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Jacqueline Rocha Côrtes, retratada em documentário “Meu Nome é Jacque”, concede entrevista ao CRP-PR

Jacqueline Rocha Côrtes é uma mulher casada e mãe de dois filhos que leva uma vida pacata no interior do Rio de Janeiro. Antes de se dedicar à maternidade, à família e à espiritualidade, trilhou uma vida de muitas lutas e conquistas. Mulher transexual e convivendo com a Aids há cerca de 20 anos, chegou a trabalhar como representante do governo brasileiro na Organização das Nações Unidas em questões relacionadas à doença.

No documentário “Meu nome é Jacque”, a vida desta mulher é contada enquanto acompanhamos um pouco da sua rotina, entrecortando com depoimentos dela própria e de seus familiares e amigos.

Jacqueline conversou com o CRP-PR por e-mail sobre as principais dificuldades que pessoas trans enfrentam, feminismo e empoderamento das mulheres cis e trans, e deixou uma mensagem: “Temos que lutar cada vez mais, conquistar mais espaços de poder, de formação de opinião, de gestão. Somos resistentes, mulheres cis ou trans, enfim, as mulheres em geral”.

 

*A entrevista está publicada na integra, respeitando as peculiaridades da linguagem utilizada pela entrevistada.

 

CRP-PR: Você viveu o processo de transição há alguns anos e passou por dificuldades. Quais são os maiores desafios enfrentados por pessoas que decidem passar pelo processo de transição?

Jacque: Como você mencionou, eu passei pelo processo de transição, incluindo a redesignação genital, no período de 1998 a 2002, ou seja, há quase 20 anos. Os tempos eram outros, as conjunturas social, política e cultural eram distintas. O processo de transição era mantido sob o apoio de um programa de estudos e pesquisas do HC [Hospital de Clínicas]. Portanto, eram outros os desafios. Mas acho que o que continua igual é a questão do reduzido número de serviços de saúde e de assistência psicossocial especializados. No Brasil, há poucos ambulatórios TT (Travestis e Transexuais) para acolher a população trans. Temos muitos estigmas, pouco conhecimento a respeito da diversidade sexual e das demandas relacionadas às identidades de gênero. É necessário e urgente ampliar a assistência para todo o país, incluindo a atenção integral às pessoas trans em toda a rede de saúde, contemplando as diferentes regiões brasileiras.

 

Você ainda enfrenta dificuldades hoje em dia? Quais?

Sim. O estigma e o preconceito estão presentes nos segmentos conservadores. O Brasil (o mundo, na verdade) vive um momento muito reacionário, de violência, de intolerância e de posturas fundamentalistas que colaboram para aumentar os discursos de ódio e a exclusão social, portanto, as vulnerabilidades aumentam, quer sejam elas individuais ou institucionais. Tudo isso impacta negativamente na educação sobre temas como sexualidade humana, racismo, violência contra as mulheres. Há uma banalização da vida humana e dos direitos cidadãos. Eu, particularmente, sou hoje uma mãe trans. Tenho que lidar com o ambiente escolar de meus filhos, os ambientes sociais, e aos poucos vamos incidindo com referências como esta.

 

Você passa/passou por terapia psicológica. Como você avalia a importância da Psicologia nos processos de transexualização e também na manutenção da saúde mental?

Avalio como fundamental. Foi a área do Programa de Transexualidade do HC de São Paulo, no departamento de endocrinologia do desenvolvimento, que melhor me acolheu, entendeu e “deu conta” da subjetividade de cada um(a) de nós. Ainda assim, há muito que caminhar, há que se abrir as perspectivas para a compreensão dos processos subjetivos e das diferenças nas identidades humanas, digo aqui, especialmente, no campo da sexualidade e da identidade de gênero. A promoção da saúde mental é crucial para todxs nós. Ainda há poucxs profissionais preparadxs para lidar com tamanha diversidade, faltam instrumentais apropriados, formação profissional, mas encontramos profissionais comprometidxs, dispostxs a colaborar e que buscam conhecimentos a partir da prática.

 

Você passou por um processo de adoção. Sentiu algum preconceito ou impedimento por ser mulher trans? A adoção é uma realidade igual para todos?

Acho que meu caso foi específico. Eu já era uma mulher trans redesignada, com toda a documentação regularizada no feminino e casada no civil com meu marido.  Portanto, entramos com pedido de adoção no cadastro nacional como pais “cisgêneros”, ou seja, não precisei expor minha intimidade ou minha vida. Suponho que a equipe deve ter pesquisado, mas tivemos todo apoio, inclusive os processos foram relativamente fáceis, ainda que extremamente severos e cheios de exigências. Na Vara da Infância, havia pessoas assumidamente gays e lésbicas, e não vi preconceito por parte da equipe da Vara. Agora, você encontra “curiosidades”, olhares estranhos que revelam o preconceito da rede como um todo, dos abrigos, das pessoas que lá trabalham, mas de uma forma velada, camuflada. Essa foi minha experiência e impressões. Não posso falar das outras mulheres ou homens trans num processo de adoção, mas pelo que vivenciei, é possível.

