Em 28 de junho de 1969, no bar Stonewall Inn, em Nova Iorque, ocorreu uma rebelião contra a violência policial. Os frequentadores do bar se uniram para protestar contra a marcação de seus corpos, contra a criminalização de suas vivências e contra toda uma sociedade heterocisnormativa que era contra sua forma de existir e estar no mundo.
No Brasil, manifestações como estas começaram na década de 1990. Um dado curioso é que a primeira delas foi a Parada GLT (sigla usada na época para se referir a comunidade LGBTQIAPN+, incluindo na sigla gays, lésbicas e travestis), realizada em Curitiba, no dia 31 de janeiro de 1995. Na primeira edição do evento ocorrido na capital paranaense, cerca de 500 pessoas se reuniram para manifestar a favor dos direitos da população LGBTQIAPN+. Desde então, o evento é feito anualmente em Curitiba, mas chamado de Marcha pela Diversidade.
Os 30 anos de existência desse evento marcam a importância e a necessidade da continuidade da luta pela garantia do acesso a direitos e também pela celebração da possibilidade de uma existência digna dessa população frequentemente ainda marginalizada.
Resoluções do Conselho Federal de Psicologia
Escutar a luta em toda sua complexidade é necessário para compreender o papel político da Psicologia. Desde o final dos anos 90, com a Resolução CFP nº 01/1999, são instituídas normas de atuação para os profissionais da Psicologia em relação à orientação sexual. De lá pra cá, tivemos a Resolução CFP n° 01/2018, que estabelece normas quanto a atuação diante das transexualidades e travestilidades, visando a eliminação da transfobia e a ênfase no fato da identidade de gênero não ser uma patologia. Já nesta década, a Resolução CFP nº 08/2022, aprofunda orientações quanto à atuação e escuta das bissexualidades e demais orientações não monossexuais. Esses são alguns documentos que orientam a atuação ética de nossa classe profissional para com a diversidade de orientação sexual, identidade e expressão de gênero.
Nesse sentido, cabe a profissionais da Psicologia a apropriação desses documentos como forma de qualificar práticas e celebrar a diversidade, mas também o combate a práticas de “cura” para a população LGBTQIAPN+, que pode se dar por meio de queixas ou denúncias éticas diante da observação ou conhecimento de atuações incompatíveis com a diretrizes da nossa profissão. Nesse 28 de junho de 2025, gritamos novamente a plenos pulmões: não há cura para quem não está doente!
A atuação de profissionais de Psicologia
Atualmente, temos observado um crescimento das terapias afirmativas, que são, no âmbito da Psicologia, propostas de atendimento em Psicoterapia especialmente para pessoas LGBTQIAPN+. Geralmente, essas(es) profissionais buscam especializações e estudos específicos para lidar, no setting terapêutico, com demandas comuns a essa população.
É comum observarmos profissionais de Psicologia LGBTQIAPN+ oferecendo atendimento para outras pessoas LGBTQIAPN+ nas redes sociais. É interessante porque, além da importância de profissionais se autoafirmarem a respeito de suas orientações sexuais, identidades ou expressões de gênero, essas propostas possibilitam que pessoas que buscam o serviço de psicoterapia possam escolher uma pessoa profissional que, por estar apropriada do manejo de demandas específicas de determinado público, tende a realizar um atendimento adequado.
De todo modo, é importante destacar que pessoas cis e hétero também podem – e devem – atender pessoas LGBTQIAPN+, baseando-se sempre nos princípios éticos que regem a nossa profissão. É preciso levar em consideração que muitas dessas pessoas podem estar em sofrimento psíquico causado pelas práticas cisheteronormativas em nossa sociedade e com dificuldade de acesso aos serviços de saúde mental. Todo profissional da Psicologia precisa saber escutar vivências de orientação sexual e identidade de gênero de forma a compreender que essas formas de estar no mundo perpassam diariamente preconceitos, estigmatizações e violências específicas. Nesse sentido, não se faz necessário ser uma pessoa LGBTQIAPN+ para ser uma pessoa aliada. Que neste 28 de junho possamos reafirmar a necessidade de atenção e responsabilidade, por qualquer que seja o profissional de Psicologia, ao bem estar e existência digna da população LGBTQIAPN+. E lembrando: o orgulho também existe em resposta à opressão; não há cura para quem não está doente!
Texto produzido pela Comissão de Diversidade de Gênero e Sexualidade (Diverges) do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR).