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Janeiro Lilás, mês da visibilidade trans, alerta para preconceito e exclusão

 

O final de 2016 foi marcado por uma notícia de mais um crime movido pela transfobia: uma travesti foi atacada em São Paulo por dois homens e, por defendê-las, um vendedor ambulante foi brutalmente assassinado. Este crime ganhou repercussão na mídia, mas a população LGBT é vítima de agressões e homicídios todos os dias. No Brasil, país que mais mata travestis e transexuais no mundo, foram 604 mortes só no período entre 2008 e 2014.

No entanto, a violência a que estas pessoas estão submetidas não está apenas nas ruas e muitas vezes começa em casa, entre os familiares. “Nós sofremos exclusão do mercado de trabalho, da escola, da religião, da sociedade. O Estado não nos enxerga”, diz uma das maiores militantes do Movimento Trans, Rafaelly Wiest, que tem 33 anos e há 15 iniciou o processo transexualizador. Ela hoje é presidente do Transgrupo Marcela Prado e cursa Ciência Política em uma universidade de Curitiba, mas nem sempre foi assim. Diversas vezes deixou a escola e conseguiu terminar os estudos apenas depois de adulta. “Muitas trans vão fazer programa, mas não porque querem. Ninguém sonha em virar prostituta, é por falta de opção”, destaca ela.

O estigma relacionado à transexualidade normalmente alimenta um ciclo, pois a exclusão e o preconceito tiram oportunidades no mercado formal de trabalho e na educação, o que leva estas pessoas para atividades como a prostituição e as torna rotuladas. Rafaelly conta que sua mãe a apoiou quando achou que era homossexual, ainda na adolescência, mas foi taxativa ao pedir que “só não virasse mulher”. “Ela disse aquilo porque todas as mulheres trans que conhecia ou sofriam violência ou tinham HIV, e ela tinha medo por mim”, lembra ela, que nunca foi expulsa de casa, como muitas(os) trans, mas precisou convencer a família religiosa de que não tinha um “demônio” no corpo. “Muitos pastores foram até a minha casa me exorcizar. Eu conversava com a minha mãe, mas foi um laudo médico de transexualidade que acabou me ajudando, pois, a partir de então meus familiares passaram a me apoiar, já que um médico disse que eu era transexual”.

 

Expressão de gênero sem estigmas

“Eu sou homem do meu jeito”. É assim que Kaito Felipe, homem trans de 24 anos, descreve a sua expressão de gênero. “Nem todo trans quer fazer cirurgia de redesignação sexual. Às vezes a pessoa só quer mudar o nome. Mas existe muito preconceito, até no meio LGBT, achando que existe um padrão. Tem alguma regra que pessoas trans não podem fazer alguma coisa no corpo?”, questiona ele, que fez hormonização, mastectomia e adequação do nome social.

 

É preciso ser aberto para conhecer e ter tempo para isso. Muitas pessoas pegam a primeira definição na internet e se dão por satisfeitas. Conhecer é fundamental para respeitar.

 

Kaito já sabia que não era como sua irmã gêmea desde a infância, mas teve dificuldades para identificar que era trans e homossexual. Na adolescência, teve alguns relacionamentos com meninas, mas ao encontrar alguns blogs falando sobre transexualidade percebeu que este era o seu caso. Depois de concluir o ensino médio em Manaus/AM, sua cidade de origem, veio para Curitiba iniciar a hormonização. Kaito, que mantém um canal no Youtube para ajudar outros meninos como ele, deixa um recado para a sociedade. “É preciso ser aberto para conhecer e ter tempo para isso. Muitas pessoas pegam a primeira definição na internet e se dão por satisfeitas. Conhecer é fundamental para respeitar”.

Tanto Kaito como Rafaelly chamam a atenção para outro comportamento da sociedade que os incomoda bastante. “Não perguntam como a gente está, se temos emprego, moradia…Perguntam como a gente faz sexo, qual era nosso nome antes ou outras curiosidades”, afirma Kaito. Tais perguntas são vistas como constrangedoras pela maioria das pessoas, mas naturalizadas quando se trata de um homem ou uma mulher trans. “Nós não somos nossos órgãos genitais. Somos pessoas”, diz Rafaelly. “Eu sou normal. Estou me colocando neste momento como pessoa trans para esta entrevista, mas no meu dia a dia sou só uma mulher. É assim que queremos ser vistas”.

 

Quer saber mais sobre a temática, ajudar a causa ou procurar auxílio? Em Curitiba, as Ongs Transgrupo Marcela Prado e Grupo Dignidade atuam na luta pelos direitos da população LGBT. Conheça em http://transgrupotmp.blogspot.com.br/ e http://www.grupodignidade.org.br/.

 

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