Ellen Nemitz

Questionário do Núcleo de Pessoas com Deficiência do CRP-PR busca informações sobre deficiência e acessibilidade

Por iniciativa do Núcleo de Pessoas com Deficiência da Comissão de Direitos Humanos, o Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) inicia uma pesquisa sobre deficiência e acessibilidade com a categoria e o público que utilizam os serviços, tantos nos espaços físicos como digitais da instituição.

 

A iniciativa tem como objetivo principal identificar as necessidades específicas das(os) profissionais de Psicologia por meio de um questionário e tornar o Conselho um espaço plenamente inclusivo e acessível, com espaço para sugestões de pontos de melhoria.

 

“A ideia surgiu da necessidade de conhecer quem são as Psicólogas e os Psicólogos com deficiência, tendo então um recorte mais preciso dessa realidade. Com estas informações a gente vai poder gerar estratégias para tornar o CRP-PR uma instituição cada vez mais acessível, com práticas inclusivas, possibilitando que as(os) profissionais com deficiência exerçam seus direitos em igualdade de oportunidades”, explica a Psicóloga Fernanda Costa Peixoto Primo (CRP-08/12328), que coordena o núcleo.

As várias mortes da pandemia

O número de óbitos decorrentes da pandemia da Covid-19 que não para de crescer é apenas uma das terríveis facetas desta crise. É a morte visível. São as vidas perdidas que o noticiário mostra e as estatísticas contam. Mas, em cada canto do Brasil, em cada município, em cada casa, em cada família, as perdas se avolumam. São mortes silenciosas, mortes simbólicas, lutos não elaborados, dores não escutadas, vidas não valorizadas. No meio disso tudo, de tantas e tão profundas mudanças vivenciadas por cada brasileira(o), chegamos ao emblemático Setembro Amarelo, o mês de prevenção do suicídio, sendo conclamadas(os) a pensar, enquanto categoria, sobre as outras mortes da pandemia.

Ainda não é possível dizer com certeza que as crises de ansiedade, os quadros de depressão e outros sofrimentos se tornaram ou se tornarão mais frequentes e profundos por conta da pandemia. Mas, algumas observações já foram feitas por pesquisadores tanto no Brasil como em outros países e a tendência verificada é justamente essa. O desemprego que aumentou, os pequenos negócios que balançaram (e outros fecharam definitivamente), o medo de ser contaminado ou de perder um ente próximo, a sobrecarga de trabalho, as crianças que passaram a demandar atenção em tempo integral da família, o próprio distanciamento social. Tudo isso e muito mais impactou e vai continuar impactando a vida das pessoas.


Um destes estudos está sendo liderado por pesquisadoras(es) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e vai monitorar cerca de 4 mil pessoas com idades entre 35 e 74 anos, tanto saudáveis como grupos que já apresentavam ansiedade e depressão, até dezembro de 2020, para entender a dimensão das consequências do isolamento social e de todas as incertezas deste período na nossa saúde mental. Ainda, uma pesquisa do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) realizada entre março e abril em 23 Estados mostrou um aumento de 80% na ocorrência de ansiedade e estresse. As principais afetadas são as mulheres, uma questão de gênero que exacerba o ainda presente desequilíbrio na divisão de cuidados domésticos. Desde a limpeza e a organização da casa até cuidados com crianças e idosos, por exemplo, as demandas ficam ainda mais concentradas quando se perde a rede de apoio – avós, babás e escolas, por exemplo – e o trabalho de “fora” passa a acontecer em concomitância, no que já é chamado por especialistas de “jornada contínua”.


A Psicóloga Dafne Drumond Boni (CRP-08/19750), trabalhadora do SUS que desde o início da pandemia atua em um Serviço de Atenção Domiciliar (SAD) com pessoas recuperadas da Covid-19 e suas cuidadoras (a maioria mulheres), percebeu isso na prática: “Ser cuidadora já te coloca em uma condição de isolamento social porque a maioria das cuidadoras acabam tendo isso como atividade principal e solitária. A gente tenta contribuir para qualificar o cotidiano e resgatar a pessoa enquanto pessoa, não só enquanto cuidadora. Mas, com a pandemia, precisamos firmar a biossegurança e ela implica restrição do suporte de pessoas que passavam na casa e com quem ela desabafava… ou da vizinha que ficava um tempo ‘dando uma olhada’ enquanto ela ia à Unidade de Saúde, ao grupo X , à padaria Y”, relata.


Além do gênero, outros fatores presentes são etnia e classe social, já que a maioria das mulheres em situação de maior vulnerabilidade são negras e periféricas. “Além disso estou me deparando com muitas situações de violência. E que a pessoa não percebe diretamente ou sozinha. É durante a conversa sobre a sobrecarga do cuidado que ela vai desenrolando sua história, suas relações e começa a falar sobre a violência. E daí a partir daí consegue refletir sobre isso e sobre uma atitude possível”, conta a Psicóloga.


Alguns outros quesitos também podem afetar a tendência de maior sofrimento mental e possível aumento nos índices de suicídio, como a atividade profissional exercida, as condições de vida de cada pessoa antes e depois da pandemia e questões culturais (por exemplo, no Japão, onde a cobrança nos ambientes escolares e laborais é extrema, a quarentena fez cair em 20% o número de suicídios em abril comparado ao ano anterior, segundo reportagem publicada pelo jornal The Guardian). Assim, estudos como o “Preparing Michigan for the Behavioral Health Impact of COVID-19”, realizado pela Pine Rest Christian Mental Health Services indicando um possível aumento de 15 a 32% nos índices de suicídio no Estado Americano, podem ser bons referenciais, mas as pesquisas e dados precisam ter em conta características regionais.


O Psicólogo Paulo Vitor Palma Navasconi (CRP-08/25820) lembra que a literatura já aponta, há bastante tempo, uma tendência de aumento do suicídio em situações de crise que “levam a uma desestruturação e falta de coesão social que fragiliza a saúde mental”. Não é que crise traga, por si só, a ideia da morte como saída para o sofrimento. Na realidade, aquelas pessoas que já vinham enfrentando alguma condição potencialmente adoecedora – lembrando que o suicídio geralmente é multifatorial, ou seja, não é causado por uma única razão – podem encontrar neste momento uma dificuldade ainda mais evidenciada para lidar com o sofrimento.


