Karla Losse

Dia 17 de maio marca conquistas de direitos da população LGBTTIQ+

Os direitos das pessoas LGBTTIQ+s  são conquistas resultantes de lutas e movimentos sociais. Porém, infelizmente, a LGBTfobia presente na cultura brasileira, acaba por perpetuar constantemente a segregação, isolamento e abandono desses indivíduos em diversas dimensões de suas vidas. Práticas culturais como a falta de disposição em valorizar diferentes vivências de gênero, falta de discussão sobre diversidade e pluralidade na escola, a disseminação de padrões cis-heteronormativos e a falta de leis que garantam segurança para esta população, entre outras, são fatores que contribuem para a estigmatização, isolamento e vulnerabilidade. São processos que atingem não apenas LGBTTIQ+s de todas as faixas etárias, mas também suas famílias e comunidades.

Neste contexto, os direitos dessa comunidade também estão em constante risco e existem diversas frentes sociais e políticas que pretendem acabar com as conquistas já alcançadas. Por isso, neste dia 17 de maio, lembrado como o Dia Internacional Contra a LGBTIfobia, frisa-se que é imprescindível não somente o reconhecimento da população LGBTTIQ+ , dos seus direitos e das suas vulnerabilidades, mas também da necessidade de constantes lutas que envolvem as suas pautas.

Conquistas

O primeiro grande marco dos direitos LGBTTIQ+s  foi a despatologização da homossexualidade reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 17 de maio de 1990, na qual, do ponto de vista médico, as práticas homossexuais passam a ser consideradas tão naturais quanto as práticas heterossexuais. A partir desse posicionamento e com objetivo de orientar as(os) profissionais da Psicologia, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) lança a Resolução CFP 01/1999 que estabelece as normas de atuação das(os) psicólogas(os) em relação à orientação sexual, um grande passo para erradicação de práticas psicoterápicas que promoviam a suposta “cura gay”. A normativa deixa evidente que o papel da Psicologia é de promover reflexões e práticas visando uma sociedade mais inclusiva e menos preconceituosa em relação à sexualidade, pautadas em princípios éticos, científicos e críticos. Mesmo com toda a evidência científica que a embasa, a Resolução CFP 01/1999 tem sido constantemente atacada, o que fortalece a necessidade de sua constante reafirmação e de sua importância para a população LGBTTIQ+ .

 

Em 2011, outro avanço importante. Passou a ser reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a união estável entre pessoas do mesmo gênero como entidade familiar e, em 2013, é determinado que todos os cartórios brasileiros passassem a registrar o casamento civil de pessoas do mesmo gênero. Em 2016, o Conselho Nacional de Justiça, também normatizou o registro de filhas(os) nascidos por técnicas de reprodução assistida de casais tanto hétero quanto homossexuais. Ressalta-se a importância também do uso do nome social e o reconhecimento da identidade de gênero de pessoas travestis e transexuais, pois estes representam como cada pessoa se identifica e são reconhecidas socialmente. Assim, em 2016, o Decreto Presidencial 8.727/2016 dispõe sobre uso do nome social e o reconhecimento da identidade de gênero no âmbito da administração pública federal.

 

Outra grande conquista veio junto com a nova versão da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID) realizada a partir do ano de 2018, a CID-11 retirou a transexualidade do rol de transtornos mentais e a realocou como “condições relacionadas à saúde sexual”, classificando agora a transexualidade como incongruência de gênero. Mesmo essa ação tendo como objetivo a diminuição dos estigmas sociais sofridos pelas mulheres travestis, transexuais e homens trans ela não contempla as reivindicações dos movimentos que propuseram que a transexualidade fosse realocada na CID-11 como uma condição inerente a promoção do bem-estar e saúde e não em uma categoria que a deixou como uma patologia “mais branda”. A CID- 11 também passou a perceber as identidades de gênero como um espectro, ou seja, o gênero deixa de ser considerado como binário (feminino – masculino) e passa a ser considerado a partir de uma variabilidade de possibilidades de ser vivido.

Atuação profissional

Mesmo com essas conquistas, a população LGBTTIQ+  está cotidianamente sujeita a muitas violências. Diante disso, a Psicologia tem um papel extremamente importante, por meio de um compromisso ético e político com a dignidade humana, não perpetuando tais violências e possibilitando que os sofrimentos decorrentes desta sejam ressignificados, além de lutar ativamente contra a perpetuação destas violências.

 

No que se refere a prática profissional das(os) Psicólogas(os), além da Resolução CFP 01/1999, a Resolução CFP 01/2018 determina que as(os) profissionais deverão atuar visando contribuir para eliminação da transfobia, não sendo coniventes ou se omitindo em relação a práticas discriminatórias. Também é vedado práticas voltadas para uma visão patologizante de pessoas travestis e transexuais.

 

Neste mesmo sentido, acrescenta-se a Nota Técnica 02/2018, elaborada pelo CRP-PR, que orienta a atuação das(os) Psicólogas(os) referente ao atendimento de pessoas transexuais e travestis, promovendo o acolhimento, acompanhamento, a autonomia e a despatologização, ou seja, a atuação da(o) profissional de Psicologia não deve se orientar por um modelo patologizante ou corretivo da transexualidade e travestilidade, e sim para promover qualidade de vida e a garantia de direitos da pessoa.  

 

Outro ponto a ser ressaltado, diz respeito ao processo transexualizador que é regulamentado pela Portaria do Ministério da Saúde 2.803/2013. O documento afirma que o acompanhamento psicológico não deve ter como objetivo avaliar a travestilidade e transexualidade, mas sim respeitar a autonomia da pessoa sobre sua identidade de gênero e promover o acolhimento e acompanhamento das demandas trazidas.

 

Ainda visando a promoção e reconhecimento dos direitos da população LGBTTIQ+, no ano de 2019, o CRP-PR emitiu a Nota Técnica 01/2019 que orienta as(os) profissionais da categoria sobre como promover um atendimento ético e acolhedor as pessoas lésbicas, bissexuais, gays e demais orientações sexuais. O documento orienta a compreensão de que essas sexualidades não devem ser consideradas como psicopatologias e que qualquer outra condição mental apresentada por essas populações durante o atendimento seja considerada a partir das opressões sociais que essas pessoas sofrem todos os dias.

 

Muitas vezes essa perpetuação da violência acarreta danos subjetivos e até mesmo materiais, difíceis de contornar. Muitas dessas práticas poder não ser percebidas até mesmo pelas(os) profissionais como violentas. Entre elas podemos citar: buscar detectar as “causas” ou “origens” da homossexualidade, bissexualidade ou transexualidade de clientes, outras vezes buscando relacionar a homossexualidade com outros comportamentos, como o uso de drogas ou ter múltiplas(os) parceiras(os). Além do uso incorreto de pronomes com pessoas trans ou não-binárias, quando a(o) Psicóloga(o) supõe que deve utilizar masculinos, femininos ou neutros pelo fenótipo da pessoa, ao invés de perguntar.

 

É importante ressaltar também que cabe à(ao) Psicóloga(o) estar ainda mais sensível às demandas dessa população neste período de pandemia que estamos vivendo. (Leia aqui reportagem sobre o tema). E em todas as épocas, é preciso que a categoria esteja consciente que cada Psicóloga e Psicólogo carrega consigo, conforme é estabelecido no Código de Ética Profissional, a responsabilidade de promover liberdade, dignidade, igualdade e de contribuir para a eliminação de quaisquer formas de negligência e discriminação.

Para saber mais:

  • Tentativas de Aniquilamento de Subjetividades LGBTIs – O livro “Tentativas de Aniquilamento de Subjetividades LGBTIs”, organizado pelo Conselho Federal de Psicologia, por meio de sua Comissão de Direitos Humanos, apresenta um mosaico de histórias de pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e intersexuais (LGBTIs) que retratam os intensos sofrimentos ético-políticos e os processos de resistência decorrentes de diversas formas de violências, preconceitos, injustiças e exclusão.

  • Atenção à população LGBTIQ+ no contexto da pandemia  – Reportagem publicada no Especial Covid-19 do CRP-PR que apresenta informações sobre a prestação de serviços à população LGBTIQ+ no contexto da pandemia

  • Nota Técnica CRP-PR 02/2018 – Orienta as(os) profissionais de Psicologia no atendimento às pessoas transexuais e travestis, promovendo o acolhimento, o acompanhamento, a autonomia e a despatologização, em atenção à Resolução CFP nº 001/2018.
  • Nota Técnica CRP-PR 001/2019 – Orienta as(os) profissionais de Psicologia no atendimento às pessoas Lésbicas, Bissexuais, Gays e demais orientações sexuais (LGB+), promovendo o acolhimento, o acompanhamento, a autonomia e a despatologização.
  • Especial Covid-19

Atenção à população LGBTIQ+ no contexto da pandemia

Neste momento em que o Brasil e o mundo atravessam a pandemia devido a infecções do novo coronavírus e da Covid-19, e no qual é importante que todas e todos que puderem pratiquem o isolamento social, é fundamental voltar o olhar para as populações mais vulnerabilizadas. Entre esse público, as pessoas LGBTIQ+ são historicamente expostas a violências, sejam de ordem física, material, simbólica e/ou psicológica, e em um período de crise sanitária, econômica e social isso pode ser intensificado.

 

A LGBTIQfobia, infelizmente presente na cultura brasileira, acaba por perpetuar constantemente a segregação, isolamento e abandono de indivíduos LGBTIQ+ em diversas dimensões de suas vidas. Práticas culturais como a falta de disposição em valorizar diferentes vivências de gênero, falta de discussão sobre diversidade e pluralidade na escola, a disseminação de padrões cis-heteronormativos e a falta de leis que garantam segurança para esta população, entre outras, são fatores contribuem para a estigmatização, isolamento e vulnerabilidade. São processos que atingem não apenas LGBTIQ+s de todas as faixas etárias, mas também suas famílias e comunidades.

 

Levando-se em conta a necessidade de políticas de isolamento horizontal como medida eficaz para desacelerar o contágio do coronavírus, o SARS-Cov-2, precisamos considerar que os impactos na saúde mental dessa população podem ser mais agravados do que em populações que não sofrem preconceito de forma estrutural e institucional.

Muitas pessoas desse grupo já se encontram, de alguma forma, vivendo formas de isolamento social, devido aos preconceitos sofridos, a não aceitação de sua identidade de gênero ou orientação sexual por parte da família, a dificuldade de ser inseridos em espaços públicos/sociais, como empregos, universidades, entre outros. Os impactos subjetivos destes processos não podem ser desprezados pela(o) Psicóloga(o), sobretudo neste momento, em que muitas pessoas LGBTIQ+ estão sozinhas em casa ou tendo um convívio familiar (muitas vezes violento) bastante intensificado. Muitas vezes, o próprio ambiente doméstico e familiar é o lugar onde acontecem agressões e violações aos direitos das pessoas LBGTIQ+. Logo, estar confinado com pessoas que, por muitas vezes, não aceitam sua identidade de gênero e/ou sua orientação sexual, pode ser algo extremamente doloroso.

 

Neste contexto, situações simples podem se tornar grandes dificuldades: transitar pela casa com roupas que não estejam alinhadas com sua identidade de gênero, não ser chamado pelo seu nome (e sim pelo nome de registro civil), estar em estado permanente de alerta com relação aos comportamentos, tom de voz, cuidando para “não dar pinta”, não poder conversar sobre suas ansiedades e tristezas, partilhar coisas corriqueiras de sua vida, até não poder ouvir determinados estilos musicais ou fazer ligações telefônicas para seus ou suas companheiras. 

Além disso, vale ressaltar que muitas LGBTIQ+s encontram apoio e suporte em coletivos e grupos e que por conta do distanciamento social podem estar tendo mais dificuldades em manter contato. Ou seja, para além de mero “grupo de amigas(os)”, esses coletivos acabam tornando-se redes de apoio às pessoas ali inseridas. E, com a provável suspensão (ao menos presencial) dos encontros destes grupos, os indivíduos LGBTIQ+ podem ver-se em situações de profundo desamparo. Esta experiência de “solidão” pode desdobrar, por exemplo, em comportamentos de risco, como o uso alienado de drogas sem diversão genuína, prática de sexo desprotegido e associado ao risco para alcançar prazer, questões graves de autoestima, etc.

