étnico racial

CRP-PR se torna signatário do “Manifesto em Defesa de uma Psicologia Comprometida com a Saúde Mental da População Negra”

O Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR), como instituição comprometida com a luta antirracista, aderiu ao “Manifesto em defesa de uma Psicologia comprometida com a saúde mental da população negra” da Articulação Nacional de Psicólogas(os) Negras(os) e Pesquisadoras(es) (ANPSINEP).

O documento ressalta as circunstâncias adversas nas quais a sociedade brasileira se encontra — “[…] a crise econômica e social, política e democrática, as precárias condições de trabalho e atuação diante da pandemia e suas consequências” — e reivindica “que os saberes psicológicos estejam a serviço do povo brasileiro”. Além disso, o manifesto entende necessário que o Sistema Conselhos de Psicologia atue no resguardo do fazer profissional, mas, igualmente, “no amparo aos atendidos diante de possíveis negligência desses profissionais”.

Neste contexto, o manifesto destaca como estas adversidades atingem, com mais hostilidade, a população negra, sujeita ao racismo e à violência cotidiana, e o papel da Psicologia em defender as vidas negras intransigentemente e promover a saúde mental desta população — “é imperativo que o tema da saúde mental da população negra não ganhe só visibilidade a partir das reivindicações e proposições do Movimento Social Negro, mas também que as diferentes entidades do campo da psicologia e da sociedade civil contribua concretamente para que o lema Vidas Negras Importam ganhe materialidade”.

 

Campanha “Saúde Mental da População Negra – Importa!”

O manifesto fala ainda sobre a campanha “Saúde Mental da População Negra – Importa!”, que “[…] é um chamado a todos os setores da sociedade brasileira para fazer adesão”. A campanha pode ser encontrada no YouTube.

 

 

25 de julho – Dia da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha

O dia 25 de julho marca o dia Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. Para celebrar a data a Comissão Étnico-Racial e o Núcleo de Psicologia e Migrações (NUPSIM) do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) lançam, hoje, a série “Mulheres Negras e Psicólogas” que tem como objetivo trazer depoimentos de Profissionais negras da Psicologia. 

 

Para a data também, a Comissão Étnico-Racial elaborou o artigo “A pele que habitamos!”. Confira abaixo os materiais:

A pele que habitamos!

Artigo da Comissão Étnico-Racial do Conselho Regional de Psicologia do Paraná

Atualmente a população negra corresponde a 54% da população do Brasil e 24,5% da população do estado do Paraná é negra. Esse fato torna o Paraná o estado com a maior população negra da região Sul do país. Essa porcentagem reflete também na quantidade de mulheres, e sobretudo mulheres negras, suas vivências, lutas e conquistas ao longo da história. Ter uma data de reconhecimento, que memorize a vida de um povo é dar significado, é valorar, tornar visível historicamente a existência de uma população e humanizar suas trajetórias.

 

A identidade de um povo, o direito à memória está no campo da justiça, pois através do resgate memorial pode se reconhecer e compreender as ações do futuro. Trazer à visibilidade o debate sobre a memória da mulher negra no estado do Paraná implica romper com a hegemonia e desvelar o silenciamento que impera no estado mediante os esforços do Movimento Paranista para a manutenção do ideário de uma região branca europeia, como aponta Wilson Martins (1989) em Um Brasil diferente. A narrativa de mulheres negras na construção desse país, preservada na memória coletiva, revela a ancestralidade, segundo Conceição Evaristo, que se projeta no presente e prepara o futuro. Michael Pollak (1992) aponta que a memória coletiva é em parte herdada, e não se refere apenas à vida física da pessoa, a memória remete tanto aos mecanismos de acumulação vinculando-se às formas de conservação, atualização e reconhecimento de uma lembrança, quanto aos processos de compartilhamento de representações sociais.

 

Em 1992, um grupo de mulheres realizou o 1º Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, em Santo Domingos, na República Dominicana, com o objetivo de realizar um debate internacional sobre a situação das mulheres negras na América Latina. Foi a partir desse encontro que nasceu a Rede de mulheres Afro-Latino-americanas e Afro-Caribenhas. Com isso, o dia 25 de julho passou a ser conhecido como o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha – um marco internacional da luta e da resistência da mulher negra, que a coloca no centro de sua história. E no Brasil, a data começa a criar forma após a Lei nº 12.987/2014, que foi sancionada pela presidenta Dilma Rousseff, como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Tereza de Benguela foi uma importante liderança quilombola, que viveu durante o século XVIII. Sua história narra a saga de muitas mulheres negras que perderam seus companheiros e tornaram-se protagonistas na liderança de suas comunidades, suas famílias resistindo, juntamente com as populações indígenas a escravidão.

Compreender os aspectos sociais que envolvem a mulher negra, latino-americana e caribenha, submetida aos aspectos do racismo estrutural engendrados ao cisheteropatriarcado, classismo e outros desdobramentos coloniais possibilita entender a complexidade das desigualdades, os efeitos do sofrimento histórico reatualizados pela singularidade de cada vivência e também as potencialidades e legados, dessas mulheres. Esse processo é fundamental para pensar e repensar a forma do fazer a Psicologia, o setting e os demais espaços de atenção à saúde mental e global dessas mulheres.

E como isso se relaciona à Psicologia? O primeiro princípio fundamental do Código de Ética Profissional do Psicólogo (Res. CFP 010/2005) aponta que o trabalho da Psicologia deve ser baseado “no respeito e na promoção de liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano”. Já o princípio segundo coloca como dever contribuir “para a eliminação de quaisquer formas de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”.

 

Dessa forma, compreende-se que o fazer da Psicologia está atrelado à reflexão dos modelos construídos sócio historicamente, portanto, questionar os modos sociais vigentes, que estruturam subjetividades, leia-se aqui com ideário branco, exige atentar aos efeitos psicossociais nas subjetividades não-brancas, como a de mulheres negras. Quais seriam, então, as estratégias para tal manejo, já que o racismo ocorre o tempo todo, afetando as mulheres nos diversos segmentos e estados condicionantes?

 

Para além do questionamento do ideário branco, a Psicologia precisa reconhecer a existência de subjetividades diversas, negras, latino-americanas, caribenhas, e outras subjetividades não brancas. Reconhecer essas existências e suas singularidades traz à tona questões que muitas vezes não são abordadas durante a formação em cursos de psicologia, majoritariamente planejadas com bases em produções brancas e eurocêntricas. Sem esse reconhecimento, não é possível transformar os condicionantes racistas que estruturam a nossa sociedade atual e contribuem para a produção de sofrimento.

 

Também é importante entender que as relações de poder existentes nos contextos de vida das mulheres negras latino-americanas e caribenhas são diversas das existentes em outros contextos, atuando de forma crítica diante dos efeitos psicossociais causados por elas, conforme mais uma vez enfatiza o Código de Ética.

 

Entendemos que a construção de uma Psicologia racializada e decolonial é recente. Ainda utilizamos muitos referenciais e modelos teóricos europeus ou estadunidenses. Dessa forma, não avançamos do debate sobre construções subjetivas de nosso país e região enquanto colonizados. Marcar dentro da Psicologia e da sociedade civil o dia 25 de julho é reivindicar que comecemos a construir nossa própria história e nossos modelos teóricos, enquanto mulheres negras latino-americanas.

Confira o primeiro da série de vídeos em celebração à data:

A importância do quesito raça/cor nos dados de saúde sobre a Covid-19: por uma política de saúde mais justa e igualitária

O contexto de pandemia da Covid-19 desafia toda a sociedade frente ao combate e à minimização dos seus efeitos. No caso brasileiro, assistimos a um cenário com diferentes complexidades estruturadas pela história escravocrata e suas atualizações engendradas pelo capitalismo. Vê-se a manutenção das desigualdades raciais, sociais e de gênero legitimadas pelos ataques e perdas de direitos ligados ao desenvolvimento social. Dentre o rol, a saúde pública enfrenta uma série de ataques coadunados com o projeto de desmonte do Sistema Único de Saúde, o SUS. Neste feito, o quadro de pandemia visibiliza as vulnerabilidades do tecido social brasileiro e convoca todas as classes profissionais para a atuação crítica e de enfrentamento às desigualdades em saúde.

Ainda que o quesito raça/cor seja obrigatório nos formulários de saúde desde 2017, só a partir de 10 de abril de 2020 os dados dos acometidos por Covid-19 apresentaram as informações exclusivas sobre raça/cor nas notificações do sistema do Ministério da Saúde sobre a pandemia. Essa medida foi tomada com base no pedido do Grupo de Trabalho de Saúde da População Negra da Sociedade Brasileira de Medicina da Família e Comunidade, que apresentou a preocupação com a possibilidade de subnotificações de casos entre a população negra. A Coalizão Negra por Direitos Humanos, também, solicitou tais dados pela Lei de Acesso à Informação.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, 67% dos brasileiros que dependem exclusivamente do SUS são negros, e estes também são maioria dos(as) pacientes com diabetes, tuberculose, hipertensão, doenças renais crônicas e anemia falciforme no país, todos considerados agravantes para o desenvolvimento de quadros de Covid-19. Tais comorbidades de saúde são potencializados pelos efeitos objetivos e subjetivos do racismo nas condições materiais de vida da maioria da população brasileira, conforme aponta a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN).

O enfrentamento dessa crise convoca atuações éticas já previstas pelas políticas públicas de igualdade racial e pelos documentos oficiais de defesa dos direitos humanos. Além da resolução do Conselho Federal de Psicologia 018/2002 que estabelece normas de atuação para as/os psicólogas(os) em relação ao preconceito e à discriminação racial, também foram publicados trabalhos para explicitar as complexidades das violências das relações raciais no país, assim como o desenvolvimento de possibilidades institucionais, principalmente pela contribuição do movimento negro, para superar o racismo e o mito da democracia racial.

Para Kabengele Munanga, a sociedade brasileira não é uma sociedade com democracia racial porque nós convivemos com vários tipos de preconceito e discriminação, o que sustenta uma ideologia chamada racismo. Para o antropólogo, o racismo brasileiro tem suas peculiaridades, com destaque à negação de sua existência. Sendo assim, já tarda o reconhecimento do Estado sobre a importância do fator racial nos dados sobre a população. Já que os dados auxiliam não só na revelação do racismo estrutural, como no combate dessa problemática social. A seguir, contextualizamos brevemente a inserção do quesito raça/cor nas informações oficiais da saúde.

 

Quesito raça/cor nos formulários de saúde

A Portaria nº 344 do Ministério da Saúde, publicada no Diário Oficial da União na edição de 2 de fevereiro de 2017, tornou obrigatório o preenchimento do quesito raça/cor nos formulários dos sistemas de informação em saúde. O documento é resultado de articulações entre o Ministério da Saúde e a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, SEPPIR.

Essa portaria subsidia o planejamento de políticas públicas relacionadas às necessidades específicas de cada grupo racial/étnico e a melhoria da qualidade dos sistemas de informação do Sistema Único de Saúde (SUS) frente à coleta, ao processamento e à análise dos dados organizados por cor, etnia e gênero, bem como a promoção da equidade.

