Futuro das empresas e papel da(o) Psicóloga(o) é destaque na I Jornada de Psicologia Organizacional e do Trabalho

Mais de 200 pessoas de diversas regiões do Brasil se reuniram na última sexta-feira (13) e sábado (14) para a I Jornada de Psicologia Organizacional e do Trabalho, promovida pelo Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) em parceria com a Universidade Positivo, que trouxe ao Paraná grandes nomes da pesquisa e da prática desta área de atuação da Psicologia.

Dois temas se destacaram ao longo dos dias de atividade: a importância da(o) Psicóloga(o) Organizacional e do Trabalho e as novas constituições das empresas hoje e no futuro.

As mudanças em curso na sociedade afetam as relações de trabalho e a própria constituição das organizações. Há 20 anos, não conhecíamos muitas das empresas que hoje fazem parte do nosso cotidiano, como Uber, Airbnb e Spotify. Ao mesmo tempo, outras ocupações e empresas desapareceram ou se transformaram. Segundo Daiani Bentivi Aquino (CRP-22/01482), que falou sobre os desafios da empregabilidade nos cenários de inovação, funções mecânicas e repetitivas tendem a sair do mercado. Um exemplo, segundo ela, é a correção de testes psicológicos. “A Avaliação Psicológica como conhecemos hoje deve acabar, dando lugar a novas tecnologias”, explicou aos participantes. Assim, ganha quem é mais aberto a adquirir novos conhecimentos e habilidades.

Para se manter neste mercado competitivo e em constante transformação, existem competências cada vez mais valorizadas. Segundo Mariana Patitucci Bacellar (CRP-08/10021), a capacidade de fazer escolhas e resolver problemas complexos é uma delas. Além disso, o profissional deve ser criativo, ter autoconhecimento e inteligência emocional – que significa perceber o outro, ter responsabilidade e saber reagir com ponderação. “É preciso continuar adquirindo conhecimentos, treinar as habilidades e ter atitude para realizar. A pessoa deve ser protagonista de sua carreira”, disse ela.

Atividades em salas paralelas no primeiro dia (13) trouxeram debates em temas diversos

Novos problemas

Garantir a saúde e a qualidade de vida em ambientes de trabalho é um desafio antigo, mas que ganha novos contornos no cenário atual. Com as novas tecnologias, alterações nas legislações trabalhistas e contextos socioeconômicos problemáticos, as consequências na saúde do trabalhador também mudaram.

Muitas vezes confundida com depressão, a Síndrome de Burnout é um nível elevado de estresse relacionado ao trabalho e pode causar sintomas físicos, emocionais e comportamentais. Segundo pesquisa de 2016 do International Stress Management Association (ISMA), 32% da população economicamente ativa tem Burnout. De acordo com a Psicóloga Ana Maria Rossi (CRP-07/04777), Presidente da ISMA-BR e especialista no tratamento de estresse, esse nível exacerbado de estresse pode levar à exaustão física e emocional, o que desabilita a pessoa de executar atividades de seu cotidiano, trazendo um sentimento de ineficiência.

O uso abusivo de álcool e outras drogas também é um problema que precisa ser manejado pela equipe de Psicologia. Para a Psicóloga Marina Pires Alves Machado (CRP-08/10216), que apresentou estratégias de atuação nestes casos, há dificuldade para tratar o uso dessas substâncias no ambiente organizacional. Para ela, é preciso refletir e buscar soluções viáveis, destacando a importância de criar um protocolo de ação e incluir todos os funcionários em um comitê de pares.

Carolina Walger (CRP-08/11381) destacou o olhar diferenciado da(o) Psicóloga(o) para resolver problemas que afetam a sociedade e as organizações

Olhar humanizado

Novos modelos de negócios, como as startups ou empresas de economia colaborativa, mudam os processos de trabalho. No entanto, onde há pessoas, há a necessidade de atuação da(o) Psicóloga(o), pois somente esta(e) profissional possui um olhar especializado sobre a saúde mental e a subjetividade dos(as) trabalhadores(as), conforme explicou a Psicóloga Carolina Walger (CRP-08/11381).

A palestrante elencou diversos desafios que se apresentam nas organizações atualmente: os menores salários e menor presença das mulheres em cargos de liderança, o preconceito que recai sobre a população LGBTI, em especial as(os) transexuais, que estão quase totalmente fora do mercado formal, a baixa contratação de pessoas com deficiências, as subcondições a que migrantes são submetidos, o assédio moral e sexual, etc. “A gente sabe que o Brasil é um país cumpridor de cotas. Raríssimas empresas contratam para além da cota. Isso significa que o nosso país não é inclusivo. E nós não estamos conseguindo lutar contra isso”, afirmou. O caminho, segundo Carolina, é encontrar uma linguagem capaz de sensibilizar os gestores para estas demandas.

