e controle social.

Seu trabalho vem fortalecendo a presença da pauta racial no Sistema Conselhos, com a realização de eventos, qualificação da formação continuada, apoio a denúncias de racismo institucional e desenvolvimento de materiais que subsidiam a categoria. Entre as principais ações, destacam-se:

  • Trilogia “Raízes que Tecem Cuidado”, “Resistências: Psicologia, Negritude e Saúde Mental” e “Cuidar sem Colonizar”, que articulam teoria e prática para uma Psicologia comprometida com povos negros e indígenas;

  • Edição da Revista Cadernos de Psicologias com o tema “Vozes Negras” e as Referências Técnicas para a Atuação da Psicologia nas Relações Raciais, do Centro de Referências Técnicas em Psicologia e Políticas Públicas (CREPOP);

  • Encontros e formações, como o evento recente com o psicólogo Bruno Reis, “Entre Crenças e Feridas: o racismo sob a lente da TCC”, que promoveu importantes discussões sobre saúde mental, raça e cultura;

  • Apoio a profissionais que denunciam racismo institucional, reafirmando o compromisso ético da Psicologia em se posicionar de maneira firme;

  • Incentivo à formação continuada, promovendo a incorporação das relações étnico-raciais nos currículos e práticas da Psicologia em diversas áreas.

A CER destaca que o enfrentamento do racismo vai além do acolhimento individual, exigindo a transformação das estruturas que perpetuam desigualdades. Assim, a atuação da Psicologia deve dialogar com políticas públicas, movimentos sociais, instituições de ensino e serviços de saúde, reconhecendo a importância da pauta racial na promoção da dignidade humana.

 

Consciência Negra como compromisso ético e profissional

Celebrar o Dia da Consciência Negra é reafirmar a história de resistência dos povos negros no Brasil, simbolizada pela luta de Zumbi dos Palmares, e reconhecer que ainda há um longo caminho para reparar desigualdades históricas. Para a Psicologia, a data é um convite à reflexão sobre o papel da profissão em uma sociedade marcada pelo racismo e sobre a necessidade de práticas que promovam a vida, a saúde mental e a justiça social para a população negra.

Ao reafirmar seu compromisso com a equidade racial, o CRP-PR reforça que não há exercício ético da Psicologia sem o enfrentamento do racismo e sem o reconhecimento de suas repercussões na subjetividade e nas relações sociais. O dia 20 de novembro, portanto, deixa de ser apenas uma data simbólica e se torna um marco de responsabilidade, memória e construção de um futuro mais igualitário.