 

Outro ponto importante a ser destacado é que uma parte considerável dessa população se encontra em trabalhos informais e/ou precarizados e, com a situação atual, podem ter sofridos grandes abalos em suas rendas. Este pode ser um fator extremamente ansiogênico e estressor, pois um dos elementos fundamentais para desenvolver a autonomia emocional de pessoas em situação de violência e vulnerabilidade é a independência financeira, visto que permite que o indivíduo se desvincule da dependência do agressor, possa ter mais no controle de sua vida, tomar decisões e conseguir se retirar do ambiente que lhe faz mal. Neste sentido, também é importante defender a ampliação dos critérios à Renda Emergencial e a outras políticas de transferência de renda. 

 

O possível aumento da violência decorrente do ambiente doméstico, a ausência de rede de apoio dos pares e ameaça à renda pode levar ao aumento de sintomas de depressão, pânico, ideações suicidas e/ou agravamentos de sintomatologias, sobretudo nesta população. Dessa forma, é importante que a(o) Psicóloga(o), ao prestar qualquer modalidade de atendimento a essa população, esteja atenta(o) ao aparecimento ou agravamento dessas sintomatologias, sempre levando em conta as especificidades desse grupo.

Além disso, é fundamental que se leve em conta os preconceitos e desinformações gerados por setores extremistas e fundamentalistas religiosos. Recentemente o Ministro da Saúde de Israel declarou que a COVID-19 era um “castigo pela homossexualidade”, líderes religiosos norte-americanos associaram a doença ao “casamento gay” e lideranças religiosas brasileiras insinuaram que a doença teria sido uma resposta divina ao Carnaval, festa popular em que LGBTIQ+s têm trânsito mais livre. Todas estas insinuações, obviamente infundadas, contribuem para ampliar o preconceito e incitar a violência contra LGBTIQ+s.

 

O trato público que se dá à COVID-19 também se assemelha em alguns aspectos à relação das LGBTIQ+s, em especial com o HIV/AIDS. O tratamento aos que pertencem ao “grupo de risco” pode facilmente deslocar-se de “cuidado” para “desprezo pela vida”, em uma lógica de seleção de que quem “merecem viver” ou os que “podem ser deixados à própria sorte”. Isto aconteceu historicamente com as pessoas LGBTIQ+, compreendidas como “grupo de risco” para HIV/AIDS e que foram (e continuam sendo) alijadas de políticas públicas de cuidado em saúde. Isto pode acontecer, no contexto da COVID-19, com idosas(os). Os efeitos destas políticas podem ser muito duradouros: basta observar que até hoje o Ministério da Saúde não permite a doação de sangue por homens que fazem sexo com homens, mesmo em uma situação de desabastecimento dos bancos de sangue, como a que acontece atualmente. Há que se aprender com os erros da história para não os repetir no presente.

Orientações à categoria

Dado todo este cenário, é possível que surjam algumas dúvidas sobre a atuação da(o) Psicóloga(o) junto a população LGBTIQ+. Indicamos, então, que a(o) profissional tenha conhecimento e siga o Código de Ética e as Resoluções do Conselho Federal de Psicologia, bem como as notas técnicas emitidas já existentes para essa população.  

À(Ao) profissional da Psicologia cabe, portanto, se atentar primeiramente aos princípios éticos estabelecidos no Código de Ética Profissional do Psicólogo, em especial ao trecho a seguir:

PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS

I. A(O) Psicóloga(o) baseará o seu trabalho no respeito e na promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, apoiado nos valores que embasam a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

II. A(O) Psicóloga(o) trabalhará visando promover a saúde e a qualidade de vida das pessoas e das coletividades e contribuirá para a eliminação de quaisquer formas de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

III.  A(O) Psicóloga(o) atuará com responsabilidade social, analisando crítica e historicamente a realidade política, econômica, social e cultural.

IV. A(O) Psicóloga(o) atuará com responsabilidade, por meio do contínuo aprimoramento profissional, contribuindo para o desenvolvimento da Psicologia como campo científico de conhecimento e de prática.

V. A(O) Psicóloga(o) contribuirá para promover a universalização do acesso da população às informações, ao conhecimento da ciência psicológica, aos serviços e aos padrões éticos da profissão.

VI. A(O) Psicóloga(o) zelará para que o exercício profissional seja efetuado com dignidade, rejeitando situações em que a Psicologia esteja sendo aviltada.

VII.  A(O) Psicóloga(o) considerará as relações de poder nos contextos em que atua e os impactos dessas relações sobre as suas atividades profissionais, posicionando-se de forma crítica e em consonância com os demais princípios deste Código

 Devido à especificidade das demandas da população LGTBIQ+, olhemos para a Resolução 01/99, que estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da Orientação Sexual, o documento com já 21 anos de existência explicita que:

Art. 2° – As(Os) Psicólogas(os) deverão contribuir, com seu conhecimento, para uma reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e estigmatizações contra aqueles que apresentam comportamentos ou práticas homoeróticas.

Art. 3° – As(Os) Psicólogas(os) não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados.

Outros documentos que visam orientar e regulamentar a atuação dos profissionais da psicologia com esta população são:

  • Resolução CFP 01/2018, que estabelece normas de atuação para as Psicólogas e os Psicólogos em relação às pessoas transexuais e travestis;
  • Nota Técnica CRP 02/2018, que orienta as(os) profissionais de Psicologia no atendimento às pessoas transexuais e travestis, promovendo o acolhimento, o acompanhamento, a autonomia e a despatologização, em atenção à Resolução CFP nº 001/2018;
  • Nota Técnica CRP 01/2019, que orienta as(os) profissionais de Psicologia no atendimento às pessoas Lésbicas, Bissexuais, Gays e demais orientações sexuais (LGB+), promovendo o acolhimento, o acompanhamento, a autonomia e a despatologização.

Situações de emergências

Não há canais de denúncias específicas para reportar a violência sofrida por tal grupo. Porém, indica-se que a(o) Psicóloga(o) que acompanha um indivíduo LGBTIQ+ que sofreu algum tipo de ameaça e/ou violência, informe para a ou o cliente/paciente que é possível ligar para a Polícia Militar (190 – 24 horas), e realizar boletim de ocorrência, que atualmente pode ser feito de maneira online. No caso de atendimentos a mulheres (cisgêneras, transexuais e travestis) também é indicado informar que é possível contato por meio do Disk 180 (Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência) e/ou Guardas Municipais (Patrulha Maria da Penha – Telefone 153). Prezar pela integridade física da(o) cliente/paciente deve ser a prioridade número um da(o) Psicóloga(o) que atende essa população. (Leia mais sobre atendimentos às mulheres aqui.)

 

Importante mencionar que a Resolução CFP Nº 011/2018 estabelece como inadequado o atendimento psicológico online de pessoas e grupos em situação de urgência e emergência, situação de emergência e desastres, bem como, em situação de violação de direitos ou de violência. No entanto, diante do cenário de pandemia do novo coronavírus, foi publicada a Resolução CFP nº 004/2020 que suspende, de forma excepcional e temporária, a restrição a estes públicos, para flexibilizar esta forma de atendimento e, assim, evitar a descontinuidade da assistência à população durante a pandemia.

 

Situações de urgência e emergência (acolhimento imediato em situação de crise) e situações de violação de direitos devem ser, preferencialmente, atendidas de forma presencial por profissional ou equipes habilitadas para manejo de crise. Para a realização de atendimentos presenciais, é imprescindível que sejam respeitadas as normas sanitárias de segurança. Caso em sua autonomia e responsabilidade profissional a(o) Psicóloga(o) avalie que o menor prejuízo é a realização dos atendimentos à distância como uma forma de acompanhamento desses casos nesse contexto de calamidade pública, cabe à(ao) profissional avaliar a metodologia adequada a cada caso. Recomenda-se que a(o) Psicóloga(o) busque articular, junto com à(ao) usuária(o) do serviço, uma rede de apoio que poderá ser contatada pela(o) Psicóloga(o) se necessário, seguindo as orientações éticas. Recomenda-se, também que, assim que possível, a(o) Psicóloga(o) encaminhe esses casos para profissional ou equipes presenciais.

 

É importante refletir sobre quais práticas culturais criam e reforçam a exclusão de pessoas LGBTIQ+ e, mais do que tudo, quais as ações da Psicologia podem contribuir para superar este quadro de violação de direitos. Em tempos de exceção e crise é ainda mais fundamental reafirmar o compromisso profissional com os Direitos Humanos, com o compromisso ético da Psicologia e com a humanização e dignidade de todas as pessoas.

Nota de Apoio ao trabalho de Psicólogas(os) residentes dos Programas de Residências Multiprofissionais e em Área Profissional da Saúde

O agravamento da pandemia do novo coronavírus (COVID-19) no Brasil tem exigido das autoridades competentes e da população cuidados e medidas para evitar a exposição ao vírus e sua propagação no país. Esta crise sanitária intensifica a situação crítica da economia brasileira e as consequências da desigualdade social no Paraná e em todo o Brasil. Além disso, revela um desafio sem precedentes para o exercício profissional da Psicologia e para a própria função social da nossa profissão. A atuação das(os) Psicólogas(os) neste momento deve contribuir para que a sociedade elabore emocionalmente a situação vivida por todas(os) e coloque em prática as medidas de prevenção preconizadas pelo Ministério da Saúde e pelas demais autoridades, sendo a principal medida o distanciamento social. Não sendo possível realizar o isolamento, as(os) profissionais devem atentar para as demais recomendações de prevenção e proteção à Covid-19, não colocando em risco a si nem à população atendida.

 

Neste contexto, temos visto a criação de estratégias por parte da categoria, entre eles diversas(os) colegas que atuam nas diferentes políticas públicas e em Programas de Residência Multiprofissional e na Área da Saúde, na direção de ofertas de cuidados psicológicos à população, especialmente às pessoas pertencentes aos grupos vulnerabilizados e de risco. São colegas que atuam na ‘linha de frente’, que devem ser reconhecidas(os) e valorizadas(os) por gestoras(es) e empregadoras(es) pelas imensas contribuições que oferecem à sociedade neste momento. Isto demonstra como nossa categoria transformou a Psicologia brasileira ao longo dos 58 anos de profissão regulamentada no país, entendendo que o compromisso social, ético e político que orienta o nosso olhar deve estar presente mesmo nos momentos mais graves e difíceis.

 

No contexto das Residências Multiprofissionais e na Área da Saúde, em específico, compreendemos relevantes a suspensão de atividades presenciais não-essenciais, considerado o risco imposto às(aos) estudantes, docentes e sociedade como um todo, diante do elevado poder de propagação do coronavírus. Apesar disso, é fundamental atentar para a situação das(os) residentes multiprofissionais que seguem atuando, imensamente agravada à medida que não há, em sua maioria, qualquer tipo de seguro no que compete à insalubridade e à periculosidade e outros direitos trabalhistas, como vale-alimentação ou mesmo vale-transporte.

Estamos diante de uma pandemia que agudiza e explicita a situação de imensa precarização da estrutura de políticas públicas no Brasil – ampliada pelo ajuste fiscal representado pela Emenda Constitucional 95 – e de um sucessivo desinvestimento no SUS. As condições de trabalho e a justa remuneração são, portanto, cada vez mais relacionadas à qualidade do exercício profissional, não apenas da Psicologia, mas para todas as profissões.

 

Neste sentido, ressaltamos que para a boa prestação de serviços à sociedade no contexto dos Programas de Residência Multiprofissional e na Área da Saúde, é necessária remuneração em dia e condizente com o desgaste advindo do desempenho profissional da(o) Psicóloga(o). Além disso, reiteramos que a imperiosa garantia de equipamentos de proteção individual (EPI) quando o atendimento presencial for comprovadamente emergencial, tendo por base o cumprimento das recomendações sanitárias, de modo a permitir a continuidade de forma segura das atividades profissionais.

 

É inegável a importância de se garantir dignidade nas condições de trabalho de Psicólogas(os) residentes, que enfrentam históricos atrasos no pagamento de suas bolsas-salários. Sobretudo neste momento, suas atividades profissionais são de elevada complexidade, exigindo uma intensa atividade psíquica no desempenho de suas atribuições, que as(os) colocam, inclusive, em risco de vida. É importante, também, atentar para o fato de que estas(es) Psicólogas(os) estão, como todos as(os) trabalhadoras(es) em saúde, diretamente expostos aos efeitos do profundo sofrimento humano diante desta pandemia.

