Notícia

01/05 – Dia da(o) Trabalhador(a): as relações de trabalho pós-pandemia

No Dia da(o) Trabalhador(a), celebrado em 01/05, quase 17 milhões brasileiras(os) não têm o que comemorar, pois estão desempregadas(os) ou já desistiram de buscar uma vaga no mercado de trabalho, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A pandemia, além de contribuir com o agravamento desse índice, provocou alterações nas relações de trabalho mesmo nos casos em que o emprego foi mantido. As consequências vão muito além das estatísticas econômicas, como a Psicologia aponta.

Para falar sobre o tema, conversamos com o mestre em Psicologia Guilherme Alcântara Ramos (CRP-08/21249), docente nas áreas de Psicologia e Gestão Organizacional, diretor de projetos em empresa especializada em Tecnologia Comportamental e coordenador da Comissão de Psicologia Organizacional e do Trabalho (CPOT) do CRP-PR. O Psicólogo destacou, preocupado, que em muitas empresas o cuidado em saúde mental não saiu dos planejamentos e debates mais teóricos, lembrando que é sempre tempo de investir nesse aspecto.

Durante o período da pandemia, em sua experiência profissional, você identificou alguma preocupação, de modo geral, pela manutenção da saúde mental das pessoas que trabalham? Isso se refletiu na prática?

Guilherme Alcântara Ramos – Com o início da pandemia e durante ela, um aspecto impactante foi o aumento de conversas, discussões, palestras, eventos e materiais que falavam sobre saúde física e mental pautados pelo isolamento social. Isso suscitou o tema da saúde mental, qualidade de vida e bem-estar, o que é um aspecto positivo, pois dá mais possibilidades de estratégias, intervenções e cuidados relacionados à saúde mental das pessoas.

Uma fragilidade importante de ser salientada é que, apesar da evidência desse tema, ainda é necessário que muito disso se transforme em prática. É importante separar o ambiente profissional do de lazer, pois nossos dispositivos foram invadidos pelas conversas profissionais, impactando o uso do aplicativo para uso pessoal: muita gente tinha receio de acessar os aplicativos e aparecer disponível para a chefia num momento em pretendia descansar, por exemplo. Então o uso desses aplicativos foi reduzido para outras finalidades que não fossem o trabalho. Aquele ar mais lúdico entre amigos, por exemplo, se perdeu um pouco.

Se por um lado temos o debate, do outro ainda carecemos muito da conversão disso em estratégias e intervenções. Isso passa por ações mais simples como a separação entre o pessoal e o profissional, e vai até aquelas em que as organizações oferecem mais suporte, estrutura e recursos para o trabalho realizado em home office. Além disso, há as demais possibilidades em sistemas de liderança e gestão, práticas de cobrança, atenção e cuidado com colaboradoras(es) em relação à sua própria realidade num momento tão agravado pela pandemia, como condições de bem-estar e viabilidade para exercitar as atividades laborais.

Somando tudo isso, verificou-se um impacto significativo no constrangimento em atividades de lazer e aumento da sobrecarga e percepção de exaustão das pessoas. Apesar da intensidade das discussões, as medidas necessárias não foram proporcionalmente convertidas em ações para o bem-estar e qualidade de vida das(os) trabalhadoras(os).

Ainda acerca das medidas que poderiam tornar o ambiente de trabalho e suas relações propícias à saúde mental, houve algo que necessariamente deveria ser feito, mas não foi implantado ou realizado de forma inadequada?

É importante lembrar que um dos componentes mais importantes da saúde mental no contexto do trabalho é a qualidade das relações sociais, interações que acontecem naquele com pares, líderes e lideradas(os). Nesse momento de crise e restrição de recursos nas empresas, caixa de investimento reduzido, gestão pautada por equipes mais enxutas, desemprego e questões financeiras assolando uma parte muito grande da população, as equipes ficaram mais sobrecarregadas: as demandas não necessariamente diminuíram.  

O medo de desligamento em situações de crise aumenta e favorece a exposição de pessoas a situações mais estressoras, mais insalubres e inseguras. Então, ainda que de forma consciente, a(o) trabalhador(a) entende que é necessário, naquele cenário, submeter-se a ele, pois precisa dos recursos financeiros decorrentes do contexto de trabalho. Essa realidade impactou de negativamente com estresse, ansiedade e adoecimento mental.

Um componente importante a salientar é que, de forma muito natural, quando se tem uma sobrecarga de trabalho, as pessoas vão tentar dar conta do contexto laboral dessas demandas, intuitivamente vão se restringir, tanto na qualidade como na frequência dos contatos sociais mais gratificantes e mais leves, e acabar concentrando as interações num momento de resolução de problemas. Assim, um(a) líder sobrecarregada(o), por exemplo, tende a interagir mais com a sua equipe somente quando precisa resolver um problema, e não em momentos mais leves, já que esses instantes acabam tomados pelas demandas impostas pela condição de sobrecarga de uma equipe enxuta que precisa dar conta de todos os afazeres ali alocados.