O quesito raça/cor nos sistemas de informação do SUS atende aos objetivos da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, que define os princípios, a marca, os objetivos, as diretrizes, as estratégias e as responsabilidades de gestão voltados para a melhoria das condições de saúde das pessoas negras.

O preenchimento dos formulários na saúde segue os critérios desenvolvidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística-IBGE (preta, parda, indígena, amarela e branca) com base na autodeclaração, em que cada pessoa explicita sua raça/cor. Vale ressaltar que essa padronização entre os dados contribui para outras análises em diferentes contextos, bem como possibilita a visibilidade de dados referentes a ausência de direitos e dignidade para certas camadas da população. Diante disso, espera-se respostas políticas e institucionais às diferentes iniquidades apontadas por informações como as seguintes:

 

Dados da população negra (pretas e pardas)

No mercado de trabalho, os pretos ou pardos representavam 64,2% da população desocupada e 66,1% da população subutilizada. Enquanto 34,6% dos trabalhadores brancos estavam em ocupações informais, entre os pretos ou pardos esse percentual era de 47,3% (IBGE, 2018);


Em relação à distribuição de renda, os pretos ou pardos representavam 75,2% do grupo formado pelos 10% da população com os menores rendimentos e apenas 27,7% dos 10% da população com os maiores rendimentos (IBGE, 2018);


67% das pessoas em situação de rua se declararam pardas ou negras (IBGE, 2018);


Segundo o Sistema Integrado de Informações Penitenciárias (InfoPen), 60% da população carcerária é negra.


Enquanto 44,5% da população preta ou parda vivia em domicílios com a ausência de pelo menos um serviço de saneamento básico, entre os brancos, esse percentual era de 27,9% (IBGE, 2018);


Pretos ou pardos são mais atingidos pela violência. Em todos os grupos etários, a taxa de homicídios dos pretos ou pardos superou a dos brancos. A taxa de homicídios para pretos ou pardos de 15 a 29 anos chegou a 98,5 em 2017, contra 34,0 para brancos. Para os jovens pretos ou pardos do sexo masculino, a taxa foi 185,0 (Mapa da Violência 2015);

Segundo o Mapa da Violência 2015, a taxa de homicídio de mulheres negras no Brasil, saltou de 1.864, em 2003, para 2.875, em 2013. Em contraposição, houve recuo de 9,8% nos crimes envolvendo mulheres brancas, que caiu de 1.747 para 1.576 entre os anos 2003 e 2013. As vítimas de crimes violentos são mulheres jovens, a maioria entre 18 e 30 anos, negras e pobres. O estudo mostra ainda que 50,3% das vítimas são assassinadas por familiares e 33,2% dos crimes são cometidos por parceiros ou ex-parceiros. A partir destes dados, podemos induzir que mulheres negras são as principais vítimas da violência doméstica no Brasil”, diz Suelaine Carneiro, do Geledés – Instituto da Mulher Negra;


O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) calculou que em 2013 as mulheres negras já representavam 51,8% do total da população do país – algo em torno de 59 milhões de pessoas;


Segundo o Ipea, em 2013, apenas 26,3% das mulheres negras brasileiras possuíam níveis de renda médios ou altos: residindo em regiões com menos água encanada, menos esgotamento sanitário, menos coleta regular de lixo, menos acesso à alimentação, à escola, aos serviços de saúde. Como chefes de famílias, sustentam a casa por meio de ocupação majoritariamente doméstica, emprestando cuidado às casas e aos filhos dos outros, e ganhando menos – em torno de 86% dos rendimentos de mulheres brancas que exercem as mesmas funções;


Mulheres negras eram apenas 1% do total de ocupantes do Congresso Nacional em 2014 e 0,5% em cargos de direção das 500 maiores empresas presentes no Brasil em 2010 (Dossiê ‘A situação dos Direitos Humanos das mulheres negras);


Entre a população LGBTQI+, as 118 pessoas trans assassinadas no Brasil entre 1º de outubro de 2014 e 30 de setembro de 2015, e organizações civis afirmam que a maioria era de mulheres negras, embora a subnotificação ou a notificação incompleta não permitam a apresentação de um número exato.

Em 2018, dentre os 46.631.115 vínculos formais no Brasil, os piores salários eram pagos para trabalhadores dos serviços essenciais, constituído majoritariamente por pessoas negras: no telemarketing (64,1%); na limpeza urbana (55,4%); na segurança (52,9%), na construção civil (50,2%), entre tantos outros, aponta a pesquisa de Mário Silva.

 

O que os dados nos mostram em relação a população preta e o combate ao Covid-19?

Em suma, esses dados indicam que a população negra está submetida a um conjunto de condições precarizadas historicamente e engendradas para a manutenção desse quadro estrutural. Sabe-se que essa mesma população não pode evitar os riscos da Covid-19, pois é justamente a que precisa manter os serviços essenciais das cidades funcionando. Lembrando que, as medidas mais assertivas de enfrentamento as taxas mortalidade causadas pelo Covid-19 foram: distanciamento social, testes em larga escala e o monitoramento. E para tanto, os países investiram na eficiência do sistema de saúde e focaram nas políticas públicas para as pessoas mais vulneráveis, que são as mais afetadas pelo vírus.

As experiências de países que não adotaram tais medidas seguem o cenário que tem se intensificado no Brasil. De acordo com o doutor em Biologia, Gustavo Silva, diretor do laboratório de pesquisa na Universidade de Duke, a comunidade negra é a mais impactada tanto nos Estados Unidos como no Brasil devido à exposição ao contágio, à suscetibilidade ao vírus em função de outras doenças pré-existentes e à falta de acesso ao tratamento adequado.

Segundo os dados do Ministério da Saúde do dia 10 de abril de 2020, o Covid-19 apresentou maior letalidade entre a população negra brasileira, embora minoritários entre o número de afetadas, as pessoas negras representam 1 em cada 4 brasileiros hospitalizadas com Síndrome Respiratória Aguda Grave (23,1%), mas atingem a proporção de 1 em cada 3 entre as mortas (32,8%). Os registros no sistema anteriores a essa data desconsideram a cor/raça de 32%, 1.056 óbitos pela doença. Ressalta-se ainda que, muitos dados permanecem sem a identificação raça/cor, mesmo após essa data.

Além disso, assistimos no Brasil medidas governamentais contrárias ao que preconiza a Organização Mundial de Saúde (OMS) para o combate do Covid-19 e o aumento das pessoas acometidas pelo vírus. Já que, os dados apresentados apontam a vulnerabilidade social, anterior a pandemia. Entendendo que o direito à saúde e as determinações de nascimento, curso da vida e morte estão implicadas com outras garantias como renda, escolaridade, cidadania, alimentação, condições de moradia – saneamento básico, luz elétrica, abastecimento de água, território garantido e seguro etc. -, acesso à cultura, lazer e respeito/reconhecimento da memória, religiosidade e identidade do seu grupo.

Acompanha-se também, segundo Cida Bento, comunidades tradicionais, como as Quilombolas, ainda não recenseadas e violadas de cuidados. Os povos originários, muitas vezes isolados, vivenciando invasões em seus territórios ou pressão para deslocamento forçado, como a comunidade de Alcântara, no Maranhão. Portanto, ainda mais vulnerabilizadas em situações como a do Covid-19, por terem menos acesso aos serviços de saúde.

Quando se busca um fazer ético no campo da saúde, racializar os dados passa longe de ser ameaça, a não ser que se invista no mito da democracia racial, respondida via omissão ou ocultamento de informações. Ao contrário, como afirma Cida Bento, são informações cruciais para auxiliar o Brasil a tomar decisões acertadas sobre seu presente e melhor cuidar de seu futuro.

Vidas negras importam: por uma Psicologia antirracista e antifascista

O assassinato brutal de George Floyd, asfixiado pelo joelho de um policial branco, incendiou as ruas de diferentes cidades dos Estados Unidos: as vias foram tomadas por manifestações de protesto contra a violência racista e letal cometida em Minneapolis no dia 25 de maio de 2020. A morte do homem negro de 46 anos reverberou em diferentes manifestações inicialmente pacíficas e, depois, multiplicadas e intensificadas em diversos lugares de todo o mundo, incluindo o Brasil.

Uma das cenas mais icônicas envolvendo os protestos foi o prédio de Minneapolis em chamas, imagem compartilhada exaustivamente em diferentes meios de comunicação e redes sociais. Além das manifestações ocuparem as ruas de diferentes formas a hashtag blacklivesmatter (vidas negras importam) também tomou conta das redes sociais nos últimos dias.

No Brasil, os atos foram impulsionados pela indignação frente à violência policial sistemática nas periferias que resultam em mortes negras deliberadas e com aceite da naturalização social dessas violências. Ágatha Felix, João Pedro Mattos, Kauê Ribeiro dos Santos, Kauã Rozário, Kauan Peixoto, Jenifer Cilene Gomes são algumas crianças e adolescentes vítimas do Estado, assassinadas durante operações policiais violentas em favelas no Rio de Janeiro. O genocídio da população negra é denunciado há décadas pelo Movimento Negro: o Mapa da Violência aponta que, no Brasil, a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado.

A Covid-19 e a falta de políticas públicas

Além disso, vale destacar que nesse momento o Brasil se encontra na quarta posição no número de mortes pela Covid-19, e que o governo federal pouco tem agido de forma a combater a pandemia e proteger a população; pelo contrário, instiga e proporciona que seus defensores vão às ruas protestar por modelos fascistas e autoritários, ignorando todas as recomendações da Organização Mundial de Saúde, de cientistas e epidemiologistas pelo isolamento social.

É conhecido o fato de que existem segmentos na sociedade que são impedidos de realizar a proteção diante da pandemia, pois utilizam transportes públicos, vivem em condições precárias de moradia e higiene, precisam de seus empregos (que são precarizados, isso se não perderam os empregos) e que não estão recebendo atenção e cuidado do Estado, estratégias condizentes com o projeto genocida contra a população negra e indígena.

O racismo estrutural nos EUA e no Brasil

O racismo estrutural é resultado do processo de colonização e escravização atualizado na sociedade. A marginalização das populações negras e indígenas as tornam as maiores vítimas não apenas da pandemia, mas da violência do Estado concretizada na falta de políticas públicas, retirada de investimentos em saúde, educação e assistência social, e principalmente no incentivo estatal e avanço dos assassinatos de jovens negros e negras nas favelas brasileiras pela polícia militar, bem como nos assassinatos de indígenas por grileiros e proprietários de terra. É importante ressaltar que o racismo estrutural e as lógicas coloniais são evidentes em nossa sociedade pelo fato de o racismo atuar também do imaginário da população sobre o que poderia significar ser negro, branco, indígena, asiático, etc.

Embalado pelos protestos antirracistas nos EUA, o povo brasileiro também iniciou um processo de respostas antifascistas contra os ataques do governo Bolsonaro, este que cedeu apoio ao projeto de Winson Witzel no Rio de Janeiro – operações militares em helicópteros com aval para dar tiros em escolas e espaços comunitários – que provocou muitas mortes de pessoas negras. O mesmo governo ancora Paulo Guedes, defensor de reformas contra os direitos de trabalhadores e trabalhadoras, com um discurso contra serviços públicos.

