Setembro Amarelo

Vídeo sobre Setembro Amarelo traz debate sobre prevenção do suicídio

O mês de setembro vem se consolidando cada vez mais como um período de incentivo ao debate sobre o fenômeno do suicídio. Este ano, o Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) aproveitou o mês para reunir diversos acúmulos para dialogar com a categoria e a sociedade sobre a relevância e profundidade do tema.

Nesse sentido, a Psicóloga Débora Letícia Dias Pinto (CRP-08/16407), da Comissão de Psicologia Clínica de Londrina do CRP-PR, vem trazer algumas reflexões importantes referentes ao sofrimento e saúde mental que compõem o debate sobre suicídio – e que devem permanecer em pauta para além do Setembro Amarelo.

No vídeo, a profissional aborda a importância de não se minimizar o sofrimento psíquico das outras pessoas, do acolhimento sem julgamentos, do reconhecimento dos marcadores sociais na experiência do sofrimento, da urgência no investimento em políticas públicas para melhoria das condições de vida da população e para a oferta de serviços de saúde adequados às necessidades da sociedade.

As várias mortes da pandemia

O número de óbitos decorrentes da pandemia da Covid-19 que não para de crescer é apenas uma das terríveis facetas desta crise. É a morte visível. São as vidas perdidas que o noticiário mostra e as estatísticas contam. Mas, em cada canto do Brasil, em cada município, em cada casa, em cada família, as perdas se avolumam. São mortes silenciosas, mortes simbólicas, lutos não elaborados, dores não escutadas, vidas não valorizadas. No meio disso tudo, de tantas e tão profundas mudanças vivenciadas por cada brasileira(o), chegamos ao emblemático Setembro Amarelo, o mês de prevenção do suicídio, sendo conclamadas(os) a pensar, enquanto categoria, sobre as outras mortes da pandemia.

Ainda não é possível dizer com certeza que as crises de ansiedade, os quadros de depressão e outros sofrimentos se tornaram ou se tornarão mais frequentes e profundos por conta da pandemia. Mas, algumas observações já foram feitas por pesquisadores tanto no Brasil como em outros países e a tendência verificada é justamente essa. O desemprego que aumentou, os pequenos negócios que balançaram (e outros fecharam definitivamente), o medo de ser contaminado ou de perder um ente próximo, a sobrecarga de trabalho, as crianças que passaram a demandar atenção em tempo integral da família, o próprio distanciamento social. Tudo isso e muito mais impactou e vai continuar impactando a vida das pessoas.


Um destes estudos está sendo liderado por pesquisadoras(es) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e vai monitorar cerca de 4 mil pessoas com idades entre 35 e 74 anos, tanto saudáveis como grupos que já apresentavam ansiedade e depressão, até dezembro de 2020, para entender a dimensão das consequências do isolamento social e de todas as incertezas deste período na nossa saúde mental. Ainda, uma pesquisa do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) realizada entre março e abril em 23 Estados mostrou um aumento de 80% na ocorrência de ansiedade e estresse. As principais afetadas são as mulheres, uma questão de gênero que exacerba o ainda presente desequilíbrio na divisão de cuidados domésticos. Desde a limpeza e a organização da casa até cuidados com crianças e idosos, por exemplo, as demandas ficam ainda mais concentradas quando se perde a rede de apoio – avós, babás e escolas, por exemplo – e o trabalho de “fora” passa a acontecer em concomitância, no que já é chamado por especialistas de “jornada contínua”.


A Psicóloga Dafne Drumond Boni (CRP-08/19750), trabalhadora do SUS que desde o início da pandemia atua em um Serviço de Atenção Domiciliar (SAD) com pessoas recuperadas da Covid-19 e suas cuidadoras (a maioria mulheres), percebeu isso na prática: “Ser cuidadora já te coloca em uma condição de isolamento social porque a maioria das cuidadoras acabam tendo isso como atividade principal e solitária. A gente tenta contribuir para qualificar o cotidiano e resgatar a pessoa enquanto pessoa, não só enquanto cuidadora. Mas, com a pandemia, precisamos firmar a biossegurança e ela implica restrição do suporte de pessoas que passavam na casa e com quem ela desabafava… ou da vizinha que ficava um tempo ‘dando uma olhada’ enquanto ela ia à Unidade de Saúde, ao grupo X , à padaria Y”, relata.