 

Há algum tempo fala-se mais do tema da transexualidade. Você acha que já avançamos nesta questão ou ainda estamos engatinhando em questão de direitos, preconceitos, acesso a serviços de saúde, etc.? Por quê?

Fala-se mais. Como dizemos por aí, estamos nas vitrines. O tema está em evidência. Mas, isso não quer dizer que o preconceito diminuiu, que os serviços de saúde aumentaram ou que os programas sociais melhoraram, ao contrário, pioraram ao meu ver. Fala-se mais, busca-se maior compreensão, e acho que é esse o caminho, porém e necessário mudar as mentalidades, abrir mentes e corações para a diversidade, enfrentar o machismo e a homofobia. Esse é um trabalho cotidiano e contínuo. Precisamos de iniciativas do poder público, do setor privado, especialmente na área de educação, saúde, trabalho e renda.  Grande parte das pessoas trans foram excluídas da escola, o que compromete a qualificação profissional e contribui para a exclusão do mercado de trabalho. Ainda somos vistas como inferiores (pessoas menores). É preciso provar a competência, seriedade, responsabilidade, enfim, provar que somos como qualquer cidadã e cidadão com direitos e deveres.  É preciso humanizar as pessoas trans; promover a convivência da sociedade com a comunidade trans em espaços sociais, de trabalho, públicos. Precisamos de mais e mais referências trans, diversas. Na minha época, eu só tinha as referências de Rogéria e Roberta Close, maravilhosas mulheres trans, por sinal. Ainda estamos engatinhando, antes estávamos aprisionadxs.

 

De uns anos para cá, a questão dos direitos da mulher, do empoderamento feminino, está mais em pauta do que nunca. O que você considera crítico na sociedade no que tange à mulher e como devemos lutar para chegar à tão sonhada igualdade.

Considero que as mulheres conseguiram avanços nas últimas décadas graças ao movimento de mulheres e feministas e as lutas cotidianas das mulheres individualmente, mas apesar disso existem muitas disparidades no mercado de trabalho, na participação política, na divisão do trabalho doméstico, entre outras.  Ressalto que as desigualdades tendem a se aprofundar quando as mulheres são pobres e negras. O número de mulheres na política ainda é pouco. As mulheres ainda enfrentam muitas dificuldades para negociar o uso da camisinha nas relações sexuais. Os cargos de chefia das grandes empresas são, em geral, ocupados por homens, que também ganham os melhores salários. Agora, com esta proposta de reforma da previdência, querem equiparar a idade de aposentadoria para homens e mulheres, como se a mulher não tivesse uma jornada muito mais longa, por responsabilizar-se também pelo trabalho doméstico e a reprodução, em decorrência de padrões hegemônicos de gênero. Ainda há o fator da dependência financeira do homem que concorre para a dependência psicológica e afetiva. Tem-se tido uma reação muito agressiva ao empoderamento das mulheres, como, por exemplo, nos casos de estupros coletivos que têm acontecido no país, nos assassinatos de mulheres que se separam. Somos assassinadas, estupradas pelo fato de sermos mulheres e por estarmos em uma sociedade com padrões de comportamento que naturalizam e banalizam a violência contra as mulheres.  Na minha perspectiva, temos que fortalecer as resistências individuais e agir coletivamente para a igualdade de gênero. A militância é fundamental para garantir direitos e contagiar positivamente a sociedade para as mudanças de comportamentos. Incluir o tema de gênero nas escolas não deve ser visto com temor, mas como uma forma de humanizar as relações e garantir a cidadania das mulheres. Considero essencial iniciativas como essa do CRP do Paraná de pautar o debate para a Psicologia e para a sociedade.

 

Que mensagem você, como uma ativista, deixaria para as mulheres que ainda lutam por uma série de direitos fundamentais?

Temos que lutar cada vez mais, conquistar mais espaços de poder, de formação de opinião, de gestão. Reconhecer o trabalho, as produções das mulheres. É preciso mais educação para nosso fortalecimento e empoderamento, para a conquista da equidade. Temos que seguir em frente, lutar, resistir, falar, gritar, mostrar a cara, reforçar a solidariedade entre as mulheres. Não dá para vivermos uma vida de faz de conta, é indispensável descontruir estereótipos e contribuir para a mudança de mentalidade. Somos resistentes, mulheres cis ou trans, enfim, as mulheres em geral.

 

Se você fosse resumir em uma frase, defina ‘ser mulher’ nos dias de hoje, com todos os desafios e vivências.

Exercício por uma vida com liberdade de direitos e dignidade.

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