Ellen Nemitz

Por que o racismo ainda é naturalizado?

Por Jefferson Olivatto da Silva (CRP-08/13918), Rosiane Martins de Souza (CRP-08/14328) e Ramon Andrade Ferreira (CRP-08/28114), da Comissão Étnico-Racial do CRP-PR

Toda data comemorativa faz menção a um fato, situação ou reconhecimento. Podemos considerar que a comemoração ao Dia da Consciência Negra e Dia Nacional de Zumbi dos Palmares é um caminho fundamental e necessário para reconhecer a importância da vida negra na sociedade brasileira, bem como no desenvolvimento de seus afetos e processos cognitivos. No entanto, desde que o Dia da Consciência foi criado enquanto data comemorativa, vem sendo relativizado em muitos municípios no Estado do Paraná, denotando mais uma vez o descaso histórico com a população negra, uma vez que os demais feriados históricos são tratados com a devida relevância.

 

 

Podemos traçar essa breve reflexão pela conjunção entre a constatação do imaginário social brasileiro de evitar esse reconhecimento e a importância de um marco social como o é o dia 20 de Novembro. Para tanto é preciso ter em mente a complexidade psicossocial do racismo em termos de contingenciamento psíquico que foi produzido por processos sócio-históricos de longa duração e em larga escala de violência, a ponto de acompanharmos similaridades de manifestações racistas em diferentes regiões brasileiras, como ocorreu no dia 10 de novembro do corrente ano em Maringá-PR contra estudantes haitianos. Nesse caso, aponta a nossa frente o desprezo contra negros e negras como um complexo em que converge frustrações, fragilidades individuais e ignorância na forma de um embotamento emocional, que busca na violência sua resolução prática. 

 

Aprendemos, infelizmente, com a contínua historicidade da violência racial, que o caminho é nos debruçarmos cada vez mais nos mecanismos psíquicos promotores do racismo. Isso significa dizer, perscrutar os processos psicológicos que operaram naqueles que praticam o racismo.

Nesse sentido, esse tipo de reação é patológica e precisa ser tratada como tal, ou seja, aqueles que persistem agindo por meio desse embotamento devem ser analisados tão seriamente quanto aqueles que cometem crimes hediondos, posto que esse tipo de resolução, se não interrompido, metaboliza-se continuamente em novos alvos para ser externalizado, tanto no interior da própria família quanto nas ruas, bares, boates, campo de futebol etc. 

 

 

Aprendemos, infelizmente, com a contínua historicidade da violência racial, que o caminho é nos debruçarmos cada vez mais nos mecanismos psíquicos promotores do racismo. Isso significa dizer, perscrutar os processos psicológicos que operaram naqueles que praticam o racismo: desde as aprendizagens emocionais mais tênues como risadas de piadas racistas até a difusão do ódio e da violência explícita contra as diferentes manifestações negras culturais ou religiosas.

 

 

De outra forma, urge compreender que as narrativas das mais diferentes autoridades (midiáticas, escolares, políticas ou religiosas) têm alimentado o imaginário social com discursos, imagens ou músicas sobre desemprego, não entrada da universidade ou em cargo público, traições ou, simplesmente, o mal no mundo causados pela existência do negro e da negra. Daí para os atos de violência racistas rotineiros (piadas, xingamentos, socos, estupros ou homicídios) tornou-se somente uma questão de tempo – isto é, fomentar o racismo é um dos elementos da própria violência que acompanha o soco ou a paulada contra negros e negras.

 

Se em outros países os eventos de violência e extermínio são reconhecidos por monumentos ou museus, podemos nos reeducar para que o Dia da Consciência Negra e Dia Nacional de Zumbi dos Palmares seja um emblema nacional do alerta da violência sistemática contra negros e negras?

A pergunta que precisa ser acesa no Dia da Consciência Negra e Dia Nacional de Zumbi dos Palmares e ser mantida é: quais são os motivos para que no Brasil ainda haja pessoas naturalizando o racismo? Se em outros países os eventos de violência e extermínio são reconhecidos por monumentos ou museus, podemos nos reeducar para que o Dia da Consciência Negra e Dia Nacional de Zumbi dos Palmares seja um emblema nacional do alerta da violência sistemática contra negros e negras?

 

Por fim, insistir em celebrar o 20 de novembro de Zumbi, Dandara, Tereza, Carolina, Conceição, Marias e Joãos, homens e mulheres negras, nossos ancestrais que lutaram para que nossa história fosse reescrita por mãos negras, faz com que resgatemos nossa ancestralidade que segue  driblando os novos algozes e açoites da contemporaneidade. Por tudo e por todos, resistimos!

Nota de pesar pelo falecimento do Psicólogo Aluízio Lopes de Brito

A Psicologia brasileira está em luto pelo falecimento, em 18/11, do Psicólogo Aluízio Lopes de Brito, professor universitário e membro ad hoc da Secretaria de Orientação e Ética do Conselho Federal de Psicologia (CFP) por duas gestões.


Natural da Paraíba, Aluízio foi presidente do CRP-13 de 1998 a 2001. Já havia sido conselheiro regional de 1995 a 1998, quando atuou para a criação da Comissão de Direitos Humanos. Também foi conselheiro federal em três plenários (2001-2004, 2007-2010 e 2010-2013), tendo participado, em 2002, da equipe que elaborou a minuta do Novo Código de Ética da Psicologia – fato que ilustra sua enorme contribuição ao Sistema Conselhos.


Para homenagear tão importante profissional e prestar solidariedade a familiares e amigas(os), o Conselho Regional de Psicologia do Paraná pediu ao Professor Adriano Furtado Holanda, que teve a oportunidade de conviver com Aluízio, para que registrasse algumas palavras:

“Aluízio nos deixou. Tive a grata satisfação de conhecê-lo e de poder compartilhar ideias, atividades e discussões com ele. Sua presença praticamente se confunde, para mim, com a própria ideia de Conselho de Psicologia.

 

Posso dizer que fomos companheiros, parceiros, e mesmo adversários em inúmeras ocasiões e reuniões dos Conselhos (eu, à época, por Brasília; e ele, pela Paraíba).

