Aborto

CRP-PR corrobora nota conjunta sobre a rede de proteção e acolhimento das pessoas vitimadas por violência sexual

Reprodução de conteúdo do Conselho Regional de Psicologia da 16ª região – ES

 

“A Declaração Universal dos Direitos das Crianças e o Estatuto da Criança e do Adolescente defendem uma infância protegida de todo tipo de exploração, negligência e violência.

Testemunhamos o preocupante desenlace de um caso de violência sexual contra uma criança no Espírito Santo, com exposição midiática de dados sigilosos da vítima e incitação a violências que produzem revitimização da criança e sua família, buscam criminalizar e deslegitimar a prática do abortamento previsto em lei e esvaziam o debate sobre a violência de gênero contra crianças e adolescentes – em específico, contra as meninas e a gravidez na infância e adolescência e o direito à interrupção da gravidez previsto na legislação brasileira (código penal de 1940) em caso de estupro. Por isso, é fundamental sustentar e aprofundar a discussão sobre a importância das políticas públicas que compõem tanto a Rede de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres quanto o Sistema de Garantias de Direitos de Crianças e Adolescentes, nas quais a Psicologia está diretamente inserida e implicada.

Reitera-se o preconizado no art. 17 do ECA, quanto à inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral de crianças e adolescentes, à preservação da imagem e da identidade, da autonomia, entre outros direitos. Além de feri-los, exposições sensacionalistas e midiáticas como a citada reforçam a instauração de um campo de disputas que retira do espaço de debate o zelo pelas práticas de promoção do direito da criança.

O Conselho Regional de Psicologia do Paraná se soma em apoio à manifestação do Conselho Regional de Psicologia do Espírito Santo, trazendo pertinentes orientações acerca da atuação profissional da Psicologia em situações de violência sexual. A escuta e atuação, fundamentadas na ética profissional, devem construir suas balizas no debate transversal à violência de gênero, ao abortamento, à justiça reprodutiva e à necessidade de defender uma concepção da infância fundamentada na promoção e garantia de direitos”.

Ainda sobre o tema, o CRP-PR dispõe de nota técnica para orientação profissional quanto ao atendimento a mulheres em situação de interrupção voluntária de gravidez.

 

Confira: https://transparencia.cfp.org.br/crp08/legislacao/nota-tecnica-crp-pr-004-2018/

CRP-PR lança Nota Orientativa sobre interrupção voluntária da gravidez em evento em Curitiba

Aos 40 anos, quase uma em cada cinco mulheres realizou um aborto, segundo dados da Pesquisa Nacional do Aborto, elaborada por Débora Diniz, Marcelo Medeiros e Alberto Madeiro, três dos mais importantes pesquisadores do tema. Se esse é um número de mulheres que chegaram a interromper a gravidez, certamente o volume de pessoas que pensaram sobre o assunto é imensamente maior, o que indica que muito provavelmente a(o) profissional de Psicologia irá se deparar com essa questão durante a carreira nas mais diversas áreas de atuação, mas, sobretudo, aquelas(es) que atuam na área clínica e de saúde pública.

 

Nesse contexto, o Conselho Regional de Psicologia do Paraná elaborou uma nota técnica de orientação para atuação dos profissionais no tema e irá lançar o documento durante o evento “Minha paciente fez/quer fazer um aborto. E agora?”. O evento trará informações sobre como devem se posicionar as(os) Psicólogas(os), bioética e ética profissional nesse contexto, sigilo profissional e objeção da consciência e acolhimento e clínica psicológica no contexto hospitalar, além de um espaço destinado ao debate.

 

Acesse a Nota Técnica CRP-PR 004/2018 na íntegra.

 

Confirma as informações e programação do evento:

Data: 29/03/2019

Horário: 19h

Local: Sede CRP-PR (Av. São José, 699, Cristo Rei)

Investimento:  As inscrições são gratuitas e serão realizadas no dia e local do evento. 

 

Programação:

19h – Abertura

19h15 – Mesa-redonda: “Minha paciente fez/quer fazer um aborto. E agora?”

  • Direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, o aborto legal e o aborto ilegal: como a Psicologia deve se posicionar? – Psic. Fernanda Rafaela Cabral Bonato – colaboradora da Comissão de Direitos Humanos do CRP-PR e membro do DIVERGES (Núcleo de Diversidade de Gênero e Sexualidades) do CRP-PR.
  • Interrupção voluntária da gravidez e Psicologia: bioética e ética profissional no contexto da NT CRP-08 n° 004/2018  – Psic. Deisy Maria Rodrigues Joppert (CRP-08/01803) – conselheira do CRP-PR e Presidente da Comissão de Ética
  • Sigilo profissional e objeção de consciência no contexto do atendimento clínico de mulheres que desejam ou realizaram abortos – Psic. Elisandra Mirandola Krause (CRP-PR 08/10853)
  • Acolhimento e clínica psicológica à mulher que aborta no contexto da Psicologia Hospitalar – Psic. Giovana Cristina Angioletti (CRP 08/09620), coordenadora da Comissão de Psicologia Hospitalar

20h45 – Debate

21h15 – Encerramento

Psicologia e direitos sexuais e reprodutivos: a descriminalização do aborto e as políticas públicas de saúde

A discussão acerca da descriminalização e legalização do aborto no Brasil ganhou novo fôlego recentemente, a partir da aprovação de lei que descriminaliza o aborto na Câmara dos Deputados da Argentina e com a convocação, por parte do Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro, de audiências públicas para discussão da temática. Na Argentina, até então, o aborto era punido com prisão e, como em boa parte dos países da América Latina, é permitido apenas nos casos de gravidez resultante de estupro, que confira risco para a mulher e quando não há possibilidade de sobrevivência para o feto. Em El Salvador, Nicarágua e Honduras o aborto é proibido em qualquer circunstância e no Uruguai, Cuba e Cidade do México pode ser realizado sem restrições.

Nesta sexta-feira (3), o STF deu início às audiências públicas da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 442, para questionar os artigos 124 e 126 do Código Penal, que criminalizam a prática do aborto. A ADPF 442 pede a exclusão do âmbito de incidência dos dois artigos à interrupção voluntária da gravidez nas primeiras 12 semanas de gestação, alegando a violação de diversos princípios fundamentais e constitucionais como: a dignidade da pessoa humana, a cidadania, a não discriminação, a inviolabilidade da vida, a liberdade, a igualdade, a proibição de tortura ou tratamento desumano e degradante, a saúde, o planejamento familiar das mulheres e os direitos sexuais e reprodutivos.

Uma em cada cinco mulheres, aos 40 anos, já praticou pelo menos um aborto na vida. O perfil daquela que aborta, segundo a PNA 2016, é de uma mulher comum, religiosa, jovem e com filhos, que a cada minuto atravessa a fronteira da legalidade para interromper uma gestação.

Pesquisa Nacional de Aborto (PNA 2016)

O assunto, mesmo que “tabu”, merece a atenção de Psicólogas(os) pela recorrência e quantidade dos casos de interrupção voluntária da gravidez no Brasil. Dados da Pesquisa Nacional de Aborto (PNA 2016) apontam que a interrupção voluntária da gravidez é um fenômeno frequente e persistente entre as mulheres de todas as classes sociais, níveis educacionais e religiões. A pesquisa revela que uma em cada cinco mulheres, aos 40 anos, já praticou pelo menos um aborto na vida. Isto quer dizer que desde 2010, quando a PNA começou a ser feita, aproximadamente cinco milhões de mulheres já abortaram e, segundo a pesquisa, em 2015 aproximadamente meio milhão de mulheres interromperam a gestação. Isso representa um aborto realizado por minuto. O perfil daquela que aborta, segundo a PNA 2016, é de uma mulher comum, religiosa, jovem e com filhos, que a cada minuto atravessa a fronteira da legalidade para interromper uma gestação. Considerando que grande parte dos procedimentos é feita de forma ilegal e, deste modo, geralmente em condições precárias, estes números colocam o aborto como um dos maiores problemas de saúde pública do Brasil.

