Redução de Danos é tema de debate em congresso realizado em Curitiba

“A sociedade falou para mim que como mulher e usuária de drogas eu tinha que morrer. A Redução de Danos disse: ‘não, você tem direito à vida’. A Redução de Danos começou a resgatar tudo o que foi tirado de mim. Com a Redução de Danos a pessoa passa a ser vista.” Esta fala foi uma das tantas que emergiram durante quatro intensos dias do “VII Congresso ABRAMD – Políticas de drogas, autonomia e cuidados”, realizado pela Associação Brasileira Multidisciplinar de Estudos sobre Drogas entre os dias 05 e 08 de junho de 2019 em Curitiba-PR.

O Congresso, que contou com o apoio do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR), reuniu centenas de profissionais das mais diversas áreas de atuação para debater estratégias de cuidado, trocar experiências exitosas e, nas palavras da presidente do Congresso, Sandra Regina Fergutz dos Santos Batista (CRP-08/02667), marcar estratégias de “resistência à nova política de drogas, que traz o retrocesso ao manicômio” – referindo-se à lei sancionada na manhã de 06 de junho, dia da abertura oficial do evento, que institui novos parâmetros de atendimento a usuários de drogas e permite, entre outras coisas, as internações compulsórias.

A Redução de Danos começou a resgatar tudo o que foi tirado de mim. Com a Redução de Danos a pessoa passa a ser vista.

Para além de palestras, mesas-redondas e conferências, o congresso deu voz a quem normalmente está fora dos debates: usuárias e usuários, pessoas em situação de rua, a juventude negra vítima de encarcemanento e genocídio, mães cujos filhos perderam a vida ou a liberdade. A Conferência “Vozes, diálogos e intersetorialidade: como a guerra às drogas nos afeta?” foi um destes espaços – e teve arte, manifestação política, conversas, encontros de gerações (o pesquisador e conferencista Carl Hart esteve junto com os jovens, todos negros, em um monento que emocionou os presentes pela representatividade).

Depois, ao longo dos demais dias, em cada uma das 12 salas paralelas em que se entrava era possível ouvir um relato potente. O comunicador Raull Santiago, um dos fundadores do Coletivo Papo Reto, do Complexo do Alemão (Rio de Janeiro), explica o encarceramento como algo além das prisões: “O encarceramento que a gente vive é ter como principal política pública para as favelas a presença da polícia. É a não valorização destes espaços. É concentrar massivamente no sistema penitenciário a população negra da periferia, mas também é o encarceramento destas pessoas dentro de sua própria realidade”. Ele complementa: “Enquanto uma única parcela da população continua acessando o todo, significa que há diferentes formas de encarceramento acontecendo”.

Estas e outras falas surgiam em meio a contribuições de profissionais vindos de todos os cantos do Brasil e também de outros países. Assim os participantes do evento puderam conhecer a realidade da redução de danos nos territórios, saber sobre a regulamentação das drogas em nações como Uruguai, Argentina e Portugal, ouvir relatos de redutores de danos e debater sobre questões específicas como o feminismo antiproibicionista e as drogas em contextos homoeróticos e sexuais, por exemplo. Além disso, a história da Redução de Danos foi (re)contada em atividades como “Grande Roda de RD – 30 anos”, com nomes como Tarcísio Mattos, Fátima Machado, Andrea Domanico e Domiciano Siqueira.

O encarceramento que a gente vive é ter como principal política pública para as favelas a presença da polícia. É a não valorização destes espaços. É concentrar massivamente no sistema penitenciário a população negra da periferia, mas também é o encarceramento destas pessoas dentro de sua própria realidade

Discussões fundamentais em tempos de retrocessos para “seguir acreditando que o cuidado em liberdade é possível”, como afirmou a presidente da Abramd, Luciane Marques Raupp (CRP-07/10050), durante e mesa de abertura. Ludiana Cardozo Rodrigues (CRP-08/14941), presidente do CRP-PR, lembrou que a luta é diária – “luta de esperança e crescimento, e não guerra, que divide as pessoas”, diferenciou Vera da Ros, também presente no evento representando a Reduc (Rede Brasileira de Redução e Danos e Direitos Humanos). Mas, Ludiana fez o convite: “Vivemos tempos difíceis, mas vocês podem contar com o CRP-PR”.

Conferências magnas

Dois grandes pesquisadores da área de drogas foram responsáveis pela abertura e fechamento oficiais do congresso: Carl Hart, da Universidade de Columbia, e Elisaldo Carlini, diretor do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Mais sobre as falas dos pesquisadores e uma entrevista exclusiva você confere na próxima edição da Revista Contato.