“A Covid-19 é uma doença que atinge teoricamente a todos de forma igual, sem distinção de gênero ou condição social. Mas, na prática, nós percebemos que isso não é verdade, já que a pandemia intensifica vulnerabilidade e expõe as diferenças sociais”, destaca o profissional, autor do livro “Vida, adoecimento e suicídio”, com recorte sobre jovens negros(as) e LGBTTIs.


Suas palavras são ancoradas em dados. Quase 70% das pessoas que acessam exclusivamente o Sistema Único de Saúde no Brasil são negras, e a mortalidade por Covid-19 em UTIs, de acordo com estatísticas, é o dobro da registrada na rede privada. Além disso, mulheres (especialmente as negras) são as que recebem menores salários, vivem em regiões mais precarizadas – sem acesso a bens básicos como água encanada e saneamento básico – e precisam frequentemente sustentar suas residências sozinhas. São pessoas esquecidas pelo Estado e ainda mais fragilizadas pela pandemia.


A Psicóloga Dafne Boni lembra do período em que trabalhava em um CAPS, em 2016, e do impacto que a crise econômica daquela época teve no que chamou de “boom de ideação suicida”. “Muita gente que não tinha condição de retornar ao trabalho e estava sem nenhum amparo nos seus direitos acabava reagindo pela via da autoagressão. Então imagino que estamos no caminho disso acontecer”, diz. Ela ainda relata que, devido à Covid-19, muitas pessoas enfrentam dificuldade de retornar ao trabalho por sequelas, como alterações importantes na respiração, fadiga, dificuldade motora e mesmo alterações cognitivas; parte dessas(es) trabalhadoras(os), que já vinham de atividades precarizadas, ainda enfrentam barreiras para acessar auxílios no INSS.

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PodPsi “Morte, Luto e Suicídio”

E como podemos prevenir o suicídio?

Não existe um guia para impedir que alguém interrompa sua própria vida porque, como já vimos, as realidades são diferentes. Paulo Navasconi alerta que listas com dicas para enfrentar a quarentena ou para melhorar a saúde mental podem ser válidas, mas é preciso olhar com atenção já que uma dica impossível de ser colocada em prática pode até mesmo instigar a sensação de culpa por não se enquadrar. Então, o que fazer? “O primeiro passo é reconhecer o sofrimento e identificar com quem se pode contar, de que modo é possível buscar ajuda”, explica o Psicólogo.

 

Para quem está do outro lado, escutando e acolhendo, Navasconi fez um alerta durante a live “Morte, Luto e Suicídio”, promovida pelo CRP-PR. “A gente precisa pensar e repensar, por exemplo, quem são essas pessoas que estão gritando, almejando pelo olhar do outro, mas que muitas vezes não conseguem receber esse olhar do outro porque sequer é visto como um sujeito, sequer é visto como um indivíduo”, explicou ao concluir a fala sobre o apagamento das vivências negras e periféricas. Ele ainda destacou que, muitas vezes, Psicólogas(os) não sabem como agir diante desta população e seus sofrimentos porque a formação é pouco plural.

 

Independente do contexto em que acontece e se manifesta, um comportamento suicida não é um ato individual. Ele é, ao mesmo tempo, sintoma de uma sociedade com profundas chagas e denúncia de que a solução deve ser coletiva. Para Paulo, “o suicida denuncia para a nossa sociedade que nós não estamos bem, que o sofrimento é político”; Dafne propõe que a tentativa ou ideação suicida “é uma reação ou uma saída individual para saídas, reações e resistências que necessitam ser coletivas: a luta por melhores condições de vida”.

O suicídio na RAPS

Quando a Rede de Atenção Psicossocial foi pensada, no início dos anos 2000, ainda não se discutia a prevenção do suicídio como hoje, como explica o Psicólogo Altieres Edemar Frei (CRP-08/20211). De lá para cá, a sociedade mudou, e outras demandas emergiram. Ainda que o suicídio em si não seja um fenômeno novo, o manejo ainda pode ser um tabu em muitos equipamentos. “O tema ainda é permeado por capas e mitos, e ainda é presente nos discursos crenças como ‘quem quer faz’ ou ‘faz para chamar a atenção’”, conta o profissional, que durante cerca de um ano percorreu mais de 40 municípios do Paraná na pesquisa chamada “Cartografia da RAPS”.

 

A Psicóloga Dafne, com larga experiência na ponta da rede de atenção, relata que os protocolos vigentes não se adequavam à realidade. Os problemas eram muitos, incluindo dificuldade de acolher cada demanda em seu devido grau de complexidade, acolher e escutar o sofrimento de cada paciente, grande foco na medicalização e contenção dos sintomas, além da dificuldade de dar coesão e continuidade ao trabalho devido à sobrecarga da equipe. Além disso, divergências na equipe multiprofissional, falta de estímulo à capacitação contínua e adoecimento da equipe eram fatores que desafiavam a resposta dos equipamentos. “A gente perdeu várias situações para o internamento em hospital psiquiátrico, o tal circuito manicomial e a consequentemente cronificação, estigma e patologização”, relembra a Psicóloga.

 

A pandemia, como em outras instâncias, pode ser um agravante, já que comportamentos como o uso abusivo de álcool e outras drogas e transtornos de saúde mental ficam mais densos. Além disso, a resposta que as(os) brasileiras(os) como um todo estão tendo em relação ao luto pode ser um desafio. A negação e a aparente falta de empatia podem ser uma forma de lidar com o trauma excessivo, na opinião de Paulo. Já Altieres supõe que uma explicação possa estar na vulnerabilidade de grande parte da população. “Com o auxílio emergencial, o real impacto econômico ainda não foi sentido”, conjectura.

 

Já entre aquelas(es) que passaram pela experiência da internação em uma UTI, Dafne acredita que não há, atualmente, condições emocionais de assimilar: “Parece que para conseguir viver um luto precisam estar em um grau de consciência que a vida não tem permitido”.

Autocuidado

Toda(o) Psicóloga(o) sabe que cuidar da saúde mental de outras pessoas é, por si só, uma sobrecarga à própria. Além disso, para garantir aptidão à escuta, ao acolhimento, é preciso providenciar adequados processos terapêuticos e de supervisão técnica, quando necessário. Mas, e quando a(o) Psicóloga(o) adoece?

