Notícia

Terceiro dia do XVII EPP tem palestra de Casé Angatu e mensagem: outro mundo, onde cabem vários mundos, já é possível

Após apresentação do Psicólogo Jefferson Olivatto da Silva (CRP-08/13918), que é membro da Comissão Étnico-Racial do CRP-PR e destacou a importância desta Comissão como espaço de partilha e luta contra o racismo, Casé Angatu, indígena da Aldeia Gwarini Taba Atã e professor de pós-graduação da Universidade Federal do Sul da Bahia e da Universidade Estadual de Santa Cruz, trouxe ao XVII Encontro Paranaense de Psicologia (XVII EPP) uma das falas mais potentes e transformadoras do evento, intitulada “Já somos outros mundos possíveis onde cabem muitos mundos: îandê iané ara masuí xukui amó ara”.

Sua apresentação foi uma aula sobre a cultura dos povos originários, com direito a músicas e poesias cantadas em língua tupi, cantos de resistência, que passaram pela tela do computador a beleza e energia da luta também representada pelas suas pinturas guerreiras – muito comuns em tempos desafiadores como o que vivemos. “Não sou alto, mas sou grande como meu povo na defesa dos nossos direitos”, disse em sua audiodescrição, feita por razões de acessibilidade.

Casé é morador do território Tupinanbá Olivença, em Ilhéus, Bahia, a beira do mar onde começaram as invasões europeias, segundo pontuou, e perto da Mata Atlântica e de todos os seres não humanos: animais, rios, mares, pedras. Pós-doutorando em Psicologia pela UNESP, dialogou com o tema do evento (Cultivar o futuro agora: a Psicologia diante das políticas de subjetivação (im)possíveis) trazendo a força do seu povo. “Nós indígenas falamos pela e com a natureza. Nós queremos a terra porque nós somos a terra. Se nós perdemos a terra, o território, muito daquilo que vocês acham bonito se perde.”

Diante de ataques aos seus territórios e modos de vida, genocídio, etnocídio, ecocídio (tudo aquilo que já afeta os povos indígenas há 521 anos e que agora se intensifica diante de uma política de destruição), povos como o de Casé não se subjugam. Vivendo na transitoriedade do mundo – “nossas casas são de barro, duram cinco anos, e depois reconstruímos”, ele contou – o professor falou das lutas coletivas, e de que a tristeza não deve se instalar, mas sim a luta. “Nós somos protagonistas de nossos pensamentos e nossas ações. Não deixamos para o porvir porque nós já somos essa outra possibilidade, nós já somos esse outro mundo possível. Já somos o porvir, e não ficamos esperando por ele.”

Assim, entre muitas palavras potentes, dotadas de um conhecimento ancestral que impactou de maneira profunda muitas pessoas presentes no evento, Casé Angatu deixou uma das mais belas mensagens deste terceiro dia do XVII EPP: “Um outro mundo possível, ondem cabem vários mundos que não está só no ‘por vir’, mas que já existe, resiste e (re)existe, e isto incomoda. Quem sabe podemos colaborar com a Psicologia na construção de subjetivações (im)possíveis e já existentes.”

Outras atividades

Antes da palestra magna, muitas outras atividades aconteceram durante o terceiro dia do evento. Alguns temas pouco explorados da Psicologia ganharam os debates em minicursos e mesas-redondas, como a Psicologia Forense e a Psicologia Anomalística e da Religião. Além disso, áreas que unem muitas(os) profissionais em lutas históricas, como a Luta Antimanicomial e a Redução de Danos, antirracista e contra as violências de gênero e sexualidades, entre outras, foram aprofundadas com participantes atentas(os) e participativas. Debates bastante atuais ajudaram Psicólogas(os) e estudantes a evoluir em suas práticas profissionais em áreas como a Psicologia Escolar e do Esporte. Por fim, um importante espaço de diálogo e construção coletiva foi aberto com os Fóruns de Supervisoras(es) de Estágio e Responsáveis Técnicas(os) por Clínicas-Escola de Psicologia e o Fórum de Estudantes de Psicologia.

 

O show não pode parar

A apresentação cultural desta noite foi um momento leve, mas dotado de muitas reflexões. O espetáculo circense “O show não pode parar”, gravado pelas(os) artistas Marina Prado e Fábio Salgueiro, propôs trazer questões da nossa vida para o palco, com muito humor e descontração. Com o apoio de sua companheira de picadeiro, o palhaço Rebite precisa superar seus medos e inseguranças para mostrar o que faz de melhor: muitas acrobacias, malabarismos, dança e arte! Afinal, como nos contou Marina, a arte circense é a repetição contínua para que entendamos a vida!