 

Para o bom desenvolvimento do exercício profissional, o Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) reitera que compreende fundamental a garantia de condições de trabalho às(aos) Psicólogas(os). O CRP-PR ressalta que cuidar das(os) profissionais da saúde, sobretudo nesse momento de calamidade pública significa reconhecer seus esforços, dedicação e compromisso social, bem como proteger toda a sociedade. A adoção desta medida é um dever ético do Estado que beneficiará tanto as(os) profissionais, suas(seus) gestores e principalmente a população atendida, que será acompanhada por profissionais mais bem-dispostas(os), em equilíbrio e com saúde.

Reflexões sobre atendimento psicológico em situações de crise no contexto da pandemia

Diante da pandemia da COVID-19 e necessidade de isolamento social muitas(os) Psicólogas(os) têm se deparado com questionamentos referente à continuidade do atendimento clínico a pacientes/clientes em crise. Sejam situações referentes a demandas de atendimento devido a transtornos mentais, sejam situações referentes ao agravamento de quadros de saúde mental devido ao atual contexto.

 

A crise pode ser compreendida como um momento de sofrimento muito intenso, no qual há uma desestruturação da vida psíquica e social da pessoa. Em geral, as crises são caracterizadas por distúrbios do pensamento, emoções e comportamentos.

Visando a contribuir com as(os) Psicólogas(os) que se deparem com essas dificuldades no contexto do atendimento clínico, a Comissão de Psicologia Clínica do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) busca proporcionar algumas reflexões:

Modalidades de atendimento

Atendimento online 

 

Muitas(os) Psicólogas(os) da área clínica que atuavam com atendimentos presenciais estão migrando para a modalidade de atendimento online (Resoluções CFP 011/2018 e CFP 004/2020) durante o período de distanciamento social, imposto pela pandemia da COVID-19. Nos casos de pacientes em crise é preciso que a(o) profissional avalie as condições para a realização dessa modalidade de atendimento, dentre elas: 

Condições da(o) Psicóloga(o):

  • Estar capacitada(o) para atender a demanda, de acordo com o Código de Ética Profissional;
  • Analise/fundamentação técnica da viabilidade do atendimento ser feito à distância;
  • Disponibilidade de recursos tecnológicos adequados à prestação de serviço: acesso à internet, computador, tablet, celular.
  • Cadastro na plataforma e-psi (hiper link para plataforma);
  • Conhecimento de plataformas/aplicativos adequados para o atendimento online. É importante verificar as condições de sigilo e criptografia do recurso utilizado para o atendimento.
  • Condições ambientais adequadas: a(o) profissional precisa avaliar se dispõe de local adequado para a prestação de serviço online, onde possa garantir o sigilo do atendimento (conforme art. 9º do Código de Ética) e se dedicar exclusivamente a essa tarefa durante o período de atendimento. Recomenda-se a utilização de fones de ouvido e estar em local privado, sem circulação ou acesso de outras pessoas, sejam elas conhecidas, familiares ou não.

As condições citadas acima são essenciais para a execução do trabalho. É necessário especial atenção ao contexto do atendimento a situações de crise, considerando que podem interferir diretamente no atendimento e, até mesmo, agravar o quadro.

Condições da(o) paciente/cliente: 

  • Disponibilidade de recursos tecnológicos adequados ao acesso ao atendimento online: acesso à internet, computador, tablet, celular.
  • Habilidade para acessar as plataformas/aplicativos para acesso ao atendimento on-line escolhidas/disponibilizadas pela(o) Psicóloga(o).
  • Condições ambientais adequadas: local para acesso ao serviço online, considerando aqui que a manutenção do sigilo também depende da(o) paciente/cliente. Recomenda-se a utilização de fones de ouvido.
  • Nas situações de atendimento online a pacientes em crise, a(o) profissional de Psicologia deverá avaliar as suas próprias condições para oferecer esse serviço, bem como as condições da(o) paciente/cliente, além de questões técnicas específicas de cada caso, que podem ser discutidas em supervisão técnica.

Atendimento domiciliar 

 

Para a realização de atendimento na modalidade domiciliar a(o) Psicóloga(o) deve considerar as orientações sanitárias, tanto no que se refere ao deslocamento até a residência da(o) paciente/cliente, quanto à assepsia, utilização de equipamentos de proteção individual (EPIs) como máscaras e distanciamento físico entre as pessoas.

 

Outro ponto a ser destacado é novamente o ambiente onde o atendimento ocorrerá, que deve apresentar tanto as condições necessárias à manutenção do sigilo profissional, quanto condições de atendimento às recomendações sanitárias.

 

Também se ressalta a importância de que Psicólogas(os) avaliem se estão capacitados para atender nesta modalidade, pois requer manejo técnico específico. É importante ainda que profissionais de Psicologia reflitam acerca do vínculo com pacientes/clientes neste contexto e estabeleçam uma delimitação dos objetivos, acordos e características do trabalho realizado no ambiente domiciliar.

 

Outra avaliação preponderante está relacionada às demais pessoas presentes no ambiente no qual a(o) paciente/cliente se encontra, como a presença de familiares e/ou demais pessoas que residem ou estejam no domicílio.

 

Além disto, outro aspecto que pode interferir na possibilidade de manutenção de atendimento psicológico na modalidade presencial é o fato de a(o) Psicóloga(o) ou paciente/cliente pertencer a algum grupo considerado de risco em relação ao coronavírus.

Manutenção do atendimento presencial em consultório

 

Cabe à(ao) profissional a definição sobre a necessidade ou possibilidade de manutenção do atendimento presencial, compreendendo que, “se por um lado está autonomia constitui liberdade à(ao) profissional, por outro exige a responsabilização pelo serviço oferecido/prestado”, conforme explicita a Nota Técnica CRP-PR 005/2018.

 

Nesse caso é necessário a avaliação técnica do caso, além de observar as orientações das autoridades sanitárias e legislações locais (decretos municipais, estaduais e federais). É preciso estar atenta(o) às determinações no que se refere: ao deslocamento tanto da(o) Psicóloga(o) quanto da(o) paciente/cliente; quanto à assepsia; à utilização de EPIs e ao distanciamento físico entre as pessoas.

 

Outra condição que pode interferir na possibilidade de manutenção de atendimento psicológico na modalidade presencial é o fato de a(o) Psicóloga(o) ou paciente/cliente pertencer a algum grupo considerado de risco em relação ao coronavírus.

Encaminhamento

Nas situações em que a(o) Psicóloga(o) não consiga manter o atendimento à(ao) paciente/cliente, seja na modalidade online, domiciliar ou presencial – considerando as condições para a realização de cada modalidade de atendimento -, é seu dever realizar o encaminhamento para outra(o) profissional ou serviço que consiga realizar esse atendimento. Neste caso, cabe à(ao) Psicóloga(o) prestar informações à(ao) profissional que dará a continuidade do atendimento. Lembramos também que é obrigação da(o) profissional realizar a guarda dos registros e documentos relativos ao atendimento por, no mínimo, cinco anos.

 

É responsabilidade também da(o) profissional da Psicologia estruturar a metodologia adequada para cada situação, de acordo com a sua avaliação técnica frente a cada caso atendido. Sendo assim, o desligamento dos pacientes não deve ser pensado de forma alheia ao processo terapêutico de cada usuário atendido e manejo clínico da(o) Psicóloga(o), visto que o vínculo é uma variável importante na prestação dos atendimentos psicológicos.

Contato com demais profissionais de saúde

A(O) Psicóloga(o) poderá intensificar o contato com demais profissionais de saúde que atendam a(o) paciente/cliente neste momento. O contato entre profissionais de saúde contribui para a organização de estratégias para o atendimento e contenção da crise. Ressalta-se que, conforme o art. 6º do Código de Ética, neste contato a(o) profissional compartilhará somente informações relevantes para qualificar o serviço prestado, resguardando o caráter confidencial das comunicações, assinalando a responsabilidade, de quem as receber, de preservar o sigilo.

Caso não existam outros profissionais de saúde acompanhando o caso, a(o) Psicóloga(o) poderá realizar encaminhamentos que julgar necessários.

Rede de apoio

A(O) Psicóloga(o) poderá avaliar e considerar novas e diferente redes de apoio diante desse novo contexto, que poderão auxiliar na contenção da crise. Entendendo que possivelmente a rotina da(o) paciente/cliente em atendimento sofreu mudanças, seja pela situação de isolamento, convívio frequente com familiares e demais pessoas no domicílio, pelo teletrabalho, pela manutenção do trabalho, entre outras alterações, a rede de apoio também pode sofrer alterações. Assim um(a) colega de trabalho ou um familiar que antes não fazia parte da rede de apoio da(o) paciente/cliente, pode agora passar a compô-la.

 

É importante que a(o) profissional pondere também a necessidade de suporte e orientação à rede de apoio, que possivelmente também está se adaptando às novas contingências. Ao manter o contato com a rede de apoio a(o) Psicóloga(o) deverá considerar o sigilo profissional, transmitindo à rede de apoio apenas as informações necessárias para o bom andamento do trabalho.

Supervisão

Estamos vivendo um momento inédito de mudanças significativas e rápidas que impactam a vida pessoal e profissional da(o) Psicóloga(o). Essa nova demanda emergencial que se apresenta à(ao) profissional pode exigir reflexões, estratégias e encaminhamentos novos, por isso salientamos a importância da supervisão técnica, especialmente nesse momento.

Posso estar com COVID-19. E agora?

Em tempos de COVID-19 é importante que façamos os procedimentos de prevenção: lavar bem (e várias vezes) as mãos com água e sabão, usar álcool em gel, evitar contato, manter o distanciamento social, em casa e saindo apenas para o estritamente necessário. Ainda que não se faça parte do grupo considerado de maior risco (como pessoas idosas e quem já tem alguma doença pulmonar, por exemplo), todos os cuidados são indispensáveis. Porém, mesmo assim, algumas(uns) de nós poderão ser acometidas(os) pelo vírus. E o que fazer neste momento?


Por orientação de várias autoridades médicas e sanitárias, primeiro é necessário identificar se é, de fato, a COVID-19. Os sintomas são: febre tosse e dificuldade para respirar, sendo que as pessoas podem apresentar também coriza ou congestão nasal, dor de garganta e perda do olfato. Como nesta época do ano, doenças respiratórias costumam ser mais frequentes, a orientação é, a partir do primeiro sintoma, monitorar a temperatura corporal e o surgimento de novos sintomas. Em caso de agravamento da febre ou da dificuldade de respirar é preciso buscar avaliação médica. Nos demais casos, é preferível ligar para a Secretaria de Saúde do município e seguir as orientações das autoridades, pois os casos mais leves, ainda que cheguem às unidades de saúde, não serão testados e serão encaminhados para os 14 dias de cuidados em casa, com a medicação correta indicada pela equipe de saúde.

Testei e deu positivo, e agora?

 

É importante ressaltar que muitas pessoas testarão positivo para a COVID-19 neste período, e é necessário manter a calma também nesses momentos. Embora ainda não exista uma vacina ou cura, muitas pessoas estão se recuperando da COVID-19. Após testar positivo, é importante manter a rotina de cuidados com o corpo, mas também olhar para a saúde mental.

 

Após a confirmação e orientação para se manter em casa por 14 dias, ou caso a hospitalização seja necessária, é importante ter alguns hábitos que ajudem a manter a “cabeça no lugar”. Sempre que possível, leia livros, veja filmes, estude sobre outros assuntos. É importante desconectar um pouco, tanto das redes sociais quanto do celular. Muitas informações boas estão circulando, mas há também muitas informações sem embasamento científico, que podem servir como vetor para a ansiedade, num momento que por si só já é delicado.

 

É necessário monitorar os sinais e sintomas, mas fazer isso a cada vinte minutos também faz a ansiedade aumentar. Por mais que, durante o isolamento, se fique limitado de interações e saídas, procure estímulos que te façam relaxar, seja um jogo online, seja assistir programas leves de televisão. Pensar e ter informações sobre o vírus o tempo todo pode ser prejudicial à sua saúde mental. Muitas vezes, esse momento de “superinformação” pode levar a crises de ansiedade, que podem ter como sintomas dor no peito e até falta de ar, daí a necessidade de estar atento aos sintomas e à duração deles. Mantenha uma rotina de cuidados, fazendo uso correto da medicação, ingerindo bastante líquidos e fazendo o repouso recomendado.

Os cuidados possíveis estão disponíveis e é importante sermos responsáveis, tanto com nossa condição, como com a sociedade como um todo. Esse momento de distanciamento social é delicado e não se sabe ao certo quanto tempo durará.  Por isso é indispensável cuidarmos do que nos é possível e compreender sobre o que não temos controle.

