A Comissão Étnico-Racial (CER) do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) segue engajada nas ações do mês da consciência negra. As conselheiras Érika Ribeiro da Silva (CRP-08/28557) e Iris Aline da Silva Santos Benedito (CRP-08/27925) estiveram, no dia 15 de novembro, na 10ª edição da Marcha do Orgulho Crespo, realizada em Curitiba – a delegação do evento em Curitiba também contou com o presidente da CER, psicólogo Geison David da Silva (CRP-08/28047), e a colaboradora Marli Nunes dos Santos Alves (CRP-08/39048). Logo depois, as conselheiras Érika e Íris viajaram a Brasília-DF para participar da Marcha das Mulheres Negras, realizada no último dia 25 de novembro. Além disso, a CER esteve presente também na 5ª Marcha do Orgulho Negro, realizada no dia 22 de novembro em São José dos Pinhais, região metropolitana de Curitiba.
Mais que um evento: um grito de vida, resistência e afeto
A Marcha do Orgulho Crespo é um movimento político-cultural realizado anualmente em Curitiba que reúne pessoas negras, coletivos, artistas, famílias e aliados para celebrar identidade, resistência e ancestralidade. É um espaço no qual corpos negros ocupam as ruas com liberdade e a estética é entendida como identidade, memória e dignidade. A comunidade se reúne para fortalecer pertencimento, autocuidado e autoestima, criando um espaço no qual cultura, arte, música, dança e política se entrelaçam como formas de resistência e cura.
“A marcha é um espaço de celebração e denúncia”, explica Érika. “É celebração porque reafirma nossa alegria, nossa ancestralidade, nossas formas de existir e criar mundos. É denúncia porque escancara o impacto do racismo estrutural, institucional e estético na vida das pessoas negras, e exige transformações reais na sociedade. A marcha é orgulho, cuidado, política, identidade e saúde mental.”
A conselheira ainda comenta que a Marcha do Orgulho Crespo é um momento em que a cidade percebe, muitas vezes pela primeira vez, a força, a beleza, a diversidade e a unidade do povo negro ocupando o espaço público, tornando este um espaço de reparação simbólica e coletiva. “A marcha não é apenas um evento. É um grito de vida, resistência e afeto.”
Pressão ao poder público por políticas antirracistas
Já a Marcha das Mulheres Negras, que mobilizou de 300 a 500 mil pessoas em 2025, de acordo com estimativas, acontece no centro das decisões políticas do país e cobra respostas dos poderes públicos em relação ao racismo estrutural e as desigualdades que atingem a população negra, especialmente as mulheres negras.
Segundo relato das conselheiras Íris e Erika, as falas destacaram que o racismo não é só um problema social, mas político, econômico, institucional e de saúde. Também ficou evidente a cobrança por políticas públicas nas áreas de saúde mental, justiça, educação, trabalho e assistência social que realmente atendam a população negra.
Com participação de psicólogas, advogadas, professoras, ativistas sociais, classe política, artística, membros da sociedade civil, a edição deste ano do evento teve como foco o bem-viver, a vida digna com acesso à renda, moradia, cuidado, respeito e proteção.
A Marcha também denunciou a exploração do trabalho das mulheres negras, os baixos salários, o apagamento histórico e os lugares subalternizados que ainda são impostos socialmente. Além da pressão política, a Marcha foi um espaço de acolhimento, fortalecimento e construção coletiva, reunindo milhares de mulheres para dizer basta ao racismo, ao machismo e às desigualdades.
Marcha do Orgulho Negro
A Marcha do Orgulho Negro de São José dos Pinhais também é um importante ato de mobilização e afirmação da dignidade da população negra. A marcha representa a ocupação dos espaços públicos como forma de reivindicar direitos, visibilidade e reconhecimento histórico.
O evento reforça que o orgulho negro é uma ferramenta de enfrentamento do racismo e de valorização da identidade, da cultura e da ancestralidade. Ao mesmo tempo em que denuncia desigualdades e violências ainda presentes na sociedade, a marcha celebra a resistência e a potência coletiva do povo negro.
A iniciativa fortalece o debate público sobre equidade racial e convida toda a sociedade à reflexão sobre seu papel na construção de uma cidade mais justa, inclusiva e comprometida com a igualdade de direitos
Os impactos do racismo da saúde mental da população negra
O racismo é uma violência estrutural e institucional que produz impactos profundos na saúde mental da população negra, afetando autoestima, segurança emocional, expectativas de futuro e a forma como pessoas negras são percebidas e tratadas socialmente. A falta de representatividade positiva em espaços institucionais, educacionais, midiáticos e profissionais compromete o sentido de pertencimento e gera sofrimento psíquico. Além disso, a ausência de políticas públicas permanentes voltadas à equidade racial e ao cuidado integral impacta diretamente a saúde mental da população negra, que continua tendo menos acesso a serviços sensíveis às suas vivências.
As mulheres são ainda mais afetadas pelo problema, pois são atravessadas pelo recorte de gênero, um processo de interseccionalidade que impacta suas vidas em diferentes áreas, como trabalho, saúde, educação, justiça e assistência social. Ele se expressa nos baixos salários, na informalidade, nas jornadas exaustivas e na ocupação predominante em atividades menos valorizadas. Assim, muitas mulheres negras vivem em situação de vulnerabilidade permanente, sem acesso adequado a políticas públicas de cuidado e proteção.
A Psicologia no combate ao racismo estrutural
A participação do CRP-PR nos eventos foi uma ação prática de acolhimento e aproximação com a comunidade. Durante a Marcha do Orgulho Crespo, por exemplo, a delegação presente realizou a distribuição do flyer “Racismo e Saúde Mental: Cuidar é Resistir”. O material tem como propósito reconhecer, nomear e afirmar que o racismo adoece, impactando profundamente a saúde mental da população negra. Ao distribuir esse flyer durante a marcha, o CRP-PR reafirmou o compromisso da Psicologia no enfrentamento do racismo e colocou a instituição como aliada da população da causa antirracista.
Já a presença do Conselho no ato nacional contribui para o avanço das discussões ao possibilitar o estabelecimento de parcerias institucionais promovendo cooperação técnica, intercâmbio de experiências e a realização de atividades formativas no Paraná. Além disso, a aproximação com o Conselho Federal de Psicologia e com psicólogas negras de diferentes Estados e realidades amplia o diálogo nacional, enriquece as práticas profissionais e fortalece a categoria por meio da troca de saberes e experiências.