Além do gênero, outros fatores presentes são etnia e classe social, já que a maioria das mulheres em situação de maior vulnerabilidade são negras e periféricas. “Além disso estou me deparando com muitas situações de violência. E que a pessoa não percebe diretamente ou sozinha. É durante a conversa sobre a sobrecarga do cuidado que ela vai desenrolando sua história, suas relações e começa a falar sobre a violência. E daí a partir daí consegue refletir sobre isso e sobre uma atitude possível”, conta a Psicóloga.


Alguns outros quesitos também podem afetar a tendência de maior sofrimento mental e possível aumento nos índices de suicídio, como a atividade profissional exercida, as condições de vida de cada pessoa antes e depois da pandemia e questões culturais (por exemplo, no Japão, onde a cobrança nos ambientes escolares e laborais é extrema, a quarentena fez cair em 20% o número de suicídios em abril comparado ao ano anterior, segundo reportagem publicada pelo jornal The Guardian). Assim, estudos como o “Preparing Michigan for the Behavioral Health Impact of COVID-19”, realizado pela Pine Rest Christian Mental Health Services indicando um possível aumento de 15 a 32% nos índices de suicídio no Estado Americano, podem ser bons referenciais, mas as pesquisas e dados precisam ter em conta características regionais.


O Psicólogo Paulo Vitor Palma Navasconi (CRP-08/25820) lembra que a literatura já aponta, há bastante tempo, uma tendência de aumento do suicídio em situações de crise que “levam a uma desestruturação e falta de coesão social que fragiliza a saúde mental”. Não é que crise traga, por si só, a ideia da morte como saída para o sofrimento. Na realidade, aquelas pessoas que já vinham enfrentando alguma condição potencialmente adoecedora – lembrando que o suicídio geralmente é multifatorial, ou seja, não é causado por uma única razão – podem encontrar neste momento uma dificuldade ainda mais evidenciada para lidar com o sofrimento.


“A Covid-19 é uma doença que atinge teoricamente a todos de forma igual, sem distinção de gênero ou condição social. Mas, na prática, nós percebemos que isso não é verdade, já que a pandemia intensifica vulnerabilidade e expõe as diferenças sociais”, destaca o profissional, autor do livro “Vida, adoecimento e suicídio”, com recorte sobre jovens negros(as) e LGBTTIs.


Suas palavras são ancoradas em dados. Quase 70% das pessoas que acessam exclusivamente o Sistema Único de Saúde no Brasil são negras, e a mortalidade por Covid-19 em UTIs, de acordo com estatísticas, é o dobro da registrada na rede privada. Além disso, mulheres (especialmente as negras) são as que recebem menores salários, vivem em regiões mais precarizadas – sem acesso a bens básicos como água encanada e saneamento básico – e precisam frequentemente sustentar suas residências sozinhas. São pessoas esquecidas pelo Estado e ainda mais fragilizadas pela pandemia.


A Psicóloga Dafne Boni lembra do período em que trabalhava em um CAPS, em 2016, e do impacto que a crise econômica daquela época teve no que chamou de “boom de ideação suicida”. “Muita gente que não tinha condição de retornar ao trabalho e estava sem nenhum amparo nos seus direitos acabava reagindo pela via da autoagressão. Então imagino que estamos no caminho disso acontecer”, diz. Ela ainda relata que, devido à Covid-19, muitas pessoas enfrentam dificuldade de retornar ao trabalho por sequelas, como alterações importantes na respiração, fadiga, dificuldade motora e mesmo alterações cognitivas; parte dessas(es) trabalhadoras(os), que já vinham de atividades precarizadas, ainda enfrentam barreiras para acessar auxílios no INSS.

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PodPsi “Morte, Luto e Suicídio”

E como podemos prevenir o suicídio?

Não existe um guia para impedir que alguém interrompa sua própria vida porque, como já vimos, as realidades são diferentes. Paulo Navasconi alerta que listas com dicas para enfrentar a quarentena ou para melhorar a saúde mental podem ser válidas, mas é preciso olhar com atenção já que uma dica impossível de ser colocada em prática pode até mesmo instigar a sensação de culpa por não se enquadrar. Então, o que fazer? “O primeiro passo é reconhecer o sofrimento e identificar com quem se pode contar, de que modo é possível buscar ajuda”, explica o Psicólogo.

