
A iniciativa garante condições logísticas para uma força-tarefa de psicólogos voluntários, que atuarão por cerca de 90 dias no município, reforçando o compromisso público com o cuidado em saúde mental no pós-desastre.
Por CRP-PR
Curitiba, 16 de dezembro de 2025
Em um gesto de articulação institucional raro no país, a Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP) e o Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) formalizaram, nesta segunda-feira (15), uma parceria que garantirá atendimento psicossocial emergencial às famílias afetadas pelo tornado que devastou o município de Rio Bonito do Iguaçu no início de novembro, além de ações de capacitação voltadas ao atendimento em situações de emergências e desastres para profissionais da Psicologia de todo o estado. A iniciativa, inédita em amplitude e coordenação, mobilizará equipes especializadas por aproximadamente 90 dias.
A construção do acordo foi conduzida pela deputada estadual Ana Júlia Ribeiro (PT), coordenadora da Frente Parlamentar de Proteção à Saúde Mental, com apoio direto da deputada estadual Márcia Huçulak (PSD). Ambas atenderam prontamente à solicitação do CRP-PR logo após o desastre, reconhecendo que a recuperação emocional das famílias atingidas exige medidas estruturadas, atuação continuada e políticas públicas voltadas ao cuidado em saúde mental.

A assinatura ocorreu no gabinete da Presidência da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), conduzida pelo deputado Alexandre Curi (PSD), presidente da Casa, e contou com a presença das deputadas estaduais Ana Júlia Ribeiro e Márcia Huçulak, além de representantes do Conselho Regional de Psicologia do Paraná: Gilberto Gaertner (CRP-08/05000), presidente; Marina Machado (CRP-08/10216), conselheira-secretária; e Maurício Cardoso da Silva, gerente-geral.
“O Parlamento precisa estar presente onde a dor é maior.”
Para Márcia, a formalização do convênio representa um compromisso efetivo com a recuperação das famílias atingidas, especialmente no campo emocional. Em seguida, Ana Júlia afirmou que o Parlamento “precisa estar presente onde a dor é maior”, destacando o caráter humanitário da ação.

O convênio, estimado em R$ 418.539,20 e autorizado pela Comissão Executiva da ALEP, prevê transporte, hospedagem e alimentação para psicólogos voluntários, além de capacitação de profissionais da Psicologia para atuação em contextos de emergências e desastres. A medida garante que a força-tarefa, já integrada ao Ministério da Saúde e à rede municipal, tenha condições reais de atuação em campo. A proposta inclui acolhimento emergencial, atendimentos individuais e grupais, triagens psicossociais, atividades voltadas às crianças, encaminhamentos ao SUS e ao SUAS, além de orientações e capacitações técnicas destinadas às equipes locais.
“Uma das questões que mais me angustiavam era a dor da alma dessas famílias”
Para Márcia Huçulak, a iniciativa responde a uma preocupação que surgiu ainda nas primeiras horas após o tornado que devastou Rio Bonito do Iguaçu.
“Desde a sessão extraordinária logo depois do tornado, uma das questões que mais me angustiavam era a dor da alma dessas famílias”, disse. Para ela, “a reconstrução física precisa caminhar junto com o cuidado com a saúde mental”, destacando a importância do apoio às famílias, às crianças e aos jovens no processo de reconstrução. Em seguida, Ana Júlia reafirmou que o Parlamento “precisa estar presente onde a dor é maior”, destacando o caráter humanitário da ação.

Na sequência, Ana Júlia Ribeiro aprofundou o sentido da ação parlamentar. Para ela, o convênio representa “uma resposta concreta do Parlamento diante do sofrimento das famílias atingidas”. A deputada enfatizou que “o trabalho parlamentar precisa estar sempre a serviço das pessoas” e lembrou que, logo após a tragédia, a preocupação central era encontrar um meio eficaz de ajudar na reconstrução da vida das famílias. “A proteção da saúde mental é um caminho fundamental nesse processo”, reforçou.
Ana Júlia explicou ainda que o atendimento continuado e especializado é decisivo para lidar com o trauma causado pela perda repentina de casas, bens e projetos de vida.
“Viabilizar transporte, hospedagem e alimentação para os psicólogos voluntários garante que esse cuidado chegue de fato a quem mais precisa”, completou, reafirmando que a ação combina organização técnica, responsabilidade pública e compromisso humano.
Assembleia Legislativa assume protagonismo público
O presidente da ALEP, Alexandre Curi, destacou que a mobilização política foi imediata. “Em menos de 48 horas, a Assembleia já estava adotando medidas emergenciais. Com este convênio, garantimos também o cuidado emocional das famílias, que é tão essencial quanto a reconstrução física.”