 

Compartilhamos nossa nordestinidade, sempre acompanhada por um sotaque gostoso de uma fala mansa e tranquila, mesmo quando o assunto era denso, complexo ou mesmo polêmico.

 

Do meu trânsito por atividades pelos Conselhos de Psicologia – de 1995 a 2011 – em todas as ocasiões sua presença se fez, de modo ativo, concreto, objetivo; e, ao mesmo tempo, carinhoso, acolhedor e amigável.

 

Vai ficar a imagem do seu sorriso e de suas colocações, que sempre me ajudaram a pensar e repensar a profissão. Aluizio encarnou o sentido ‘humanista’ da psicologia humanista que acompanhava, sempre se mostrando solícito, presente e afável. Muito além de todo o legado que certamente deixará, tanto para a Psicologia da Paraíba, do Nordeste e do Brasil, Aluízio deixará saudades”.

Aos 53 anos de idade, Aluízio enfrentou uma longa batalha contra a Covid-19, sendo uma das suas mais de 167 mil vítimas fatais no Brasil, uma perda muito sentida a todas(os) nós.

 

*Com informações do CFP: www.site.cfp.org.br/aluizio-lopes-de-brito-presente

Nota de pesar pelo falecimento da Psicóloga Raimunda Assunção Sena de Jesus

O Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) lamenta profundamente o falecimento da Psicóloga Raimunda Assunção Sena de Jesus (CRP-08-18155) na manhã de hoje, 18 de novembro, aos 63 anos, vítima da Covid-19.

 

Raimunda trabalhava nas áreas clínica e organizacional em Foz do Iguaçu. Era uma pessoa bastante atuante e reconhecida na cidade, e as(os) Psicólogas(os) da região encontram-se muito entristecidas(os) com a perda.

 

O corpo será cremado na data de hoje, no Crematório de Campo Largo-PR.

 

O CRP-PR, por meio da Comissão Gestora da Sede de Foz do Iguaçu, presta sua solidariedade às amigas(os) e familiares.

CREPOP abre consulta sobre Referências Técnicas para Atuação de Psicólogas(os) no Sistema Prisional

*com informações do CFP

O Conselho Federal de Psicologia (CFP), por meio do Centro de Referência Técnica em Psicologia e Políticas Públicas (CREPOP), abriu nova consulta pública para que as(os) Psicólogas(os) possam contribuir com a futura publicação “Referências Técnicas para Atuação de Psicólogas(os) no Sistema Prisional”.

 

 

A versão preliminar está disponível aqui e poderá receber contribuições até o dia 30 de novembro por meio de formulário abaixo.

A consulta pública é uma das etapas da metodologia do CREPOP antes do lançamento de uma referência. A ideia desta fase é que as(os) Psicólogas(os) possam fazer contribuições antes da finalização do documento, tornando o processo de elaboração mais democrático e participativo.

 

Saiba mais sobre o processo de elaboração de referências técnicas do CREPOP e sobre como participar da consulta em: www.site.cfp.org.br/consulta-publica-do-crepop-sistema-prisional

CRP-PR divulga quarta cartilha de série sobre pandemia e esportes

A última cartilha da série produzida pela Comissão de Psicologia do Esporte do CRP-PR, que já abordou os impactos da pandemia da Covid-19 sobre as(os) Psicólogas(os) do Esporte, Treinadoras(es) e Atletas profissionais, chega ao seu último volume com dicas para as(os) praticantes amadoras(es) de atividades físicas.

 

O material, produzido, em parceria com o Conselho Regional de Educação Física do Paraná (CREF-PR), traz orientações e dicas para manter a rotina de exercícios físicos sem comprometer a saúde, tanto das(os) praticantes como de suas famílias. A cartilha digital contém também uma seção especialmente dedicada às pessoas idosas, ainda mais vulneráveis neste cenário.

Pelo fim da violência contra as mulheres: CFP e diversas entidades da Psicologia destacam que julgamento do caso de Mariana Ferrer foi marcado por machismo e misoginia

“Ser mulher no Brasil é ser sobrevivente”, destaca o posicionamento do Sistema Conselhos de Psicologia e do Fórum de Entidades Nacionais da Psicologia Brasileira (FENPB)

Em posicionamento, o Sistema Conselhos de Psicologia e o Fórum de Entidades Nacionais da Psicologia Brasileira (FENPB) criticam o julgamento do caso de Mariana Ferrer. “Mariana foi humilhada publicamente pelos “homens da lei”, sendo submetida a mais um tipo de violência – a psicológica – como mostram as imagens e áudios da defesa do acusado”.

 

Confira a íntegra do posicionamento das entidades:

 

No Brasil o movimento de mulheres vem lutando e denunciando a violência doméstica e sexual ao longo da história na tentativa de desmantelar a tese arraigada na cultura nacional que justificava a violência como “legítima defesa da honra” do homem. Essa tradição sempre esteve presente no contexto brasileiro e ainda hoje se manifesta, inclusive no Poder Judiciário, cujas decisões podem acabar inocentando autores de violência ao considerar que a mulher tem papel ativo na própria violência sofrida. 

 

Embora essa visão persista no imaginário cultural de muitas sociedades, vários avanços nas legislações internacionais, nacionais e nas políticas públicas têm sido empreendidos a fim de assegurar os direitos às mulheres. Essas transformações procuraram acompanhar as complexas mudanças sociais decorrentes dos esforços da própria sociedade civil. Entretanto, antes de focar nas mudanças jurídico-legais ocorridas especificamente no campo da violência contra a mulher, é importante ressaltar algumas balizas que definiram os direitos fundamentais na história das sociedades contemporâneas, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada em 1948 pela ONU; o Código Penal brasileiro, de 1940, que garantiu o atendimento a mulheres e meninas vítimas de estupro e direito a interrupção de gravidez não desejada; e a Constituição Federal de 1988, que declara em seu texto a igualdade entre homens e mulheres como valor supremo da ordem jurídica, assim como na vida pública e privada e, em particular, na vida conjugal.  

