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400 mil mortes na pandemia e não tem vacina para toda a população

 

Parece que foi ontem que lamentamos profundamente e nos enlutamos pelas 300 mil vidas perdidas pela Covid-19 no Brasil. Em pouco mais de um mês, essa marca já ultrapassou as 400 mil, em ritmo estarrecedor. Mais do que números, são pessoas, mães e pais, irmãs e irmãos, avós e avôs, familiares, amigas(os), colegas, amores perdidos para uma doença contra a qual existe vacina, em uma pandemia que poderia ter sido controlada com medidas de proteção. Não é possível – e nem saudável – naturalizar, contemporizar o tamanho do absurdo que esse dado representa.

Em meio a essa realidade chocante, não há, ainda, vacinas disponíveis para toda a população, nem sequer uma previsão concreta. Não há vacinas disponíveis para trabalhadoras(es) do SUAS, não há vacinas para trabalhadoras(es) da educação nem para estudantes, não há vacinas para pessoas com comorbidades, nem para a totalidade das pessoas idosas na maioria dos municípios. Não há vacinas para a(o) trabalhador(a) precarizada(o), para prestadoras(es) de serviços autônomas(os), para pessoas desempregadas, para a população empobrecida, vulnerabilizada. E, deste modo, não há condições efetivas para a diminuição dos contágios, das complicações, dos óbitos.

Não se trata aqui de garantir prioridades. A falta de coordenação efetiva de um plano nacional de imunização delega a Estados e municípios os critérios para definição dos públicos prioritários. Nesse sentido, em algumas cidades todas(os) as(os) Psicólogas(os) serão vacinadas(os) nas primeiras fases; em outras apenas as(os) que atuam diretamente como referência para o tratamento de pessoas infectadas, ou as(os) que possuem cadastro no CNES. Há ainda municípios que estabelecem recortes etários conforme disponibilidade de doses, e os que alteram os critérios no meio do processo. Contudo, não é a priorização, dentro do contexto de escassez de vacinas, que promoverá a saúde coletiva, as condições de segurança necessárias à população que de fato necessitamos.

As vacinas chegam “a conta-gotas” nos Estados e municípios. As produções e importações são interrompidas e retomadas a todo momento, sendo que o fornecimento fica muito aquém do que precisamos. Institutos científicos, precarizados, tentam além de seus limites produzir os imunizantes, mas muitas vezes faltam insumos. Cidades grandes vacinam às dezenas, centenas por semana, e os “vacinômetros” dão a sensação de que os planos de imunização não param de avançar, quando o número de pessoas contempladas é mínimo, pífio, insuficiente para proteção da sociedade. No Paraná, depois de meses de vacinação, apenas 990 mil pessoas receberam as duas doses da vacina, o que não corresponde sequer à população idosa. O 15º lote recebido no Estado é de apenas 309 mil doses, enquanto a população em geral ultrapassa 11,08 milhões de pessoas.

Para além da escassez de vacinas, faltam medidas de apoio à população por parte do poder público: informações coordenadas, equipamentos de proteção individual, condições de se cumprir as medidas de higiene e distanciamento social, renda para as pessoas que necessitam. Deste modo, não conseguimos, enquanto sociedade, reduzir significativamente a transmissibilidade do vírus, o que reforça a importância da imunização como forma de proteção à vida.

Nesse sentido, é preciso cobrar prioridade do poder público para que sejam produzidas, adquiridas e distribuídas vacinas no âmbito da saúde pública, do SUS. Estamos em um cenário em que o governo federal recursou compras de vacinas, não se preparou quando podia com os insumos necessários para a imunização. Também, planos de aquisições de vacinas por Estados, municípios e consórcios não se efetivam em larga escala. Ainda, no Poder Legislativo, discutiu-se a possibilidade de se subverter a lógica de universalização do direito à saúde, autorizando a aquisição privada das vacinas.

O Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) vem empreendendo esforços, compondo articulações junto aos poderes executivo e legislativo, se engajado em campanhas com outros Conselhos e entidades para reivindicar vacinas para toda a população. Também vem se dedicando a recolher e distribuir informações sobre os planos de imunização para a categoria, atendo às prefeituras em suas diferentes requisições de maneira célere e proativa. Contudo, nada disso surtirá efeito se não tivermos de fato imunizantes suficientes para todas(os). Nesse sentido, é preciso mobilização de toda sociedade.