O Governo Federal não tem dados oficiais sobre o número de abortos ilegais no Brasil (até porque o procedimento é crime quando está fora das três situações previstas em lei), mas podemos mensurar a clandestinidade através de dados dos procedimentos realizados. Em 2017, o DataSus registrou quase 180 mil curetagens pós-abortamento e 13.046 esvaziamentos de útero por aspiração manual intrauterina (AMIU). Juntas, geraram quase 200 mil internações. Estima-se que metade das mulheres brasileiras abortem usando medicamentos, especialmente o misoprostol (cujo nome comercial mais conhecido é o Cytotec®), justamente recomendado pela Organização Mundial de Saúde para a realização de abortos seguros. Mesmo assim, a PNA 2016 revela que 48% das mulheres precisam ser internadas para finalizar os procedimentos. Segundo o DataSus, o aborto significa a quarta causa de morte materna no Brasil: as outras são pressão alta durante a gravidez, hemorragia após o parto e infecções.

Em 2017, o DataSus registrou quase 180 mil curetagens pós-abortamento e 13.046 esvaziamentos de útero por aspiração manual intrauterina (AMIU). Juntas, geraram quase 200 mil internações.

Em geral, mulheres mais ricas conseguem acessar clínicas clandestinas e medicamentos dentro e fora do país, enquanto as pobres acabam recorrendo a métodos menos seguros e extremamente precários, como o uso de agulhas e cabides, chás ou aspirador de pó. São justamente estas as mais afetadas pela criminalização do aborto e as que ficam mais vulnerabilizadas diante do procedimento.

Além disso, o aborto também é realizado por homens trans e mulheres lésbicas, que desejam interromper uma gestação muitas vezes fruto de uma violência sexual que visa a “corrigir” suas identidades de gênero ou orientações sexuais através de estupros corretivos.

 

Por que a Psicologia precisa encarar de frente o aborto?

Nossa profissão tem por fundamento a promoção da saúde, física e especialmente emocional, o reconhecimento e integração dos diversos momentos e vivências na subjetividade, com promoção do protagonismo das pessoas através de seu autoconhecimento. No caso das mulheres, pode contribuir para o processo de planejamento familiar e dos projetos singulares de vida de cada uma. Nosso Código de Ética Profissional, no Princípio Fundamental II, determina que trabalhemos visando a promover a qualidade de vida das pessoas e das coletividades, agindo para eliminação de qualquer forma de violência.

Neste sentido, com base na realidade, a descriminalização do aborto converte-se em uma forma de garantir direitos básicos às mulheres que querem ou necessitam interromper a gravidez, como liberdade de escolha e autonomia sobre seus corpos e vidas e acesso aos serviços públicos de saúde, o que minimiza os riscos de complicação e de morte. A lei que criminaliza o aborto não o impede, ou sequer reduz sua incidência, e não dá conta da complexidade do tema em questão.

Quando a(o) Psicóloga(o) se posiciona em uma situação como esta, deve inverter a pergunta “se é a favor ou contra o aborto” para “se concorda que mulheres que fazem o aborto, quaisquer que sejam seus motivos particulares, merecem ser mortas ou presas”. É fundamental que a(o) Psicóloga(o) compreenda que não pode induzir suas convicções políticas e ideológicas no exercício de sua função profissional, nem para incentivar nem para reprimir a decisão sobre a interrupção voluntária da gravidez, pautando-se no direito de livre escolha das pessoas e no auxílio aos processos de autoconhecimento.

Além disso, é fundamental compreender a extensa possibilidade de intervenções que a Psicologia pode assumir neste contexto. Muito mais do que apenas oferecer escuta a mulheres que buscam decidir sobre suas gestações, a(o) profissional pode contribuir para o planejamento familiar, para avaliar as condições e consequências de uma gestação, o plano de vida e as perspectivas de cada mulher que decidirá se leva adiante ou não a sua gestação. Deve, portanto, basear sua prática na Declaração Universal dos Direitos Humanos, com um trabalho que acolha e escute as mulheres não apenas em situação de abortamento (legal, ilegal, voluntário ou espontâneo), mas em todo o processo anterior, com respeito e para promover liberdade, dignidade, igualdade e integridade do ser humano.

Ser contra ou a favor do aborto, por conta das legítimas e naturais convicções pessoais que cada Psicóloga(o) tem, não está em questão. Seguramente, a imensa maioria das(os) profissionais reconhece que a decisão pelo aborto é uma situação que pode provocar imenso sofrimento para as mulheres. Não se trata de incentivá-lo. No entanto, a interrupção voluntária da gravidez se constitui como uma demanda de saúde e de políticas públicas e cabe à(ao) Psicóloga(o) qualificar sua escuta e acolhimento a estas mulheres, para que possam tomar decisões consequentes e na direção de seus desejos e/ou necessidades. É fundamental compreender que mulheres seguirão decidindo pela interrupção suas gestações, quaisquer que sejam nossas convicções.