 

Apesar de avanços nos arcabouços legais e políticas públicas, como a criação da da Lei Maria da Penha, ser mulher no Brasil é ser sobrevivente. Como se não bastasse enfrentar os casos diários de violência doméstica, feminicídio e estupro, a Justiça brasileira parece criar novos mecanismos para justificar a absolvição de um estuprador. Em uma decisão sem precedentes, o Judiciário catarinense acatou um recurso que transforma “estupro de vulnerável” em algo que poderia ser nomeado “estupro culposo” – ou seja, estupro sem intenção, que não existe formalmente no ordenamento jurídico brasileiro. 

 

É isso mesmo. Essa foi a decisão da Justiça de Santa Catarina em relação ao julgamento do caso de Mariana Ferrer, blogueira que foi dopada e estuprada em um beach club, onde foi convidada para ser embaixadora, em Florianópolis. O julgamento do caso foi marcado por atos de machismo e misoginia em relação à vítima – que há meses lutava sozinha pela condenação do acusado. Mariana foi humilhada publicamente pelos “homens da lei”, sendo submetida a mais um tipo de violência – a psicológica – como mostram as imagens e áudios da defesa do acusado.

 

Essa excrescência compõe um quadro que inclui diariamente cenas de violência contra mulheres, naturalizadas e legitimadas por uma sociedade marcada por valores conservadores, machistas e sexistas. Longe de proteger mulheres – sejam elas meninas, jovens, adultas, idosas, com deficiência, cis ou trans – essa sociedade e suas instituições culpabilizam e condenam as vítimas por meio de processos que as violentam duplamente. Como em outros casos, responsabiliza-se a mulher vítima, e não o agressor. A decisão é grave e pode abrir precedentes ao inocentar o réu em um flagrante desrespeito às evidências apresentadas.   

 

Por séculos, o domínio sobre os corpos vem sendo aplicado, em especial, aos corpos das mulheres numa perspectiva dos interesses dos homens em desqualificar suas capacidades nos inúmeros espaços sociais, no trabalho, na expressão da sexualidade e em reduzir sua função aos saberes domésticos, à gestação, ao exercício da maternidade, à força de trabalho.

 

As condutas e comportamentos vão se construindo por meio de disputas políticas, econômicas, sociais e culturais, nas quais os estereótipos e as hierarquias de valores fortalecem as desigualdades de gênero. A tentativa de aniquilamento das subjetividades das mulheres reforça o estigma e causa profundo sofrimento emocional às vítimas das diversas violências de gênero. O estupro não acaba no ato sofrido. Ele é recorrentemente reproduzido nas diversas instâncias que deveriam acolher, cuidar e proteger nossos corpos.

 

Até quando as mulheres terão seus corpos violados e gritarão por justiça? Até quando a mulher vítima de violência será julgada por seus algozes? Por que não são julgados os estupradores mas sim as vítimas? Até quando homens seguirão livres para usar de poder político e econômico para isentar-se de suas violências e injustiças? Até quando mulheres serão vitimadas pela impunidade?

 

O Sistema Conselhos de Psicologia, reiterando o compromisso firmado a partir da Resolução nº 008/2020 e das demais produções técnicas produzidas ao longo dos anos, se soma às entidades e vozes que denunciam esse caso para que ele não seja acobertado e para que os órgãos competentes, como o Ministério Público de Santa Catarina, Tribunal de Justiça de Santa Catarina e Conselho Nacional de Justiça, tomem providências cabíveis contra essa arbitrariedade.

 

Que a repercussão de mais essa brutal injustiça seja combustível para nos provocar indignação e que possamos nos organizar para exigir que o Sistema de Justiça brasileiro responsabilize os agressores e assassinos de mulheres. 

 

Às vésperas do 25 de Novembro, Dia Internacional da não-violência contra a Mulher, seguimos vigilantes pelo compromisso da Psicologia brasileira com a transformação social e com o enfrentamento da violência institucional e de todas as formas de violência contra as mulheres. 

 


ABECIPSI – Associação Brasileira de Editores Científicos de Psicologia

ABEP – Associação Brasileira de Ensino de Psicologia

ABOP – Associação Brasileira de Orientação Profissional

ABPD – Associação Brasileira de Psicologia do Desenvolvimento

ABP+ – Associação Brasileira de Psicologia Positiva

ABPJ – Associação Brasileira de Psicologia Jurídica

ABPP – Associação Brasileira de Psicologia Política

ABPSA – Associação Brasileira de Psicologia da Saúde

ABRANEP – Associação Brasileira de Neuropsicologia

ABRAP – Associação Brasileira de Psicoterapia

ABRAPAV – Associação Brasileira de Psicologia da Aviação

ABRAPEE – Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional

ABRAPESP – Associação Brasileira de Psicologia do Esporte

ABRAPSIT – Associação Brasileira de Psicologia do Tráfego

ABRAPSO – Associação Brasileira de Psicologia Social

ANPEPP – Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia

CFP – Conselho Federal de Psicologia

CONEP – Coordenação Nacional dos Estudantes de Psicologia

FENAPSI – Federação Nacional dos Psicólogos

FLAAB – Federação Latino Americana de Análise Bioenergética

IBAP – Instituto Brasileiro de Avaliação Psicológica

IBNeC – Instituto Brasileiro de Neuropsicologia e Comportamento

SBHP – Sociedade Brasileira de História da Psicologia

SBPH – Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar

SBPOT – Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho

 

Nota de pesar pelo falecimento da Psicóloga Ângela Maria Pires Caniato

É com grande pesar que nos despedimos ontem, 5/11, da Prof.ª Dr.ª Ângela Maria Pires Caniato, Psicóloga (CRP-08/00336), Professora Titular e Convidada de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Estadual de Maringá, pesquisadora, ex-conselheira do Conselho Federal de Psicologia (2010-2013), representante do Núcleo de Maringá da Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO).

 

Reconhecida e homenageada internacionalmente por seu pioneirismo, pela qualidade de suas produções e pela firmeza de seu compromisso social, muita gente sabe que a Professora Ângela Caniato foi – e continuará sendo – uma grande referência da Psicologia na América Latina. Seus 11 livros, mais 50 capítulos e 62 artigos completos publicados também são do conhecimento de muitas(os), bem como seus vários prêmios recebidos – tal como a medalha da Associação Latino-Americana de Treinamento e Ensino de Psicologia (ALFEPSI) em 2015.

