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Do lugar de fala à reparação histórica: o que precisamos saber sobre o racismo?

Texto originalmente publicado na Revista Contato nov/dez 2021.

Quando falamos em racismo, muitas vezes pensamos em lugar de fala, ou seja, que somente pessoas negras poderiam opinar sobre o tema, ou mesmo se manifestar em casos que ganham repercussão. Para o Psicólogo Ramon Andrade Ferreira (CRP-08/28114), membro da Comissão Étnico-Racial do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR), essa atitude pode revelar um desinteresse das pessoas brancas pelo problema.

Acho que o lugar de fala não é uma coisa engessada do tipo ‘negros falam sobre racismo e ponto’ ou ‘os brancos não falam sobre racismo, porque não é lugar de fala’. A pessoa não é só branca, identidade não é constituída de uma coisa só,” afirmou em entrevista exclusiva em alusão ao Dia da Consciência Negra de 2021.

O profissional ainda falou sobre o papel da Psicologia e da sociedade como um todo no enfrentamento deste problema, que é estrutural, e sobre os aspectos que podem estar envolvidos em atitudes que aparentemente revelam boa intenção. “O racismo tem a ver com como a gente lida com os erros. Com os nossos próprios e com os dos outros. Eu acho que isso é importante de ser pensado, a gente vai errar se posicionando, isso faz parte.”

CONTATO: Diante de um caso de racismo, é comum que pessoas negras sejam “convocadas” a se posicionar. Esta é uma atitude positiva, que demonstra respeito ao lugar de fala, ou cobrar posicionamentos pode aprofundar sofrimentos?

RAMON ANDRADE FERREIRA: Pode ser positivo ou negativo. Todas as coisas carregam em si coisas boas e ruins. Muito do racismo se esconde nas boas intenções: “a minha intenção foi boa e a pessoa negra que entendeu errado”, sabe?

Mostra que a pessoa compreende que as pessoas negras têm que ter voz ativa na sociedade, que elas precisam denunciar, mas ao mesmo tempo é “tirar o corpo fora”, é  não entender como isso passa por si próprio, como a pessoa branca pode se posicionar em relação àquilo ao invés de pedir para  uma pessoa negra se posicionar.

Isso pode desconsiderar o sofrimento que é causado. O fato de uma pessoa branca chegar pra uma pessoa negra e dizer “fale sobre isso aqui” pode ser muito ruim, porque a existência da branquitude desperta gatilhos nas pessoas negras e isso pode reproduzir uma relação de subserviência na qual o branco manda e o negro obedece. Então até mesmo a luta sendo colocada nesse lugar é muito difícil, porque a pessoa negra tem voz ativa, mas uma coisa é a pessoa fazer porque ela quer; outra coisa é ela fazer porque tem outro pedindo ou mandando.

Às vezes, o melhor a se fazer é se posicionar por si próprio, não pedir para que o outro se posicione, porque isso é se desresponsabilizar pelo problema.

Racismo deve ser tratado apenas por pessoas negras, respeitando o lugar de fala, ou pessoas não negras também podem ou devem se posicionar?

De forma alguma o assunto deve ser tratado só por pessoas negras. O racismo é estrutural, portanto ele forma a subjetividade de todas as pessoas da nossa sociedade. Eu acho que o lugar de fala às vezes é compreendido como se a identidade fosse uma coisa única. Existem diversas identidades numa pessoa só.

Pensando no lugar de Psicólogas e Psicólogos, o que a Psicologia tem pra falar sobre isso? Existe um lugar de fala do próprio profissional de Psicologia, que precisa entender o que é discriminação, como ser discriminado afeta a autoestima, como a pessoa que discrimina tem um determinado perfil que também é de muita insegurança, que muitas vezes diminui o outro porque se sente menor, mas quer parecer maior para a outra pessoa.

O lugar da Psicologia é de conhecimento e ele dá aporte para essa pessoa entender o fenômeno do racismo, com o cuidado de não tratar como patologia um problema que é uma questão social.

Qualquer pessoa pode trazer esse debate no lugar onde está — e esse lugar não é só racial, é diverso: no trabalho, com os filhos, enquanto mãe, pai, enquanto amigos. O que essa pessoa pode falar sobre isso? Acho que o lugar de fala não é uma coisa engessada do tipo “negros falam sobre racismo e ponto” ou “os brancos não falam sobre racismo, porque não é lugar de fala”. A pessoa não é só branca, identidade não é constituída de uma coisa só.

Como fazer isso da forma correta?

A forma correta não existe. O racismo tem a ver com como a gente lida com os erros. Com os nossos próprios e com os dos outros. Eu acho que isso é importante de ser pensado, a gente vai errar se posicionando, isso faz parte. [É preciso] se dispor a errar, mas reconhecer os nossos erros, que a gente pode achar que o racismo está sempre no outro, a gente tem que olhar para a gente e para coisas que são difíceis dentro da gente também. Acho que se posicionar é isso, sabe?

Como devemos atuar, enquanto sociedade, para superar os privilégios estruturais dos quais as pessoas não negras usufruem?

Pelo caminho da reparação histórica. Reconhecer por que existem privilégios e por que eles são tratados como privilégios e não como bem comum. Por que alguns os têm e outros não. Ou seja, algo só se torna privilégio porque outros não têm, enquanto a gente deveria pensar numa sociedade que trabalhasse para o bem comum. Para isso a gente precisa, necessariamente, dar um passo atrás e fazer uma reparação histórica em todos os espaços possíveis. É necessário ver os impactos que a escravização de pessoas negras provocou e o que isso causou nas universidades, nos empregos, em diversas situações sociais e trabalhar em direção a uma reparação histórica em todos esses espaços para que os privilégios deixem de ser privilégios e se tornem bem comum.

A gente não pode viver de promessas, porque elas carregam em si também más intenções. Então é necessário, primeiro, reconhecer que a gente não consegue dar conta de tudo, mas precisamos tentar avançar no sentido da reparação histórica, saber que cotas não são suficientes para uma reparação histórica ainda, que é preciso de reparação em diversos espaços de convívio social. É preciso trabalhar isso em diversas esferas, diversos sistemas, desde o individual a famílias, ao sistema político. Tudo isso precisa ser reformado e re-olhado baseado numa reparação histórica.