 

Neste momento, por exemplo, alguns cuidados podem nos ajudar também a proteger nossos familiares do contágio. Entre eles, evitar compartilhar objetos de alimentação e de uso pessoal, lavar as roupas em separado e utilizar a máscara conforme a orientação da equipe de saúde. De preferência, sempre que possível, utilizar um cômodo da casa restrito, mantendo os ambientes sempre ventilados. Esse também não é um bom momento para receber visitas e mesmo ao tocar animais de estimação é preciso tomar cuidados como a lavagem das mãos antes e depois.

 

O primeiro passo para uma boa recuperação é não procurar culpados ou se culpar pela situação: é um vírus, todas e todos estão sujeitos a se infectar. É preciso apenas seguir as orientações médicas e aguardar o período de catorze dias. Se você já toma todos os cuidados e segue seu tratamento corretamente, entenda que, o que você pode fazer, você está fazendo. Nesse contexto, basta estar atenta(o) à saúde física e mental e pedir ajuda se necessitar, sabendo que muitos profissionais da Saúde, incluindo Psicólogas(os) estão preparados para te ajudar.

Saúde mental para a população idosa durante o período de isolamento social

As pessoas idosas estão no centro da atenção quando se fala de coronavírus, uma vez que em vários lugares do mundo parte significativa dos casos graves observados estavam nesta faixa etária, geralmente associados a comorbidades, ou seja, outras doenças que a pessoa já possuía antes de ter Covid-19.

 

Em meio a medidas de precaução como o distanciamento social e muitas informações circulando – algumas verdadeiras e outras não – pessoas idosas podem ficar privadas de seu convívio social e também ser advertidas de vários modos sobre os riscos. Esse excesso pode trazer ansiedade, medo e angústia.

 

Para saber mais sobre como tratar do tema com as pessoas idosas, o Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) conversou com a Psicóloga Solange do Carmo Bowoniuk Wiegand (CRP-08/03266). Solange é colaboradora do CRP-PR,  mestre em Bioética, professora universitária e de cursos de extensão em Tanatologia, membro dos grupos de pesquisa em “Bioética, Cuidados em Humanização e Saúde” e “Bioética, Saúde Pública Global e Direitos Humanos”, ambos da PUCPR-CNPq. Confira a seguir a entrevista:

CRP-PR – Que estratégias adotar para lidar com pessoas idosas que demandam atenção psicológica?

 

Solange do Carmo Bowoniuk Wiegand – Para as idosas e os idosos, sendo a população com principal risco, esse período pode causar estresse e ansiedade. O apoio emocional da família e amigos, nesse momento, é imprescindível, ajudando a gerenciar as emoções e aliviar a ansiedade. Manter as atividades diárias e as atividades físicas, na medida do possível, também é recomendável. Lembrar que o isolamento social é físico e não precisa ser emocional, uma vez que a comunicação entre as pessoas pode continuar, seja pela internet ou pelo telefone.

 

As sugestões para (as)os idosas(os) que não tem acesso a telefone celular ou internet é de que possam realizar atividades das quais eles gostem e que promovam relaxamento: colocar a leitura em dia; realizar um trabalho manual como o tricô ou o crochê; rever o álbum de fotografias da família e assistir a filmes, são alguns exemplos. A meditação também pode promover momentos de relaxamento.

 

É importante lembrar ainda sobre a importância do sono, da alimentação saudável e de se seguir as orientações das autoridades sanitárias sobre a higienização das mãos e distanciamento do convívio social.

 

Percebe-se também que, neste momento significativo para as pessoas, muitas buscam novo sentido de vida, voltando-se para a espiritualidade. É importante buscar formas de viabilizar esse contato – como as transmissões online e canais de conversa – caso as(os) idosas(os) mostrem interesse pela temática.  

 

Outro aspecto importante é passar a mensagem de que a(o) idosa(o) não está sozinha(o), que pode contar com a ajuda de familiares, amigas(os) e vizinhas(os), que não precisam, por exemplo, sair de suas casas para fazerem compras. Marcar que é algo temporário e que, daqui a algum tempo, poderão retomar seus passeios com amigas(os), visitas aos seus filhos, filhas, netas e netos também pode ajudar a aliviar a ansiedade, com a compreensão de que este é um momento de recolhimento especial para todas e todos.

CRP-PR – Como familiares podem conversar com idosas e idosos que porventura não considerem necessárias as medidas de segurança?

Solange – Paciência com as(os) idosas(os) é a palavra de ordem nesse momento. As explicações devem ser francas, sobre como se prevenir contra a Covid-19, e repetidas quantas vezes sejam necessárias. Não é o momento de incutir medo, mas de conversar sobre a enfermidade, inclusive, citando exemplos ou passando vídeos do que já aconteceu em outros países. No entanto, se faz necessário cautela nos comentários sobre notícias sensacionalistas, buscando informações em fontes seguras, principalmente se houver algum familiar infectado, o que pode gerar preocupação e mais estresse na(o) idosa(o), equilibrando também com a informação de pessoas recuperadas e boas notícias.

CRP-PR – Quais os sinais a que idosas(os) e familiares devem estar atentas(os) para indicar que algo não vai bem com a saúde mental?

 

Solange – O distanciamento social pode provocar nas pessoas ansiedade, irritação, preocupação, estresse e agitação. É possível que o distanciamento social precise se alongar ou se transforme em quarentena – quando pessoas já tiveram contato com alguém doente – quando o tédio, o medo de contrair o vírus, a falta de alimentos e a perda financeira, entre outras, são questões que podem aparecer.

 

Neste momento é preciso estar ainda mais atenta(o) a alguns sinais e sintomas de depressão em idosas(os). Além dos sinais de tristeza e angústia, a diminuição de atividades rotineiras, as dores físicas e a perda de memória devem ser levadas em conta, pois estes fatores podem contribuir para que a saúde mental seja abalada, mesmo que seja por um período temporário.

 

Devemos lembrar também que epidemias, principalmente as pouco conhecidas, como é o caso da Covid-19, podem causar pânico nas pessoas, uma vez que, nas redes sociais, as “fake news” (como são chamadas as notícias falsas) circulam sem qualquer critério. Esse cenário pode abalar a saúde mental causando o estresse e ansiedade, semelhante ao sofrido por pessoas que passaram pelo estresse pós-traumático.

 

As emissoras de televisão mudaram sua programação para que as notícias pudessem chegar em primeira mão, entretanto, o fluxo constante de informação pode gerar mais preocupação e estresse, fazendo com que a ansiedade se torne mais alta ainda. Por isso, é importante dosar a quantidade de informação a que estamos expostas(os).

 

Por outro lado, a solidariedade passou a fazer parte da vida das pessoas, com a ajuda às(aos) mais vulneráveis, na busca de um conforto coletivo. Os contatos virtuais estão aliviando o isolamento social. É preciso estar atenta(o) e quando necessário buscar o apoio profissional. Psicólogas(os) estão ofertando o atendimento na modalidade online, o que permite o acompanhamento de casos que demandem ajuda profissional,  respeitando as orientações sanitárias, adequando a modalidade de atendimento e garantindo acesso ao serviço de saúde mental.

CRP-PR Como cuidar de quem cuida? Quais os cuidados que as pessoas e familiares que atendem idosas(os) devem tomar em relação à saúde mental?

 

Solange – O cuidador, seja ele membro ou não da família que cuida da(o) idosa(o), passa por momentos de sobrecarga emocional ao assumir a responsabilidade pelo cuidado. Diante deste encargo é comum apresentar cansaço físico, tensão, distúrbio do sono e por vezes se sentir depressiva(o).


Assim sendo, ela ou ele também necessita de cuidados e, para isso, precisa da ajuda de outras pessoas. É primordial que tenha algum tempo livre para cuidar de si própria(o); relaxar, fazendo alguma atividade que gosta (assistir um filme, ler um livro, são alguns exemplos); executar algum tipo de atividade física (caminhar, fazer ginástica, entre outros).
Importante salientar que, em se tratando de uma cuidadora ou cuidador da própria família, por vezes acaba deixando de lado o cônjuge ou a vida profissional, gerando um conflito pessoal. 

 

Cada cuidador(a), seja familiar ou profissional, tem o seu próprio modo de se reenergizar, de acordo com a sua necessidade. Porém, a busca do equilíbrio entre o seu eu interior e exterior deve ser constante.

 

Complemento com uma frase: “Tudo que existe e vive precisa ser cuidado para continuar existindo. Uma planta, uma criança, um idoso, o planeta Terra. Tudo o que vive precisa ser alimentado. Assim, o cuidado, a essência da vida humana, precisa ser continuamente alimentado. O cuidado vive do amor, da ternura, da carícia e da convivência”. (Boff, 1999)

Perguntas frequentes sobre COVID-19: confira as principais respostas sobre a atuação profissional

1. Sou Psicólogo(a) e pertenço algum grupo de risco do COVID19, o que o CRP-PR orienta?

Às (Aos) Psicólogas(os) com idade acima de 60 anos, gestantes/lactantes, com doenças crônicas e/ou com problemas respiratórios, recomendamos que se mantenham em isolamento, em atenção ao Decreto nº 4230/2020 emitido pelo Governo do Estado do Paraná. Da mesma forma, as Psicólogas(os) que tenham retornado de países do exterior, de regiões com transmissão comunitária do vírus ou tenham tido contato com pessoas diagnosticadas com o vírus recomendamos que permaneçam em isolamento, em atenção à legislação sanitária vigente. Visando a proteção das(os) Psicólogas(os) e usuárias(os)/pacientes, a prestação dos serviços psicológicos poderá ser realizada a distância, por meio de tecnologias de informação e comunicação, conforme Resoluções CFP nº 11/2018 e 04/2020. Caso o atendimento à distância não possa ser realizado, recomenda-se que estas(es) profissionais busquem encaminhar as pessoas atendidas para outras(os) profissionais ou serviços.

2.Posso atender à distância (online, telefone) casos de urgência e emergência?

O Sistema Conselhos de Psicologia, atento às especificidades do contexto específico de pandemia e aos princípios fundamentais do Código de Ética, com o objetivo de proteção à vida e redução dos riscos a Psicólogas(os), usuárias(os) e toda a sociedade, vem debatendo de forma intensa com profissionais e pesquisadoras(es) com expertise em atendimentos nos casos de urgência e emergência para construir e divulgar orientações condizentes com o cenário com a maior brevidade possível.

 

Nesse sentido, a Resolução CFP n.º 04/2020 publicada em 30 de março, suspende, durante o período de pandemia, os artigos 6º, 7º e 8º da Resolução CFP n.° 11/2018, que vedavam o atendimento de pessoas e grupos em situações de urgência e emergência, desastres, violência ou violação de direitos pelos meios de tecnologia e informação.

 

Antes mesmo da publicação desta Resolução, a Nota Técnica n.º 01/2020 do CRP-PR  já previa a recomendação, nos casos de necessidade de atendimento online a situações de urgência e emergência,  de que as(os) Psicólogas(os) busquem articular junto com a(o) usuária(o) do serviço uma rede de apoio que poderá ser contactada pela(o) profissional quando necessário, a fim de não tomar exclusivamente para si a responsabilidade por situações que demandariam o acompanhamento por parte de equipes presenciais.

 

Além disso, cabe destacar que as(os) Psicólogas(os) que desejem atender de forma online deverão realizar cadastro na plataforma E-psi, não sendo necessário aguardar aprovação durante o período da pandemia, conforme orientações divulgadas pelo CRP-PR em 17 de março de 2020: https://crppr.org.br/covid19-e-psi/.

3. Como dever ser o ambiente de atendimento psicológico?

Cabe à(ao) Psicóloga(o), em qualquer modalidade de atendimento, garantir o sigilo profissional. Para tanto, é necessário oferecer um ambiente com condições de vedação acústica, além de iluminação, higiene e ventilação apropriadas. Destacam-se as orientações do Decreto Estadual nº 4230/2020 – Paraná, que determina que os locais onde há prestação de atendimento presencial tomem as seguintes providências: disponibilizar álcool em gel em todas as repartições e aumentar a frequência de limpeza em locais públicos, especialmente banheiros, elevadores, corrimãos e maçanetas.

 

Reforçamos ainda as orientações de manter uma distância entre a(o) Psicóloga(o) e a(o) usuária(o) do serviço, manter janelas abertas para ventilação e não compartilhar objetos. O ambiente da prestação do serviço psicológico deverá ser analisado e pensado pela(o) Psicóloga(o), em sua autonomia e responsabilidade profissional.