 

Mas o que muita gente não sabe, e que um grupo de ex-alunas(os) gostaria de partilhar, é que “como a força de um fenômeno da natureza, com a coragem de enfrentar cobras venenosas, com a resistência de renascer como a Phenix*, Ângela Maria Pires Caniato deixa como legado a mensagem de que a Psicologia se faz junto, para todas(os).

 

Que em seu QG, o famoso quarto de guerra, na sua casa sempre aberta para alunas(os), estagiárias(os) e amigas(os), fez um trajeto na história da Psicologia valorizando saberes de diferente idades, sempre disposta a partilhar o que sabia e ansiando por desfrutar da sagacidade e do desejo de aprender que as(os) jovens tinham para oferecer.

 

Que ensinou a muitas(os) que a rebeldia e a revolta podiam ser feitas não só em papéis e que Psicólogas(os) são fundamentais para a mudança do mundo.

 

Que lutou por um mundo mais justo para que os sujeitos pudessem ser mais felizes. Que Ângela era resistência”.

 

E, sendo assim, concluem:

 

“O que dizer nessa hora que tudo o que o coração pede é silêncio?
 Como pronunciar uma palavra de resistência se o que se quer é chorar? Tristeza, é esse o sentimento, mas também é carinho – uma palavra que Ângela sempre usava para se despedir. Um carinho tão grande que sentimos por ela, mesmo nos momentos mais duros. Aliás, estes não faltavam, porque o que ela parecia querer de nós era sempre alteridade. Carinhos nossos, eterna professora”.

 

*Ângela Caniato era responsável pelo Projeto Phenix, projeto social responsável pela inserção de muitas(os) estagiárias(os) nas periferias, com a comunidade mais empobrecida de Maringá.

 

Confira a homenagem prestada pelo CRP-PR à Professora Ângela Caniato em 2019:

*O enterro será realizado hoje, 6/11, às 12h30, no Cemitério Municipal de Maringá (capela do Prever), aberto ao público mediante o uso de máscara.

O consumo e seus efeitos

Por Ana Carolina Lino Liberato (CRP-08/25927)

Broken, ou como traduzido “Desserviço ao consumidor”, é uma série original da Netflix produzida em 2019 que contém uma temporada com quatro episódios. Cada episódio tem um tema diferente, dentre eles a indústria de cosméticos falsificados, cigarro eletrônico (Vaper), móveis não duráveis e perigosos, e também o ciclo da reciclagem. Alguns pontos são mais voltados para questões do mercado e cultura norte-americanas; contudo, uma característica em comum que independe da localização é que a demanda cria a necessidade de produção, e com isso os fabricantes muitas vezes tentam lucrar ao máximo, sem levar em consideração questões ambientais e da saúde das(os) trabalhadoras(es) e consumidoras(es).

 

A série retrata as consequências do modo de produção atual que sustenta o estilo de vida da maioria da população, e de como isso interfere no meio ambiente, nas relações de trabalho e na saúde das pessoas. A escala de produção e consumo acontece exponencialmente e está sempre a frente da capacidade investigativa e de monitoramento, e mesmo que os órgãos competentes vigiem não conseguem dar conta do volume de transações. A criação de novos produtos é mais rápida do que a fiscalização, além de poder estar ligada a acordos internacionais e diplomáticos. A cadeia de suprimentos é uma esfera gigante, que envolve muitas pessoas e processos, mas que só acontece porque do outro lado existe uma demanda de quem queira, procure e compre determinado produto.

 

Esse ciclo de demanda envolve uma grande escala de produção, desde a matéria-prima até o vendedor da loja. Nesse processo é comum que haja exploração de vários fatores e que as empresas não se responsabilizem pelos dejetos causados por essa produção, e nesse sentido todos esses impactos ambientais e sociais não são colocados em pauta quando o produto está exposto na prateleira. É a reflexão das(os) próprias(os) consumidoras(es) que, insatisfeitas(os) com o modelo atual de produção, procuram por novas formas de consumo, por exemplo, menos exploratórias e mais responsáveis, que orienta o mercado para que se reformulem os meios de produção e se criem novos nichos de consumo e marcas com essa visão. As consequências do consumo diário, assim como do consumo excessivo, trazem resultados severos para todos, e é importante pensar sobre qual é a responsabilidade de cada um em suas escolhas, de onde elas vêm e de como elas impactam na vida de todos.

A Psicologia nos primeiros mil dias de vida da criança

Pouco difundido no Brasil, o trabalho clínico com bebês e crianças de até 3 anos de idade pode ser fundamental para desenvolver habilidades cognitivas e motoras, prevenir ou tratar precocemente questões como o autismo, além de contribuir para um saudável desenvolvimento psíquico. A Psicóloga Camila Tavares (CRP-08/18430) atua com esta faixa etária nos setores público e privado e salienta os benefícios de uma intervenção precoce, que em geral é realizada pelo protocolo IRDI (Indicadores clínicos de Risco para o Desenvolvimento Infantil): “é importante lembrar da neuroplasticidade das crianças, ou seja, com estímulos nos primeiros mil dias de vida o cérebro consegue fazer novas conexões. Já vi casos de diagnósticos de paralisia cerebral em que o prognóstico era de não falar, não andar, mas com o trabalho realizado houve bons progressos”, conta a cofundadora do Projeto Trajeto Infância. 

 

 

Um acompanhamento nesta faixa etária, sempre primando pelas atividades lúdicas que despertam a atenção da criança atendida, não pode deixar de levar em consideração a família. Além de importante suporte nas atividades, ela também participa do trabalho e pode melhorar a maneira de vivenciar questões como luto ou traumas. “Trabalhamos com a Psicanálise e com isso consideramos muito os membros da família como um todo, observando aspectos que podem interferir neste núcleo e até mesmo na vida adulta daquela criança”, destaca a Psicóloga. “É preciso ter atenção para o sofrimento psíquico na primeira infância com o olhar das relações, da família.”

