Notícia

Justiça por Moïse Mugenyi!

O Conselho Regional de Psicologia do Paraná soma-se aos coletivos, instituições e pessoas que expressam sua enorme indignação pelo assassinato de Moïse Mugenyi Kabagambe e clamam por justiça.

No dia 24 de janeiro, o jovem negro, um migrante congolês, foi cruelmente assassinado no Rio de Janeiro. As informações disponíveis até o momento indicam que o crime brutal ocorreu quando Moïse reivindicou pagamento por serviços prestados no quiosque Tropicália, na praia da Barra da Tijuca.

Os esforços para que o caso tenha visibilidade justificam-se para que Poder Público e sociedade mobilizem as transformações necessárias para que casos como esse não voltem a ocorrer.

Por que não podemos nos furtar ao debate do racismo nesse contexto?

A violência é um fenômeno multifacetário, e o caso de Moïse revela diversos aspectos significativos sobre as opressões às quais estão submetidas pessoas negras, trabalhadoras, migrantes, nas periferias dos centros urbanos, entre outros marcadores sociais. Infelizmente não se trata de um caso isolado. Dados do Atlas da Violência, Cáritas Brasileira, Coalização Negra por Direitos, entre outros, demonstram que pessoas de grupos socialmente minorizados são alvo preferencial de violência no Brasil.

É fundamental, portanto, reconhecermos as estruturas racistas sobre as quais nossas relações estão sedimentadas, que colocam em curso de um verdadeiro genocídio de pessoas negras, que são destituídas de sua condição de humanidade nas dinâmicas de poder e dominação que se estabelecem em nossa sociedade.

Por que isso é assunto da Psicologia?

A Psicologia, em seu compromisso ético e social, assume a responsabilidade de incidir para a produção de saúde dos sujeitos e coletividades a partir da promoção de humanidades libertas de quaisquer formas de opressão, combatendo todo tipo de violência.

Para citar apenas alguns estudos, as obras “Psicologia social do racismo: estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil” (Carone e Silva Bento, 2002); “Psicologia Social do Preconceito e do Racismo” (Oliveira Lima, 2020); “Preconceito, Indivíduo e Sociedade” (Crochik, 1996) e “As artimanhas da exclusão: análise psicossocial e ética da desigualdade social” (Sawaia, 2001) são de grande relevância para reconhecermos, a partir das contribuições científicas da Psicologia, a necessidade de profundas transformações nas relações sociais para que possamos construir um bem-viver coletivo.

Além disso, a Resolução CFP n.º 18/2002, que estabelece parâmetros de atuação em Psicologia frente ao preconceito e discriminação racial, e a publicação “Relações Raciais: Referências Técnicas para atuação de psicólogas/os”, do CREPOP, são importantes referências para nossa prática profissional.

E agora, o que podemos fazer?

Para além da ampla mobilização por justiça, é preciso às(aos) profissionais de Psicologia reconhecer que um caso brutal como esse pode despertar gatilhos emocionais e sofrimento, em especial a pessoas que compartilham marcadores de grupos socialmente minorizados, como pessoas negras e migrantes, ou descendentes. Nesse sentido, é necessário desenvolver uma escuta atenta, dar espaço ao luto, reconhecer o mal-estar causado por tamanha hostilidade, sem dessensibilizar-se para a morte, mas mantendo o caminho aberto para a esperança na produção coletiva de dias melhores – como aponta a Professora Jeane Saskya Campos Tavares no artigo “Falando da perda: hoje estou mal, espero que você entenda”. 

Saiba mais a partir das produções recentes e atualizadas do CRP-PR:

O CRP-PR, na gestão Diálogo: em Defesa da Psicologia, vem produzindo sistematicamente reflexões e referências para a construção de uma Psicologia antirracista – em especial pela ação protagonista da Comissão Étnico-Racial do Conselho. Nesse sentido, destacamos alguns materiais como as Rodas de Conversas “A Rua tem cor?”; “O preto é descartável no Brasil?“; “Tem racismo no Brasil?”; o diálogo “Saúde da População negra e enfrentamento da violência racista” nos formatos live e podcast; o texto “Do lugar de fala à reparação histórica: o que precisamos saber sobre o racismo?” e o “Especial Consciência Negra: Por uma Psicologia Antirracista”. 

Também o Núcleo de Psicologia e Migrações (NUPSIM) tem contribuído para refletirmos sobre a promoção de saúde da população migrante, atendimento psicológico a esse público e especificidades do contexto migratório para mulheres e crianças.