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Dia de Finados: um momento para transformar a dor em saudade

O menino Caju morava com o pai, Beto, e com o seu cãozinho Tatau. A mãe de Caju já tinha indo embora há muito tempo. O garoto não sabia muito o que sentir sobre isso, mas sentia muito amor. Um dia, o pai de Caju explicou que estava na hora de Tatau ir embora também. Triste e com uma dor muito grande, além de sentimentos que não entendia, Caju vai em busca de um presente para Tatau. No caminho, ele entende um pouco mais sobre o que é a morte.

 

Essa é a história do livro “Uma Flor para Tatau” de Allan Martins Mohr (CRP-08/13155), publicado em 2018 pela Editora InVerso. Escrita de uma vez só em uma noite, a obra teve uma motivação pessoal do autor de tentar elaborar as próprias questões relacionadas à morte e à paternidade naquele momento de sua vida, já que seu pai faleceu em 2015 e seu filho nasceu em 2017. Inclusive, o pai do personagem principal tem o mesmo nome do pai de Allan, Beto. Além disso, o doutorado em filosofia do autor (com o título “O problema da autonomia na psicanálise: o ser e a morte) abordou o mesmo assunto.

 

Um dos objetivos do livro é colaborar no momento de explicar a morte de um ente querido para uma criança, ajudando a elaborar os medos em relação ao tema. A narrativa ainda propõe uma reflexão sobre o que é a morte, enquanto uma definição que não se fecha. Sobre isso, a personagem Dona Coruja explica a Caju que a morte é algo impossível de se colocar em palavras, mas que é possível conviver com ela.

 

“Uma Flor para Tatau” também tem o propósito de ser um instrumento na clínica psicológica. O autor já recebeu retornos positivos de colegas que já o utilizaram para esse fim e em sala de aula. Allan chegou a receber cerca de 20 cartinhas de estudantes do 5° ano de uma matéria de redação, nas quais as crianças comentaram sobre o livro, sobre as suas próprias perdas e identificações com a história.

 

Lidar com a morte também é complicado para os adultos, uma vez que falar sobre ela continua um tabu na sociedade. Allan coloca que os responsáveis de uma criança tendem a protegê-la do tema porque eles próprios não sabem lidar com a morte: “É um ato egoísta do adulto. É preciso que ele se organize primeiro em relação a isso, para depois conseguir abrir um espaço de fala para a criança”.

 

Para ajudar uma criança a organizar os seus sentimentos em relação à morte, Allan explica que é preciso respeitar o momento dela e observar como ela está lidando com isso. É importante conversar com a criança com cuidado e promover um espaço para que ela fale sobre o que sente, sobre a tristeza, sobre a raiva e, muitas vezes, sobre o sentimento de culpa que pode surgir, como se ela tivesse feito algo errado que resultou naquela morte. Allan coloca que, em geral, os adultos depositam suas próprias questões nas crianças e tentam dar sentidos com o “olhar de adulto” – como “a pessoa foi para o céu, virou estrelinha” –, mas que as crianças têm jeitos próprios de elaborar o luto. Os sentidos podem sustentar em alguns casos, mas podem gerar questionamentos em outros.

 

Nesse Dia de Finados, 2 de novembro, por mais dolorido que seja, Allan ressalta a importância de se autorizar a viver o luto e a transformar a dor em saudade. “Com as crianças que sofreram perdas, é importante mostrar que os adultos também sentem saudade e ficam tristes com a morte. É um sentimento humano”, finaliza o Psicólogo.

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