A Psicologia está preparada para atender a população negra?

Texto de Daniel Fauth Washington Martins (Especialista em Criminologia, Mestrando em Direito pela UFPR e Estudante do 8º período de Psicologia da PUCPR) – Membro do Núcleo de Questões Étnico-Raciais da Comissão de Direitos Humanos do CRP-PR.

O CRP-PR enviou o cartaz da campanha para universidades, CAPS, CRAS, CREAS de todo o Paraná

Nesse dia 20 de novembro comemoramos o Dia da Consciência Negra em memória a Zumbi dos Palmares, ícone da luta pela liberdade da população africana trazida ao Brasil. A memória da resistência quilombola não apenas celebra positivamente a negritude de mais da metade da população brasileira, mas também constitui um momento propício para problematizações. Uma das questões que vem sendo levantadas cada vez mais no âmbito da Psicologia diz respeito a um eloquente silêncio: por que se fala tão pouco sobre o racismo? Será que estamos escutando essa história?

Eventos do mês de novembro à parte, nossos currículos pouco ou nada abordam sobre o tema. Em geral, considera-se que a Psicologia Social seja o locus propício dessas discussões, e as demais linhas mantêm uma ideia de sujeito universal, tornando o estudo de “especificidades”, como raça e gênero, algo opcional. Mas, será mesmo que a escuta clínica é algo que se poderia fazer leigamente em qualquer tema? Não seria o racismo um fenômeno estruturante de nossa realidade nacional? Afinal de contas, se raça é um conceito social, e não biológico, não seriam todas as pessoas racializadas e, por conta disso, tal conhecimento se tornaria imprescindível a uma prática qualificada?

Base teórica não falta. Desde os impactos despersonalizantes do racismo contra o negro detectados por Franz Fanon em “Peles negras, máscaras brancas”, passando pelos importantes questionamentos sobre o preço em sofrimento mental pago pela pessoa negra por sua ascensão social teorizados por Neuza Santos Souza na obra “Tornar-se negro”, chegando a movimentos mais atuais, como a organização de uma disciplina de Psicologia e relações étnico-raciais pela Universidade Federal de Santa Catarina, o fato é que há sim literatura de base para que o tema seja estudado, debatido e, principalmente, para que a(o) profissional de Psicologia se informe sobre o assunto. O Conselho Federal de Psicologia lançou, inclusive, um compêndio técnico de referências que pode ser baixado gratuitamente.

O racismo se faz sentir violentamente. Dados do Atlas da Violência de 2017 indicam que a população negra representa três quartos (perto de 75%) das mortes violentas no país. Segundo o Infopen, informativo das penitenciárias brasileiras realizado pelo Ministério da Justiça, 64% da população carcerária é negra. Mulheres negras têm maiores chances de morrer em decorrência de um aborto, bem como recebem, em média, menos anestesia nos procedimentos de parto. O risco de suicídio se apresenta maior entre a população negra, em especial para as mulheres.

Tais fatores, expressivos da segregação social e do racismo nos níveis pessoal, institucional e estrutural, desembocam em um dado óbvio: a maior prevalência de transtornos mentais na população negra. Ainda assim, será que a categoria está preparada para escutar essa história? Afinal de contas, tirando aquelas e aqueles que buscam tal estudo ou vivenciam na pele tais questões, estariam Psicólogas e Psicólogos capacitadas(os) a fazer uma escuta capacitada desses sofrimentos sem reduzi-los a questões individuais? E mais: considera-se seriamente o risco de ativação das defesas da(o) profissional, em especial na clínica, quando confrontada(o) com temas que dizem respeito ao seu lugar de privilégio?

O intuito dessa reflexão não é acusar, mas sim suscitar o incômodo diante do sofrimento do outro, incentivar movimento e aperfeiçoamento. Esse sofrimento ainda encontra dificuldade para ser ouvido porque sua escuta demanda preparação, empatia, demanda aquilo que a Psicologia tem como mais caro: a profunda consideração de um ser humano em sua especificidade sem perder de vista o acúmulo técnico sobre o sujeito nas mais diferentes linhas e áreas.

É preciso escutar essa história. O primeiro passo é levar o racismo a sério, preparar-se para acolher mais essa forma de sofrimento e, assim, contribuir para um futuro melhor que contemple a todas as pessoas.

É preciso escutar essa história. O primeiro passo é levar o racismo a sério, preparar-se para acolher mais essa forma de sofrimento e, assim, contribuir para um futuro melhor que contemple a todas as pessoas.