É preciso investir na qualidade dessas relações, entender a distribuição das atividades e identificar quanto de sobrecarga de tarefas e demandas estão sob responsabilidade de cada pessoa. Feita essa análise, é possível buscar estratégias para que a(o) trabalhador(a) as absorva em compatibilidade com sua viabilidade de realização. Dessa forma, ela(e) conseguirá usufruir de um ambiente social pautado e fortalecido na confiança e no respeito, compartilhando entre os seus pares o que é importante, a fim de que tenha, efetivamente, tempo de qualidade disponível, interação pautada pela gratificação do bem-estar promovida pelo vínculo e pela confiança desenvolvidos entre aquelas pessoas.

Com o arrefecimento da pandemia, já é possível arriscar dizer como será o mercado de trabalho de agora em diante e o que podemos esperar dele? Em sua opinião, o que permanece?

A pandemia trouxe muitas mudanças e algumas devem se manter em algumas profissões. Posso mencionar o uso das tecnologias da área da saúde, na qual alguns atendimentos certamente continuarão permeados pela tecnologia em função das praticidades; da mesma forma, cito as reuniões promovidas por videoconferência, o que diminui a logística. Na educação a mudança é muito forte para alunas(os), docentes e gestoras(es), que passaram a usar aplicativos com finalidades didáticas.

Enfim, muitos trabalhos se transportaram integral ou parcialmente para contextos remotos, cujos impactos são o isolamento da(o) trabalhador(a) em relação aos seus pares e à própria instituição, sem aquele ambiente especialmente organizado para a atividade laboral. É importante que haja suporte aos recursos usados por essas(es) profissionais e também o auxílio para que haja a divisão de papeis que promovam a qualidade de vida. O desenvolvimento do trabalho deve acontecer de forma adequada, separada do momento de lazer, descanso e atenção a outras demandas pessoais.

Como você observa as políticas em saúde mental para pessoas sem vínculo empregatício que desenvolvem suas atividades de forma independente?

Nesse contexto de instabilidade financeira e incertezas de como será o futuro, enquanto se sente a diminuição do poder aquisitivo de vários grupos sociais, há uma tendência maior ao empreendedorismo motivado não por vontade, mas pela necessidade. O empreendedorismo envolve elevado grau de incertezas acerca dos resultados obtidos, e pequenas(os) empreendedoras(es) compõem grupos com muitas fragilidades afetas à saúde mental.

Tais fragilidades decorrem de incertezas financeiras e outros fatores importantes para o sucesso da organização, preocupações com rendimentos e obtenção de recursos para si e para a família, pessoas do entorno, e com o sucesso ou fracasso que podem ocorrer, além do tempo necessário para alcançar os resultados almejados. São grupos que, em momentos como esse, tendem a aumentar formal ou informalmente, são bastante vulneráveis e devem ser alvo de cuidados e intervenções.

Há uma tendência maior ao empreendedorismo motivado não por vontade, mas pela necessidade.

Guilherme Alcântara Ramos

Por que é importante investir em saúde?

O debate sobre saúde mental aumentou em algumas empresas, mas ainda temos muito a ser feito para que haja melhores condições de qualidade de vida profissional e de saúde mental. Muitas pesquisas recentes já demonstram que investimentos em saúde e segurança da(o) trabalhador(a) têm alto retorno até mesmo financeiro para a própria instituição. Pode parecer que esse aporte financeiro seja elevado, mas a verdade é que pessoas em boas condições de trabalho, saudáveis, felizes e satisfeitas, que têm à sua disposição recursos e pares engajados, motivados, produzem mais, tomam melhores decisões e conseguem se concentrar melhor durante as atividades, conferindo eficiência e eficácia aos processos.

Saúde mental é um investimento que vale a pena mesmo quando a preocupação não é saúde mental; e isso justifica, evidentemente, porque as pessoas devem estar em primeiro lugar. Ainda que a preocupação seja financeira, cuidar da saúde mental potencializa o sucesso da organização, seu destaque e sobrevivência no mercado, além do impacto comercial que é se tornar uma empresa com maior visibilidade ética e moral em sua cultura. Para cada um real investido em saúde mental, a empresa recupera quatro vezes esse valor na melhoria dos resultados, seja em contexto remoto ou presencial. 

Saúde mental é um investimento que vale a pena mesmo quando a preocupação não é saúde mental; e isso se dá, evidentemente, porque as pessoas vêm em primeiro lugar.