 

 

Em uma sociedade que tende a optar pela medicalização, Camila já percebe maior abertura de escolas e famílias para um acompanhamento psicológico, ainda que medicamentos possam ser úteis e necessários quando bem administrados. Além disso, Psicólogas(os) que trabalham com este enfoque vêm recebendo cada vez mais demanda, seja das famílias e educadoras(es), seja de serviços de assistência social ou mesmo do Sistema de Justiça – no caso, por exemplo, de crianças vítimas ou testemunhas de violência. “Há um programa nacional de treinamentos para que profissionais das Unidades Básicas de Saúde e outros equipamentos percebam casos de necessidade e apliquem protocolos de diagnóstico ou encaminhem para os serviços especializados, que estão disponíveis na rede pública também”, explica. 

Usar a criatividade, brincar com brinquedos de verdade, incentivar as relações humanas, resgatar o que é ser criança. As telas podem ser úteis para manter o contato com amigos e familiares, mas o uso exagerado pode trazer sérios problemas.

Psicóloga Camila Tavares (CRP-08/18430)

A infância na pandemia

As crianças foram profundamente afetadas pela pandemia e pelas medidas de distanciamento social adotadas para conter a disseminação do vírus. Com escolas fechadas, o convívio com outras crianças foi cessado, ao passo que com a família direta foi intensificado. Com diferenças sociais e de estruturação familiar, cada uma lidou e vai lidar de forma diferente com isso: “algumas famílias conseguiram aumentar o convívio de forma saudável; outras, pela sobrecarga de trabalho e outras questões, não conseguiram. Ainda não sabemos que consequências tudo isso trará, mas é possível que vejamos casos de mais dificuldades no convívio social, por exemplo”, conjectura a profissional.

 

Para o Dia das Crianças, Camila tem uma dica simples, mas muito importante para o desenvolvimento na infância: brincar fora das telas. “Usar a criatividade, brincar com brinquedos de verdade, incentivar as relações humanas, resgatar o que é ser criança. As telas podem ser úteis para manter o contato com amigos e familiares, mas o uso exagerado pode trazer sérios problemas”, alerta.

A importância do cuidado em liberdade na saúde mental

Combater o preconceito e o estigma existentes em torno da saúde psicológica. Entre outros objetivos, este era um dos principais quando a Federação Mundial de Saúde Mental instituiu, em 1992, o Dia Mundial da Saúde Mental. Desde então, durante o processo de construção de uma política de saúde mental no Brasil, logramos importantes avanços, mas ainda há muito o que se alcançar – sobretudo, no sentido do cuidado às pessoas em sofrimento psíquico.

 

Manter este tema em evidência e barrar retrocessos na área são desafios permanentes. Por isso, no dia de hoje, o Sistema Conselhos de Psicologia divulga posicionamento frente aos retrocessos da Política Nacional de Saúde Mental, denunciando ainda os prejuízos constantes na nova Política Nacional sobre Drogas no Brasil. No documento, o CFP e todos os 24 Conselhos Regionais de Psicologia reafirmam a defesa intransigente da Reforma Psiquiátrica Antimanicomial, compreendendo que uma sociedade democrática prescinde de manicômios, reconhecendo a legitimidade do outro como fundamento da liberdade para todas e todos.

Orientações para Psicólogas(os) Escolares e Educacionais no contexto da pandemia

A pandemia do coronavírus e o isolamento social nos fizeram rever a organização dos sistemas educacionais no nosso país e no mundo. É certo que ninguém sabia como conduzir as mudanças educacionais neste cenário – e ainda não temos nitidez –, mas é evidente que é preciso estabelecer prioridades que estão muito além da execução de um currículo.

 

Respaldadas(os) em pareceres científicos das áreas competentes, entendemos que a Educação Básica no formato presencial neste momento colocaria em risco as crianças e adolescentes (e comunidade educativa em geral), uma vez que, pelas próprias características dessa etapa da vida, elas teriam muita dificuldade em seguir as normas de segurança que ajudariam a prevenir uma contaminação em massa. Dessa forma, entendemos que não deverão ser retomadas as atividades presenciais enquanto não forem possíveis as condições adequadas de biossegurança.

 

Infelizmente, nos deparamos com alguns discursos – de entidades educacionais, profissionais da educação, políticas(os), dentre outras(os) – que tentam defender a volta às aulas presenciais, o que entendemos como uma atitude precipitada. Comenta-se acerca das fragilidades nas ofertas do ensino emergencial remoto, da falta de acessos aos recursos tecnológicos utilizados, e até dos casos de violência doméstica.

 

Contudo, nos encontramos diante de uma situação paradoxal, uma vez que as soluções para os problemas educacionais vivenciados diante dos desdobramentos da pandemia não são fáceis e nem simples. Isto porque se observa que algumas soluções propostas não garantem o engajamento da(o) estudante com o conteúdo ministrado. Esta situação exige da(o) profissional da educação habilidades que ela(e) não desenvolveu, pois não foi habilitada(o), o que lhe traz mais trabalho, mais cansaço, especialmente nos casos em que as tarefas do trabalho se associam às tarefas domésticas e o cuidado de filhas(os).

 

Sendo assim, convidamos à reflexão: diante de todo contexto da pandemia e do isolamento social, como podemos desenvolver nossas atividades enquanto Psicólogas(os) escolares?

 

Enquanto Psicólogas(os), precisamos evidenciar que uma Educação que tem compromisso com o desenvolvimento integral dos sujeitos deve eleger como prioridade a proteção à vida. A Psicologia tem um compromisso ético com a promoção e valorização da vida, que deve orientar nosso posicionamento como categoria.

 

Diante desse cenário, reiteramos o posicionamento em favor da suspensão das atividades curriculares no período da pandemia, apresentado na ocasião do Dia da Educação. Portanto, consideramos como melhor alternativa o não retorno às atividades presenciais e a flexibilização do processo avaliativo, bem como a implementação de atividades complementares. Dessa forma, propõe-se que se mantenha o vínculo institucional da Unidade Educacional com sua comunidade, assegurando-se a proteção e o cuidado com todas(os) as(os) envolvidas(os) no processo educativo, os vínculos e o papel crítico e reflexivo da educação.

Reflexões sobre possibilidades de atuação

Frente ao panorama da Covid-19 e as dificuldades impostas para a implementação das práticas educativas, e considerando que a suspensão das atividades curriculares não é a realidade em grande parte das instituições de ensino, reunimos algumas reflexões no intuito de contribuir com a atuação de Psicólogas(os) que trabalham no contexto educacional.