Faz-se necessário contextualizar o cenário, pois esses elementos compõem a luta antifascista que viralizou também nas redes sociais nas últimas semanas e evidencia que a luta antirracista é condição para o enfrentamento antifascista. Ou seja, ser antifascista requer necessariamente o posicionamento na luta contra o racismo, assim como outras formas de desigualdade que estruturam a sociedade brasileira. Acompanhamos esses movimentos ganharem força a partir dos atos de torcidas organizadas em São Paulo pela defesa de uma democracia de fato. Tarda o momento de levantarmos nossas vozes e colocar em xeque o privilégio branco e a consequente manutenção das desigualdades raciais que tiram vidas diariamente.

A Psicologia antirracista e antifascista

O racismo é um fenômeno multifacetado e complexo e cabe a nós, Psicólogas e Psicólogos, o entendimento desse fenômeno, pois o Código de Ética Profissional da(o) Psicóloga(o) nos orienta a denunciar e ser contra todas as formas de discriminação e violência, valorizando uma ética pautada nos Direitos Humanos. Não menos importante são a Resolução CFP nº 08/2002 e as Referências Técnicas para atuação profissional sobre relações raciais. Ainda temos na formação em Psicologia um grande déficit de aprendizado em relação ao tema, embora existam diversas pesquisas sobre as relações raciais no Brasil. Isso evidencia também o que valorizamos e o que deixamos de valorizar enquanto categoria profissional e enquanto sociedade.

“Se a normalidade é branca, tudo o que não for branco é inferiorizado”, diz Alexandra Loras em entrevista exclusiva ao CRP-PR

No dia 25 de julho é comemorado o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. Neste ano, para trazer reflexões sobre a data, o Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) entrevistou a jornalista, consultora e empresária Alexandra Loras. De origem francesa e radicada no Brasil, Alexandra já foi consulesa da França no país e discute questões relacionadas a gênero e racismo. Busca ajudar as empresas a criarem ambientes mais inclusivos e com respeito à diversidade, conscientizando-as de que o ambiente mais equilibrado oferece mais saúde, criatividade e gera melhores resultados.

Acompanhe a seguir a entrevista:

CRP-PR – A senhora fala muito sobre o empreendedorismo e as relações raciais. Há vários estudos que mostram como é difícil para as pessoas negras, sobretudo para a mulher negra, serem reconhecidas pelo mercado. Como você percebe e quais são essas diferenças no mundo empreendedor? Os padrões machistas e racistas comuns na sociedade brasileira se repetem quando o tema é investimento em novas ideias?Alexandra Loras – Com certeza, os números do empreendedorismo mostram que a maioria dos empreendedores no Brasil (56%) são negros. Só que as instituições financeiras têm uma grande dificuldade de enxergar a possibilidade de emprestar dinheiro para empreendedores negros. Então, tem uma economia informal que gera mais de R$ 1 trilhão no Brasil por ano e sem CNPJ.  Hoje, precisamos perceber o quanto essa oportunidade econômica não está sendo estudada pelos economistas por um preconceito profundamente enraizado na cultura brasileira.

Uma pesquisa da Makenzie, por exemplo, demonstra que as empresas que reequilibram a diversidade étnico-racial aumentam 35% o negócio dela em termos de rentabilidade. Porque, se você só deixa homens brancos da PUC, GV, Makenzie para desenvolver produtos e campanhas de marketing e publicidade para falar com o verdadeiro público brasileiro, que é composto de 114 milhões de negros, eles não conseguem dialogar com esse público, porque eles não conhecem esse público, eles não se relacionam com esse público, e eles estão cheios de estereótipos sobre esse público. Então, por trazer mais negros nas empresas, elas conseguem “performar”, co-criar, inovar melhor, se adaptar melhor com o verdadeiro público brasileiro.

As universidades brasileiras, com as cotas nestes últimos dez anos, tiveram um aumento de 350% de negros. Então, negros com mestrado, doutorado, que falam inglês, tem milhares. Mas o preconceito das empresas, dos RHs, faz com que eles não percebam estes talentos, que acabam sendo freelancers, empreendedores, porque não conseguem se recolocar no mercado brasileiro clássico. Eu ajudei na contratação de 458 negros em multinacionais o ano passado, em 2018, e vejo como as empresas estão falando de diversidade, mas tem pouquíssima expertise na inclusão. Então, eu sou consultora para ajudar as empresas nesse processo através dos meus treinamentos, workshops e palestras.

Negros com mestrado, doutorado, que falam inglês, tem milhares. Mas o preconceito das empresas, dos RHs, faz com que eles não percebam estes talentos, que acabam sendo freelancers, empreendedores, porque não conseguem se recolocar no mercado brasileiro clássico.

O empreendedorismo também é utilizado muitas vezes para nomear atividades realizadas para a sobrevivência, sem qualquer garantia de direitos trabalhistas ou mesmo de condições mínimas de vida. Desta forma, no discurso midiático a pessoa que acorda às 5h da manhã para fazer e vender bolo se torna uma empreendedora guerreira e com força de vontade. Como você analisa situações como essa? Qual a sua concepção de empreendedorismo e como ele se relaciona com populações em situação de vulnerabilidade social?Com certeza a economia informal, no Brasil, gera mais de R$ 1 trilhão, e infelizmente não tem CNPJ, não tem abertura de conta bancária, por preconceito das instituições financeiras. Tem uma criatividade na frequência da sobrevivência e da necessidade de “se virar”, e acho que realmente o Brasil não está olhando o preconceito que ele tem. Se olhamos o Carnaval, ele é feito por pessoas que chamamos de carentes, analfabetos funcionais, pobres. E, na verdade, a liderança organizacional do carnaval é umas melhores do mundo: sai tudo na hora, impecável, é parametrado, é o maior evento criativo do mundo. E é feito por essas pessoas que muitos enxergam como carentes, como incapazes.