 

Gostaríamos, portanto, de trazer breves apontamentos e reflexões sobre o trabalho das(os) Psicólogas(os) nas situações de abortamento.

Operamos nossa escuta, na imensa maioria das vezes, no âmbito do privado e do segredo, naquilo que muitas vezes não encontra espaço ou não pode ser dito fora do contexto da escuta psicológica. Em nossas escutas clínicas acessamos a fala de muitas mulheres que expressam seu desejo de não serem mães, ou até mesmo o desejo de interromperem suas gestações. Como escutamos esta demanda, e como nossas teorias dão conta deste fenômeno? A maternidade está naturalizada, o que está expresso na patologização ou na leitura patologizante das mulheres que não querem ou não escolhem ser mães. Na prática, se feita de forma acrítica, a Psicologia pode agir como uma tecnologia que aprofunda a violência simbólica (e física) sobre estas mulheres. Pode consolidar concepções que “essencializam” a maternidade, que a entendem como compulsória, uma verdadeira adaptação aos ideais e valores tradicionais de gênero. É sobre as mulheres que recai a maternidade em nossa cultura, não apenas porque geram filhos em seus úteros e podem amamentar, mas porque são hegemonicamente consideradas (inclusive pelo campo psi) as responsáveis pelas tarefas de cuidado e de “formarem o caráter” de um novo ser.

Os impactos desta subjetivação são enormes e a Psicologia precisa estar atenta ao sofrimento imposto àquelas mulheres que se encontram nas margens do que é a maternidade como uma norma. É preciso, portanto, atualizar nossas teorias e avaliar com criticidade as nossas intervenções, inclusive se abrindo à complexidade e à contraditoriedade de expressões que o aborto pode encontrar nas mulheres: há as que sofrem, mas que dialeticamente encontram alívio e satisfação na interrupção da gravidez, por exemplo. Trata-se, portanto, da necessidade precípua de acolher as narrativas das mulheres e, em um trabalho emancipatório e dignificador, abrir mão do lugar de poder conferido à Psicologia, devolvendo às mulheres o poder de decisão e autonomia sobre seus sentimentos, corpos, suas vidas, da construção de suas famílias e de seus destinos.

Se nesta sociedade é no corpo da mulher em que se inscreve a maternidade, parece correto que seja ela quem decida se este é o seu projeto pessoal. Neste sentido, é fundamental que as(os) Psicólogas(os) atentem para os processos gerados quando as mulheres “recusam” este lugar e têm suas vivências coagidas pelos aparatos psicopatologizantes e judiciais do Estado, que atua como um verdadeiro gestor da subjetividade sob o controle dos corpos. Isto se dá tanto pelo encarceramento de mulheres que realizam o aborto ilegal, muitas vezes denunciadas pela própria equipe médica durante a realização dos procedimentos pós-abortamento, mas principalmente pela ação eminente e desproporcionalmente policialesca das equipes dos serviços de saúde.

 

A prática psicológica em situações de aborto legal

Mesmo que haja, no país, um Programa de Interrupção Gestacional Prevista em Lei (PIGL) e uma Norma Técnica do Ministério da Saúde – Prevenção e Tratamento dos Agravos Resultantes da Violência Sexual Contra Mulheres e Adolescentes (Ministério da Saúde) –, diversos serviços que acolhem mulheres que têm o direito ao aborto legal funcionam em lógica bastante questionável. Relatos da pesquisa de Vanessa Canabarro Dias, em 2016, apontam que muitas vezes a lógica eminentemente policialesca dos serviços de saúde se sobrepõe ao caráter de acolhimento e assistência em saúde.

No caso da interrupção voluntária da gravidez decorrente de estupro, diferentemente dos casos de risco à vida da mãe e anencefalia do feto, o procedimento é atravessado por uma disputa essencialmente moral. Sabemos que a violência sexual ocorre, muitas vezes, à revelia de testemunhas presenciais. Por conta disto, a narrativa da vítima sobre a situação de violência vivida se torna um dos principais elementos para a avaliação da situação. Seu valor probatório pode ser questionado em maior ou menor escala pelos agentes no contexto judicial.