 

Para quem está do outro lado, escutando e acolhendo, Navasconi fez um alerta durante a live “Morte, Luto e Suicídio”, promovida pelo CRP-PR. “A gente precisa pensar e repensar, por exemplo, quem são essas pessoas que estão gritando, almejando pelo olhar do outro, mas que muitas vezes não conseguem receber esse olhar do outro porque sequer é visto como um sujeito, sequer é visto como um indivíduo”, explicou ao concluir a fala sobre o apagamento das vivências negras e periféricas. Ele ainda destacou que, muitas vezes, Psicólogas(os) não sabem como agir diante desta população e seus sofrimentos porque a formação é pouco plural.

 

Independente do contexto em que acontece e se manifesta, um comportamento suicida não é um ato individual. Ele é, ao mesmo tempo, sintoma de uma sociedade com profundas chagas e denúncia de que a solução deve ser coletiva. Para Paulo, “o suicida denuncia para a nossa sociedade que nós não estamos bem, que o sofrimento é político”; Dafne propõe que a tentativa ou ideação suicida “é uma reação ou uma saída individual para saídas, reações e resistências que necessitam ser coletivas: a luta por melhores condições de vida”.

O suicídio na RAPS

Quando a Rede de Atenção Psicossocial foi pensada, no início dos anos 2000, ainda não se discutia a prevenção do suicídio como hoje, como explica o Psicólogo Altieres Edemar Frei (CRP-08/20211). De lá para cá, a sociedade mudou, e outras demandas emergiram. Ainda que o suicídio em si não seja um fenômeno novo, o manejo ainda pode ser um tabu em muitos equipamentos. “O tema ainda é permeado por capas e mitos, e ainda é presente nos discursos crenças como ‘quem quer faz’ ou ‘faz para chamar a atenção’”, conta o profissional, que durante cerca de um ano percorreu mais de 40 municípios do Paraná na pesquisa chamada “Cartografia da RAPS”.

 

A Psicóloga Dafne, com larga experiência na ponta da rede de atenção, relata que os protocolos vigentes não se adequavam à realidade. Os problemas eram muitos, incluindo dificuldade de acolher cada demanda em seu devido grau de complexidade, acolher e escutar o sofrimento de cada paciente, grande foco na medicalização e contenção dos sintomas, além da dificuldade de dar coesão e continuidade ao trabalho devido à sobrecarga da equipe. Além disso, divergências na equipe multiprofissional, falta de estímulo à capacitação contínua e adoecimento da equipe eram fatores que desafiavam a resposta dos equipamentos. “A gente perdeu várias situações para o internamento em hospital psiquiátrico, o tal circuito manicomial e a consequentemente cronificação, estigma e patologização”, relembra a Psicóloga.

 

A pandemia, como em outras instâncias, pode ser um agravante, já que comportamentos como o uso abusivo de álcool e outras drogas e transtornos de saúde mental ficam mais densos. Além disso, a resposta que as(os) brasileiras(os) como um todo estão tendo em relação ao luto pode ser um desafio. A negação e a aparente falta de empatia podem ser uma forma de lidar com o trauma excessivo, na opinião de Paulo. Já Altieres supõe que uma explicação possa estar na vulnerabilidade de grande parte da população. “Com o auxílio emergencial, o real impacto econômico ainda não foi sentido”, conjectura.

 

Já entre aquelas(es) que passaram pela experiência da internação em uma UTI, Dafne acredita que não há, atualmente, condições emocionais de assimilar: “Parece que para conseguir viver um luto precisam estar em um grau de consciência que a vida não tem permitido”.

Autocuidado

Toda(o) Psicóloga(o) sabe que cuidar da saúde mental de outras pessoas é, por si só, uma sobrecarga à própria. Além disso, para garantir aptidão à escuta, ao acolhimento, é preciso providenciar adequados processos terapêuticos e de supervisão técnica, quando necessário. Mas, e quando a(o) Psicóloga(o) adoece?

 

Por diversos fatores, como sobrecarga de trabalho e falta de condições adequadas para atuação, a categoria pode ser um grupo vulnerável aos transtornos de humor e ao próprio suicídio, ainda que estes sejam temas tabus. Em sua pesquisa de mestrado, a Psicóloga Fabiane da Fontoura Messias de Melo (CRP-20/2028) estudou as condições de saúde mental de um grupo de Psicólogas(os) lotadas em um hospital na região norte do Brasil. “Não esperava encontrar um sofrimento tão intenso”, relata. A falta de um lugar (físico e também simbólico) para o trabalho era um dos fatores observados, bem como a ausência de apoio e reconhecimento ao trabalho da(o) Psicóloga(o). “A longo prazo, o sofrimento pode levar ao adoecimento”, explica a hoje professora da Universidade Federal do Acre.