Imagina se essas mesmas pessoas tivessem a oportunidade de colocar o talento que elas usam no Carnaval dentro da economia brasileira, dentro da sua empresa, dentro da sua história. Por isso, precisamos repensar nossa sociedade, com mais empatia e compaixão.

Se olhamos o Carnaval, ele é feito por pessoas que chamamos de carentes, analfabetos funcionais, pobres. E, na verdade, a liderança organizacional do carnaval é umas melhores do mundo: sai tudo na hora, impecável, é parametrado, é o maior evento criativo do mundo. Imagina se essas mesmas pessoas tivessem a oportunidade de colocar o talento que elas usam no Carnaval dentro da economia brasileira, dentro da sua empresa, dentro da sua história.

Há mudanças em termos de representatividade da mulher negra na mídia, em contextos que antes eram mais reservados a homens e, posteriormente, mulheres brancas, como o próprio jornalismo e as artes. O que se avançou e o que precisa avançar? Como essas mudanças impactam o futuro de meninas negras?

Personalidades como a jornalista Maju Coutinho, Joyce Ribeiro e Taís Araújo vêm inspirando as negras a se enxergarem capazes de se tornarem jornalistas, apresentadoras, atrizes em vários papéis dentro da novela, como protagonistas  – o que antes era sempre no papel da faxineira, da amante que destruía o casamento dos ricos brancos, sempre hiperssexualizada. Hoje, estamos começando a ter juízas negras, advogadas negras dentro das produções audiovisuais. Elas vão mudando o imaginário das pessoas.

Vivemos em um momento em que a sociedade se encontra dividida entre grupos de pessoas que defendem os direitos de mulheres e pessoas negras e outros que dizem que esta não é uma questão relevante, que é “mimimi” ou que minimizam o racismo. Para você, quais são as formas possíveis de superação dessa dicotomia?

Recentemente, tivemos o caso da atriz Halle Bailey, anunciada como a escolhida para representar a Pequena Sereia, que mostrou o racismo implícito na nossa sociedade. Na verdade, para nós, negros, o racismo implícito não precisa ser demonstrado por polêmicas como esta. Ela é muito óbvia para nós. Isso só ajuda as pessoas brancas a perceberem que existe um problema. Uma sereia que é uma personagem imaginária, ficcional, deu toda uma polêmica, como também gerou a escolha de uma mulher negra para interpretar o James Bond 007.

Acho necessário que existam essas polêmicas para justamente ajudar a enxergar o elefante na sala. E parar de pensar que é vitimismo, que é mimimi. Somos vítimas de um sistema extremamente patriarcal, machista e racista com um eurocentrismo que faz a branquitude não se enxergar como uma das raças, mas como a normalidade. Quando você se enxerga como “a normalidade”, você vai inferiorizando todos os que não estão considerados normais no seu olhar. Portanto, se a normalidade é branca, tudo o que não for branco é inferiorizado.

Então, hoje precisamos debater, polemizar, brigar, gritar, para justamente reequilibrarmos a sociedade. Mas, não podemos deixar só o homem branco falar que é mimimi, que não existe, que é vitimização. Hoje é tempo de escutar o outro lado. Esse lugar de fala, essa nova era na qual estamos, em uma comunicação mais diversa, deixa aparecer outros pontos de vista e é o que o Brasil me proporcionou.

Então, hoje precisamos debater, polemizar, brigar, gritar, para justamente reequilibrarmos a sociedade. Mas, não podemos deixar só o homem branco falar que é mimimi, que não existe, que é vitimização. Hoje é tempo de escutar o outro lado.

A senhora acredita que a forma como a mulher negra latina é vista pelo resto do mundo mudou nos últimos anos? Como?

Com certeza nesses últimos anos, em certos lugares do mundo, a questão da mulher negra, e não só latina, ela vem mudando de forma radical e muito forte na moda, no mundo dos desfiles, nas propagandas. Por exemplo, eu ajudei a aumentar em 600% a presença da mulher negra na revista Vogue nesses últimos anos com palestras, conscientização, e o resultado é fenomenal, só que ainda não é 54% da revista, como é a representatividade negra no Brasil, segundo o IGBE.

 

Agora, eu acho que tem uma mudança no imaginário e, obrigada a Netflix, que vai colocando a mulher negra e homens negros como protagonistas de seriados. É genial o que isso proporciona para nossa sociedade, mudando paradigmas, arquétipos. Acho muito necessário e a velocidade dessa representatividade está acelerando, o que me deixa muito feliz, por fazer parte dessa mudança que quero ver no mundo.

Agora, eu acho que tem uma mudança no imaginário e, obrigada a Netflix, que vai colocando a mulher negra e homens negros como protagonistas de seriados. É genial o que isso proporciona para nossa sociedade, mudando paradigmas, arquétipos.

No Congresso atual, deputadas federais negras têm relatado que são solicitadas a mostrar seus crachás em todas as áreas de acesso restrito, o que não ocorre com os homens e com as deputadas brancas. Ser uma mulher negra em um lugar de poder ou de liderança deve estar cercado por exemplos como esses. Como é possível modificar essa realidade?

Não só no Congresso atual, mas em todos os lugares somos tratadas com racismo. É uma frequência o racismo. Não é apenas alguém te chamar de macaca. É alguém te tratar com menos respeito que com brancos. Isso nos acontece todo dia, em cada esquina do Brasil. Para mim o racismo no Brasil nunca foi velado, mas, está tão enraizado na cultura que as pessoas se acostumaram a ele no dia a dia.