 

Por diversos fatores, como sobrecarga de trabalho e falta de condições adequadas para atuação, a categoria pode ser um grupo vulnerável aos transtornos de humor e ao próprio suicídio, ainda que estes sejam temas tabus. Em sua pesquisa de mestrado, a Psicóloga Fabiane da Fontoura Messias de Melo (CRP-20/2028) estudou as condições de saúde mental de um grupo de Psicólogas(os) lotadas em um hospital na região norte do Brasil. “Não esperava encontrar um sofrimento tão intenso”, relata. A falta de um lugar (físico e também simbólico) para o trabalho era um dos fatores observados, bem como a ausência de apoio e reconhecimento ao trabalho da(o) Psicóloga(o). “A longo prazo, o sofrimento pode levar ao adoecimento”, explica a hoje professora da Universidade Federal do Acre.

 

O impacto da Covid-19 veio a se somar aos problemas: medo de perder renda ou o emprego, incertezas no atendimento online ou medo de se contaminar com o vírus no atendimento presencial, além da já mencionada sobrecarga de trabalho, especialmente para as mulheres, quando em casa. As desigualdades do país também contribuem para que cada pessoa viva a experiência de uma forma diferente, e o atendimento psicológico pode não estar disponível para todos. “O Acre é um Estado pobre, e a maioria não tem condições de fazer o atendimento online, ou por não ter internet, ou por não ter condições físicas como um cômodo privado. Mesmo quando consegue, o setting está modificado, a rede cai, o sigilo fica comprometido. Vivemos uma situação nova e é preciso produzir novos conhecimentos”, conclui Fabiane.

Campanha “Que Psi você quer?” reúne anseios da categoria para a profissão

Durante todo o mês de agosto, a categoria e a sociedade participaram da campanha “Que Psi você quer?”, uma iniciativa do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) para dialogar e conhecer mais sobre os anseios em relação à Psicologia neste momento de tantas incertezas em nosso país e no mundo. Além dos posts nas redes sociais e da Revista Contato, promovemos uma live e uma reunião aberta sobre o tema. As respostas chegaram das mais variadas formas e revelaram que as(os) Psicólogas(os) desejam uma profissão comprometida com os direitos humanos, com a universalização do acesso e com a saúde mental de todas e todos, pautando-se por lutas essenciais como o antirracismo.

Todo este exercício de diálogo é coletivo, está sendo construído por conselheiras(os), colaboradoras(es), funcionárias(os) e vocês, Psicólogas e Psicólogos que atuam todos os dias em prol de uma sociedade mais justa e liberta de opressões.

 

O CRP-PR agradece a participação de cada uma e cada um que dedicou algum tempo a esta proposta. Agora, vamos analisar qualitativamente todo o material reunido para, então, construirmos lado a lado estas Psicologias que queremos.  

Revista CadernoS de PsicologiaS encerra recebimentos de trabalhos com grande adesão da categoria

Encerrou-se no último domingo (30) o recebimento de artigos, resenhas e relatos de experiência para a primeira edição da revista CadernoS de PsicologiaS. A nova publicação do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) é uma iniciativa para dar visibilidade às produções de Psicólogas(os) paranaenses e traz como tema inaugural os “Atravessamentos da Covid-19 nas práticas e saberes em Psicologia”.


A Comissão Editorial, composta por membros do XIV Plenário, colaboradoras(es), profissionais do corpo técnico e pareceristas, comemorou a grande adesão por parte da categoria. Ao todo foram 41 trabalhos enviados, que serão avaliados com base em uma linha editorial pautada no compromisso ético da Psicologia, em busca de refletir a pluralidade da práxis.

“Ficamos muito contentes quando soubemos que a revista CadernoS de PsicologiaS recebeu 41 submissões, distribuídas entre as ‘Inquietações Teóricas’ e ‘Relato de Experiência’. Isto nos indica a importância deste veículo para a troca de experiências e sua consequente reflexão teórica, e o acerto do CRP-PR em garantir esse espaço”, analisa o Conselheiro João Batista Martins (CRP-08/07111).

A publicação dos textos aceitos está prevista para acontecer ainda em 2020, após a avaliação dos manuscritos. Vale lembrar que todas(os) as(os) autoras(es) receberão um contato da Comissão Editorial com um retorno sobre a produção.

CRP-PR publica Relatório Integrado de Gestão

O Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) publicou em agosto o novo Relatório Integrado de Gestão, um documento que reúne as informações técnicas, administrativas e financeiras da instituição ao longo de 2019.

 

Apesar de ser uma exigência do Tribunal de Contas da União, o relatório é elaborado para ser uma ferramenta de transparência para a categoria e a sociedade. Nele constam ações e atividades dos diferentes setores do CRP-PR – como as Comissões Temáticas e Gestoras, Assessorias de Políticas Públicas e Pesquisas, Comunicação Social, etc. –, além de demonstrativos financeiros detalhados, o que permite o acompanhamento da gestão (que em 2019 foi dividida entre dois grupos devido às eleições realizadas em agosto).

 

“Este relatório demonstra o nosso compromisso e preocupação com informações mais acessíveis e nítidas, favorecendo a participação da categoria no Conselho. Foi um longo processo de elaboração, que contou com o corpo funcional do CRP-PR, para aproximar as Psicólogas e os Psicólogos deste controle social da instituição”, explica Renata Campos Mendonça (CRP-08/09371), Conselheira Tesoureira do CRP-PR.

Como participar do CRP-PR?

Para além das informações prestadas neste Relatório, convidamos a todas e a todos a conferir o Portal da Transparência, comparecer às Assembleias, Plenárias, compor as Comissões Especiais e Temáticas, enfim, participar ativamente da construção diária do Conselho e do cumprimento de suas funções. Desta forma, ampliaremos o diálogo com a categoria e com a sociedade para a defesa de uma Psicologia ética, transformadora, implicada na promoção de direitos humanos e no combate às opressões.

Dia das Psicólogas e dos Psicólogos

Há 58 anos, em 27 de agosto de 1962, foi promulgada a Lei nº 4199, que regulamentou a profissão de Psicóloga(o) no Brasil. Mais tarde, esta data foi oficialmente instituída no calendário nacional como Dia da(o) Psicológa(o) pela Lei nº 13.407/2016. Ou, como preferimos, Dia das Psicólogas e Psicólogos, para evidenciar a pluralidade, marca essencial de nossa ciência e profissão.


Este é um dia, portanto, que nos convida a rememorar histórias – individuais e coletivas – sobre nossa relação com a Psicologia. É tempo de celebrar avanços, conquistas, lembrar da nossa formação e de todos os encontros que a Psicologia nos proporcionou.


