Mulheres negras são o grupo com maior vulnerabilidade social

O primeiro Encontro de Mulheres Negras Latinas e Caribenhas aconteceu em 25 de julho de 1992, em Santo Domingo, na República Dominicana. O evento foi uma organização importante para discutir as demandas específicas do movimento feminista negro. A articulação resultou na criação de uma rede de mulheres afro-latinas e caribenhas, e no Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha (25 de julho), reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) como um marco de luta e resistência contra a desigualdade social, o racismo e o machismo. No Brasil, a data foi instituída por lei em 2014, e comemora também o Dia Nacional de Tereza de Benguela, em homenagem à líder do Quilombo de Quariterê que viveu no século XVIII.

A história de colonização dos países da América Latina e do Caribe, mesmo que cada um possua suas especificidades, é muito semelhante. A Psicóloga Michely Ribeiro da Silva (CRP-08/18161), coordenadora na Ação de Mulheres pela Equidade (AME) e conselheira consultiva na Rede Mulheres Negras do Paraná, comenta que a maneira como as negras e negros chegaram nas Américas é refletida em uma constituição parecida de suas identidades. A data, portanto, aproxima os movimentos, suas necessidades e lutas. Este dia é também um momento em que a Psicologia deve voltar o seu olhar para as mulheres negras, a fim de promover a garantia de direitos e o combate das opressões que sofre essa população.

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foi o aumento nos homicídios de mulheres negras entre 2003 e 2013 no Brasil (o de mulheres brancas caiu quase 10%)
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é o percentual da média salarial das mulheres negras em relação aos homens brancos (R$ 946 contra R$ 2.393)
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das vítimas de mortalidade materna no país são negras

A Psicologia, com um trabalho que envolve a escuta, a aprendizagem e o acolhimento, tem a potencialidade e o compromisso no desenvolvimento de estratégias para o combate ao racismo e ao machismo, na redução das vulnerabilidades e desvalorização das mulheres negras.

"Morreram assassinadas, proporcionalmente ao tamanho das respectivas populações, 66,7% mais meninas e mulheres negras do que brancas"

Mapa da Violência de 2015: homicídio de mulheres no Brasil

Psicologia

A representante do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) no Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial do Paraná (Consepir), e também colaboradora do Núcleo de Questões Étnico-Raciais da Comissão de Direitos Humanos do CRP-PR, Daniela Francesca Malta dos Santos (CRP-08/IS-359), ressalta que o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha é importante para trazer reflexão e visibilidade ao que permeia a subjetividade dessa mulher. “O debate sobre isso não é ampliado na formação em Psicologia. Primeiro, a gente estuda para entender a cultura em que vivemos. Mas, estudamos mesmo sobre a nossa cultura? Eu sei sobre a subjetividade do que é ser uma mulher negra no Brasil?”, questiona Daniela.

Para Michely, uma estratégia possível a ser adotada pela Psicologia é pensar em uma linha que converse com as relações raciais, considerando a responsabilidade das(os) profissionais da categoria para o desenvolvimento dos indivíduos e dos grupos. “É essencial reconhecer que o racismo é um elemento na constituição das vivências de violências das populações negras, e que isso causa um sofrimento e um adoecimento psicológico”, enfatiza.

Vulnerabilidade

Ainda que a organização das mulheres negras tenha se iniciado há mais de 20 anos, as motivações para o enfrentamento das desigualdades que elas sofrem continuam existindo até hoje. Segundo pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), as mulheres negras são o grupo com mais vulnerabilidade social. Esse panorama está na publicação de 2013 “Dossiê Mulheres Negras: retrato das condições de vida das mulheres negras no Brasil”, mas as pesquisas que demonstram essa realidade são numerosas e de diversas instituições.

Michely explica que antes não existiam dados que comprovassem as vulnerabilidades das mulheres negras. As demandas por saúde, educação, trabalho e segurança eram consideradas apenas parte de um discurso do movimento. A estratégia então foi trabalhar na produção desses dados e pesquisas nas universidades, e a posterior reivindicação para o setor público. “Os dados refletem as vivências das mulheres negras. Eles impedem que as pessoas ignorem a situação”, ressalta a Psicóloga.