 

Na residência consular, por exemplo, na qual eu recebia 6 mil pessoas por ano, o protocolo coloca a questão de eu ficar na entrada da residência para acolher os convidados. Muitos achavam que eu era a empregada doméstica da residência consultar. Você entrar em uma loja de lingerie e perceber que as pessoas não vêm te atender porque não acham que você, como mulher negra, pode consumir naquela loja. Hoje, eu vejo que, por exemplo, entrar em uma loja de brinquedo no Brasil – seja em Salvador ou em Curitiba –, e não achar um super-herói negro no país onde a maioria das crianças são negras é ainda pior que pedir o crachá no Congresso. Isso é educar as crianças a se tornarem racistas desde a base.  Não ter negros protagonistas nos desenhos animados me incomoda ainda mais do que alguém me perguntar se eu sou a babá do meu filho para entrar em um clube. Mas, é importante perceber que nossa jornada é muito difícil.

Não achar um super-herói negro no país onde a maioria das crianças são negras é ainda pior que pedir o crachá no Congresso. Isso é educar as crianças a se tornarem racistas desde a base.

Muito se tem discutido sobre “lugar de fala”. Algumas pessoas consideram que pessoas brancas não podem discutir o racismo e que homens não deveriam falar sobre o machismo. Já outras defendem que homens e pessoas brancas sejam aliadas das mulheres e das pessoas negras e que é importante agregar essas pessoas na luta contra o racismo e machismo. Como você vê essa questão?

Eu discordo daquele conceito do “lugar de fala” que proíbe os homens e pessoas brancas de discutir machismo e racismo. Justamente, eu acho que os homens inventaram o machismo e são eles que têm que resolver. O negro já é inferiorizado, é isolado socialmente, tem menos recursos econômicos, está sempre em um momento de sobrevivência. É o branco que tem que resolver a questão do racismo e os homens que têm que resolver a questão do machismo, se colocando como aliados, escutando nosso ponto de vista e apoiando. É preciso que eles façam parte e se tornem ativistas na luta antirracista. Não é só dizer “eu sou contra o racismo”. E, o que você fez hoje contra o racismo?

Não é papel do negro resolver o que a opressão e a dominação extremamente sofisticadas que o eurocentrismo fez para milhões de pessoas. Precisamos resolver tudo isso juntas e juntos, entendendo que há também um momento para conseguir escutar o outro. Estamos entrando nessa fase e discordo de não deixar os homens e os brancos entrarem na pauta.

Temos que tirar das costas do branco a mochila do passado. O branco de hoje não é responsável pela escravidão de ontem, como o alemão de hoje não é responsável pelo holocausto do Hitler. Mas, somos todos responsáveis para reequilibrar nossa sociedade e é preciso reconhecer que a chave do jogo está ainda nas mãos do branco.

O branco de hoje não é responsável pela escravidão de ontem, como o alemão de hoje não é responsável pelo holocausto do Hitler. Mas, somos todos responsáveis para reequilibrar nossa sociedade e é preciso reconhecer que a chave do jogo está ainda nas mãos do branco.

Políticas públicas para os povos indígenas é tema de debate no Acampamento Terra Livre 2019

O Psicólogo César Rosário Fernandes (CRP-08/16715), Assessor Técnico de Políticas Públicas do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR), esteve presente no maior fórum de discussão sobre direitos sociais e políticas públicas dos povos indígenas no Brasil, o Acampamento Terra Livre (ATL). No encontro, que aconteceu em Brasília entre os dias 23 e 26 de abril, César participou dos debates, audiências e outros espaços para acompanhar, conhecer e aprender sobre políticas públicas de saúde com indígenas do país todo. Foi a primeira vez que o CRP-PR participou do acampamento.

César esteve na audiência pública na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, que ocorreu na manhã do dia 25 de abril. Na ocasião, o Psicólogo teve a oportunidade de participar de discussões sobre políticas públicas de saúde, políticas de drogas, suicídio, assistência social, educação e o direito a terra e território. Além disso, a audiência colaborou para aprofundar as especificidades referentes à saúde mental dos povos indígenas, a fim de permitir práticas promotoras de cidadania e dignidade.

Pela tarde, houve uma audiência no Supremo Tribunal Federal e aconteceram os grupos de trabalho, que discutiram geração de renda e trabalho, saúde mental integral, gênero, terra e território, educação, infância e juventude, segurança e proteção dos povos originários.

Durante o ATL 2019, César conversou com Erisvan Bone Guajajara, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), sobre o encontro, os retrocessos nos direitos da população indígena, as recentes mobilizações sobre as políticas públicas de saúde. Erisvan também citou algumas sugestões aos profissionais de saúde.

 

No dia 26, César e os demais ativistas se mobilizaram pela manhã contra a municipalização da saúde indígena e contra Medida Provisória que tira a Funai do Ministério da Justiça para integrá-la ao Ministério da Agricultura, prejudicando a demarcação de terras indígenas.

 

 

Sobre os três dias de atividade, o assessor do CRP-PR resume: “A gente conversou com muita gente e aprendeu muito sobre as tecnologias críticas de cuidado e de assistência em saúde mental e sobre a importância que o movimento indígena dá para a preservação da natureza como fator constitutivo da sua subjetividade e das suas condições de saúde mental”.

#PraCegoVer Homem de camiseta branca fala olhando para a câmera e ao fundo um grande grupo de pessoas indígenas.