 

O impacto da Covid-19 veio a se somar aos problemas: medo de perder renda ou o emprego, incertezas no atendimento online ou medo de se contaminar com o vírus no atendimento presencial, além da já mencionada sobrecarga de trabalho, especialmente para as mulheres, quando em casa. As desigualdades do país também contribuem para que cada pessoa viva a experiência de uma forma diferente, e o atendimento psicológico pode não estar disponível para todos. “O Acre é um Estado pobre, e a maioria não tem condições de fazer o atendimento online, ou por não ter internet, ou por não ter condições físicas como um cômodo privado. Mesmo quando consegue, o setting está modificado, a rede cai, o sigilo fica comprometido. Vivemos uma situação nova e é preciso produzir novos conhecimentos”, conclui Fabiane.

Dia Mundial da Prevenção do Suicídio | O papel da(o) Psicóloga(o) na prevenção e no manejo terapêutico

O Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, lembrado em 10 de setembro, faz parte da campanha mundial do Setembro Amarelo, que busca a conscientização da sociedade sobre o suicídio, os seus sinais de alerta e as suas formas de prevenção. Os dados mais recentes revelam a importância e a emergência dessa discussão: a cada 40 segundos o suicídio é a causa de uma morte no mundo, em um total de aproximadamente 800 mil casos por ano, segundo o relatório “Suicídio no mundo”, publicado no dia 09 de setembro pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Ainda que as taxas globais tenham caído 10% entre 2010 e 2016, o número de mortes permaneceu estável por conta do crescimento da população mundial. Neste dia 10, a OMS lança, em colaboração com os parceiros globais World Federation for Mental Health, International Association for Suicide Prevention e United for Global Mental Health, a campanha 40 seconds of action (40 segundos de ação). A campanha se estenderá até o Dia Mundial da Saúde Mental, em 10 de outubro, cujo foco deste ano também é a prevenção do suicídio.

 

Frente a essa situação alarmante, os Estados e organizações internacionais passaram a instituir políticas que pudessem atuar na prevenção do suicídio. Em 2013, a OMS estabeleceu o Plano de Ação Integral em Saúde Mental, que tem como uma das metas reduzir as taxas de suicídio em 10% no mundo até 2020. No Brasil, a primeira política pública voltada especificamente para essa prevenção foi instituída só em 2017, ou seja, quatro anos após o Plano da OMS, e foi intitulada como a Agenda de Ações Estratégicas para a Vigilância e Prevenção do Suicídio e Promoção da Saúde no Brasil. Este ano, em 2019, foi publicada também a Lei n° 13.819/2019, que institui a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio, como “estratégia permanente do poder público para a prevenção desses eventos e para o tratamento dos condicionantes a eles associados”.

 

Nesse debate, Psicólogas e Psicólogos têm um papel fundamental, tanto na participação de elaboração de políticas públicas como nas intervenções para a prevenção e no manejo de casos com risco de suicídio. Para promover discussões acerca dessa atuação, o Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) realizou a mesa-redonda “Meu paciente/minha paciente quer cometer suicídio. E agora?” no dia 25 de julho de 2019, em Curitiba. Participaram como palestrantes as Psicólogas Camila Cortellete Pereira da Silva (CRP-08/19943) e Luzia Carmem de Oliveira (CRP-08/15038) e o Psicólogo Paulo Vitor Palma Navasconi (CRP-08/25820), que destacaram aspectos essenciais para a reflexão das(os) profissionais da Psicologia.

 

Assista à gravação da mesa-redonda clicando aqui

Contexto social

Os contextos social e cultural em que a sociedade está inserida influenciam diretamente no fenômeno do suicídio. Segundo Camila, estamos em uma cultura em que a vida ganhou uma velocidade muito frenética, em que tudo é dinheiro e o sonho de consumo de muitas pessoas é o tempo: “quem não se pegou pensando ‘eu queria que o meu dia tivesse mais 20 horas, porque não estou dando conta de tudo o que eu precisava’?”, incita a Psicóloga.