 

Em primeiro lugar, cabe ressaltar  o caráter de excepcionalidade do período que vivemos, conforme Recomendações da ABEP e CFP para cursos graduação em Psicologia, a fim de que as estratégias de atuação utilizadas neste contexto não sirvam para a precarização do trabalho docente e das práticas educativas, durante e depois da pandemia.

 

A seguir, apresentamos algumas sugestões de práticas viáveis e pertinentes para a(o) profissional que atua na área da Psicologia Escolar e Educacional, enquanto vivemos o cenário da pandemia:

Atividades a serem realizadas com as equipes pedagógica e gestora da Rede de Ensino

 

>>> Proporcionar espaços de reflexão com as equipes pedagógica e gestora da Unidade Educacional sobre a quantidade e qualidade de conteúdos a serem trabalhados neste momento. Entendemos que tais conteúdos devem estar vinculados ao programa previsto para cada série, mas deve-se ter em mente que seu processo de apropriação será marcado por uma possível “defasagem”, o que é amplamente compreensível frente às privações impostas pela pandemia. Deste modo, a obrigatoriedade da aquisição dos conteúdos curriculares não deve ser prioridade. É perfeitamente possível, e muito mais indicado, criar um plano de recuperação paralelo para esses conteúdos no próximo ano. A preservação da vida está acima do currículo. Ano letivo se recupera, a vida não.

 

>>> No contexto da Educação Básica, é importante refletir junto às famílias, equipe pedagógica e estudantes quanto às possibilidades de se conciliar os estudos com atividades e rotinas domésticas/familiares, instrumentalizando as partes envolvidas. As(Os) Psicólogas(os) podem contribuir fazendo as devidas mediações, levando as(os) envolvidas(os) no processo a reconhecerem as possibilidades e os limites de cada um(a) – incluindo aí os cenários de precarização do trabalho que muitas famílias enfrentam. Neste momento ímpar, cabe auxiliar as equipes docente e pedagógica a se questionarem quanto à adequação das atividades propostas e se estas são passíveis de realização pelas crianças/adolescentes. E, junto às famílias, vale refletir sobre seu papel de orientação na realização das atividades propostas, incentivando as(os) filhas(os) à sua realização, contribuindo assim para sua autonomia e responsabilidade, tendo em vista suas faixas etárias. 

 

>>> Esta reflexão passa também por pensar sobre os recursos tecnológicos, os acessos e o bom uso da tecnologia. Tais recursos devem ser pensados de tal forma que seu uso não seja excludente e nem seja o centro dos processos educativos. Nesse sentido, cabe auxiliar a equipe pedagógica a estabelecer outras formas de contato com (e entre) as(os) estudantes, que não necessariamente aquelas mediadas pelas tecnologias digitais de informação e comunicação. A equipe da Unidade Educativa pode, por exemplo, direcionar o que deve ser estudado a cada período, informando estudantes ou responsáveis, via contato telefônico, e solicitando que busquem atividades em meios físicos, desde que respeitadas as medidas de biossegurança. 

 

>>> Há uma série de temas transversais, como direitos humanos em suas diversas manifestações, combate ao racismo, às violências, promoção de saúde, saúde mental, entre tantos outros, que são correlatos ao momento que vivenciamos e que podem compor o planejamento e desenvolvimento de atividades formativas em todos os níveis, segmentos e para todos os públicos da comunidade educativa. Planejar com a equipe pedagógica a implementação de tais atividades é uma importante contribuição das(os) Psicólogas(os) para a qualidade da formação das(os) envolvidas(os) no processo educacional.

 

>>> Colaborar para a especial atenção aos alunos público-alvo da Educação Especial (PAEE) e que apresentem Transtornos Funcionais Específicos, na perspectiva da educação inclusiva, a fim de auxiliar as famílias e a equipe pedagógica na proposição e acompanhamento de atividades que sejam adequadas às suas possibilidades e que contribuam para seu desenvolvimento.

 

>>> Quando da elaboração de planejamentos para o retorno das atividades presenciais, cabe às(aos) Psicólogas(os) contribuir para que tais planos contemplem atividades que permitam a recuperação gradual do currículo, estando atentas(os) aos aspectos emocionais decorrentes da vivência do contexto da pandemia. Atividades podem ser desenvolvidas junto à equipe de profissionais da Rede de Ensino, que visem à disponibilidade destes profissionais para atitudes de acolhimento, de diálogo e a reflexão sobre os processos vivenciados pela comunidade escolar.

Sugestões de atividades para a(o) Psicóloga(o) desenvolver diretamente com a comunidade educativa:

>>> Manter contato com estudantes e famílias: Produza conteúdo, mantenha contato frequente, seja por redes sociais, contatos telefônicos, mensagens por aplicativos ou pelas ferramentas que você está utilizando para encaminhar conteúdo ou promover encontros online. Demonstre sua preocupação e carinho por elas(es), expresse o quanto a rotina escolar com a presença delas(es) faz falta no seu dia a dia. Acima de tudo, contribua para que a comunidade educativa reflita sobre os aprendizados que se pode tirar desse período de isolamento, seja o contato com a família por mais tempo – para quem isso é possível, o domínio de novas ferramentas tecnológicas ou mesmo o aprender a lidar com as frustrações e cuidar da saúde. Mas, lembre-se: você precisa acreditar nisso também!

 

>>> Promover rodas de conversas virtuais: A promoção de rodas de conversas virtuais pode ser uma boa alternativa para oferecer acolhimento e partilha, que oportuniza um processo cooperativo de fortalecimento das redes e das relações. É uma possibilidade de promover a convivência e trazer novos caminhos, gerando novas respostas para novas perguntas, necessárias nesta situação inesperada para todas(os). A(O) Psicóloga(o), a partir de um levantamento prévio de interesses, pode programar esta atividade, envolvendo outras(os) profissionais da educação ou a comunidade.

 

>>> Fazer contato com quem não faz contato: Em conjunto com a equipe pedagógica e com o corpo docente, deve-se estar atenta(o) àquelas(es) estudantes que não fazem contato com a equipe educacional, não participam das aulas, não fazem as atividades indicadas, dentre outros. Diante dessas situações, seria interessante a realização de um processo de busca ativa, fazendo contato com tais estudantes e, se for o caso, com sua família. Tais buscas podem ocorrer por telefone, mensagens, recados com outras famílias (com o cuidado de não serem expositivos) contato com outras instituições da rede, ou mesmo visitas, se necessário – observando os cuidados de biossegurança. Elas(es) podem estar precisando de apoio nesse momento.