Também é tempo de refletir sobre a prática, sobre que Psicologias estamos construindo, lado a lado. Como nossos fazeres em Psicologia estão contribuindo para a transformação da sociedade, a promoção dos direitos humanos, a valorização da diversidade, a emancipação dos sujeitos e coletividades, e o enfrentamento a todos os tipos de opressão? Quais os desafios que ainda precisamos encarar, e que caminhos devemos ousar trilhar, enquanto categoria, para superá-los?


É nesse sentido que o Conselho Regional de Psicologia do Paraná, neste 27 de agosto, pergunta a toda categoria e sociedade: Que Psi Você Quer? Diante de um cenário de tantas turbulências, em um momento social tão delicado, qual é o nosso horizonte para a profissão que construímos e que é parte de nós?


Em um exercício amplo de diálogo, já descobrimos algumas pistas. A categoria quer uma Psicologia valorizada, efetivamente acessível a todas as pessoas, capaz de cuidar da saúde mental das próprias Psicólogas e Psicólogos, que defenda a democracia e os direitos humanos, esteja presente nas políticas públicas e, especialmente neste momento, consiga atuar em contextos conturbados – como o que estamos vivendo pela crise da pandemia.


Que esta data nos permita a reflexão sobre o futuro da Psicologia que queremos, e que nos ajude a confirmar a alegria pela nossa escolha profissional. Que possamos conquistar cada vez mais espaços para fazermos a diferença nos meios em que nos inserimos. As conquistas da Psicologia são também avanços para toda sociedade.


Parabéns a todas as Psicólogas e Psicólogos pelo seu compromisso social diariamente reafirmado. Estamos juntas(os) nessa caminhada, com muito afeto e dedicação.

Dia da Infância

Por Samanta Bueno de Aguiar (CRP-08/28056), da Comissão de Psicologia Clínica de Londrina de Londrina

Nunca se estudou tanto a infância. Entre inúmeros diálogos e reflexões, o termo infância – período do desenvolvimento do ser humano que vai do nascimento ao início da adolescência – se mantém vivo através de diversos estudos, que nos fazem refletir sobre a contextualização em que a criança está inserida, e todo processo histórico que sofreu a fim de enxergar o subjetivo e particular, que é cheio de fantasias e liberdade.

 

No dia 24 de agosto comemora-se o Dia da Infância, com o intuito de promover uma reflexão sobre a condição das crianças de todo o mundo. Embora exista uma lei para defendê-las, é necessário repensar sobre como promover segurança e agir a respeito de um futuro mais digno para nossa sociedade.   

 

Desde o começo do século XX, fomos deparados com novos significados e valores sobre a infância – em consequência de todas as mudanças ocorridas neste período – em busca de uma real observação de acordo com as necessidades para que sejam assegurados seus direitos, de modo a adotar um verdadeiro estatuto social. Philipe Ariés, um grande historiador da infância, percebe que a visão em relação à infantilidade vai se alterando conforme o contexto cultural e social de cada época. O autor ainda diz que é entre os moralistas e os educadores do século XVII que se forma outro modelo da infância que se estendeu até o século XX, e também ressalta que o apego à infância e à sua particularidade não se exprimia mais por meio da distração e da brincadeira, mas do interesse psicológico e da preocupação moral, que se percebe a partir do século XX.

O surgimento da infância como preocupação social coincide com a reorganização da família moderna. No momento em que esta passa a ser constituída a partir da centralidade da criança, os pequenos devem receber atenção e cuidados constantes dos pais.

Porém, há de se crer que existe um paradoxo no seu tratamento judicial. Por um lado, assume-se a infância como categoria social; por outro, o elemento que traz a criança para essa categoria é o seu comum estatuto individual, de não ser ainda adulto. A lei trata a criança como igual, mas essa igualdade é conquistada à custa da sua individualidade.

 

Havendo como pano de fundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada em 1948 pela Assembleia-Geral das Nações Unidas, em 1958 o mesmo organismo promulga e adota a Declaração Universal dos Direitos da Criança, necessitando de um compromisso mais sério, afim de discutir a proteção das crianças. O movimento internacional dos direitos das crianças – Convenção dos Direitos da Criança – contou com uma pressão para implementar o seu Estatuto legal, apresentando mais potência em leis, como de que a criança necessita pertencer a direitos que refletem a sua condição de viver e seu bem-estar, o que faz deste documento a chave para a promoção da voz da criança, algo de extrema relevância no contexto da sua proteção e avaliação das suas necessidades.

 

No Brasil, o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), criado há 30 anos, em julho de 1990, é o principal instrumento normativo sobre os direitos da criança e do adolescente. Considerado o maior símbolo dessa nova forma de se tratar a infância e a adolescência no país, o ECA inovou ao trazer a proteção integral, na qual crianças são olhadas como sujeitos de direitos, em condição de desenvolvimento e com prioridade absoluta. Também reafirmou a responsabilidade da família, sociedade e Estado de garantir as condições para o pleno desenvolvimento dessa população, além de colocá-las a salvo de toda forma de discriminação, exploração e violência.

 

E é nessa linha que precisamos seguir e reforçar, visto que continua a existir alguma resistência e é no domínio jurídico que encontramos as maiores discrepâncias, entre o que é lei em teoria e o que de fato se pratica.

É na resistência que conseguimos, como profissionais e seres humanos, enxergar o que realmente é a infância. Por meio da escuta e da atenção, conseguimos tocar o individual e alcançar a pluralidade de nossas crianças.

Assembleia Geral Orçamentária será realizada em agosto de forma online

Em 2020, a Assembleia Geral Orçamentária do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) acontecerá no dia 29 de agosto (sábado), às 14h, de forma online.

 

A Assembleia, que cumpre as determinações da Lei nº 5.766 de 20 de dezembro de 1971, é o espaço no qual se determina o futuro financeiro do Conselho. Toda a categoria é convocada a participar das discussões — com direito a voz e voto seguindo os critérios da legislação.

 

Na reunião, além da oportunidade de participar das decisões financeiras do CRP-PR, as(os) Psicólogas(os) podem também compreender melhor o gerenciamento orçamentário da autarquia.

Pauta

A pauta prevista para a Assembleia contém os seguintes pontos:

 

a) apresentação das contas do exercício anterior (2019);

 

b) fixação da anuidade de Pessoa Física e Pessoa Jurídica para o exercício de 2021;

 

c) fixação de emolumentos, serviços e taxas para o exercício de 2021;

 

d) discussão da possibilidade de se realizar reformas ou ampliações que venham a ser necessárias nas sedes do CRP-PR.

 

Depois de aprovadas, as propostas são também submetidas à apreciação do Conselho Federal de Psicologia (CFP).

