Nos últimos anos, houve um aumento significativo nos eventos migratórios e deslocamentos populacionais, que em muitos casos estiveram relacionados à produção de sofrimento, traumas e perdas. Além dos conflitos mais recentes na Palestina, milhões de pessoas foram obrigadas a abandonar tudo devido a confrontos em diversas regiões, como Ucrânia, Síria, Iêmen, República Centro-Africana, República Democrática do Congo, Sudão, Etiópia e Mianmar (McAULIFFE; OUCHO, 2024). Os desastres climáticos e eventos relacionados ao clima também desencadearam deslocamentos em massa, como no Paquistão, Filipinas, China, Índia, Bangladesh, Colômbia e inclusive o Brasil estão entre os países mais afetados por estes eventos (McAULIFFE; OUCHO, 2024). Em 2023, terremotos de grande magnitude atingiram o sudeste da Turquia e o norte da República Árabe da Síria, causando mais de 50.000 mortes. Mais recentemente, o deslizamento de terra em Papua Nova Guiné também levou à morte de moradores do vilarejo Yambali.
Conforme o Migration Report da Organização Internacional para as Migrações (OIM), a migração também vem sendo utilizada como instrumento político em algumas democracias (McAULIFFE; OUCHO, 2024). A oposição à imigração ou mesmo restrições à entrada de migrantes foram temáticas que influenciaram diretamente os resultados de algumas eleições, com destaque ao continente europeu e norteamericano. O discurso nacionalista e o sentimento anti-imigrante se mostram crescentes, e também são observados em países periféricos, que enfrentam problemas econômicos e encontram-se marginalizados em relação às grandes potências, como Norte e Sul da África, Sudeste Asiático e Oriente Médio (McAULIFFE; OUCHO, 2024). No entanto, a migração é um fenômeno diversificado e não uniforme. Fatores como economia, geografia, demografia, entre outros modificam e configuram os processos migratórios, resultando na formação de corredores migratórios com o passar dos anos.
É a partir dessa complexidade multifatorial, portanto, que a Psicologia se insere na problemática a partir de sua prática clínica, na atenção primária, em intervenções políticas e na pesquisa acadêmica. No contexto brasileiro, diversas são as organizações sociais, instituições públicas e atividades universitárias dedicadas ao estudo e prática na área. Conforme melhor explorado a frente, o encontro entre o imigrante e o nacional pode gerar uma série de tensionamentos, não somente culturais, mas também subjetivos. A partir disso, a pessoa psicóloga que se propor a trabalhar diretamente com esta população deverá estar advertido que encontrará neste indivíduo um ser humano complexo, não redutível à sua nacionalidade, religião, raça, classe social, cor etnia ou gênero, que está em constante conflito com uma cultura local que pode acolhê-lo ou rechaça-lo.
Como atuar nesse contexto
Assim, é usual que a pessoa psicóloga que trabalha nesta área de atuação esteja de alguma forma vinculado a alguma instituição nos moldes anteriormente citados. As organizações sociais são importantes agentes no que chamamos de Rede de Proteção a Migrantes e Refugiados realizando, normalmente, atendimentos diretos com a população migrante e importantes articulações com a rede pública para o desenvolvimento de ações pontuais ou para fortalecer políticas públicas já existentes. Por sua vez, são as instituições públicas as maiores responsáveis pela manutenção das supracitadas políticas e pela garantia do direito ao acesso de imigrantes e refugiados aos sistemas públicos. Aqui, a pessoa psicóloga assume não apenas uma posição na ponta do sistema, mas também uma importante função no treinamento e sensibilização de outros agentes.
Dentro do Conselho Regional de Psicologia do Paraná, vinculado à Comissão de Direitos Humanos, temos o Núcleo de Psicologia e Migrações (NUPSIM), que atua diretamente na promoção e proteção dos direitos de imigrantes, refugiados e apátridas. O núcleo tem desenvolvido ações de sensibilização, conscientização e orientação a profissionais da rede sobre a questão migratória e a saúde mental das pessoas migrantes. Também atua articulando diálogos para o combate à discriminação, ao racismo e à xenofobia. Além disso, realiza a elaboração de documentos orientativos para profissionais da Psicologia e da rede, e participa de espaços de formulação de políticas públicas voltadas à promoção dos direitos e da cidadania da população migrante.
As universidades, por sua vez, têm um papel fundamental na construção de conhecimentos especializados para o trabalho com esse grupo, e na garantia de vagas para imigrantes e refugiados. Essa formação se dá muitas vezes, por meio da pesquisa, da extensão universitária e de uma formação profissional sensível, em diversos casos também atua diretamente com a população.
A migração, enquanto um processo crítico destrutivo, gera sofrimento psíquico devido ao rompimento com os laços familiares, amizades e cultura, fazendo com que o adoecimento latente do migrante se manifeste especialmente no país de acolhimento. A representação da vulnerabilidade psicológica como uma característica intrínseca dos migrantes não considera a relação entre sofrimento individual e a experiência de exclusão, marginalização social, discriminação, racismo, preconceito e condições precárias de moradia e trabalho, entre outros. Diante disso, cabe perguntar como um imigrante pode explicar o seu sofrimento, seja ele físico ou psicológico, quando ele e o profissional que o atende não compartilham a mesma língua e cultura? Para responder essa pergunta faz-se necessário referir à professora Michele Vatz Laaroussi que disse: “a falta de compreensão entre duas culturas diferentes gera uma tensão linguística, cultural, política, religiosa, geracional, geográfica e social”. A autora destaca a importância da mediação intercultural no acolhimento de imigrantes e refugiados, pois, devido à sua função e particularidade, essa mediação oferece uma preparação humana, cultural e profissional que desenvolve competências adequadas para atender a essas demandas.
Se profissionais da Psicologia tiverem dúvidas ou interesse sobre o atendimento de migrantes, é possível acessar o guia de orientações do CRP-PR, neste link: Guia de Orientação – Atendimento Psicológico a Imigrantes
Referências:
McAULIFFE, M.; OUCHO, L. A. (orgs.). World Migration Report 2024. Geneva: International Organization for Migration (IOM), 2024. Disponível em https://publications.iom.int/books/world-migration-report-2024
LAAROUSSI,Vatz Michèle: La mediation Interculturelle Université de Sherbrook Quebéc-Canada. Espace Dialogue, 2022.
Texto produzido pelo Núcleo de Psicologia e Migrações do Conselho Regional de Psicologia do Paraná.