No dia 14 de agosto de 2005, 121 pessoas decolaram rumo a Atenas, na Grécia, com diferentes propósitos: visitar familiares, tirar férias, viajar a negócios e cumprir compromissos. Mas, infelizmente, elas nunca chegaram ao destino. O que aconteceu?
O caso ficou conhecido como o voo fantasma: um Boeing que sobrevoou por aproximadamente duas horas com todas as pessoas passageiras e tripulantes inconscientes. De acordo com reportagens, podcasts e artigos que relatam o acidente, a principal explicação gira em torno de uma possível falha nas portas traseiras da aeronave, registrada em relatórios anteriores e que havia passado por inspeções. Um dia antes do voo, um engenheiro de solo realizou testes de pressurização e, ao final da inspeção, deixou o seletor no modo manual, quando o correto seria deixá-lo no modo automático.
Na minha pesquisa por notícias sobre acidentes de trabalho, me deparei com essa história, que de primeiro momento me causou agonia, aquele aperto que passa pelo peito e parece que vai sair pela boca. Acidentes assim nos chocam pela proporção, mas, mais do que os grandes desastres, o que me atravessa é o pensamento nos tantos outros pequenos acidentes do cotidiano que raramente estampam manchetes, mas que mudam vidas, interrompem sonhos, geram medo e exigem longos caminhos de superação.
A palavra acidente vem do latim “accidens, accidentis”, derivada do verbo “accidere”, formado por “ad-” (em direção a) e “cadere” (cair), ou seja “cair em direção”, algo que cai da direção normal. Para Aristóteles e Tomás de Aquino, acidente é tudo aquilo que não faz parte da essência, que não é natural ao curso da vida, mas que pode ocorrer, sem aviso. Por ser sem aviso, um acidente desorganiza uma vida, uma história e uma família. Erros de inspeção, baixo investimento em equipamentos de qualidade, manutenções precárias e relações tóxicas com a ausência de segurança psicológica, infelizmente, é a realidade de muitas empresas e pessoas trabalhadoras do nosso país.
Embora, na definição de Aristóteles, acidente seja algo antinatural do fluxo da vida, muitos acidentes antes de acontecerem dão sinais. Quais sinais?
– A ânsia por fazer mais, em menos tempo com menos investimento
– A comunicação truncada, carregada de não ditos que corroem a confiança
– A super autoconfiança que ignora os limites do corpo humano, dos equipamentos e da física
Entre o último fio da corda que arrebenta, muitos outros arrebentaram antes e talvez tenha sido visto por muitos, relatado por poucos e não corrigido por ninguém.
Quando falamos em acidentes de trabalho, a base fundamental é a segurança psicológica. Um ambiente em que se pode ser quem se é, permite que as pessoas levantem a mão e apontem falhas sem medo de serem julgadas ou de perderem o emprego. Segurança psicológica possibilita que os fatos sejam vistos de maneira clara, direta e livre de entraves de relações humanas.
Digo isso, pensando na teoria de Heinrich (1931), se as pessoas se sentissem seguras para relatar os quase acidentes, muitos dos acidentes graves poderiam ser evitados. Porque antes de um acidente grave acontecer, muitos pequenos incidentes já ocorreram. E se as pessoas tiverem liberdade para sinalizá-los, e consciência coletiva para agir sobre eles, muitos desastres podem ser evitados.
O que os números não nos mostram é o fator humano por trás de cada linha estatística: o quanto as pessoas se sentem à vontade para relatar erros, o quanto resistimos à mudança, o quanto a cultura organizacional favorece ou impede a melhoria contínua.
Fatores organizacionais como cultura, clima e estilo de liderança impactam diretamente na construção de ambientes seguros. E, para falar de prevenção de verdade, é necessário enxergar o ser humano na sua complexidade e subjetividade, como convida a atualização de 2024 da NR01, que reconhece o trabalhador como um sujeito biopsicossocial, trazendo para a mesa os riscos psicossociais. Não dá mais para ignorar os fatores invisíveis aos olhos: relações tóxicas, sobrecarga, desrespeito à autonomia e falta de capacitação.
Falar que está disponível, que é acolhedor, que cuida de pessoas é diferente de estar disponível, de cuidar verdadeiramente das pessoas como um ativo importante da empresa.
As pessoas não confiam apenas em palavras. Elas confiam em exemplos, em coerência, em atitudes que mostram que estão seguras para falar, mesmo quando não têm certeza de estarem certas. Porque prevenir acidentes não é só uma questão técnica. É, sobretudo, uma questão humana.
Texto produzido pela Comissão de Psicologia Organizacional e do Trabalho (CPOT) do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR).
Referências:
- https://g1.globo.com/mundo/noticia/2024/06/15/voo-fantasma-a-historia-do-helios-522-quevoou-sozinho-apos-pilotos-e-passageiros-ficarem-inconscientes.ghtml
- https://open.spotify.com/episode/5lMeV8LaXQlldmcRRcMmvC?si=8f1dca5b1d924a29
- https://www.scielo.br/j/prod/a/cSXRC8Kf6rzVZKzNQC5hdJz/?utm_source=chatgpt.com
- HEINRICH, H. W. Industrial Accident Prevention: A Scientific Approach. 1ª ed. New York: McGraw-Hill Book Company, 1931.