 

Inscrição

A Assembleia é destinada a Psicólogas e Psicólogos com registro ativo no Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) e, para ter direito a voto, a(o) profissional deverá estar quite com o pagamento das anuidades até o exercício de 2019 até a data da assembleia (29 de agosto de 2020), sendo entendido como situação regular os que estiverem em parcelamento e em dia.

 

Após o recebimento da inscrição, o CRP-PR verificará a situação cadastral da(o) profissional e enviará, por e-mail, confirmação do registro e orientações para acesso ao ambiente virtual Cisco WebEx onde será realizada a assembleia.

 

Pedimos que façam a inscrição no link disponível abaixo até o dia 27 agosto, para que haja tempo hábil para a verificação e confirmação.

Transmissão

Além da plataforma de videoconferência Cisco WebEx, na qual as(os) Psicólogas(os) poderão interagir e votar a Assembleia Orçamentária também será transmita pelo nosso canal do YouTube.

Serviço

Data: 29/08/2020

Horário: às 14h em primeira convocação com 2/3 (dois terços) de seus membros, e às 14h30, em segunda convocação, com qualquer número de Psicólogas(os) presentes na plataforma online

Local: online

Inscrições encerradas

 

Em caso de dúvidas, escreva para: crp08@crppr.org.br

Que Psi você quer?

Essa é a edição da Revista Contato que abrange o mês de agosto, quando se comemora o Dia das Psicólogas e Psicólogos – assim mesmo, no plural. Afinal, a pluralidade é uma característica marcante da nossa profissão, tanto no perfil das(os) profissionais quanto nas áreas de atuação.

 

E que momento para chegar o “nosso” mês, não? Quem imaginava, aos primeiros sinais da pandemia, que seus efeitos se prolongariam por tanto tempo, impactando tanto nossas ações?

 

Historicamente, aproveitamos esta data para dialogar com a sociedade sobre a importância da nossa profissão, reafirmar o compromisso com a promoção de saúde e desmistificar tabus que ainda cercam nossa prática. Muito já conseguimos avançar e muito ainda há para se construir.

 

Mas como conversarmos com a sociedade nesse momento tão delicado? Como oferecermos afirmações em um período de tantas dúvidas? Como avançarmos na construção de uma Psicologia efetivamente acessível, comprometida à promoção de humanidades libertas? Como a própria Psicologia nos ensina, é tempo de analisarmos as variáveis e, juntas(os), construirmos novos possíveis.

 

No que se refere à atuação do Conselho, seguimos em revisão constante, a fim de orientar e acolher as(os) profissionais frente aos novos desafios, com os recursos e limitações que o cenário nos oferece.

 

Esperamos que essa revista, escrita com tanto carinho e a tantas mãos, possa encontrar a todas(os) com afeto, saúde, e possa contribuir para refor­çar o nosso sentido de coletividade.

Orientações às(aos) gestoras(es) sobre as especificidades da atuação da Psicologia Hospitalar no contexto da Covid-19

Desde março de 2020 o Brasil tem vivenciado os impactos da pandemia da Covid-19, fato este que exigiu adaptações no dia a dia da população, bem como na organização e estruturação dos serviços de saúde em todo território brasileiro. Diante do aumento do número de casos e a possibilidade de sobrecarga do sistema de saúde, as instituições hospitalares têm elaborado planos de contingência para enfrentar o aumento da demanda por internações de média e alta complexidade. Neste contexto, é inegável que, além do aporte estrutural e tecnológico, o enfrentamento da crise requer profissionais de saúde qualificadas(os) e disponíveis para a assistência integral aos pacientes e seus familiares. Compreende-se ainda que os impactos do novo coronavírus vão além da saúde física, afetando também a saúde mental e emocional de todos os envolvidos.

 

Assim, a presença da Psicologia Hospitalar junto à equipe multiprofissional pode contribuir tanto na assistência ao paciente e seus familiares, quanto no apoio à equipe, buscando minimizar o sofrimento psíquico diante do adoecimento ou do risco de contaminação. Com vistas a auxiliar a Gestão Hospitalar na implementação ou reestruturação de Serviços de Psicologia Hospitalar para atendimento à Covid-19, a Comissão de Psicologia Hospitalar do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) traz considerações quanto às especificidades de atuação e as atribuições da(o) profissional Psicóloga(o) para execução de serviços de qualidade.

 

Ressalta-se que o presente documento considera a autonomia das instituições e suas particularidades, bem como o contexto econômico complexo no qual estão inseridas, sendo as considerações de caráter orientativo e consultivo.

Sobre a Psicologia Hospitalar

A Psicologia Hospitalar é uma especialidade reconhecida pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) desde 2000 e, atualmente, é regulamentada pela Resolução CFP nº 13/2007. Tem como principal objetivo o acolhimento a pacientes e familiares em sofrimento psíquico decorrente de suas patologias, internações e tratamentos (LAZARETTI et al., 2007). A atuação deve estar pautada no rigor ético e científico que a profissão exige e abrange as seguintes atribuições:

 

· Atendimento a pacientes, familiares e assessoramento às(aos) profissionais da equipe de saúde no que concerne ao cuidado com as(os) pacientes;

· Realização de avaliações e intervenções psicológicas para a(o) paciente e/ou familiar;

· Estabelecimento, operacionalização e gerenciamento de programas de saúde;

· Participação em reuniões interdisciplinares e atualização das informações psicológicas com as(os) demais profissionais da equipe;

· Facilitação dos processos de comunicação na interface paciente-família-equipe, inclusive no suporte à equipe na transmissão de notícias difíceis;

· Gerenciamento de atividades administrativas, como formulação de protocolos de atendimento, registro em prontuário e distribuição das demandas de trabalho.

Sobre a formação da(o) Psicóloga(o) para atuar no contexto hospitalar

Pensar na formação da(o) Psicóloga(o) Hospitalar remete a pensar na formação em Psicologia. Embora algumas universidades tenham um foco maior nas disciplinas que envolvem a Psicologia da Saúde, incluindo a atuação nos hospitais, essa ainda não é uma realidade unânime (MÄDER et al., 2016). Assim, é desejável que a(o) profissional que irá atuar nessas instituições tenha formação específica para sustentar essa prática, tais como:

 

· Pós-graduação Latu Sensu nível de Especialização ou Residência Multiprofissional em Saúde;

· Título de Especialista em Psicologia Hospitalar concedido pelo Conselho Federal de Psicologia.