 

Alertamos para que as(os) profissionais atentem às orientações e determinações das autoridades sanitárias e que, em conjunto com seus pacientes, contratem a forma ética mais factível de lidar com o cenário atual. Às(Aos) profissionais que avaliem a viabilidade da prestação de serviços na modalidade a distância, reiteramos a importância de discutir tal situação com seus pacientes e/ou responsáveis legais, bem como acordar um ambiente que garanta condições para a prestação deste serviço com qualidade, atendendo os parâmetros éticos. A responsabilidade pela garantia das condições de confidencialidade, sigilo e intimidade das pessoas que se submetem à prestação de serviços psicológicos é da(o) profissional de Psicologia, nos termos do Código de Ética e normativas complementares, conforme orienta a Nota Técnica CRP-PR Nº 005/2018.

4. Recebi um pedido de atendimento, não sei se aceito. Como o CRP-PR pode me ajudar?

Como em qualquer área de atuação profissional, a(o) Psicóloga(o) que recebe determinada demanda deverá refletir acerca de sua capacitação pessoal, teórica e técnica para prestar determinados serviços, garantindo a qualidade do atendimento. Cada natureza de serviço psicológico possui sua particularidade (legal, técnica, metodológica, ambiental, etc.) e, desta forma, a(o) Psicóloga(o) que é chamada a atender novas demandas deverá refletir o quanto possui capacitação para tal, bem como ambiente e instrumentos adequados para garantir a qualidade, e/ou o quanto determinada demanda pertence, ou extrapola, a sua atuação profissional.

 

Caso a(o) profissional avalie (em sua autonomia e responsabilidade) que não possui condições de prestar um serviço de qualidade, coerente com a natureza de serviço que é demandada, ou ainda perceba a existência de outros vínculos (pessoais ou profissionais, atuais ou anteriores) que possam trazer interferências negativas ao serviço prestado, compreendemos necessário que se posicione de forma fundamentada – justificando a impossibilidade de desenvolver o trabalho, preste orientações cabíveis e faça os encaminhamentos necessários.

 

Em caso de dúvidas, sugerimos acessar o Guia de Orientação do CRP-PR: https://crppr.org.br/guia-de-orientacao/. Se persistirem os questionamentos, a(o) Psicóloga(o) poderá entrar em contato com a Comissão de Orientação e Fiscalização por meio do formulário constante na página do Guia, ou pelo email: cof@crppr.org.br, lembrando que o CRP-PR suspendeu os atendimentos presenciais durante o período de pandemia: https://crppr.org.br/covid19-atividadescrppr.

5. Quero oferecer atendimentos voluntários, como divulgar?

Considerando o cenário atual, temos recebido questionamentos de Psicólogas(os) almejando desenvolver atividades voluntárias. Diante disso, destacamos trechos do Código de Ética do Profissional Psicólogo:

PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS III. O psicólogo atuará com responsabilidade social, analisando crítica e historicamente a realidade política, econômica, social e cultural.
Art. 1º – São deveres fundamentais dos psicólogos: (…)

b) Assumir responsabilidades profissionais somente por atividades para as quais esteja capacitado pessoal, teórica e tecnicamente;

c) Prestar serviços psicológicos de qualidade, em condições de trabalho dignas e apropriadas à natureza desses serviços, utilizando princípios, conhecimentos e técnicas reconhecidamente fundamentados na ciência psicológica, na ética e na legislação profissional;

d) Prestar serviços profissionais em situações de calamidade pública ou de emergência, sem visar benefício pessoal;

e) Estabelecer acordos de prestação de serviços que respeitem os direitos do usuário ou beneficiário de serviços de Psicologia. (…)

 

Ressalta-se que, ao desempenhar sua função profissional como voluntária, a(o) Psicóloga(o) não está dispensada(o) de cumprir as exigências formais e legais do seu exercício profissional.

 

Enfatiza-se também que a(o) Psicóloga(o) deve assegurar algumas condições, tais como: a qualidade do serviço independente de valor acordado; não prestar serviços visando ao benefício pessoal; estar capacitada(o) pessoal, teórica e tecnicamente; e se posicionar de forma fundamentada acerca de sua prática profissional. Em complemento, a(o) profissional que prestar determinado serviço deverá atentar-se às normativas presentes na Lei do Voluntariado (Lei nº 9.608 de 18 de fevereiro de 1998).

Ainda, recomendamos que as(os) Psicólogas(os) que desejam desempenhar atividades voluntárias entrem em contato com a Secretaria de Saúde e Defesa Civil do seu município, em busca de informações, orientações, bem como de um trabalho em rede, com qualidade e em atendimento à legislação sanitária vigente.

 

Em relação à divulgação do serviço, em Nota Orientativa, o CFP orienta a não haver referências a valores: “Caso se trate de uma gratuidade, esta informação deverá ser disponibilizada individualmente. Ressalta-se, ainda, que as(os) profissionais devem ter uma proposta de trabalho com início, meio e fim, ou que garanta a gratuidade por todo o período da prestação do serviço. Salienta-se que deve haver o compromisso profissional estabelecido, com direitos e obrigações, como em qualquer outra situação de sua prática”, destaca a nota.

 

O documento ainda ressalta que a publicidade não deve ser feita de forma sensacionalista, conforme Art. 20 do Código de Ética Profissional.  Por fim, recomendamos a leitura de duas notas técnicas do CRP-PR: a NT n.º 02/2019, referente à publicidade profissional, e a NT n.º 01/2018, que trata do atendimento social.

6. Desejo atender equipes de saúde e pessoas que estão prestando serviços essenciais. Que cuidados devo ter?

Equipes de Limpeza, Maqueiras(os), Técnicas(os) de Enfermagem, Enfermeiras(os), Fisioterapeutas, Biomédicas(os), Médicas(os) e, em muitos casos, Psicólogas(os) são algumas das profissões que estão na linha de frente no combate ao Covid-19, para quem muitas vezes não é possível o isolamento social ou quarentena.

 

Diante da alta carga de trabalho e de estresse, estas(es) profissionais podem manifestar sinais de esgotamento, tais como: dificuldades para dormir, prejuízo das atividades laborais e de autocuidado e sentimentos de raiva, ansiedade, solidão e medo. 

Nesse sentido, surgem diversas iniciativas de atendimento a estas(es) profissionais. Psicólogas(os) interessadas(os) em participar destas iniciativas deverão refletir acerca de sua capacitação pessoal, teórica e técnica para prestar este serviço, garantindo a qualidade do atendimento (ver pergunta/resposta 4 deste FAQ). Se for o caso, também atentar-se para as orientações quanto ao trabalho voluntário (ver pergunta/resposta 5 nesta página).

 

Recomenda-se às(aos) Psicólogas(os) que realizarão atendimentos a estas equipes leiam a entrevista com colaboradoras da Comissão de Psicologia Hospitalar do CRP-PR e também a nota em defesa do SUS. Confira também a nota e diálogo digital do CFP sobre o tema.

7. Posso atender presencialmente?

Caso a(o) Psicóloga(o) atue em instituição que esteja suspendendo os serviços presenciais ou atue enquanto profissional autônoma(o) e decida, momentaneamente, suspender as atividades, informamos que caberá à(ao) profissional analisar tecnicamente cada demanda existente para identificar situações que possam ser reagendadas para um momento futuro, ou situações de urgência e emergência que demandem um encaminhamento diferenciado. O Conselho Regional de Psicologia do Paraná não possui autoridade para determinar suspensão ou permanência dos serviços prestados por outros órgãos ou profissionais.

 

Caso a análise indique a necessidade do atendimento presencial, é importante que se observem as recomendações em relação aos cuidados básicos de proteção e prevenção de contágio:  realizar higiene frequente e garantir condições de ventilação, evitar o contato físico e manter uma distância segura de 1 metro, suspender atendimentos coletivos para evitar o contato entre pacientes/clientes,  dar recomendações específicas para grupos de risco, solicitar às(aos) gestoras(es) e empregadores(as) (do setor público ou iniciativa privada) que providenciem as adequações necessárias para cumprimento destas medidas. 

8. Mantenha-se atualizado, acesse as notícias e orientações nos canais oficiais.

O Sistema Conselhos de Psicologia está trabalhando intensamente para a produção de novos referenciais de orientação à categoria e para o diálogo com a sociedade neste momento de pandemia. Confira frequentemente o compilado das informações atualizadas na página especial do CRP-PR sobre o COVID-19 https://crppr.org.br/especialcovid19 e também na página do CFP: https://site.cfp.org.br/coronavirus/1-inicio/.

Violência contra as mulheres: impactos da pandemia e mudança na legislação

A violência doméstica tende a se ampliar durante períodos de crise, sejam essas econômicas e/ou políticas, e de distanciamento social como a que temos vivenciado em função da pandemia de Covid-19, causada por um novo coronavírus. O aumento é representado por indícios e números divulgados em todos os países gravemente afetados por esta crise. A preocupação também aparece em um documento elaborado pela Organização das Nações Unidas que avaliou os impactos da pandemia a partir das dimensões de gênero.

 

No Brasil, país onde a violência contra as mulheres já registrava números extremamente elevados antes da crise, agora tem dados alarmantes. Segundo divulgou a Agência Brasil, órgão de comunicação pública ligado ao governo federal, casos de violência doméstica cresceram 50% no Rio de Janeiro durante o período de distanciamento social até o momento.

 

Em Curitiba, afirma o Instituto Patrícia Galvão, as delegacias de plantão também tiveram aumento no número de casos de violência doméstica no primeiro fim de semana de confinamento. Para combater o efeito, a Prefeitura do Município lançou no final de março uma campanha para divulgar os canais de denúncia e auxílio que podem ser acessados por mulheres.

 

Já o Paraná como um todo parece estar na contramão dessa tendência. Segundo informações divulgadas pela Secretaria de Segurança Pública no último dia 25 de março, o número de boletins de ocorrência relacionados à violência doméstica apontou redução de 40%. Apesar de a uma primeira vista parecer positivo, o dado pode trazer uma preocupação, apontada também pelo Instituto Patrícia Galvão: as mulheres podem estar enfrentando dificuldades para denunciar a violência uma vez que não encontram oportunidade para sair e podem não estar acessando os canais de atendimento remoto.

 

O instituto reforça, portanto, a importância da divulgação dos canais remotos e da atenção e suporte prestados por profissionais de saúde nesse momento, com o acolhimento e oferta de informações às mulheres em situação de violência doméstica.

Mudança na legislação impacta a Psicologia

Entre as e os profissionais que realizam esse acolhimento e atendem as mulheres em situação de violência estão as(os) Psicólogas(os). Até fevereiro, a conduta para esse atendimento estava totalmente prevista pela Nota Técnica de Orientação Profissional em Casos de Violência contra a Mulher, do Conselho Federal de Psicologia (CFP). No entanto, em março deste ano uma mudança na Legislação por meio da Lei 13.931/2019 passou a obrigar profissionais de saúde a denunciar casos de indícios ou confirmados de violência contra as mulheres à autoridade policial no prazo de 24 horas. A denúncia, obriga a legislação, deve ocorrer mesmo quando essa não é a vontade da pessoa atendida.

 

Essa é uma mudança que merece a reflexão e o debate no contexto da atuação de Psicólogas(os). Embora a comunicação dos casos já estivesse presente anteriormente como uma exceção ao dever de sigilo de profissionais de Psicologia, ela poderia ocorrer de duas formas diferentes: a primeira por meio da notificação – obrigatória em todos os casos – não configurando quebra de sigilo, pois era realizada exclusivamente aos órgãos de saúde por meio do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). O segundo caso previsto era a denúncia, realizada à autoridade policial sempre visando o menor risco às mulheres atendidas – a fim de preservar-lhes a vida e de seus familiares – e com seu conhecimento prévio. 

 

Com a mudança, a legislação federal passa a obrigar a denúncia. A questão, no entanto, é se essa denúncia por si será capaz de auxiliar a mulher atendida a superar a situação de violência ou poderá agravar ainda mais esse cenário. Da perspectiva da Psicologia é importante considerar como a questão da violência doméstica está implicada na vida dessa mulher e se é possível auxiliá-la a construir e compreender uma vida sem violência a partir de um desrespeito à própria autonomia, ou seja, igualmente uma violência simbólica.