No entanto, gostaríamos de propor uma reflexão sobre a intervenção de profissionais de saúde em equipamentos que operam a interrupção gestacional em casos legais. A maior parte dos serviços de emergência do Sistema Único de Saúde (SUS) não está preparada para prestar o atendimento adequado. Além disso, é bastante comum que o desconhecimento sobre o direito ao aborto legal afaste as vítimas de estupro destes serviços, ou as levem quando já não há mais possibilidade de interrupção dado o estágio avançado da gestação.

Segundo o Manual “Violência Sexual e o direito à interrupção da gravidez nos casos previstos em lei”, publicação do Ministério Público Federal em parceria com o Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul (2018), o abortamento de gravidez decorrente de estupro é um direito da mulher. No Código Penal não existe a necessidade de apresentação de qualquer documento para a prática do abortamento e a mulher sexualmente violentada não tem o dever legal de noticiar o fato à polícia (confeccionar Boletim de Ocorrência (BO)), cabendo autorização do representante legal da gestante apenas quando ela é incapaz. Deve-se orientá-la a tomar as providências policiais e judiciais cabíveis, mas, caso ela não o faça, não lhe pode ser negado o abortamento.

No entanto, há relatos de que equipes de saúde, muitas vezes compostas por Psicólogas(os), diante da não necessidade de registro de Boletim de Ocorrência ou comprovação documental, inventam regramentos e estratégias próprias, diferentes em cada Centro de Referência ou hospital, entre elas a exigência de apresentação de B.O., exame de corpo de delito e até mesmo autorização judicial.

É provável que estas(es) profissionais ajam desta forma na perspectiva de se isentarem de possível processo judicial, se confirmado que a gestante agiu de má-fé afirmando um estupro que não tenha acontecido. Não se justifica, no entanto, visto que o Código Penal, em seu artigo 20, é nítido quando aponta que “é isento de pena quem, por erro plenamente justificado pelas circunstâncias, supõe situação de fato que, se existisse, tornaria a ação legítima”.

No entanto, levamos em conta que há profissionais, inclusive Psicólogas(os), que se sentem legitimadas(os) a atestar sobre a “verdade” da mulher, dando a palavra final sobre a possibilidade ou não de que realize o aborto, mesmo que previsto e garantido por lei. É comum acessarmos relatos que apontam que há um “clima de suspeição”, um regime em curso que anima a realização das táticas investigativas que buscam muito mais apurar a veracidade da narrativa da mulher sobre o estupro (uma função precípua do contexto judicial), do que escutá-la e acolhê-la.

Neste sentido, cabe a nós, Psicólogas(os), visitar nossas práticas profissionais com criticidade e cuidado. Como qualquer instrumento, a Psicologia pode consolidar ou enfrentar desigualdades de gênero e exercer poder sobre o corpo das mulheres, criando tecnologias – neste caso, a atestação da veracidade do discurso –  às quais a mulher deve se submeter para ter acesso a um direito. Mulheres precisam narrar suas histórias várias vezes para pessoas diferentes, passar por várias e repetidas consultas, preencher documentos e formulários e, principalmente, performarem de determinado modo para que sejam reconhecidas como “estupradas”, como pessoas que engravidaram a partir de um crime sexual. É comum que os avaliadores (!) interroguem sobre aspectos da vida da mulher, como, por exemplo, o que costuma vestir, como se comporta, onde vive, qual sua profissão, se faz uso de drogas. Desta forma, certas respostas (como o uso de roupas curtas, comportamento expansivo ou trabalhadoras sexuais ou mulheres pobres e/ou em situação de rua e/ou em uso abusivo de drogas) podem flexibilizar a legitimidade da narrativa do aborto para determinadas mulheres em detrimento de outras.

A Psicologia, em casos e equipamentos como estes, pode ser convocada a caracterizar a mulher como uma “verdadeira vítima de estupro” ou “como uma mulher mentirosa que, por seu comportamento contribuiu com a violência e agora procura realizar um abortamento ilegal”. Se a vítima não expressa “adequadamente” os comportamentos socialmente reconhecidos como os de uma vítima (porque está sorrindo, porque não parece depressiva, porque está asseada e leve, porque segue trabalhando ou estudando), a suspeição sobre a narrativa da mulher e as táticas periciais são atualizadas e o serviço segue em descaracterização em seu papel de escuta, acolhimento e encaminhamento relativo ao pedido de aborto legal.