 

Portanto, dada a relevância da capacidade teórica e técnica exigida no desempenho da função, é alvo de preocupação o fato de que muitas(os) profissionais da Psicologia que atuarão na linha de frente dos serviços hospitalares para atendimento à Covid-19 podem não ter especialização na área. Desta forma, sugere-se a implementação de ações de capacitação e educação permanente, promovendo formação breve e específica em ações de saúde mental e atenção psicossocial neste contexto de pandemia. Destaca-se também que outro viés de formação muito importante e utilizado em Psicologia é a supervisão com profissionais mais experientes.

Sobre a inserção da(o) Psicóloga(o) na instituição hospitalar

Considerando a(o) profissional Psicóloga(o) como integrante da equipe multiprofissional, parte-se do fato de que receba, diante do atual momento, todos os treinamentos necessários quanto ao uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI), bem como orientações gerais acerca das medidas de biossegurança e controle de infecção na instituição hospitalar, medidas habitualmente realizadas pelos Serviços de Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho (SESMT) e Comissões de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) ou equivalentes.

 

É fundamental que o Serviço de Psicologia Hospitalar se articule com os demais gestores da instituição de forma a construir um posicionamento técnico a respeito da prestação do trabalho neste contexto de pandemia.

Sobre a estruturação de Serviços de Psicologia Hospitalar no contexto da pandemia

Ao estruturar o Serviço de Psicologia Hospitalar no contexto da Covid-19, a Fiocruz sugere que as(os) Psicólogas(os) Hospitalares (BRASIL, 2020):

 

· Tenham conhecimento das características do cenário antes do planejamento das suas ações;

· Fundamentem suas ações em evidências de outras experiências;

· Mantenham propostas de ações alinhadas com o Sistema Único de Saúde.

 

Os atendimentos podem ocorrer tanto de forma presencial quanto a distância. Conforme Notas Técnicas CRP-PR nº 001 e 002/2020, cabe às(aos) Psicólogas(os) a adequação dos métodos e técnicas para prestação de serviços em cada contexto de trabalho. O uso das Tecnologias de Informação e Comunicação tornam-se uma possibilidade para realização do cuidado, porém, muitas vezes, especialmente no contexto hospitalar, a atuação presencial da Psicologia ainda é demandada.

 

Para escolha da modalidade de atendimento mais adequada, cabe às(aos) profissionais analisar as complexidades das demandas de seus serviços. Ressalta-se que os casos de urgência e emergência, preferencialmente, devem ser atendidos presencialmente.

 

No que se refere aos atendimentos virtuais, ressaltam-se as diretrizes fornecidas pelas Resoluções CFP nº 11/2018 e nº 04/2020, principalmente quanto ao cadastro prévio na plataforma E-Psi.

 

Quanto ao contingente necessário de profissionais para a prestação dos serviços de Psicologia Hospitalar, compreendem-se os desafios e a especificidade deste momento de pandemia, inclusive no âmbito econômico e alocação de recursos financeiros. Ainda assim, objetivando a qualidade da assistência, a Fiocruz (BRASIL, 2020) recomenda o seguinte dimensionamento da equipe de Psicologia Hospitalar:

 

· Presença de um(a) Psicóloga(o) a cada 15 leitos ou fração na Unidade de Internação Adulto;

· Presença de um(a) Psicóloga(o) a cada 12 leitos ou fração na Unidade de Internação Pediátrica.

Obs: nas unidades de internação, adulto ou pediátrica, sugere-se a cobertura mínima de seis horas diárias e jornada de trabalho de seis horas/dia.

· Presença de um(a) Psicóloga(o) exclusiva(o) e presencial para cada 10 leitos ou fração na Unidade de Terapia Intensiva.

Obs: nas unidades de terapia intensiva sugere-se cobertura de 12 horas diárias e jornada de trabalho de seis horas/dia.

 

Para distribuição da carga de trabalho sugere-se ainda que seja utilizado o conceito de hora-assistencial. No contexto hospitalar, este conceito abrange o tempo destinado para preparação para o atendimento, realização de procedimentos e/ou técnicas psicológicas, discussão de caso e reuniões de equipe, registro dos atendimentos em prontuário e elaboração de documentos (BRASIL, 2020).

 

Na estruturação das equipes de Psicologia Hospitalar, de acordo com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS, 2020) para manutenção da saúde mental no ambiente de trabalho, reitera-se a recomendação de compor equipes com profissionais que possuam diferentes tempos de experiência na área, de forma a mesclar colaboradores mais e menos experientes. Além de promover apoio e minimizar o estresse laboral (OMS, 2020), esta estratégia vai de encontro às estratégias de capacitação e supervisão em serviço, possibilitando a execução de um serviço de Psicologia de alta qualidade.

Sobre o acompanhamento em saúde mental às(aos) profissionais de saúde

Sabe-se da relevância da assistência em saúde mental às(aos) profissionais da saúde. Importante destacar, entretanto, que a(o) Psicóloga(o) Hospitalar atua dentro de uma equipe interdisciplinar e é, portanto, parte integrante dela. Ao zelar pela posição de integrante da equipe, muitas vezes faz-se necessário que o trabalho de escuta às(aos) colaboradoras(es) seja realizado por um(a) profissional externa(o) a ela (MÄDER et al., 2016; BRASIL, 2020).

 

Cabe à(ao) profissional de Psicologia a delimitação de seu campo de atuação, com autonomia para avaliar se o vínculo favorece ou interfere negativamente na realização de um trabalho de suporte emocional à equipe, visando à prestação de um trabalho de qualidade e conforme ao Código de Ética Profissional do Psicólogo.

Outras orientações

Mais informações e orientações quanto à atuação da Psicologia e das especificidades da Psicologia Hospitalar podem ser acessadas pelos sites do Conselho Federal de Psicologia (site.cfp.org.br) e do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (www.crppr.org.br). Ambos os sites possuem seção específica destinada a conteúdos referentes à pandemia da Covid-19 de forma a facilitar o acesso à informação.

 

Acesse: Especial Covid-19 CRP-PR

 

A Comissão de Psicologia Hospitalar permanece à disposição para maiores elucidações, assim como aberta a receber Psicólogas(os) e gestoras(es) para aproximação e discussão de temas convergentes. Para contato, enviar e-mail para milena.poletto@crppr.org.br.

Referências

BRASIL. Ministério da Saúde. FIOCRUZ. Orientações às/aos psicólogas/os hospitalares. Disponível em: https://www.fiocruzbrasilia.fiocruz.br/wp-content/uploads/2020/04/cartilha_psicologos_hospitalares.pdf Acesso em 15 de junho de 2020.