 

Desta forma, denunciar o caso à polícia à revelia dessa mulher não implicaria em reduzir sua capacidade de decidir sobre a própria vida? De forma alguma defende-se deixar impune a violência ou restringir o atendimento de mulheres no sistema de garantia de direitos ou às medidas protetivas disponíveis. Pelo contrário, significa tomar condutas para que ela possa acessar esses serviços com planejamento, autonomia e previsão de suas consequências.

 

É preciso considerar também que, em geral, dada a dificuldade do Estado em oferecer medidas de proteção suficientes e capazes de evitar a escalada da violência, notificações sem consentimento pode levar a um agravamento das agressões após a denúncia – com risco de feminicídio – antes que outras medidas de proteção possam ser tomadas. Importante mensurar também que muitas mulheres podem deixar de procurar o atendimento em serviços de saúde em função dessa mudança, exatamente pela possibilidade de uma denúncia sem sua anuência ou que possa colocá-la em maior risco no curto prazo.

 

Há ainda que se pensar em situações nas quais a violência possa recair exatamente sobre os denunciantes, sobretudo em comunidades menores onde não será difícil inferir e atribuir a profissionais de saúde a origem de denúncias como estas. Mais do que isso, quais serão então os reflexos para a compreensão da população de que no trabalho de Psicólogas(os) outros temas sejam mantidos em sigilo? A Psicologia está ainda em construção no imaginário popular, mas um dos valores mais reconhecidos têm sido exatamente o da garantia de que os temas íntimos e mais dolorosos sejam mantidos em segredo e trabalhados internamente, respeitando desejos e possibilidades das usuárias dos serviços.

 

No momento, o CRP-PR como autarquia federal tem o dever de comunicar às(aos) Psicólogas(os) a mudança na legislação. Mas, ao mesmo tempo, convida a categoria a participar e aprofundar essa discussão, possibilitando a ampliação do diálogo e a compreensão de quais medidas são necessárias para preservar a vida e a autonomia das mulheres, garantindo o cumprimento do Código de Ética.

Nova lei inviabiliza Nota Técnica do CFP

Como ficou:

A partir de 9 de março de 2020, um dia após o Dia Internacional da Mulher, passou a vigorar a Lei Federal nº 13.931/2019, que versa sobre a notificação compulsória, em todo território nacional, para casos em que houver indícios ou confirmação de violência contra a mulher atendida em serviços de saúde públicos e privados. Esta lei estabelece, em seu Art. 1º, § 4º que os casos em que houver indício ou confirmação de violência contra a mulher serão obrigatoriamente comunicados à autoridade policial no prazo de 24 (vinte e quatro) horas, para providências cabíveis e fins estatísticos.

 

Como era antes:

A notificação compulsória era regida anteriormente pela Lei Federal nº 10.778/2003, que foi alterada pela Lei nº 13.931/2019. Na legislação revogada, a finalidade da notificação era apenas epidemiológica e seguia um processo interno no âmbito da Saúde Pública, com a finalidade de fundamentar a construção de políticas públicas mais eficazes. Neste cenário, a identificação da vítima restava protegida, posto que esta informação permanecia restrita aos órgãos públicos de saúde. Somente em caso de risco à comunidade ou à vítima, previa-se a obrigatoriedade de comunicação externa (denúncia), que deveria acontecer com conhecimento prévio da vítima ou responsável.

 

Em dezembro de 2016, foi publicada pelo Conselho Federal de Psicologia a Nota Técnica de orientação profissional em casos de violência contra a mulher. Dentre outras orientações, este documento estabelecia as diferenças entre a notificação compulsória e a comunicação externa, indicando os casos em que cada um dos procedimentos deve ser adotado pela (o) psicóloga (o).

De acordo com a Nota Técnica, seria obrigatória a notificação de todos os casos de violência contra a mulher atendidos pelas (os) psicólogas (os), conforme dispõe a Lei Federal nº 10.778/2003. Contudo, a comunicação externa (quebra de sigilo – com ou sem o consentimento da mulher) só era indicada em situações em que a vida da mulher corria sério risco ou ainda a de seus filhos ou de pessoas próximas. Nos demais casos, a atuação da (do) psicóloga (o) deveria ter como objetivo o fortalecimento do protagonismo da mulher, oferecendo ferramentas para sua autonomia na tomada de decisões.

 

Próximos desafios:

O Conselho Federal de Psicologia compreende que a comunicação externa baseada em indícios de violência, como proposta pela nova lei, vulnerabiliza ainda mais as mulheres, podendo aumentar o risco de novas agressões ao invés de preveni-las. Entende-se que a nova regra contraria o interesse público ao determinar a identificação da vítima, mesmo sem o seu consentimento e ainda que não haja risco de morte.

 

Neste sentido, o que está disposto na Lei nº 13.931/2019 se contrapõe às orientações dos Conselhos Regionais de Psicologia em relação à temática (sintetizadas na Nota Técnica citada acima). Contudo, diante da vigência da Lei nº 13.931/2019 a partir do dia 09 de março, cumpre ao Conselho informar a categoria de que qualquer normativa infralegal, como resoluções ou notas técnicas, fica revogada naquilo em que contraria a Lei superveniente. Ou seja, neste momento devem ser respeitadas as disposições da Lei nº 13.931/2019, muito embora o Sistema Conselhos se contraponha aos procedimentos que esta normativa estabelece.

 

Por fim, cabe informar que o tema está em discussão no âmbito dos Conselhos Regionais, incluindo o CRP-PR, bem como por meio do Grupo de Trabalho (GT) Políticas para Mulheres, do Conselho Federal de Psicologia, a fim de aprimorar e contra-argumentar, possibilitando, assim que possível a rediscussão e reorientação da legislação, que pode colocar as mulheres em risco ainda maior.

Vamos juntas(os) cuidar da saúde mental das nossas crianças durante a quarentena?

O surgimento de uma pandemia a partir de um novo tipo de coronavírus (COVID-19) tem levado a muitas mudanças no nosso dia a dia. Diante desse cenário atual e a necessidade do chamado “isolamento social”, surge a necessidade de refletirmos sobre todos as pessoas envolvidas em seus diferentes ciclos de vida.

 

A criança, desde muito pequena, não está isenta desses impactos: a vida em um espaço restrito, as escolas fechadas, os parques e passeios suspensos, o contato com os familiares e amigos que não ocorrem mais como antes. Além disso, é possível observar pais, mães e responsáveis preocupadas(os), assombradas(os) com seus medos e angústias, com dificuldades para dar conta de seus próprios sofrimentos e inseguranças… O que fazer?

 

O Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR), em consonância com as medidas de prevenção preconizadas pela Organização Mundial de Saúde e pelas demais autoridades sanitárias (municipais, estaduais, federal), e considerando seu compromisso social, elaborou algumas orientações para a prevenção da saúde mental de nossas crianças. Confira a seguir:

  • Organize-se, reelabore a sua rotina e inclua as crianças. Clique aqui para conferir as orientações do CRP-PR para a saúde mental de pessoas adultas.  
  • Explique para a criança, em linguagem acessível, contemplando sua faixa etária, sobre o Coronavírus e destaque o motivo das mudanças na rotina (se precisar de ajuda, peça para alguém ou utilize alguns materiais que estão disponibilizados na internet). Importante salientar que não é um período de férias e que os adultos também estão trabalhando.
  • Limite e acompanhe as informações que a criança vai receber nesse período (noticiários, mensagens por redes sociais, etc) e procure responder as dúvidas da criança.
  • Construa uma nova rotina para a criança e a envolva nessa construção. Procure manter ao máximo a rotina anterior tal como: horário para acordar e dormir, refeições saudáveis, tempo para estudar, ler e brincar.
  • Não se esqueça de incluir nessa rotina atividades lúdicas com a família. Aproveite o momento para estreitar os laços com a criança.
  • Busque, se possível, estabelecer uma rotina de exercícios físicos leves, alongamentos e uma alimentação saudável.
  • Desenvolva atividades lúdicas que as crianças também possam se divertir sozinhas, não se limitando ao uso das tecnologias, como, por exemplo, desenho e jogos de tabuleiro.
  • Quando possível, propicie momentos de interação com os familiares e amigas(os) por meio de contatos telefônicos, e-mails, chamadas por vídeo e outros aplicativos.
  • Converse com a criança sobre os sentimentos, pergunte se ela precisa de alguma informação, explique que as pessoas adultas também sentem as mudanças: podem ficar tristes, nervosas, agitadas, irritadas, com medo, mas que é preciso superar esse momento juntas(os), se ajudando.
  • Não aterrorize as crianças, seja positiva(o) e mostre que esse momento vai passar e que, em breve, poderemos voltar a nossa rotina habitual.

Mais algumas orientações:

 

  • Lembre-se que as crianças precisarão de um tempo para lidar com essas mudanças.
  • Procure ser paciente, inicialmente elas podem ficar mais agitadas, irritadas ou apresentar alguma mudança no comportamento.
  • Se você estiver muito irritada(o): se for possível, afaste-se da situação momentaneamente e peça para outra pessoa cuidar da criança, acalme-se é e só depois retorne.
  • Se pais, mães e/ou responsáveis não moram na mesma casa, entrem em acordo quanto à convivência com a criança e facilitem a comunicação. Este período demanda muita união entre as pessoas.
  • Muito importante: não se cobre demais caso não seja possível observar alguma dessas orientações. A situação é nova e muito exigente, com o tempo e com ajuda é possível conseguir se organizar melhor.

SUS na linha de frente de atenção à população na crise do coronavírus

O mundo inteiro sofre com a expansão do coronavírus que causa a Covid-19. O novo vírus tem a capacidade de sobreviver por mais tempo no ambiente, pode mutar com facilidade e pode causar sérios problemas ao sistema respiratório de quem o contrai. De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), a taxa de letalidade média é 3,4%, ou seja, mais de três pessoas em cada cem que contraem a doença não sobrevivem.

 

Embora essa taxa possa ser considerada baixa em termos estatísticos, há um outro número que preocupa: cerca de 20% das pessoas que contraem o coronavírus vão precisar de cuidados médicos. Ou seja, uma em cada cinco pessoas doentes vai precisar de cuidados em saúde, sobretudo as pessoas mais velhas. Isso em um cenário do qual de 210 milhões de brasileiros, apenas 41 milhões possuem plano de saúde com cobertura hospitalar, de acordo com a Agência Nacional de Saúde Suplementar.

 

A crise do coronavírus trouxe, portanto, um grave lembrete às(aos) brasileiras(os): a importância do Sistema Único de Saúde. São os hospitais e serviços de saúde que compõem o Sistema que concentram a atenção a maior parte da população. Justamente o Sistema que vem enfrentando uma política de desmonte e reduções sucessivas em seu financiamento.

 

Diante deste cenário, o Conselho Nacional de Saúde (CNS) reivindicou em nota pública a revogação imediata da Emenda Constitucional 95/2016, que retirou recursos e congelou investimentos no sistema até 2036. De acordo com a nota, o estudo apresentado na Comissão de Orçamento e Financiamento (Cofin) do CNS aponta um prejuízo de R$ 22,48 bilhões ao SUS de 2018 a 2020, valor que seria investido na saúde pública se não houvesse a redução do piso federal. Ao longo de duas décadas, os danos são estimados em R$ 400 bilhões a menos em investimento em saúde.

 

Investimentos estes que agora são solicitados em tom de urgência por governadores e prefeitos que precisam responder a um grande volume de pessoas necessitando de atenção em saúde nas unidades e hospitais estaduais e municipais. E que mesmo que sejam liberados deverão ainda demorar para chegar às(aos) pacientes.

Quanto custa buscar atendimento médico em meio a uma pandemia?

 

No Brasil, não há custo direto à(ao) paciente no momento do atendimento, uma vez que o sistema é financiado pelos impostos pagos pelas(os) brasileiras(os). Mas não é assim no mundo todo. Nos Estados Unidos, o custo dos testes e o medo de uma conta médica alta estavam impedindo que as pessoas buscassem o serviço de saúde. Em uma tentativa de conter a epidemia, o congresso estadunidense aprovou uma medida temporária que isentou as taxas para a testagem do vírus e a primeira visita médica, e trabalha ainda para reduzir os custos de quem precisa de tratamento. Mesmo assim, atualmente quem não tem seguro de saúde e precisar de hospitalização pode terminar com uma conta de 20 mil dólares, cerca de 100 mil reais, números que podem subir bastante se a condição clínica for grave e precisar de mais dias de internação.