Neste sentido, segundo Vanessa Canabarro Dios (2016), o essencial do exame psicossocial passa a ser “legitimar, na forma de conhecimento científico, a extensão do poder de julgar e avaliar outras coisas que vão além da palavra da mulher sobre a sua violência”. Este discurso psicológico acaba por assumir caráter soberano para anunciar a Verdade da mulher, que inclusive caminha na contramão dos legítimos e científicos processos de avaliação psicológica. Torna-se um discurso calcado na moralidade, em que as(os) profissionais assumem o poder para negar um direito. É fundamental retomar o Código de Ética Profissional do Psicólogo, que, em seu artigo 2º, veda a(o) Psicóloga(o) de utilizar ou favorecer o uso de conhecimento e a utilização de práticas psicológicas como instrumentos de castigo, tortura ou qualquer forma de violência.

O trabalho das(os) Psicólogas(os) deve ser o de acompanhamento social e psicológico, mas não na perspectiva de condicionar a livre decisão da mulher ou criar obstáculos, e sim para contribuir com a elaboração de planos de vida que reflitam as consequências positivas e negativas dessa decisão. Devem enfatizar que, qualquer que seja a definição da mulher, esta será definitiva e poderá influenciar sua vida de maneira integral. Uma escuta crítica, que contribua para avaliar as motivações desta decisão, acolha as angústias, expectativas, receios, culpa, medos e sofrimentos destas mulheres e auxilie na uma tomada de decisão pessoal, consciente e singular. Além disso, as Psicólogas(os) têm uma contribuição fundamental para dirimir estigmas sociais constituídos sob a égide de normas e estereótipos de gênero, que caracterizam mulheres que interrompem voluntariamente a gravidez como “promíscuas”, “irresponsáveis”, “monstruosas” ou “assassinas”.

Os equipamentos de saúde devem ser, primordialmente, espaços para assistência em saúde, para acolhimento e escuta em saúde mental, um lócus para que a Psicologia proporcione a universalização do acesso da população à informação, com responsabilidade crítica e social. Que, em busca do direito à sua própria determinação, as mulheres sejam respeitadas e tenham suas condições de precarização e sofrimento acolhidas. Não apenas elas, mas também as equipes, dentro de suas dúvidas e angústias.

Por fim, alinhados com a necessidade de interpretação diversa do Código Penal proposta pela ADPF 442, e entendendo que esse artigo, em parte, não foi recepcionado pela Constituição Federal de 1988, compreendemos a importância da descriminalização do aborto até a 12ª semana de gestação, em qualquer caso, para a redução de mortes das mulheres brasileiras. Aliado a isto, buscamos contribuir para a qualificação dos serviços prestados nos casos de interrupção voluntária da gravidez em situações previstas por lei.

Importante dizer que esta nota está alinhada com o posicionamento institucional do XIII Plenário deste Conselho Regional de Psicologia, veiculado na Revista Contato (Edição 112, de Julho/Agosto 2017). Também reverbera o “Posicionamento do Conselho Federal de Psicologia sobre o Aborto” em 2012, além de deliberações dos Congressos Nacionais de Psicologia – instância máxima que discute e delibera sobre os posicionamentos da categoria profissional – de 2010, 2013 e 2016, que manifestam apoio à legalização do aborto independentemente de a gravidez ser decorrente de violência ou haver risco de morte para a mulher.

Descriminalizar o aborto não é incentivá-lo. Assim como a lei proibitiva não impede a sua realização, a permissão não obriga as mulheres a abortarem – ao contrário, pode até mesmo dar suporte psicológico e material à gestante, que passa a contar com estrutura para levar sua gravidez adiante. Não se trata de uma imposição, mas de reconstituição do lugar de sujeito das mulheres, na perspectiva de seus direitos sexuais e reprodutivos e de promoção de sua saúde. De autonomia das mulheres sobre seus corpos e seus destinos.

 

Paraná, 3 de junho de 2018.

XIII Plenário do Conselho Regional de Psicologia do Paraná

 

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