Ao longo da história, as pessoas intersexo foram alvo de uma série de violências e negligências que marcaram suas existências enquanto sujeitos dentro da sociedade. Por serem corpos com características genéticas, hormonais e anatômicas que não se encaixam dentro dos padrões binários de sexo e gênero, há muito estabelecidos como dominantes dentro da sociedade, uma série de exclusões e violações de seus direitos foram e são até hoje reproduzidas — incluindo dentro do próprio sistema de saúde.
Neste domingo, 26 de outubro, data em que se celebra o Dia da Visibilidade Intersexo, o Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) reforça seu compromisso irrevogável para a garantia de direitos e reconhecimento a esta população. A Psicologia como ciência e profissão tem papel essencial nessa luta ao promover o combate aos preconceitos e discriminações, não apenas no contexto clínico, mas também no contexto social. Profissionais da Psicologia são responsáveis por promover a escuta empática e acolhimento de pessoas intersexo, além de contribuir para a promoção de políticas de equidade e inclusão.
Para promover o debate em torno do tema e trazer informações importantes para profissionais da Psicologia, o CRP-PR conversou com o psicólogo Junior Malinowski (CRP-08/40392), que possui pós-graduação em Sexualidade Humana, formação sobre Espectro de Gênero pela Universidade Médica de Stanford e em Saúde Sexual baseada no Prazer pelo programa My Pleasure Project.
O profissional, que atua na clínica psicológica pela abordagem do Psicodrama e na Terapia Cognitiva Sexual para indivíduos e casais, também cursa o currículo de Medicina Sexual da ISSM University e a formação em Terapia Cognitiva Sexual, além de ser pesquisador e palestrante nos temas de envelhecimento, sexualidade humana e educação em sexualidade.
O que significa ser uma pessoa intersexo e por que é importante que a Psicologia participe desse diálogo?
A intersexualidade refere-se às variações inatas nas características sexuais de uma pessoa, que podem ser cromossômicas, gonadais, hormonais ou anatômicas, que não se enquadram nas definições estabelecidas de feminino e masculino. Essas variações não são, portanto, patologias, mas expressões da diversidade corporal humana.
A Psicologia tem um papel importante na atuação clínica e social, entendendo que por muito tempo a intersexualidade foi alvo de violências médicas, cirurgias não consentidas, mutilações e práticas normativas baseadas em binarismos de gênero. Essas práticas reforçaram e ainda reforçam preconceitos e estigmas, que geram intenso sofrimento psíquico e dificuldades identitárias. A Psicologia deve se inserir aí, no acolhimento e fortalecimento das pessoas intersexo, na busca pela desmistificação e despreconceitualização da intersexualidade.
Como profissionais da Psicologia podem acolher pessoas intersexo em diferentes contextos de atuação
No contexto clínico, profissionais devem promover um ambiente de escuta empática e acolhimento, algo essencial em toda abordagem de profissionais da Psicologia. É preciso que o profissional evite pressuposições sobre gênero e identidade, utilizando sempre uma linguagem não excludente. O profissional pode em sua prática integrar abordagens afirmativas, trabalhando conceitos de identidade, estratégias de enfrentamento e promoção de atitudes autênticas, espontâneas e criativas do/a/e paciente.
Já no contexto educacional, profissionais da Psicologia devem atuar na prevenção de discriminações e promover ambientes não excludentes, capacitando as equipes pedagógicas sobre diversidade corporal, sexual e de gênero, garantir uso do nome social e respeito à identidade de gênero autodeclarada e promover ações educativas e políticas anti-bullying.
No contexto organizacional, devem fomentar políticas de diversidade e equidade, incluindo a intersexualidade em programas de diversidade e inclusão, assegurar acesso a benefícios e linguagem institucional não binária e criar espaços de escuta e denúncia de quaisquer tipos de violência.
Como incluir o tema da intersexualidade na formação e na prática cotidiana da Psicologia?
Tudo deve começar na formação acadêmica, que infelizmente ainda é muito parca em relação aos temas de sexualidade humana e diversidade. É preciso incluir conteúdos sobre diversidade sexual, gênero e corporalidade nos currículos de graduação, promover disciplinas ou módulos específicos sobre intersexualidade, incentivar nos alunos o estudo contínuo sobre as diversidades e estimular pesquisas e grupos de extensão voltados a direitos humanos e saúde sexual.
Já na prática profissional, profissionais da Psicologia devem estar sempre em contínuo estudo e atualização do repertório técnico-científico, participar de formações continuadas e supervisões clínicas que contemplem a diversidade sexual, implementar protocolos de atendimento não excludente e se integrar a redes interdisciplinares.
É importante salientar que o papel da Psicologia é de sempre promover a dignidade, o reconhecimento e a escuta ética das pessoas. Devendo atuar no combate aos preconceitos e discriminações, não apenas no contexto clínico, mas também no contexto social. É estar em contínuo aprendizado e diálogo com a diversidade e pluralidade humana. Este é, sem dúvidas, o compromisso ético de nossa profissão.