 

Nesse contexto exaltado, também não há espaço para o sofrimento. O que acontece, explica Camila, é que existe uma cobrança estrutural de funcionamento, de produção, em que é preciso dar conta de tudo, não importa como. Dessa forma, há um constante desconforto indefinido, que muitas vezes não consegue ser entendido. É o famoso sentimento de vazio, segundo Camila, na qual a pessoa se sente desamparada e que se intensifica em uma sociedade de relacionamentos líquidos.

 

“Nesses momentos de grande sofrimento, quando se pensa que não existe mais saída, a única forma que a pessoa acredita existir para acabar com o seu desespero é morrer. É um ato que expressa dor, desespero e desesperança”

Cortellete Pereira da Silva (CRP-08/19943)

A Psicóloga explica que as formas mais usadas para conseguir lidar com esses sentimentos são as compulsões, que buscam uma satisfação rápida e um alívio da dor. Entre as alternativas estão os comportamentos autodestrutivos, o uso abusivo de álcool e outras drogas, o trabalho demasiado, transtornos alimentares, sexo desprotegido, direção perigosa e, em um extremo, o suicídio. Camila coloca que estes são comportamentos que mostram uma necessidade de mudança para a dor que a pessoa está sentindo, como um pedido de ajuda.

 

“Nesses momentos de grande sofrimento, quando se pensa que não existe mais saída, a única forma que a pessoa acredita existir para acabar com o seu desespero é morrer. É um ato que expressa dor, desespero e desesperança”, resume Camila. Ressalta-se que a motivação do suicídio nunca é única, mas multifatorial. Camila explica que estão envolvidos fatores socioculturais, políticos, ambientais, psicossociais e históricos pertencentes ao contexto daquela pessoa.

 

Dessa maneira, é importante que o trabalho da(o) Psicóloga(o) considere também as particularidades e singularidades da pessoa que está em sofrimento. O Psicólogo Paulo Vitor acrescenta que os marcadores sociais da diferença, como geração, classe social, raça, gênero, sexualidades, idade, entre outros, são fatores que compõem esse fenômeno e devem ser analisados nas suas especificidades.

Comportamentos

O comportamento suicida se divide entre pensamento e ideação, as tentativas e o suicídio em si. Para a OMS, há três características prevalentes dentre as pessoas que possuem pensamentos de morte. A primeira é a ambivalência entre o desejo de morrer e de viver. Nessa fase, muitas vezes os pedidos de ajuda podem ser entendidos como uma forma de chamar atenção, mas que devem ser considerados por todos, conforme enfatiza a Psicóloga Camila. A próxima característica é a impulsividade, que é transitória e pode durar entre minutos e até horas, normalmente gerada por eventos negativos ou estressores do cotidiano. A última característica é a rigidez, na qual há pensamentos, sentimentos e ações de formas constritas que impedem a pessoa de encontrar alternativas para o seu sofrimento.

 

As Psicólogas Camila e Luzia e o Psicólogo Paulo salientam que, na atuação profissional, é também importante considerar os fatores de proteção e de risco de cada pessoa. Porém, a(o) profissional não pode achar que já sabe quais são eles, uma vez que cada um entende de formas diferentes os seus motivos para continuar vivo.

Prevenção

O primeiro passo para a prevenção é falar sobre o suicídio. Frente a um pedido de ajuda, lembrar que não é drama, não é para chamar atenção, não é “falta de Deus”. Camila atenta para que seja feita uma correção quando se escuta esse tipo de discurso, já que eles tornam a prevenção ainda mais difícil. Paulo Vitor destaca que a sociedade não aprendeu a lidar com a própria morte, menos ainda com a morte do outro. Falar sobre morte continua sendo um tabu, ainda que ela esteja presente diariamente, de forma concreta ou simbólica, como na perda de direitos, por exemplo. “É por isso que eu penso que uma das formas de prevenir é falar sobre a vida e que tipo de vida nós estamos construindo”, aponta o Psicólogo.

