Notícia

Imigrantes, refugiados e apátridas

O número de refugiados reconhecidos no Brasil cresceu, de 2010 até outubro de 2014, de 4.357 para 7.289, segundo dados da Agência da ONU para Refugiados. São pessoas que procuram no país um novo lar, longe das guerras – como é o caso dos sírios, cada vez em maior número e hoje maioria dos refugiados em terras brasileiras –, da miséria, dos desastres naturais e de tantas outras mazelas que enfrentam em suas terras-mãe. Uma vez dentro do país de que tanto ouviram falar – “país alegre, festivo e hospitaleiro” –, os estrangeiros se veem distantes de seus lares e de sua cultura. E, muitas vezes, ainda enfrentam xenofobia e violência – física, verbal e também a própria violência da não inclusão.

A humanidade sempre esteve em movimento. As migrações se intensificaram nos últimos anos devido às guerras, dificuldades econômicas e catástrofes climáticas – a Organização Internacional para Migração estima que, em 2010, 214 milhões de pessoas (ou 3,1% da população mundial) eram migrantes. A “família humana” se mescla em cultura, linguagem e etnia. Essa diversidade nos torna mais humanos, enriquece-nos.

Algumas pessoas saem do Brasil, outras chegam aqui buscando melhores condições de vida. Isso move as pessoas. Mas nem sempre sabemos o que o exílio representa na existência e na alma desses indivíduos, que deixam para trás laços afetivos e referências culturais e enfrentam o desconhecido em um choque cultural que lhes causa sofrimento. A adaptação à nova realidade é agravada pela dificuldade de quem os recebe em aceitar o diferente, por preconceitos de diversos matizes, ou mesmo pelo sentimento de medo e invasão com a chegada de pessoas com “estranhos” costumes, culturas e conhecimentos.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1948, dirige-se à “família humana” e seus direitos inalienáveis de liberdade, justiça e paz. Infelizmente, o que temos visto fere frontalmente estes princípios. A Comissão de Direitos Humanos do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) ouviu imigrantes e refugiados que testemunharam desrespeito, preconceito, discriminação, violência. E, embora o racismo seja crime no Brasil, isso tem se manifestado com uma frequência absurda.

Imigrantes, refugiados e apátridas têm sido alvo de preconceitos em um país que foi construído com o suor de pessoas escravizadas (negros e indígenas), imigrantes e refugiados de muitas nacionalidades. Somos um povo novo, plural, mestiço; por isso, carregamos um potencial criativo impressionante. Nossa alegria contagia outros povos, com os quais temos muito que aprender e muito a ensinar. A imensidão territorial e as potencialidades naturais e culturais do Brasil não apenas nos autorizam, mas também nos comprometem a acolher as pessoas que aqui chegam.O que nos faz diferentes, se não as fronteiras e muros construídos artificialmente? É preciso construir a solidariedade e o respeito às diferenças. É urgente resgatarmos nossa capacidade de diálogo e solidariedade, e abraçar as pessoas que chegam de qualquer outro lugar do mundo como irmãos que fazem parte da mesma “família humana”.

Cleia Oliveira Cunha é presidente do Conselho Regional de Psicologia do Paraná.

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