 

Cesar finalizou a participação chamando a categoria para participar destes espaços: “Psicólogas e Psicólogos com o pé no chão, o pé no barro, fazendo políticas públicas no dia a dia e fortalecendo os espaços de controle social e de mobilização por mais direitos sociais para todos e para todas”.

O dia 8 de março é um marco para a luta, mas a luta é o ano todo

O dia 8 de março é um marco para as lutas das mulheres por respeito, por liberdade, autonomia e garantia de direitos.  A comemoração ocorre em muitos países e a luta está presente no mundo inteiro, mas se torna essencial no Brasil, país que tem 13 mortes violentas de mulheres por dia e registrou quase 5 mil sentenças de feminicídio em 2017, segundo dados do Instituto Patrícia Galvão.

 

Em 2018, ao menos 9 mulheres foram vítimas de agressão sexual por minuto, de acordo com a pesquisa Visível e Invisível – A Vitimização de Mulheres no Brasil 2ª Edição, realizada pelo Datafolha e Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O número total é absurdo: 4,6 milhões de mulheres foram tocadas ou agredidas fisicamente por motivos sexuais apenas no ano passado. Somando todas as formas de agressão, uma mulher é vítima de violência a cada dois minutos.

 

A realidade se mostra difícil para as mulheres também no mercado de trabalho, pois recebem menos e, sobretudo quando são mães, têm suas oportunidades de contratação reduzidas. Mulheres negras e pobres estão ainda mais expostas à violência e ao preconceito.

 

Neste contexto, os temas ligados a mulher perpassam a Psicologia em todas as frentes e áreas de atuação. Essa é uma pauta constante e necessária, por isso, a luta também precisa ser diária.

 

Relembre abaixo algumas das reportagens publicadas e eventos realizados pelo Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) no último ano:

 

Manifestação contra o racismo e o preconceito em Maringá-PR

O Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR), por meio de sua Comissão de Direitos Humanos (CDH), do Núcleo de Questões Étnico-Raciais/CDH, da Comissão Gestora da Subsede de Maringá e dos representantes da instituição nos Conselhos Estaduais de Promoção da Igualdade Racial (CONSEPIR), Direitos Humanos (COPED) e Direitos dos Migrantes, Refugiados e Apátridas (CERMA), manifesta sua ampla solidariedade ao estudante Nilson Lucas Dias Gabriel e também à sua irmã Geovanna Dias Gabriel. Nilson, que é graduado em Psicologia e pesquisador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares Afro-Brasileiros e do Mestrado em Psicologia da Universidade Estadual de Maringá, e Geovanna sofreram, na sexta-feira (10), violentos ataques racistas de uma vizinha em Maringá. Em uma discussão, a mulher vocalizou diversas expressões racistas e elitistas, com agressões verbais gravíssimas e inaceitáveis do ponto de vista dos Direitos Humanos. 

A conjuntura de crise social que atravessa o país aprofunda a violência contra setores politicamente marginalizados, como a população negra, o que legitima a expressão muitas vezes incontestada do racismo. Acentua-se o genocídio da população negra, sobretudo de jovens periféricos, colocando por terra o mito da democracia racial.

Segundo o Atlas da Violência 2017, lançado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mulheres, jovens e negros de baixa escolaridade são as principais vítimas de mortes violentas no país. A população negra corresponde à maioria (78,9%) dos 10% de indivíduos com mais chances de serem vítimas de homicídios. O documento revela que a cada 100 pessoas assassinadas, em 2017, 71 eram negras.

O encarceramento em massa de negras e negros e o feminicídio que cresce entre mulheres negras remonta à necessidade de aprofundamento da democracia. O contexto é de que, no entanto, por conta do racismo estrutural, grande parte da população negra brasileira ainda vive situações típicas de regimes autoritários, como invasões de residências sem mandado, prisões ilegais, execuções extrajudiciais e até prática de torturas por agentes da Segurança Pública.

A necessidade de fortalecimento das políticas públicas de promoção da igualdade racial e de ações afirmativas de combate ao racismo se demonstra cada vez mais urgente. Além disso, é fundamental potencializar os fóruns de controle social destas políticas, para que contem com dotação orçamentária governamental a fim de serem significativas e efetivas.

Além disso, o desfazimento de laços sociais e comunitários pautados em respeito e dignidade são evidentes. A violência e a intolerância crescem sob a égide de discursos conservadores e reacionários, que ganham espaço nas redes sociais, na mídia e até mesmo no cenário eleitoral. A Psicologia, como ciência e profissão pautada pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, deve contribuir para o enfrentamento do racismo e na reconstituição de relações sociais sustentadas no respeito e na solidariedade, livres de violência.

Os Princípios Fundamentais do Código de Ética Profissional do Psicólogo são nítidos ao apontar que a(o) Psicóloga(o) deve basear seu trabalho na promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano. As(Os) profissionais devem, em sua prática cotidiana, contribuir para a eliminação de qualquer forma de discriminação, violência, crueldade e opressão.

O CRP-PR reivindica a Resolução CFP nº 018/2002, que normatiza a atuação da Psicologia em relação ao preconceito e discriminação racial. Este documento dimensiona a contribuição da profissão para superar o preconceito racial, compreendendo que ele humilha e faz sofrer parcela significativa da população. A posição institucional de solidariedade aos jovens de Maringá também está ancorada na Declaração de Durban, aprovada na III Conferência Mundial Contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas e na Convenção Internacional Sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial.

Esta autarquia profissional registra seu repúdio a qualquer forma de violação de direitos, reiterando a disposição em seguir contribuindo para a construção de reflexões sobre o exercício profissional de Psicólogas(os), na perspectiva da eliminação do racismo em nossa sociedade. Também reivindica a célere apuração dos fatos e encaminhamentos das autoridades competentes.

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