 

Há três tipos de prevenção: universal, seletiva e indicada. Na primeira, pretende-se impedir o início de um comportamento, e isso se dá, por exemplo, com a divulgação responsável por parte da mídia, em campanhas e cartilhas de conscientização. É por meio da prevenção universal que é possível colaborar para a promoção de saúde mental da sociedade e preparar para lidar com o sofrimento. Já a prevenção seletiva se destina a populações ou indivíduos que apresentam risco baixo ou moderado de comportamentos suicidas e precisam de ações mais específicas, como jovens, homens, negras e negros, população LGBTI e indígena. Por fim, há a prevenção indicada, para populações e indivíduos que já apresentam risco considerável ou já começaram a manifestar o comportamento.

 

Para prevenir, é preciso identificar os sinais de alerta. Camila aponta alguns, como mudanças drásticas no comportamento, piora no desempenho do trabalho ou estudos, afastamento de pessoas próximas, perda de interesse nas atividades que gostava de fazer, descuido com a aparência, perda ou ganho de peso, mudanças no padrão do sono, comentários autodepreciativos persistentes, desesperança, doação de pertences que valorizava, expressão clara ou velada de querer morrer.

Nesses casos, é preciso encaminhar para atendimento psicológico e psiquiátrico.


Em caso de emergência, deve-se procurar o pronto-socorro pelo número 192, a Unidade Básica de Saúde, a Unidade de Pronto Atendimento ou o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).


O Centro de Valorização da Vida também é um canal de ajuda, no qual é possível conversar com um voluntário através do número 188 ou do site www.cvv.org.br.

Manejo

Para a Psicóloga Luzia, o suicídio é uma questão que vai aparecer no trabalho da(o) profissional da Psicologia, independente do contexto em que se está inserido. Por ser uma atuação que se dá sempre na dialética entre vida e morte, é um assunto que pode exigir da(o) profissional uma mobilização psíquica maior, além de gerar angústias e questionamentos éticos. Por isso, Luzia ressalta a importância de as(os) profissionais estarem sempre cuidando de suas subjetividades, dos seus espaços de terapia e supervisão.

No manejo clínico, a Psicóloga destaca que o suicídio é sempre um processo construído ao longo de uma trajetória e na singularidade daquela pessoa. A atuação, portanto, é sempre na individualidade de uma história, o que alerta para que não seja feita uma análise precipitada: “Precisamos cuidar dos rótulos que são colocados, para não entrar num estigma que pode acabar empobrecendo a nossa compreensão daquela situação específica”, salienta a Psicóloga.

Paulo Vitor também fala sobre a importância de uma abordagem respeitosa, sem procurar culpados ou apontar um grande erro. Segundo ele, é preciso ter uma escuta atenta e uma presença de fato: “Aquela pessoa que é a especialista da sua história”. Além disso, o Psicólogo aborda que é preciso desmitificar a ideia de cura, já que a Psicoterapia é um caminho a mais para a produção de ampliação dos modos de vida e dos modos de cuidado. “Não devemos assumir a onipotência ou convalescer na impotência. É um desafio”, complementa. Outro aspecto a ser considerado, para Paulo Vitor, é que na maioria das vezes a pessoa que pensa em suicídio quer acabar com o seu sofrimento, e não acabar com a sua vida. Como a sua dor se manifesta de forma intolerável, o suicídio é visto como a única saída possível.

O papel da(o) Psicóloga(o) é trazer possibilidades. Porém, nesse processo, Paulo atenta para os marcadores sociais, as singularidades e particularidades que não podem ser excluídas do manejo clínico: “A cada 26 horas uma pessoa LGBTI é assassinada no país. A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil. Não podemos entender esse fenômeno de uma forma descontextualizada do fator social. Para mim, o adoecimento é político”.

“A cada 26 horas uma pessoa LGBTI é assassinada no país. A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil. Não podemos entender esse fenômeno de uma forma descontextualizada do fator social. Para mim, o adoecimento é político”.

Paulo Vitor Palma Navasconi (CRP-08/25820)

Sigilo

Uma questão que gera bastante dúvida na atuação psicológica que envolve o suicídio é o sigilo. A profissão está amparada no Código de Ética Profissional do Psicólogo (CEPP) e nos seus princípios fundamentais. Nele, dois pontos são essenciais: a construção de um vínculo com o paciente ou cliente e o sigilo. Porém, quando há uma situação de risco, de que forma proceder?

