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Reflexões sobre educação no contexto de pandemia

No dia 28 de abril celebra-se o Dia Mundial da Educação. Neste contexto de pandemia do coronavírus, as Comissões de Psicologia e Educação do Conselho Regional de Psicologia do Paraná trazem algumas reflexões sobre os impactos deste cenário para as práticas escolares.

 

Em primeiro lugar, há de se reconhecer a gravidade do cenário, os riscos trazidos pela doença e a necessidade de cuidados como o distanciamento social para contenção do contágio. A preocupação primeira agora é a manutenção da vida, da saúde, a sobrevivência, o que já exige grandes esforços de toda a sociedade.

 

Nesse sentido, escolas, centros de educação infantil, universidades e outras instituições de ensino precisaram suspender as atividades presenciais como medida de responsabilidade pela preservação da saúde coletiva.

 

Sendo assim, instalou-se em todo país um panorama de promoção de aulas remotas, atividades a distância, online, o que traz uma série de preocupações. A utilização das tecnologias digitais de informação e comunicação não é, por si só, algo ruim ao processo educativo. Se bem integradas ao planejamento pedagógico, podem ser interessantes recursos de trabalho. Contudo, há de haver método, intencionalidade, complementaridade e estrutura para que sejam utilizadas. Do contrário, o uso das tecnologias não servirá para uma expansão das possibilidades de aprendizagem, mas como precarização do ensino.

 

São as principais preocupações que o uso desmedido dos recursos de ensino a distância tem causado:

 

– A falta de estrutura e condições de acesso às atividades remotas por parte de estudantes em diferentes contextos sociais. Desse modo, a educação remota provoca um aprofundamento das desigualdades de condições e, em última análise, da exclusão.

 

– A dificuldade das famílias na promoção e acompanhamento das atividades escolares de crianças e adolescentes, sobrecarregadas que estão com as tarefas domésticas, tentativa de manutenção do sustento, a preocupação com a doença e mesmo situações de luto. Nesse sentido, constatam-se diversos problemas práticos na rotina familiar e emocionais que as propostas de educação a distância têm causado.

 

– A falta de capacidade das escolas de acompanhamento das diferentes necessidades educacionais das(os) estudantes; falta de condições de interação com o público da educação especial na perspectiva da educação inclusiva.

 

– Grande preocupação com processos de alfabetização a distância, para os quais não há metodologia suficientemente aprofundada e difundida.

 

– Percebe-se que na maioria das vezes não há participação de educadoras(es) na definição da metodologia a ser utilizada para o ensino. As equipes docentes frequentemente não são envolvidas na proposição de estratégias, formas, tempos e conteúdos que podem ou não ser trabalhados de maneira remota.

 

– A enorme exigência que se impõe às(aos) profissionais da educação, tanto no que diz respeito às expertises para promoção de aulas online, preparação de conteúdos para uso remoto, quanto de estrutura física, material, tecnológica, rede de internet, tempo extra para execução de processos que são mais demorados do que sua carga horária remunerada contempla. Vale lembrar que estas(es) profissionais também estão sobrecarregadas(os) com o excesso de demandas e preocupações que o cenário de pandemia promove.

 

– Os danos emocionais que esse cenário promove a todos os sujeitos envolvidos, potencializando sentimentos como a angústia, a ansiedade, a sensação de pressão, de cobrança constante, de estafa.

 

– A preocupação se estende aos cursos de graduação. Especificamente no que se refere à formação em Psicologia, a Associação Brasileira de Ensino em Psicologia (ABEP), Conselho Federal de Psicologia (CFP) e Federação Nacional dos Psicólogos (Fenapsi) já se manifestaram pela impossibilidade da realização de determinadas atividades, como os estágios curriculares, de forma remota (confira a nota: site.cfp.org.br/coronavirus-orientacoes-sobre-atividades-academicas-na-graduacao-em-psicologia). O ensino da avaliação psicológica também merece especial atenção: site.cfp.org.br/nota-orientativa-sobre-ensino-da-avaliacao-psicologica-em-modalidade-remota-no-contexto-da-pandemia-de-covid-19.

 

Diante de todas essas dificuldades, com famílias, estudantes e instituições não dando conta da promoção da educação de forma remota, percebe-se grande pressão de setores da sociedade pelo retorno das atividades presenciais de ensino. Contudo, neste momento, o retorno é absolutamente precipitado, e tende a agravar ainda mais o cenário dos problemas de saúde, causando impactos mais severos tanto econômicos quanto sociais, emocionais, o aumento do número de casos da doença e de óbitos.

 

Cabe destacar que os dilemas apresentados não se encerram com a pandemia. Os modos com que passa a se admitir a promoção da educação formal deixam um grande lastro para extinção de serviços e condições de trabalho em função dos custos, mesmo quando os efeitos mais severos da pandemia passarem. Por exemplo, a promoção da educação presencial para jovens e adultos, que já vem sendo ameaçada em várias partes do país (e em especial no Paraná), caso extinta, ensejará grandes dificuldades para o público que dela necessita. Deste modo, o que se percebe é a acentuação da responsabilização do indivíduo por seu processo formativo, enquanto a responsabilidade da promoção de condições de ensino deveria ser do Estado e da sociedade como um todo. Ou seja, cria-se lastro para o mercado da educação a distância em favor do lucro e não da educação para a transformação social.

 

Por isso, o que se defende é a suspensão do calendário escolar como medida que causará menores prejuízos a todas as pessoas envolvidas, admitindo que não há condições para a manutenção dos conteúdos e objetivos curriculares neste momento singular pelo qual estamos passando.

 

Após o período dos efeitos mais severos da pandemia, poderá se verificar a viabilidade de reposição das aulas, ou mesmo a redução da carga horária do ano letivo. Há de se repensar a forma de educar, com a participação indispensável das(os) professoras(es) neste processo. Assim, poderão se desenvolver outras propostas pedagógicas, projetos integradores, transversalidade de conteúdos, atividades conjuntas entre diferentes séries, turmas, disciplinas.

 

Nesse sentido, a escola (e as instituições de educação, em geral) poderá manter vínculos com a comunidade educativa, promovendo momentos de troca, de integração e de apoio conforme suas possibilidades e considerando a disponibilidade de cada família, mas não sob uma perspectiva conteudista, voltada a resultados, à produtividade.

 

Sendo assim, neste Dia Mundial da Educação, vale lembrar:

A educação não é descolada da vida. Não se pode reduzir a educação a uma perspectiva conteudista, como se as disciplinas escolares fossem a parte mais relevante do processo.

 

Tão importante quanto a aquisição de conhecimentos historicamente sistematizados é função da educação a promoção da socialização, da inclusão, da solidariedade, da diversidade, de uma perspectiva crítica de mundo. A criação de novas perspectivas, novos papéis sociais.

 

Sendo assim, há muita aprendizagem no contexto que vivemos. Estamos aprendendo sobre nós mesmos, sobre as relações sociais, familiares, as dinâmicas da vida em sociedade, a necessidade do cuidado coletivo com a saúde. São aprendizagens significativas que deverão contribuir para ressignificar o papel da escola.

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