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Interculturalidade e saúde mental: o papel de profissionais da Psicologia contexto migratório

Descrição de imagem: texto: datas celebram população migrante e refugiada. Imagem: dois homens de camisa bege segurando sacolas nas mão e ombros, um deles dá a mão para uma criança de vestido laranja; na frente está uma mulher de vestido verde e lenço, com uma mala na cabeça. Símbolo do CRP-PR no canto inferior direito.

Nos últimos anos, houve um aumento significativo nos eventos migratórios e deslocamentos populacionais que, em muitos casos, estiveram relacionados à produção de sofrimento, traumas e perdas. Além dos conflitos mais recentes na Palestina, milhões de pessoas foram obrigadas a abandonar tudo devido a confrontos em diversas regiões, como Ucrânia, Síria, Iêmen, República Centro-Africana, República Democrática do Congo, Sudão, Etiópia e Mianmar, de acordo com o World Migration Report 2024 (Relatório Mundial de Migração), publicado pela Organização Internacional para Migração (OIM) (acesse aqui). 

Os desastres climáticos e eventos relacionados ao clima também desencadearam deslocamentos em massa: Paquistão, Filipinas, China, Índia, Bangladesh, Colômbia e inclusive o Brasil estão entre os países mais afetados por estes eventos (informações do Relatório Mundial de Migração). Ainda, terremotos de grande magnitude atingiram, em 2023, o sudeste da Turquia e o norte da República Árabe da Síria, causando mais de 50 mil mortes. Mais recentemente, o deslizamento de terra em Papua Nova Guiné também levou à morte de pessoas moradoras do vilarejo Yambali.

Segundo o relatório, a migração também vem sendo utilizada como instrumento político em algumas democracias. A oposição à imigração ou mesmo restrições à entrada de migrantes foram temáticas que influenciaram diretamente os resultados de algumas eleições, com destaque aos continentes europeu e norte-americano. O discurso nacionalista e o sentimento anti-imigração se mostram crescentes e também são observados em países periféricos, que enfrentam problemas econômicos e se encontram marginalizados em relação às grandes potências, como Norte e Sul da África, Sudeste Asiático e Oriente Médio. No entanto, a migração é um fenômeno diversificado e não uniforme. Fatores como economia, geografia, demografia, entre outros, modificam e configuram os processos migratórios, resultando na formação de corredores migratórios com o passar dos anos.

É a partir dessa complexidade multifatorial, portanto, que a Psicologia se insere na problemática a partir de sua prática clínica, na atenção primária, em intervenções políticas e na pesquisa acadêmica. No contexto brasileiro, diversas são as organizações sociais, instituições públicas e atividades universitárias dedicadas ao estudo e prática na área. O encontro entre a pessoa imigrante e aquela que reside no país em que nasceu pode gerar uma série de tensionamentos, não somente culturais, mas também subjetivos. 

A partir disso, profissionais de Psicologia que se proponham a trabalhar diretamente com esta população deverão saber que encontrarão neste indivíduo um ser humano complexo, não redutível à sua nacionalidade, religião, cor ou etnia, e que está em constante conflito com a cultura local, a qual pode ser acolhedora ou rechaçar a sua presença.

Assim, é usual que a parte da categoria que trabalha nesta área de atuação esteja de alguma forma vinculada a alguma instituição nos moldes anteriormente citados. As organizações sociais são importantes agentes no que chamamos de Rede de Proteção a Pessoas Migrantes e Refugiadas, realizando, normalmente, atendimentos diretos com a população migrante e importantes articulações com a rede pública, para o desenvolvimento de ações pontuais ou para fortalecer políticas públicas já existentes. Por sua vez, são as instituições públicas as maiores responsáveis pela manutenção das supracitadas políticas e pela garantia do direito ao acesso de pessoas imigrantes e refugiadas aos sistemas públicos. 

Neste contexto, profissionais da Psicologia assumem não apenas uma posição na ponta do sistema, mas também uma importante função no treinamento e sensibilização de demais agentes. As universidades, por sua vez, têm um papel fundamental na construção de conhecimentos especializados para o trabalho com esse grupo e na garantia de vagas para pessoas imigrantes e refugiadas. Essa formação se dá, muitas vezes, por meio da pesquisa, da extensão universitária e de uma formação profissional sensível, bem como, em diversos casos, a partir de uma atuação direta com a população.

A migração, enquanto um processo crítico destrutivo, gera sofrimento psíquico devido ao rompimento com os laços familiares, de amizades e cultura, fazendo com que o adoecimento latente da pessoa migrante se manifeste especialmente no país de acolhimento. A representação da vulnerabilidade psicológica como uma característica intrínseca de quem migra não considera a relação entre sofrimento individual e a experiência de exclusão, marginalização social, discriminação, racismo, preconceito e condições precárias de moradia e trabalho, entre outros. Diante disso, cabe perguntar: como uma pessoa migrante pode explicar o seu sofrimento, seja ele físico ou psicológico, quando ela e quem a atende não compartilham a mesma língua e cultura? 

A professora Michele Vatz Laaroussi traz subsídios importantes para essa resposta, ao dizer que “a falta de compreensão entre duas culturas diferentes gera uma tensão linguística, cultural, política, religiosa, geracional, geográfica e social”. A autora destaca a importância da mediação intercultural no acolhimento de pessoas migrantes e refugiadas, pois, devido à sua função e particularidade, essa mediação oferece uma preparação humana, cultural e profissional que desenvolve competências adequadas para atender a essas demandas.

Você tem dúvidas ou interesse sobre o atendimento a pessoas migrantes e refugiadas? Acesse o Guia de Orientações do CRP-PR, que tem um tópico específico disponível no botão abaixo:

Para ler e saber mais

Confira abaixo as referências completas deste artigo:

McAULIFFE, M.; OUCHO, L. A. (orgs.). World Migration Report 2024. Geneva: International Organization for Migration (IOM), 2024. Disponível em https://publications.iom.int/books/world-migration-report-2024

LAAROUSSI,Vatz Michèle: La mediation Interculturelle Université de Sherbrook Quebéc-Canada. Espace Dialogue, 2022.

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