 

De acordo com Luzia, é uma questão que deve passar por uma avaliação muito cuidadosa e criteriosa da situação do paciente. “Conhecendo mais a história, teremos mais clareza quanto aos graus de autodestrutividade que ela ou ele apresenta naquele momento. É essencial contemplar perguntas diretas sobre esse assunto. A(O) profissional não pode ficar melindrada(o)”, explica a Psicóloga. De acordo com Luzia e Paulo Vitor, se na avaliação a(o) profissional considerar a necessidade de quebrar o sigilo, é importante construir isso junto ao paciente, no sentido de ajudá-lo a entender que isso é um auxílio para aquele sofrimento e pode ser uma alternativa para lidar com aquela situação, para que ele não lide com isso sozinho. Além disso, esse trabalho deve ser realizado dentro de uma equipe multidisciplinar, com colegas de profissão, psiquiatras, família do paciente, entre outros.

 

 

 

Campanha Tamo Junto foca em prevenção do suicídio de crianças e adolescentes

O suicídio é a segunda principal causa de morte de jovens entre 15 e 29 anos, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). No Brasil, atentados contra a própria vida são a quarta maior causa de morte entre esse público, segundo o Ministério da Saúde. Este problema vem aumentando: de acordo com dados do Mapa da Violência no Brasil, entre 2000 e 2015 houve um aumento de 65% nos casos de suicídio entre jovens de 10 a 14 anos e de 15% na faixa etária de 15 anos a 19 anos. Devido a esta realidade, o Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) lança este ano a Campanha Tamo Junto, com o objetivo de sensibilizar jovens e adultos responsáveis para a importância da prevenção do suicídio.

Em qualquer fase da vida, o suicídio é um fenômeno causado por múltiplos fatores. No entanto, a infância e a adolescência são permeadas por dificuldades de relacionamento com amigos, incertezas quanto ao futuro e pelas dores dos primeiros envolvimentos amorosos; em alguns casos, o bullying faz parte desta realidade. Aliado a isso, a diferença de gerações entre os pais e os filhos pode levar a relações mais distantes e àquela sensação de que “meus pais não me entendem”, típica desta fase, especialmente quando as tecnologias permitem contatos menos presenciais. Tudo isso pode contribuir para que o desencadeamento de tentativas de suicídio ou para episódios de automutilação.

A Campanha Tamo Junto traz algumas frases em linguagem jovial, típica das redes sociais e aplicativos de mensagens, mostrando que a vida deve continuar mesmo que o momento seja de tristeza. “Alguém partiu seu coração? Relaxa, o jogo não acabou. Você ainda tem outras vidas”, diz uma das mensagens, acompanhada dos famosos emojis. “Às vezes parece que falo outra língua com meus pais! Mas logo passa, conversando a gente se acerta”, diz outro cartaz.

Conversar, aliás, é o caminho para conhecer melhor as crianças e jovens, principalmente em casa e nas escolas. “Quando um professor é capaz de perceber os sinais, é porque ele é sensível ao discurso do outro. Ele precisa aproveitar essa potência para abrir o canal de comunicação e possibilitar um caminho para se falar sobre a dor, para aliviá-la”, afirma Dione Mehz (CRP-08/05491), Coordenadora do Projeto de Extensão da Universidade Federal do Paraná “Luto e Prevenção do Suicídio”.

Em casa, os pais ou responsáveis podem observar seus filhos e perceber comportamentos diferentes. O Psicólogo Rael Dill de Mello (CRP-08/19246) destaca que o acolhimento deve ser desprovido de julgamentos. “Dar nome para os sentimentos da criança é fundamental. Chamar de tristeza, baixa autoestima, e inclusive perguntar se ela pensa em se matar. Dar forma para isso possibilita significar o que ela sente. Se ela tem um sentimento de frustação e ela não consegue significar, o suicídio acontece pela confusão entre acabar com o sofrimento e acabar com a vida”, analisa.

A matéria completa sobre suicídio entre crianças e adolescentes será publicada na próxima edição da Revista Contato (setembro/outubro).

Onde procurar ajuda?

Centro de Valorização da Vida (CVV): ligue 188 (a ligação é gratuita em todo o país) ou acesse www.cvv.org.br

Atendimento psicológico:

– Você pode conferir a lista de Psicólogas(os) registradas(os) no CRP-PR clicando aqui;

-Também é possível procurar uma das clínicas de Serviço-Escola, que funcionam em universidades e faculdades (acesse aqui a lista de clínicas no Paraná);

– Você também pode procurar atendimento multiprofissional em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) ou em uma Unidade de Saúde da sua região.

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