Violência

Segundo a ONU Mulheres, entre os 25 países com maiores índices de feminicídio no mundo, 14 estão na América Latina e no Caribe. A situação se agrava quando são analisados os dados referentes às mulheres negras.

No Brasil, entre 2003 e 2013, os homicídios de mulheres brancas tiveram uma queda de 9,8%, sendo que, no mesmo período, os homicídios de mulheres negras aumentaram 54,2%. As estatísticas, que são do Mapa da Violência de 2015: Homicídio de mulheres no Brasil, também demonstram que a partir da vigência da Lei Maria da Penha (lei nº 11.340/2006) o número de vítimas entre as mulheres brancas caiu 2,1%; a realidade é muito diferente entre as mulheres negras, pois, no mesmo período, houve um aumento de 35% na violência. O documento também salienta que, em 2013, “morreram assassinadas, proporcionalmente ao tamanho das respectivas populações, 66,7% mais meninas e mulheres negras do que brancas”.

Mercado de trabalho

As consequências do machismo e do racismo influenciam em diversos contextos. Se as mulheres são historicamente desvalorizadas em relação aos homens no mercado de trabalho, a disparidade é maior para as mulheres negras, que, além da desigualdade de gênero, sofrem desigualdade racial e social. Em 2014, dados da pesquisa Mulheres e Trabalho, também do IPEA, mostram que  as mulheres negras recebiam uma média de R$ 946, contra R$ 2.393 mensais dos homens brancos – o que representa menos de 40%.

A análise demonstra também diversas desvantagens que têm as mulheres negras se comparadas às mulheres brancas e aos homens (sejam negros ou brancos) nas possibilidades e condições de participação na economia. Por exemplo, mulheres negras tornam-se inativas no mercado muito mais novas do que os homens brancos. Elas também permanecem em trabalhos mais precários, recebem menores salários e possuem jornadas de trabalho mais extensas, combinando o trabalho com as atividades domiciliares e de cuidados não remuneradas. Além disso, as mulheres negras são a maioria nas chefias de família e precisam criar e sustentar seus filhos sozinhas.

Apesar de receberem menos e fazerem parte de famílias de baixa renda, em sua maioria, as mulheres negras giram a economia na busca por sustento. A Psicóloga Michely destaca que não é à toa que programas governamentais passaram a investir mais nas mulheres negras, notando a suas incidências nas comunidades e na economia. “O investimento nas mulheres negras não é apenas para elas, é um investimento na sociedade. Como elas são chefes de família e lideranças em suas comunidades, o impacto disso reverbera na comunidade, seja no cuidado das crianças, no amparo a outras mulheres, assim como no desenvolvimento econômico no local onde vivem”, explica.

Saúde

Michely pontua que o atendimento na saúde é desigual para as pessoas negras. As situações podem envolver dificuldade no atendimento, negligência e tratamento preconceituoso.

Em 2014, o Ministério da Saúde lançou a campanha “SUS sem racismo”. Segundo os dados, 60% das vítimas de mortalidade materna no país são negras. Além disso, 27% das mulheres negras tiveram acompanhamento durante o parto, contra 46,2% entre as mulheres brancas; 62,5% das mulheres negras receberam orientações sobre a importância do aleitamento materno, enquanto 77% das mulheres brancas tiveram o mesmo auxílio.

Nessa área, a Psicóloga coloca que, além de assegurar os direitos e reduzir a mortalidade e a violência, é preciso pensar sobre “como vivenciar a cultura e tradições de matriz africana tem impacto significativo na manutenção do cuidado em saúde”.

As Psicólogas Daniela e Michely consideram que a primeira forma de avançar nas questões que prejudicam o bem-estar das mulheres negras é conversar sobre o tema em sociedade, compreendendo suas demandas. A Psicologia, com um trabalho que envolve a escuta, a aprendizagem e o acolhimento, tem a potencialidade e o compromisso no desenvolvimento de estratégias para o combate ao racismo e ao machismo, na redução das vulnerabilidades e desvalorização das mulheres negras.