 

>>> Prestar suporte emocional: Especialmente quando do atendimento a crianças e adolescentes, faça contato com as famílias de estudantes, principalmente aquelas(es) que apresentarem vulnerabilidades, com dificuldade de aprendizagem, ou alunas(os) que já apresentavam maior fragilidade emocional. Elas(es) podem ser as(os) que mais estão sofrendo nesse momento e podem precisar de algum apoio diferenciado daquele que você tem oferecido.

 

>>> Atender e orientar famílias: Sabemos que muitas(os) estudantes podem apresentar dificuldades na realização de tarefas escolares, vivendo os desconfortos da situação de isolamento social. Nesse sentido, um canal de comunicação deve ser proposto para que as(os) responsáveis pelas(os) estudantes possam receber orientações quando as dificuldades emergirem. Nesses atendimentos, certamente serão temas relevantes: os desafios que a pandemia tem apresentado na organização das famílias frente às dinâmicas educacionais; a importância do papel da família na orientação das atividades; e a possibilidade de se contar com o diálogo com a equipe educacional nos casos de dúvidas e dificuldades.

Além disso, os atendimentos são momentos oportunos para se verificar se há sinais de violências e violações de direitos que possam estar acontecendo no contexto familiar, e as(os) Psicólogas(os) deverão estar atentas(os) para acionar a rede de proteção e os serviços competentes quando necessário, conforme previsto no Art. 70 do ECA, que prevê: “É dever de todas(os) prevenir a ocorrência de ameaça ou violação dos direitos da criança e adolescente”.

Observações: Quando do atendimento online, atentar-se ao devido cadastro no E-psi. Ainda, reforça-se que não se tratam de atendimentos clínicos, levando-se em conta os artigos 2º, 6º e 8º do Código de Ética, inclusive para promover encaminhamentos quando necessários.

>>> Investir no vínculo: Em todo contato, invista no vínculo da Unidade Educacional com as famílias e no vínculo entre professor(a) e aluna(o). Seja afetiva(o) no contato, seja empática(o), pergunte como elas(es) estão de saúde e como tem sido esse período de afastamento. É importante manter esse vínculo para que a aprendizagem a distância faça sentido para as(os) estudantes.

 

>>> Realizar mapeamentos: Desenvolva regularmente um mapeamento com as famílias de temas sobre os quais gostariam de ter informações e se aprofundar, ou dicas que podem ser úteis. A Unidade Educativa pode realizar uma pesquisa e enviar orientações para as famílias sobre os temas mais recorrentes, ou convidar parceiros da rede para contribuir com lives ou vídeos.

 

>>> Ser flexível: Às(Aos) Psicólogas(os) que trabalham com consultoria e/ou atendimento/acompanhamento de estudantes, reflete-se a importância de se considerar que existem famílias com redução drástica da renda neste período. Nesse sentido, a flexibilidade nas condições de contrato, quando possível, pode colaborar com essas famílias neste momento, mas também contribuir para a manutenção e expansão dos vínculos profissionais em situações futuras.

Nesse sentido, vale lembrar também do Art. 4º do nosso Código de Ética Profissional, que aponta para a importância de se considerar a justa remuneração de acordo com as características dos serviços e as condições das(os) beneficiárias(os), assegurando a qualidade das ofertas.

>>> Respeitar suas possibilidades: Não se cobre por produtividade neste período, esta é uma crise na qual Psicólogas(os) também estão imersas(os). Não é possível resolver os problemas emocionais de todas(os) neste período – aliás, em tempo algum. Sendo assim, é importante que as(os) profissionais estejam cientes das suas possibilidades, mas também das suas limitações, como medida de preservação da própria saúde.

Saiba mais

sobre a atuação em Psicologia Escolar e Educacional nas Referências técnicas para a atuação de Psicólogas(os) na Educação Básica

Leia também

a Nota Técnica nº 01/2020 do CRP-PR, que orienta a prática profissional no contexto da pandemia:

Política de Educação Especial traz retrocessos e segregação

O Governo Federal publicou no último dia 30 de setembro o Decreto nº 10.502/2020, que se presta à instituição do que se denomina uma “Política Nacional de Educação Especial”.

 

O Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR), por meio de suas Comissões de Psicologia Escolar e Educacional e do Núcleo da Pessoa com Deficiência da Comissão de Direitos Humanos, entende que a proposta de trabalho do novo Decreto não aponta para uma atualização da política, mas sim para uma reedição do que já previam as Diretrizes e Bases da Educação Nacional para a Educação Especial na década de 1990. Trata-se, portanto, de um retrocesso, que prejudica a perspectiva inclusiva que vinha sendo implementada, ainda que com muitas carências, nas últimas décadas.

O posicionamento do CRP-PR leva em consideração as seguintes previsões legais:

 

  • A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva Inclusiva, de janeiro de 2008, que traz em seu objetivo: o acesso, a participação e a aprendizagem dos estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação nas escolas regulares, orientando os sistemas de ensino para promover respostas às necessidades educacionais.
  • O Plano Nacional de Educação, aprovado pela Lei nº 13.005, de junho de 2014, que em seu Anexo de Metas Estratégicas traz: Meta 4 – universalizar, para a população de 4 (quatro) a 17 (dezessete) anos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, o acesso à educação básica e ao atendimento educacional especializado, preferencialmente na rede regular de ensino, com a garantia de sistema educacional inclusivo, de salas de recursos multifuncionais, classes, escolas ou serviços especializados, públicos ou conveniados.
  • A Lei Brasileira de Inclusão, instituída pela Lei nº 13146/2015, destinada a assegurar e a promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais por pessoa com deficiência, visando à sua inclusão social e cidadania. Esta lei, em seu Capítulo IV, afirma que: a educação constitui direito da pessoa com deficiência, assegurados sistema educacional inclusivo em todos os níveis e aprendizado ao longo de toda a vida, de forma a alcançar o máximo desenvolvimento possível de seus talentos e habilidades físicas, sensoriais, intelectuais e sociais, segundo suas características, interesses e necessidades de aprendizagem.