Curi ressaltou que a parceria com o CRP-PR posiciona o Paraná como referência nacional em resposta psicossocial a desastres climáticos, combinando suporte material, articulação política e expertise técnica.
Psicologia como eixo da reconstrução humana
Para Gilberto Gaertner, presidente do CRP-PR, a iniciativa inaugura um marco na relação entre Psicologia e Políticas Públicas. “Eventos extremos deixam marcas que nem sempre são visíveis. O estresse pós-traumático, por exemplo, pode surgir semanas ou meses depois. Este convênio permite não apenas atender, mas qualificar o cuidado e dar suporte às ações em andamento.”

Ele enfatizou ainda a necessidade de atenção às crianças, profundamente afetadas pela destruição de escolas e espaços de convivência. “Elas precisam de apoio para reconstruir rotinas, segurança emocional e vínculos sociais.”
Gilberto destacou ainda que o convênio permitirá a realização de uma capacitação de alto nível voltada à atuação em situações de crise e desastres, direcionada a profissionais de todo o estado, com o objetivo de estruturar uma rede de resposta rápida e qualificada diante de eventuais catástrofes climáticas.
Um novo ambiente de cooperação institucional
A conselheira-secretária Marina Machado avaliou que o convênio abre um novo ciclo para a Psicologia paranaense. “O diálogo com instâncias legislativas é fundamental para consolidar políticas públicas de saúde mental. Este acordo integrava nosso plano de gestão e, em menos de 100 dias, conseguimos torná-lo realidade.”

Ela destacou que a parceria fortalece o protagonismo técnico do Conselho, amplia sua presença institucional e estabelece bases sólidas para ações futuras. Em conversa com as deputadas Ana Júlia Ribeiro e Márcia Huçulak, Marina alinhou uma visita conjunta a Rio Bonito do Iguaçu em janeiro para acompanhar o desenvolvimento das atividades em campo.
Estruturação do cuidado: presença imediata e continuidade planejada
O CRP-PR já estava no território antes mesmo da formalização do convênio. No dia 8 de novembro, os conselheiros Marly Terezinha Perrelli e Régis Maliszewski da Silva realizaram o primeiro diagnóstico situacional, estabeleceram diretrizes iniciais e organizaram os fluxos de atendimento emergencial.
No dia 15, a conselheira Carla Chemure Cechelero Slongo, presidente da Comissão de Comunicação Social, integrou a equipe em campo. Sua atuação ampliou a articulação com gestores locais, garantiu capilaridade na orientação às famílias, qualificou a comunicação institucional e fortaleceu redes de apoio em diferentes frentes do município. Entre as parcerias estabelecidas, destacou-se a Itaipu Binacional, que prontamente viabilizou a impressão de cartilhas e livros infantis destinados a crianças neurodivergentes, materiais utilizados para trabalhar, de forma adequada, aspectos de manejo e regulação emocional diante do desastre vivido.

A conselheira permaneceu em campo por 18 dias seguidos, acompanhando de perto as transformações do território e apoiando equipes de saúde, assistência e educação. De volta a Curitiba, assumiu a coordenação da campanha de arrecadação de donativos, dando início à segunda fase da estratégia: mobilizar recursos e sustentar o suporte às famílias para além da presença física inicial.
Paralelamente, o CRP-PR mobilizou 150 voluntários, dos quais 110 passaram por capacitação específica para emergências, crises e desastres naturais. Atendimentos serão realizados em espaços disponibilizados pela Prefeitura, como CRAS, unidades de saúde, escolas e ginásios. Ao final da operação, um relatório técnico consolidará dados, demandas e recomendações para o acompanhamento de médio e longo prazo.
Caminho aberto para políticas permanentes
Para além da emergência, a ação conjunta cria condições para que o Paraná desenvolva protocolos avançados para resposta psicossocial a desastres climáticos — uma necessidade crescente diante da intensificação de eventos climáticos extremos.
O convênio simboliza, portanto, não apenas uma resposta ao sofrimento imediato, mas um passo estrutural para a consolidação de políticas de Estado capazes de proteger vidas, garantir dignidade e fortalecer vínculos comunitários, com a Psicologia ocupando seu lugar ao lado dessas pessoas nos momentos mais críticos.