 

LAZARETTI, C. et al. Manual de Psicologia Hospitalar, CRP-PR. Coletânea ConexãoPsi. Curitiba: Unificado, 2007.

 

MÄDER, B.J. et al. Caderno de psicologia hospitalar: considerações sobre assistência, ensino, pesquisa e gestão. Curitiba: CRP-PR, 2016.

 

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE et al. Mental health and psychosocial considerations during the COVID-19 outbreak, 18 March 2020. World Health Organization, 2020.

Orientações sobre o Decreto Estadual nº 4942/2020 – Medidas Restritivas

O Governo do Paraná publicou ontem (30) o Decreto Estadual n⁰ 4929/2020, que impõe medidas restritivas por 14 dias, prorrogáveis por mais sete, para municípios de sete regionais de saúde paranaenses, diante do qual o Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) recebeu diversas solicitações da categoria de Psicólogas(os) por mais informações sobre a prestação de serviços. Informamos que a orientação quanto ao atendimento psicológico se mantém tal qual prevista na Nota Técnica CRP-PR nº 01/2020, ou seja, os atendimentos remotos seguem recomendados sempre que possível e, em casos que demandem atenção presencial, a critério da(o) profissional ou equipe multidisciplinar, seguindo todos os protocolos de segurança. Confira abaixo a orientação na íntegra:

“Caso a(o) Psicóloga(o) atue em instituição que esteja suspendendo os serviços presenciais ou atue enquanto profissional autônoma(o) e decida, momentaneamente, suspender as atividades, informamos que caberá à(ao) profissional analisar tecnicamente cada demanda existente para identificar situações que possam ser agendadas para um momento futuro, ou situações de urgência e emergência que demandem um encaminhamento diferenciado. O Conselho Regional de Psicologia do Paraná não possui autoridade para determinar suspensão ou permanência dos serviços prestados por outros órgãos ou profissionais. Compreendemos que caberá a cada profissional e/ou instituição tomar conhecimento e atender as legislações sanitárias vigentes e determinações municipais, estaduais ou federais. Considerando o exposto, orientamos que o desligamento dos pacientes não deve ser pensado de forma alheia ao processo terapêutico e demandar manejo clínico da(o) Psicóloga(o), visto que o vínculo é uma variável importante na prestação dos atendimentos psicológicos. Compreendemos, assim, importante que as(os) Psicólogas(os) planejem o desligamento das(os)pacientes de maneira adequada, mantenham seus registros documentais atualizados e prestem as orientações necessárias e preventivas ao cenário atual.”
Nota Técnica CRP-PR nº 001/2020

Segundo parecer do departamento jurídico do CRP-PR, a ausência do serviço de Psicologia entre as atividades essenciais previstas pelo Decreto de forma explícita não impede esta orientação, uma vez que o direito à saúde está previsto na Constituição Federal, legislação máxima brasileira, e qualquer disposição em contrário feriria este direito universal.

Orientação do CFP a gestoras(es)

Para minimizar os riscos tanto à categoria como a usuárias(os), o Conselho Federal de Psicologia (CFP) enviou, ainda em março, um ofício circular a gestoras(es) públicas(os), empregadoras(es) de Psicólogas(os) e usuárias(os) de serviços recomendando a suspensão das atividades de Psicologia na modalidade presencial em todo o país, com exceção daquelas comprovadamente emergenciais, ocasião em que deveriam ser ofertadas condições adequadas de prevenção e proteção contra o novo coronavírus.

O epistemicídio enquanto violência contra a população LGBTTI

Comemoramos hoje, 28 de junho, o Dia Internacional do Orgulho LGBTTI. Mas, será que foi convidado para a festa?

O movimento LGBTTI destaca-se pela diversidade que representa e pela qual luta. No entanto, é comum que quem compõe o movimento seja universalizado e despido de suas especificidades, o que leva à invisibilização de uma parcela que compõe o grupo. O apagamento de determinadas vivências — que giram, principalmente, em torno da intersecção de raça, identidade de gênero e orientação sexual — dentro da comunidade é confirmado pelo professor e Psicólogo Paulo Vitor Palma Navasconi (CRP-08/25820), segundo o qual “o próprio movimento LGBTTI tem dificuldade de visualizar essas especificidades, até mesmo a própria história do movimento é uma história muitas vezes contada por uma única voz que é, frequentemente, a do homem gay branco”.

 

Durante sua vida, Paulo observou — e sentiu ele próprio — os efeitos perversos do que chama de epistemicídio — o assassinato ou o aniquilamento do conhecimento de alguns grupos. Uma das consequências citadas pelo professor é o suicídio, tema escolhido para sua dissertação de mestrado: “eu observava o quanto que entre meus círculos sociais, de amizades e até redes sociais, por exemplo, semanalmente, algum jovem negro LGBT se suicidava. E eu, também, já tentei suicídio na adolescência e foi por conta disso que eu cheguei até esse tema”.

 

Dados sobre suicídios dentro da comunidade LGBTTI no Brasil são escassos e pouco documentados, o que, segundo relatórios do Grupo Gay da Bahia (GBB) e da Rede Trans Brasil, sugere a subnotificação dessas ocorrências. De acordo com dados coletados pelo GBB, em 2019, entre os casos de suicídio na comunidade LGBTTI “os gays aparecem com 37,5% dos suicídios, as transexuais logo em seguida, 31,25%, as lésbicas com 21,87%, demonstrando a maior vulnerabilidade das lésbicas face à morte voluntária, diferente dos homicídios (9,7%)”. Segundo a Rede Trans Brasil, é urgente discutir “sobre saúde psicológica e de criação de políticas públicas eficazes para a população trans. A situação de vulnerabilidade, o estigma da sociedade, a falta de conhecimento sobre suas especificidades e demandas, tudo isso contribui para a exclusão social das pessoas trans”.

Invisibilidade como norma

Ao se debruçar sobre o fenômeno pela ótica da Psicologia em sua pesquisa “Vida, Adoecimento e Suicídio: Racismo na Produção do Conhecimento sobre Jovens Negros/as LGBTTIS”, que virou livro lançado pela Editora Letramento, Paulo constatou que não há material na literatura especializada em Psicologia que discuta essa intersecção. “Eu tive que provar e comprovar que esse sofrimento é legítimo, que deve ser visualizado e sobre o qual se deve produzir conteúdos técnicos para podermos, de fato, intervir e produzir conhecimento sobre essa população”.