 

No Chile, um exemplo da América do Sul, realizar um teste para coronavírus em um hospital público tem um custo de aproximadamente o equivalente a R$ 500,00, segundo informou o Centro de Investigação Jornalística do país (CIBES).

SUS, muito além do tratamento de doenças

 

Neste momento, em que o mundo espera ansioso por uma vacina que nos ajude a combater o coronavírus, também fica um alerta. Essa vacina – quando houver – será certamente aplicada para a imensa maioria da população brasileira pelo Sistema Único de Saúde. De acordo com o Ministério da Saúde, anualmente já são 300 milhões de doses das vacinas incluídas no Calendário Nacional de Vacinação, que abrange 19 vacinas para mais de 20 doenças, aplicadas em 36 mil salas de vacinação em todo o território nacional.

 

A vacinação, a vigilância em saúde, a vigilância sanitária e tratamentos de alto custo – como os transplantes (91% são feitos com investimento público) – são exemplos de frentes de trabalho oferecidas quase com exclusividade pelo Sistema Único de Saúde.

SUS na porta de casa

 

O serviço de atenção domiciliar às pessoas acamadas, idosas e demais populações vulneráveis e a busca ativa de pacientes com doenças crônicas também são realizados pelo SUS, principalmente pelo Programa Saúde da Família. São também agora essas(es) profissionais que se deslocam para evitar que pessoas suspeitas de estarem infectadas pelo coronavírus precisem ir até os serviços de saúde, buscando reduzir a curva de contágio.

 

A grande questão é que o NASF – Núcleo Ampliado de Saúde da Família e Atenção Básica teve sua forma de financiamento e gestão modificada pela nota técnica n.º 3/2020, editada pelo Ministério da Saúde no final de janeiro. Se as mudanças forem mantidas, na prática isso significa acabar com o NASF, como denunciam órgãos e entidades de luta em defesa da saúde pública.  

Saúde mental frente à pandemia

 

A pandemia do COVID-19 evidencia dificuldades no atendimento em saúde mental no país. Tanto para pacientes que precisam de atendimento porque o medo e a angústia se fazem presentes de uma forma muito concreta neste período de crise, quanto para as equipes profissionais de saúde, que atuam no limite de suas forças.

 

Neste cenário, o baixo número (ou mesmo a total ausência) de profissionais de Psicologia é sentido em vários serviços de saúde. A presença de Psicólogas(os) é fundamental para combater as doenças e auxiliar equipes de saúde que atuam na linha de frente. Mas, essa presença precisa ser planejada e constante, com estratégias definidas de modo contínuo para um bom resultado.

 

Outros fatores que justificam a necessidade de atendimento em saúde mental durante a pandemia são: o isolamento social que atinge de modos distintos variadas camadas da população; e o agravamento da condição financeira de trabalhadoras(es), o que também produz consequências emocionais. Há ainda populações vulneráveis, como a população em situação de rua, que demandam ampliação dos quadros de Psicólogas(os) nos serviços de saúde e de assistência social.

E o amanhã? 

 

As evidências indicam que o período crítico do coronavírus vai passar. Contudo, a intensidade com que irá atingir a população brasileira, a sobrecarga aos serviços de saúde e suas consequências ainda não são totalmente previsíveis. Considerando o crescimento dos casos de contágio e óbitos, os possíveis cenários não sejam otimistas. Sabe-se apenas que hoje é possível contar com o sucateado, mas valioso, sistema de saúde. Mas, e o amanhã?

 

Urge, portanto, defender e reconstituir o SUS. Defender junto ao poder público investimentos e ampliação do sistema com a contratação de profissionais e novos equipamentos. Com o investimento público e acesso universal e de qualidade à saúde. Para tanto, é imprescindível a articulação de instituições, movimentos sociais e de toda sociedade brasileira.

O CRP-PR participa de diversos fóruns de monitoramento e fiscalização das políticas de saúde pública, em todo o Paraná. Nossos representantes defendem ativamente os campos de trabalho multiprofissionais e contribuem para o fortalecimento do SUS. Recentemente o Conselho produziu uma linha-guia de posicionamentos da instituição. Para conhecer, clique aqui.  A rede CREPOP (Centro de Referência Técnica em Psicologia e Políticas Públicas) do Sistema Conselhos de Psicologia também tem um compilado de referências técnicas sobre o tema

Confira aqui o material produzido em 2019 pelo CRP-PR em Defesa do SUS

E quem não pode parar? Cuidados em saúde mental para trabalhadores da Saúde

Equipes de Limpeza, Maqueiras(os), Técnicas(os) de Enfermagem, Enfermeiras(os), Fisioterapeutas, Biomédicas(os), Médicas(os) e, em muitos casos, Psicólogas(os) são algumas das profissões que estão na linha de frente no combate ao Covid-19, causado pelo coronavírus. Essas e esses profissionais atuam nos leitos e ambientes dos serviços de saúde que recebem quem precisa de atenção médica e, por isso, para boa parte dessas profissões não é possível o isolamento social ou quarentena. Neste momento, a situação de crise se soma à sobrecarga de trabalho, à falta de recursos e às equipes reduzidas em um contexto que pode colocar em risco a saúde mental destes profissionais. Por isso, alguns cuidados são essenciais.

A coordenadora da Comissão de Psicologia Hospitalar do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR), Manuela Pimentel Leite (CRP-08/22419), orienta que, primeiramente, é preciso que as(os) profissionais cuidem de suas necessidades básicas, como higiene, alimentação, descanso e convívio social. “É importante realizar intervalos durante e entre suas jornadas de trabalho, alimentar-se de forma equilibrada e manter contato com familiares e amigos, ainda que por meios digitais, de forma a manter-se vinculado a uma rede de apoio psicossocial”, afirma.  Para Manuela, além do trabalho, é importante manter atividades de lazer e prazerosas, tais como atividades físicas, meditação e hobbies.

A Psicóloga comenta que o estresse é uma experiência que certamente será sentida por muitas(os) profissionais de saúde neste período de crise, visto ser um momento de grande mobilização da categoria. “Assim, senti-lo neste contexto não é um sinal de que o profissional não pode mais exercer o seu trabalho, mas sim um lembrete para redobrar a atenção nos cuidados com sua saúde emocional”, alerta.

Acolhendo o medo

 

O medo – como o receio de levar o vírus para casa e atingir familiares, por exemplo – também é um sentimento que pode estar presente, explica Manuela. Nessas horas, é essencial estar munido de informações, realizar uso correto dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e seguir as orientações de prevenção. “Conversar com colegas de trabalho pode auxiliar a formar uma rede de apoio, pois podem estar passando por situações semelhantes, assim como auxilia a elaborar estratégias para minimizar este sentimento”, acrescenta a Psicóloga.

 

Nesse aspecto, Bianca Louise Lemes (CRP-08/12093), Psicóloga que também compõe a Comissão de Psicologia Hospitalar do CRP-PR, lembra que muitas(os) trabalhadoras(es) que estão nas equipes têm renda reduzida e precisariam ter acesso ampliado a políticas públicas de saúde mental.  “São pessoas que algumas vezes não têm condições de deixar um idoso em isolamento domiciliar porque, muitas vezes, há poucos cômodos na casa e não há ninguém com quem essa pessoa possa dividir os cuidados. Esse trabalhador precisa mais do que nunca de orientação e de acolhimento”, alerta. “Daí a importância da valorização das políticas públicas de saúde e da oferta em saúde mental. É preciso realizar muito mais em relação ao atendimento em saúde mental do trabalhador da saúde durante todo o ano, não só quando temos uma epidemia”, defende.

Gerenciando os recursos disponíveis

 

Para Manuela, é preciso que profissionais de saúde busquem manter a calma e viver a realidade com os recursos disponíveis naquele momento, inclusive os seus próprios – priorizar seus recursos psíquicos para gerenciar o aqui-agora, sem se colocar na pior situação antecipadamente. “Vale lembrar de situações semelhantes e quais recursos foram empregados para solucioná-las”, explica.

 

Ainda assim, as(os) trabalhadoras(es) da saúde podem manifestar sentimentos de impotência e culpa diante da alta demanda de trabalho, porém é preciso lembrar de todas as contingências que determinam esta situação, minimizando a responsabilização individual de uma situação que ocorre em âmbito social e coletivo.

 

Lidando com perdas

 

Outro aspecto que pode gerar sentimentos como frustração, culpa e impotência, é a perda de pacientes, ainda mais diante de momentos de crise na saúde coletiva. A reação de cada profissional pode variar de acordo com seus recursos cognitivos, emocionais, sociais e espirituais, assim como experiências anteriores similares.

 

“É importante destacar que, diante de catástrofes, a elaboração do luto é tanto individual quanto coletiva. Existe uma mobilização social em torno das perdas – as pessoas choram não só por aqueles que se foram, mas também pelas suas próprias dores em meio às incertezas e angústias geradas pelo evento adverso. Além disso, diante da morte mobilizam-se recursos psíquicos para significação deste acontecimento, daí a importância dos profissionais compreenderem em qual contexto estão trabalhando e quais contingências influenciam neste desfecho – fatores biológicos e políticas públicas, por exemplo. Assim, amplia-se o fato para além da responsabilização individual, retomando seu caráter coletivo”, comenta Manuela.

Cuidando de quem cuida

 

AS(os) profissionais de saúde, diante da alta carga de trabalho e de estresse, podem manifestar sinais de esgotamento tais como: dificuldades para dormir, prejuízo das atividades laborais e de autocuidado e sentimentos de raiva, ansiedade, solidão e medo. Podem ainda manter-se em estado de alerta, com necessidade constante de informações sobre a epidemia e perguntas persistentes aos familiares e colegas sobre seus estados de saúde.

 

“Em um quadro como este, é importante sinalizar à pessoa a percepção de que ela se encontra fragilizada e incentivá-la a buscar ajuda de profissionais de saúde mental, sem confundir fragilidade com fraqueza ou inabilidade de lidar com a situação. A exposição de profissionais de saúde nestes momentos os coloca como vulneráveis ao adoecimento psíquico, sendo fundamental respeitar os limites humanos ao entrar em contato com uma carga tão grande de sofrimento e angústia”, alerta Manuela.

 

Bianca lembra que colegas não-psicólogas(os) podem também acolher e auxiliar a identificar quando é preciso buscar ajuda. “É importante estar disposto a ouvir, consultando se a pessoa deseja falar sobre seus sentimentos e respeitando se ela não quiser conversar. Em casos mais graves, cabe também procurar a chefia imediata ou o departamento de recursos humanos para passar o caso e possibilitar que a ou o colega receba ajuda profissional especializada de Psicólogas(os) ou psiquiatras”, orienta.

 

A Psicóloga também recomenda que, neste momento, gestoras(es) dos serviços de saúde possam atuar de forma ativa, oferecendo informações para colaborar na redução dos níveis de ansiedade. “Fixar informativos nos locais próximos ao ponto ou de circulação dos profissionais e se colocar disponíveis para a escuta poderá fazer com que o trabalhador ou a trabalhadora perceba que não está sozinha e que tem o apoio da instituição”.

 

“Minimizar o sofrimento psíquico das equipes permite o melhor desempenho de suas funções. O gestor que fornecer apoio, monitorar o estresse e reforçar procedimentos de segurança irá fazer com que seus colaboradores se sintam cuidados em momentos difíceis”, concorda Manuela.

Prevenção também vale para saúde mental

 

A Psicóloga Bianca ressalta que a prevenção também deve estar presente quando se fala sobre saúde mental. “As instituições precisam dar capacitações e treinamentos, se adiantando às epidemias ou outras emergências. Há uma grande diferença entre fazer um preparo gradual ou a necessidade de uma ação emergencial. Essa experiência também pode nos ajudar a refletir sobre qual o apoio em saúde mental que se dá ao trabalhador em outros momentos. As dificuldades ficam ressaltadas na crise, mas estão presentes no dia a dia das equipes de saúde”, avalia.

 

“Aqui cabe perguntar, temos Psicólogas ou Psicólogos presentes em número suficiente para oferecer esse atendimento nos serviços de saúde? Compreendendo que esse é um serviço que não pode ser prestado pela mesma equipe que dá assistência aos pacientes. São questões diferentes, que podem envolver questões íntimas, de cunho familiar ou até mesmo chefias, colegas em comum, estruturas administrativas, por isso demandam profissionais específicos para esse atendimento. Esta é uma reflexão que esse momento nos proporciona e precisamos avançar sem esperar a próxima crise”, alerta a profissional.  

