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Dia Internacional das Mulheres: a equidade pela qual lutamos, e os avanços eliminados na pandemia

Há um ano, neste mesmo dia 08 de março, mulheres brasileiras lutavam contra problemas muito parecidos com os desse ano de 2021. A violência, seja em casa ou nas ruas, as atingia em números e formas alarmantes; a equidade de renda e carga horária de trabalho (remunerado ou não) estava longe de se tornar uma realidade; o machismo se fazia presente no dia a dia e, muitas vezes, invisibilizado; mulheres negras, mulheres trans, mulheres lésbicas, mulheres periféricas, todas amargavam as múltiplas violências interseccionais e tinham seus corpos e subjetividades violados.

Mas, na luta feminista, um revés não estava previsto naquele Dia Internacional das Mulheres de 2020: uma pandemia que arrasou países inteiros, levando com maior força, justamente, as mulheres – ainda que o vírus tenda a ceifar mais vidas masculinas, foram as mulheres as mais impactadas pelas crises social, econômica e política que se seguiram.

A jornada de trabalhos não remunerados se multiplicou – e segue recaindo sobre as mulheres essencialmente – enquanto os empregos formais e remunerados mais ocupados por trabalhadoras desapareceram rapidamente. O resultado da equação não é difícil de se obter: o desemprego passou a atingir mais as mulheres do que os homens e a retomada das vagas é mais difícil para elas, porque as redes de apoio – como escolas, creches e babás, ou mesmo familiares – se esfacelaram junto com as necessidades de distanciamento social.

Assim, a pandemia aprofundou a desigualdade e ocasionou a perda de vários anos de avanço em prol da maior equidade entre homens e mulheres, reduzindo drasticamente a presença feminina no mercado de trabalho e reproduzindo índices de participação feminina que não se viam há décadas.

Nas regiões mais vulnerabilizadas, a perda de empregos e renda, somada aos parcos recursos obtidos pelo auxílio emergencial (quando este esteve disponível) e ao fechamento das escolas e creches, fez a qualidade de vida já precária despencar. As líderes comunitárias Maurina Carvalho, da Vila das Torres, e Andréia de Lima, do Parolin, relatam que muitas chefes de família encontram mais dificuldade para driblar a falta de dinheiro para itens básicos, como alimentos, impactando famílias que delas dependem, muitas vezes exclusivamente.

Considerando os contextos de desemprego, fragilização de serviços públicos de assistência social (que já vinha de antes da pandemia devido aos desmontes orçamentários, mas que se aprofundaram de um ano para cá) e o aumento dos abusos e violências dentro de casa, o resultado é uma desassistência com graves impactos na saúde física e mental.

Adoecer, no entanto, pode ser também um privilégio: “A gente tem muitas mulheres que estão doentes, mas elas não conseguem se ler doentes, porque a sociedade cobra muito que as mulheres da periferia, as mulheres negras, têm que ser três, quatro vezes mais fortes, como se a gente não pudesse chorar porque a gente tem três, quatro filhos para atender, como se a gente não pudesse ter, sim, uma depressão”, constata Andréia.

Mesmo entre as mulheres mais privilegiadas economicamente, todavia, é possível observar a desproporcionalidade do impacto da Covid-19. A necessidade de manter o distanciamento social que desfez as principais redes de apoio femininas e isso afeta também as mulheres em posições de liderança. Estudos conduzidos nos Estados Unidos mostraram que funcionárias em altos cargos passaram a cogitar deixar seus postos para dar conta de um novo cenário, e os resultados podem servir de alerta também em outras nações, como o Brasil.

O que muitas empresas e governos parecem não perceber, no entanto, é que investir em equidade também gira a economia. A consultoria norte-americana McKinsey modelou os impactos da regressão dos direitos femininos e estima que o PIB mundial pode crescer até 1 trilhão de dólares a menos até 2030 em comparação com um cenário em que a empregabilidade de homens e mulheres fosse igual em cada setor. Ao contrário, se os governos implementarem políticas públicas apropriadas, o impacto da equidade pode ser de até 13 trilhões na economia global.

A retomada da economia, contudo, precisa diferir do “velho normal”. A mesma McKinsey & Company, em parceria com a organização não governamental LeanIn, apontou que as companhias precisam investir de locais de trabalho mais flexíveis e empáticos, de modo a contribuir para o sucesso das mulheres no longo prazo. Mas, não é só no âmbito privado que as ações devem ocorrer, conforme destaca a pesquisadora Maria Aparecida Bridi, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Paraná, no artigo “A pandemia Covid-19: crise e deterioração do mercado de trabalho no Brasil”.

“As saídas para o enfrentamento dos efeitos causados pela pandemia da Covid-19 estão na taxação de grandes fortunas, taxação do rentismo e na adoção de uma política de renda universal. Evidentemente que isso implica enterrar o neoliberalismo e as políticas de austeridade, o que exige compromisso com o social, com os valores da democracia.”

Em termos macro, isso significa investir em democracia e em um Estado de bem-estar social, como afirmou a jurista alemã Susanne Baer, membro do Tribunal Constitucional alemão, no webinar “Internacional gender justice and the pandemic” (Justiça de gênero internacional e a pandemia, em tradução livre), realizada pela FGV Direito Rio em dezembro de 2020. No nível micro, implica ouvir as necessidades das mulheres e envolvê-las na construção de políticas públicas. “Não é só em um mar de desigualdades que as mulheres negras brasileiras estão imersas. As mulheres também estão construindo soluções… munidas de saber, prática, experiência política. Devemos ser reconhecidas e valorizadas. A construção de soluções verdadeiramente efetivas para toda a sociedade tem que ser feita conosco e a partir de nós”, clamou a ativista Anielle Franco, no mesmo Webinar da FGV sobre igualdade de gênero.

Por fim, mas não menos importante, a escuta de profissionais da Psicologia, do Serviço Social e outros da linha de frente do atendimento às mulheres, especialmente as mais vulneráveis, deve ser feita de forma acolhedora. “O caminho é o olhar singular, prestar atenção às singularidades. Seja no presencial ou utilizando novas tecnologias, precisamos nos aproximar desse público. Ouvir, acolher, para construir juntos uma perspectiva de transformação social, mudança e avanço”, resume a Psicóloga Stefanie Silva (CRP-08/20396), que atua com Psicologia Social na área de direitos humanos. 

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Este texto é uma prévia da matéria de capa da Revista Contato março/abril, que chega ao site nos próximos dias. Acompanhe nossas redes sociais para saber mais!