 

Não é difícil reconhecer que a invisibilização de parcelas do movimento se alastra também em direção a outros ambientes, como a mídia, por exemplo.

 

Segundo dados compilados pela Rede Trans Brasil em seu documento anual “Monitoramento – Assassinatos e Violação de Direitos Humanos de Pessoas Trans no Brasil” a maior parte das vítimas de violência na comunidade trans é composta por pessoas negras. No entanto, outro dado chama a atenção: a porcentagem de pessoas sem identificação de raça e nem de profissão. Tendo em vista que os dados coletados são provenientes, em grande parte, de meios de comunicação, é possível perceber que esse apagamento acontece nas reportagens — as vivências dessas pessoas se resumem às suas mortes. Para Paulo, essa representação é fruto da marginalização que a sociedade relega às pessoas trans e travestis: “são corpos que só são permitidos passear e estar presentes à noite, na sombra, na escuridão. Se são corpos negros, pobres, periféricos, a vulnerabilidade é ainda mais presente”. De acordo com o professor, a mídia reproduz uma estrutura necropolítica, que esquece, apaga e não visualiza as especificidades de algumas vidas, perpetuando uma maneira de organizar o mundo e as relações sociais que mantém esse “deixar morrer”. “Então, se um corpo de Cláudia é arrastado, se Luana, uma lésbica negra, é assassinada, se tantos corpos negros são assassinados ou se suicidam, ‘tudo bem’, a gente pode até mesmo se comover, colocar uma hashtag, mas depois continuamos a nossa vida”. E complementa: “existem vidas que nós choramos, pelas quais produzimos enlutamento, mas há vidas que pouco importam”.

Avanços...

A luta LGBTTI, certamente, não tem sido em vão. Nos últimos anos este movimento tem conquistado avanços importantes, como a Política Nacional de Saúde Integral da População LGBTI, de 2013, e a criminalização da homofobia – em decisão tomada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) há um ano.

 

Em 8 de maio de 2020, às vésperas do mês do orgulho LGBTI, outra conquista encampada pelo STF foi motivo de comemoração: o entendimento de que proibir a doação de sangue por pessoas homossexuais, algo antes previsto por portarias da Anvisa e do Ministério da Saúde, é inconstitucional. O tema já vinha sendo debatido e foi acelerado em virtude da pandemia da Covid-19, que aumentou a demanda e diminuiu o número de doadores. A mudança já era esperada também por especialistas, já que as normas, ainda que decretadas recentemente, representavam um ranço dos anos 1980 e 90, quando homens gays eram considerados parte do grupo de risco. 

 

Em um vídeo publicado em seu portal no YouTube há mais de quatro anos, o médico Drauzio Varella explica que o conceito de grupo de risco foi superado devido ao avanço da doença entre parcelas heterogêneas da sociedade e graças aos avanços da ciência: “você pega um homossexual que tem um único parceiro que não está infectado, qual é a chance de ele pegar o vírus da aids? É zero!”, afirma. Assim, hoje o que se deve considerar é o comportamento de risco, ou seja, o número de parceiros sexuais e suas condições de saúde, independentemente da orientação sexual.

...mas não para todas e todos

Porém, em décadas de luta e avanços, infelizmente, os ganhos não foram igualmente usufruídos por todos que compõem a luta por mais direitos e espaços na sociedade. De acordo com o professor, para que haja avanço para um maior contingente dentro do movimento é importante incluir pautas que pensem na intersecção entre raça, gênero e sexualidade no centro das reivindicações para que, dessa maneira, não se corrobore  uma lógica violenta e segregadora. “Nós estamos perdendo vidas, direitos e formas de existência. Infelizmente, dentro dessa ‘sopa de letrinhas’, existem pessoas que estão lutando para sobreviver. Enquanto alguns estiverem sobrevivendo, eu penso que nossa luta deve ser para uma existência digna”, explica.

 

Como exemplo de pauta que deveria ser mais debatida, Paulo cita o encarceramento de pessoas LGBTTI negras e o apagamento de suas vivências. Ele afirma que muitas transsexuais e travestis são encarceradas e que, dentro desse processo, não podem exercer sua identidade de gênero. “Ali dentro, elas são vistas como animais e aí são estupradas, violentadas, mortas. São corpos que são construídos para a morte, não para viver”, acrescenta.

 

Segundo o documento “LGBT nas prisões do Brasil: Diagnósticos dos procedimentos institucionais e experiências de encarceramento”, publicado em 2020 pelo Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, a maior parte da população carcerária LGBT brasileira se declara como negra ou parda:

“considerando, portanto, as pessoas autodeclaradas pretas e pardas como pertencentes ao espectro racial da negritude, os dados mostram que a população de pessoas negras chega à proporção de 51,3% das autodeclarações das pessoas LGBT nas prisões masculinas. No âmbito das prisões femininas, a proporção chega a 69,5% das autodeclarações”.

Outro apagamento que se manifesta quanto à população carcerária LGBT no Brasil é o baixo número de visitas que as(os) presas(os) recebem — o que, segundo o relatório, corrobora “os relatos de abandono familiar narrados pelos LGBT, sobretudo da população de travestis e mulheres transexuais”. A violência que o abandono familiar causa é potencializada no sistema prisional, visto que, de acordo com o documento:

 

“As pessoas LGBT nas prisões masculinas, submetidas aos baixos índices de visitação familiar, passam a ocupar um lugar de vulnerabilidade uma vez que necessitam suprir demandas com alimentação, roupas, calçados, mas não têm acesso aos insumos provenientes do meio externo às prisões. Dessa forma, essa população se vê forçada a se voltar aos internos que têm acesso a tais insumos. Assim, como forma de subsistência, essas pessoas acabam por vender sua força de trabalho (lavam roupas, higienizam celas, etc.) e/ou realizar escambo sexual através da prostituição”.

Futuro

Para que o futuro traga progresso para a luta LGBTTI de forma mais ampliada, Paulo vê como inevitável compreender que não estamos todos no mesmo barco e acredita, ainda, que para melhorar o cenário deve-se aprender a escutar mais. “Felizmente, o movimento LGBTTI e o movimento negro têm prestado atenção para essas questões e têm tensionado. Mas sozinhos, a gente não sai do lugar. A gente precisa que a sociedade como um todo esteja conosco”, explica. O professor vê a educação como ferramenta essencial para esse processo: “não consigo pensar em outra solução senão pela educação”.

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