 

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“Pessoas com Síndrome de Down são pessoas e não a síndrome”

Com muitos anos de experiência – primeiro como voluntária e depois como Psicóloga no ambulatório da Síndrome de Down do Hospital de Clínicas da UFRP (HC), Maria Gislene de Araújo Pessoa Gouvea (CRP-08/14158) – Gislene, como gosta de ser chamada, conta que o preconceito é o principal fator de sofrimento para as pessoas que ela atende.

A desconfiança em relação à capacidade e potencialidade das pessoas com a Síndrome aparece com vários formatos: muitas vezes é a superproteção que visa protegê-las, mas que em excesso pode limitar e prejudicar; a falta de inclusão real no mercado de trabalho – sim, em cargos que não sejam figurativos, com trabalho efetivo e mesmo com regras; a educação que seja adaptada às necessidades de desenvolvimento singulares, mas que não as afaste da convivência e brincadeira normais da infância; e a falta de compreensão com a vivência do afeto e da sexualidade como naturais em cada fase da vida, como ocorre com qualquer outra pessoa, são exemplos de experiências que podem ser dolorosas ou dificultar o desenvolvimento.

A Psicóloga Gislene e sua filha Karina.

Neste dia Dia Internacional de Síndrome de Down, lembrado em 21 de março, o CRP-PR conversou com a Psicóloga sobre diversas questões que afetam seu trabalho:

 

CRP-PR – Como você começou a trabalhar com pessoas com Síndrome de Down?

Gislene – Para falar sobre essa temática, vou contar um pouco da minha experiência pessoal, o que me levou a fazer Psicologia para poder entender mais desse universo. Eu tenho uma filha de quarenta anos com Síndrome de Down. Há quatro décadas não se sabia absolutamente nada sobre a Síndrome. Eram chamados “mongoloides” e afastados da sociedade.

 

Foi assim que um médico me deu a notícia, aos 19 anos, quando fui mãe. Ela nasceu com os pezinhos para dentro e eu a levei a um ortopedista para o uso de bota engessada. Ele olhou pra mim e falou: “Você sabe que sua filha é mongoloide?”. Eu nunca tinha escutado nem o termo. “Se eu fosse você, eu a deixava aqui para adoção porque ela vai vegetar. Ela não vai fazer nada. Ela não vai andar, não vai falar”. Saí de lá desesperada, chorando, porque, pra mim, era meu bebê que estava nascendo e que estava nos meus braços. Minha primeira filha e eu estava sozinha, porque meu marido estava trabalhando em Curitiba. Depois que passou aquela revolta de um médico ter me falado isso, procurei um outro profissional em São Paulo e esse foi categórico: “Não, ela não tem nada. Sua filha é absolutamente normal. Ela só tem os pezinhos tortinhos que precisam tratar com bota engessada, talvez uma cirurgia e vai resolver”.

 

No entanto, eu tinha dois sobrinhos e acompanhei a evolução deles, então com o passar do tempo eu percebia que minha filha, Karina era muito molinha, ela não parava a cabeça. Ela não estava se desenvolvendo no mesmo ritmo que eu estava acostumada. Quando voltei para Curitiba, ela tinha cinco meses e fui procurar aqui atendimento no HC. Lá, eu encontrei profissionais maravilhosos e que realizaram a investigação do caso. Apesar de hoje sabermos que o diagnóstico é clínico, naquela época não era tão simples assim. Foi só aos três anos e meio que eu soube, definitivamente, que a Karina tinha Síndrome de Down. Quando ela já tinha 25 anos, minha sobrinha e meu filho Felipe começaram fazer cursinho para prestarem vestibular, me convidaram e eu aceitei o desafio. Eu não havia ainda tido a oportunidade de fazer faculdade e, com essa convivência no Associação Reviver Down, onde eu já atuava como voluntária, tive muita vontade de fazer Psicologia. Ingressei no curso já com o propósito de trabalhar com pessoas com necessidades especiais.

 

CRP-PR – Deve ter sido bastante difícil…

Gislene – Foi. Só aos três anos e meio que eu tive o diagnóstico e precisei lidar com esse atraso. Afinal, ela já havia perdido toda essa primeira fase da primeira infância que, para qualquer criança, sendo neurotípica ou não, é o melhor momento para aprendizado, para a estimulação. O que nos auxiliou foi que tive outro filho, com um ano e dois meses de diferença, e a Karina evoluiu com ele, aprendeu a andar e saiu das fraldas com ele, começou a falar e andou de bicicleta acompanhando o irmão. A única coisa boa do diagnóstico tardio é que a Karina teve exatamente o mesmo tratamento que o Thiago, nunca a tratei como diferente, quando ela estava com cinco anos veio o Felipe, que também contribuiu muito com o desenvolvimento dela. Os médicos do HC sempre me orientaram: o melhor, para qualquer criança, é estimular. “Coloca móbile, dá papel barulhento para ela pegar, bichinhos de pelúcia de várias texturas, coloca ela no chão e deixa ela ir buscar”. E foi esse processo que eu fiz e minha filha teve muitos ganhos por causa disso. Hoje em dia, sabemos que é isso o necessário e orientamos os pais a fazerem quando os bebês nascem: estimulação precoce.

 

CRP-PR – Como foi o desenvolvimento e período escolar para vocês?

Gislene – Como toda criança daquela época, a Karina teve algumas dificuldades. Ela nunca foi para uma escola especial, sempre esteve em escola regular, participando de uma “sala especial”. No recreio, ela ficava com os irmãos. Eu percebi depois que, no caso da Síndrome de Down, as escolas especiais podem tirar, segregar e até dificultar alguns aspectos em função da ausência de convivência social com a diversidade. Isso é importante porque eles aprendem por imitação, pela convivência, com a busca por se comunicar para falar com o amiguinho, então eles vão ter mais um esforço quando eles estão no ensino regular.

 

CRP-PR – Esse afastamento também não favorece a compreensão pelas demais pessoas…

Gislene – A questão é não rotular nosso filho, não é porque ele tem Síndrome de Down que vou tratar ele como uma Síndrome. São filhos, não são uma síndrome. É preciso se afastar da síndrome, apesar de ela estar presente na aparência, diante dos nossos olhos, mas é preciso ir além. E, hoje em dia, a gente bate muito nesse ponto, sobretudo com os pais: “Não, eles não podem tudo. Eles precisam de limites”. Eles não são tão especiais assim, ou melhor, são crianças, jovens, pessoas adultas e idosos tão especiais quanto qualquer outra pessoa. Têm os ciclos de vida e seus momentos específicos, como todos nós e, nesse ciclo, a gente tem que respeitar e vê-los como realmente são.

 

O que estudei durante a graduação me fez perceber que algumas dificuldades que minha filha teve não foram em função da Síndrome e sim por deficiências minhas. Por exemplo: o fato de ir e vir sozinha. Como eu ficava sempre muito preocupada sobre ela pegar ônibus sozinha, ir aos lugares. Por isso a Karina por muito tempo, tinha medo de entrar em um ônibus e eu só a levava para os lugares de carro. Nós não a treinamos para ter essa autonomia. Por outro lado, ela é totalmente autônoma, em ficar em casa e fazer as coisas dela e ela também sempre trabalhou fora, no início em empresas da família e depois em outras agências e até mesmo em multinacionais.

 

Neste aspecto, uma dificuldade que ela teve foi a falta de regras em uma das empresas que trabalhou. Ela podia tudo no início, sem ter as regras explicadas e sem ter uma rotina estabelecida. Só que, com o tempo, a equipe já não conseguia lidar com essa questão e ela passou a entender que algo havia mudado e que as pessoas “não gostavam mais dela”. Hoje, quando eu faço a integração de pessoas que acompanho em empresas, sempre explico que as regras e a rotina devem ser as mesmas que as aplicadas aos outros profissionais. Há, obviamente, adaptações necessárias ao trabalho, mas as regras são regras.

 

CRP-PR – Há uma compreensão equivocada de que haveria níveis de Síndrome de Down?

Gislene – Sim, mas isso não é verdade. Há tipos diferentes de trissomia: simples (ou livre), translocação e mosaico. Mas isso não significa um nível, como se alguém tivesse menos ou mais Síndrome de Down. Uma pessoa com Síndrome de Down a tem, ponto. Embora possamos ter desenvolvimentos diferentes em função da estimulação e da socialização e de não deixar que elas sejam isoladas ou acomodadas. Importante mesmo é não as tratar como uma síndrome, mas como pessoa. E uma pessoa que se desenvolve, necessita de estímulos e investimentos durante toda a vida.

 

CRP-PR – O adulto, em geral, passa por uma queda no investimento e na estimulação?

Gislene – Muito. No adolescente já há uma queda no investimento e nesse caso o que acontece? Aquele adolescente não sabe porque está tendo transformações no corpo e nem o que está acontecendo com ele. Como ele não compreende, é provável que tenha comportamentos inadequados em público, porque não se fala sobre isso. E essa é uma fase na qual eles têm muitas dúvidas. “O que eu posso? Eu só posso beijar? Ou eu posso fazer mais alguma coisa? E o que eu posso fazer?” Estão cheios de dúvidas. Muitas vezes, essas dúvidas chegam um pouco mais tarde, lá pelos 15, 16 anos. Mas essa hora chega e é preciso conversar sobre os temas, como ocorreria – ou deveria ocorrer – com qualquer outro adolescente.

 

CRP-PR – As pessoas com Síndrome de Down vão ter uma percepção mais tardia da sexualidade?

Gislene – Um pouco mais tardia, mas vão ter. Você percebe nitidamente quando eles passam daquela fase de criança para essa fase adolescente. Depois, você também percebe quando eles passam da fase da adolescência para a fase adulta, que é quando eles querem se colocar mais. Aí eles começam a questionar e aí começa também a dificuldade em deixá-los crescer. Eles querem falar sobre sexo e sobre desejo e algumas famílias dizem “ah, não, ela é só uma criança”. No geral, o trabalho é apresentar aos familiares que se você está trabalhando a questão da autonomia, do que ela quer, o que ela sente, isso perpassa todas as áreas da vida. Efetivamente, essa pessoa não é uma criança. É uma mulher ou um homem adulto com Síndrome de Down e quem tem desejos, vontades, questionamentos interiores e ela(e) quer falar sobre isso. E cabe a nós ouvi-los. Dentro dos limites éticos e técnicos da profissão, obviamente, mas cabe ouvir e acolher esses assuntos.

 

E não só sobre isso. Eles questionam a própria condição: “Por que eu tenho a Síndrome de Down? E se eu não tivesse? Como seria? Eu gostaria de não ter?”. O que trabalhamos geralmente na clínica é o que eles imaginam que seria diferente se não tivessem. E a resposta é que eles não conseguem se ver sem a síndrome. Ela faz parte de quem eles são. No geral, eles passam a responder a quem pergunta: “Eu tenho a Síndrome de Down, mas não é uma doença. É minha condição genética. Eu posso trabalhar, fazer as coisas, tenho meu tempo, mas vou aprender. Vou fazer”.

 

Isso também não é romantizar. Pessoas com Síndrome de Down têm uma desorganização neurofisiológica que afeta a cognição, a linguagem, a regulação das emoções e da memória a longo prazo, por exemplo. E essa desorganização que eles têm, por mais que a gente faça estimulação, dê medicamento (tem gente procurando “cura” para a Síndrome de Down), dê suplemento (em fase experimental e ainda sem qualquer indício comprovado de eficiência), por mais que você faça isso, essa desorganização permanece e essa pessoa nunca vai ter uma percepção como uma pessoa neurotípica. Ela vai ter autonomia sim, mas com apoio em algumas situações como, por exemplo, a venda de bens. Por isso é tão importante a estimulação e o treinamento para a autonomia, possibilitando que eles tenham regras e responsabilidades. Adaptar é diferente de privar a pessoa de desenvolver suas potencialidades, ainda que com mais dificuldade.

 

Também é discriminação não aproveitar a potencialidade. Na escola, por exemplo, não é necessário que, na aula de educação física, o professor deixe a pessoa com Síndrome de Down fazendo o movimento errado. No geral, o que os pacientes dizem é “eu quero aprender o certo. Não quero aprender o errado porque tenho Síndrome de Down”. Então a gente sabe que existe, ainda, esse tipo de mentalidade: “deixa ele lá, deixa ele fazer qualquer coisa de qualquer jeito”. E não é isso que eles querem ou precisam.

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