Além da legislação citada, este posicionamento também se baseia nas seguintes premissas:

• É imprescindível fundamentar as construções e formulações relacionadas à área educacional na concepção de direitos humanos;

• Uma educação que assegure os direitos humanos precisa exercitar o convívio com a diversidade;

• A escola possui uma função transformadora, servindo como espaço democrático para a construção de uma visão crítica do mundo, oportunizando relações solidárias e cooperativas;

• A educação é ferramenta para a transformação da prática social excludente.

 

Desta maneira, defende-se a perspectiva da educação inclusiva anterior ao Decreto, compreendendo que favorecia a convivência com as diferenças e beneficiava toda comunidade educativa, não somente as pessoas com deficiência., incentivando a criação de metodologias em favor do processo de ensino e aprendizagem para todos os sujeitos. Por exemplo: uma avaliação redigida de forma mais específica, com frases mais curtas e objetivas, com mais tempo para resposta, com mais estímulos diversificados para além de um gênero textual, ou um conteúdo explicado a partir de múltiplas metodologias e recursos, contribuem para que toda a turma aprenda melhor, e não apenas as(os) estudantes com determinada deficiência ou transtorno.

 

Ainda, a política de educação inclusiva anterior ao Decreto 10.502/2020 tem como mérito garantir que ninguém precise de um laudo para que suas necessidades educacionais especiais (termo consagrado na Declaração de Salamanca em 1994) – relacionadas ou não a deficiências – ensejem adaptações curriculares. Esta diretriz é acertada no sentido da promoção de inclusão, uma vez que todas(os) deveriam ser atendidas(os) em suas especificidades e singularidades.

 

Reconhece-se que os recursos e serviços disponíveis para a eliminação de barreiras para estudantes com deficiência nunca foram suficientes para garantir sua plena participação no processo de aprendizagem. Sendo assim, é evidente a necessidade do desenvolvimento de novas estratégias que possam fortalecer a rede de atenção aos estudantes, seja no ambiente escolar ou fora.

 

Ou seja, para que a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva seja efetiva, faz-se necessário o aumento de equipe, de estrutura e formação permanente da comunidade educativa para a realização das práticas inclusivas na escola regular, e não a segregação – dos sujeitos e dos recursos – como propõe o novo Decreto. Desta forma, considera-se equivocado que se responda a estas carências com uma orientação que permita a retirada da(o) estudante do contexto escolar regular.

 

As redes educacionais precisam se preparar continuamente para atender às demandas das(os) estudantes em suas várias dimensões, de tal forma que todas as crianças sejam acolhidas. Sabe-se que esta proposta não se efetivaria facilmente, mas as dificuldades podem ser superadas à medida que as instituições escolares possam contar com vários dispositivos sociais no processo de inclusão da Pessoa com Deficiência.

 

Compreende-se que a questão familiar deve ser considerada no contexto educacional, não apenas na declaração de seus desejos e expectativas de encaminhamento, mas também sob um olhar técnico e ético, capaz de desvelar as relações estabelecidas e os sentidos construídos sobre a deficiência e o lugar da(o) estudante. Entende-se que esta previsão é contemplada na perspectiva da educação inclusiva, uma vez que a Meta 4 do Plano Nacional de Educação garante a escuta da família e da(o) estudante na avaliação dos recursos adequados às suas necessidades. Neste sentido, o que se orienta é uma ampliação e qualificação desta escuta.

 

Ainda, a política educacional anterior ao Decreto prevê a promoção de articulações intersetoriais e os investimentos de outras políticas públicas, a fim de desenvolver modelos de atendimento voltados para pessoas com idade superior à faixa etária de escolarização obrigatória. Nesta perspectiva, defende-se a oferta de serviços de Assistência Social, Saúde e de inclusão e permanência no mundo do trabalho – tais como Centros-Dia, Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos e demais serviços de Proteção Social Básica para o público adulto com deficiência, programas de qualificação e inserção profissional. A ausência destas políticas faz com que a política de Educação se encarregue do atendimento às pessoas com deficiência ainda na fase adulta.

 

No Paraná, tem-se uma realidade diferente da maioria dos Estados do país, pois foram mantidas instituições especializadas de educação, que desde 2014 atuam como escolas regulares na modalidade especial. Tal situação revela que na configuração da educação especial no âmbito nacional e no Estado do Paraná ocorreram impasses e embates políticos, influenciando as transformações ocorridas nas redes locais, sendo que no Paraná a “escolarização” das(os) estudantes com necessidades educacionais especiais vem se dando nas escolas de ensino comum e nas instituições especializadas, evidenciando um sistema dual.

 

O Plano Nacional de Educação apontou estratégias para efetivação da educação na perspectiva da educação inclusiva em um panorama de dez anos. Evidencia-se, portanto, a linha temporal na qual se insere este panorama. Após a aprovação de tal Plano (2014) e de ser instituída a Lei Brasileira de Inclusão (2015), o cenário nacional foi de restritos investimentos e atenção à área da deficiência, com negativas à realização da Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, interrupção de encaminhamentos previstos pela legislação, como o cadastro nacional das pessoas com deficiência, e enfraquecimento de políticas públicas setoriais de articulação – como a recente Portaria nº 2.362/2019, que já tem pesado aos municípios, com reduções de repasse e enfraquecimento do trabalho dos serviços de Proteção Social Básica. Forma-se, desta maneira, um cenário desfavorável para a análise de efetivação das estratégias educacionais previstas.

 

Diante do exposto,  reforça-se que a perspectiva inclusiva colabora não apenas para o viés de desenvolvimento pedagógico, mas ainda – e principalmente – para construção de sujeitos transformadores da realidade de exclusão social. Desta forma, a política de educação poderá favorecer toda a sociedade incitando novos entendimentos sobre as relações humanas, pautadas no respeito às diferenças e na colaboração. Sendo assim, o que se faz necessário é o maior investimento na Política de Educação como um todo, para que possa ser cada vez mais inclusiva, e não uma perspectiva segregacionista como apresentada no Decreto 10502/2020.

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