Aprendizagem e cognições

Se a empresa é feita de pessoas – cada uma com sua própria subjetividade –, é preciso compreender os processos de aprendizagem e cognições.

O Psicólogo Jairo Eduardo Borges Andrade (CRP-01/00084) apresentou os modelos teóricos dos processos de aquisição e transferências de conhecimentos, habilidades e atitudes. A aprendizagem, que pode acontecer de maneira formal, ou seja, sistematicamente promovida pela organização, ou de maneira informal, promovida pela interação no local de trabalho, leva a mudanças de comportamento. “O ato deliberado de aprender é valorizado, principalmente em um contexto de mudanças tecnológicas e dos requisitos de trabalho”, afirmou.

Estas mudanças, segundo Antônio Virgílio Bittencourt Bastos (CRP-03/000268), são constantes pela própria estrutura de uma organização, que é dinâmica, um fluxo ou processo oriundo das pessoas. Os esquemas – ou o modo como as pessoas analisam as situações –, segundo ele, são culturalmente formulados. “As pessoas possuem esquemas diferentes e as organizações recebem pessoas com esquemas diferentes. A cognição individual produz as organizações”, explicou o pesquisador.

Assim, Virgílio elenca alguns pontos sobre os quais as(os) Psicólogas(os) devem recair sua atenção: à dinâmica dos atores que constroem as organizações, à comunicação, à ação e às relações e interações humanas. “Não há ferramentas prontas”, disse, afirmando que os modelos devem ser participativos e abertos a entender as diferenças. “A cognição não é separada da carga afetiva e emocional”, concluiu o palestrante.

Programas de Preparação para Aposentadoria

Os primeiros estudos sobre aposentadoria do Professor José Carlos Zanelli (CRP-12/00972), sequenciados da criação dos Programas de Preparação para Aposentadoria (PPAs) com as primeiras turmas de “aposentandos” na Universidade Federal de Santa Catarina, aconteceram no início dos anos 1990.  O interesse do Professor são os riscos e danos psicossociais relacionados ao trabalho, e entre eles está a falta de preparação para a aposentadoria, seu tema de pesquisa há quase três décadas e tema da palestra na Jornada de POT. Segundo ele, o processo de aposentadoria envolve quatro componentes: cuidar da saúde, cuidar das finanças, desfrutar do tempo livre e desfrutar de uma aposentadoria prazerosa. No seu livro “Aposentadoria: prioridades da vida para ser bem vivida– cuidar-se para desfrutar”, o Professor Zanelli apresenta a temática que serve de base para a estruturação dos PPAs. Sobre a atuação dos profissionais de Psicologia nos PPAs, o Professor Zanelli explica que “a transição para aposentadoria implica processos cognitivos e emocionais das atitudes e comportamentos. É por isso que o psicólogo tem, ou deveria ter, pela sua formação, condições privilegiadas de atuação dentro das equipes (dos PPAs)”.

História

Da esquerda para a direita. Mesa-redonda composta por Maria Julia Trevizan (CRP-08/00001), Jairo Eduardo Borges Andrade (CRP-01/00084), José Carlos Zanelli (CRP-12/00972) e Antônio Virgílio Bittencourt Bastos (CRP-03/000268) e mediada por Raphael Di Lascio (CRP-08/00967).

A história da Psicologia Organizacional e do Trabalho foi retomada por um corpo de profissionais de vasta experiência: Maria Julia Trevizan (CRP-08/00001), Jairo Eduardo Borges Andrade (CRP-01/00084), José Carlos Zanelli (CRP-12/00972) e Antônio Virgílio Bittencourt Bastos (CRP-03/000268).

Antônio Virgílio destacou a importância de resgatar a construção desta área da Psicologia para poder agir no futuro. “Hoje temos um campo muito diversificado. Houve um alargamento da POT e mudanças nos métodos e objetivos”, explicou. Segundo ele, ao sair do núcleo clássico, que é gestão de pessoas, e passar a se preocupar com a saúde no trabalho, este campo ganha nova face.

Ele também destacou a importância das múltiplas competências em um mercado de trabalho que apresenta fenômenos complexos. Segundo Virgílio, as crises são cíclicas, como o desemprego e o envelhecimento da força de trabalho, e a(o) profissional de POT deve estar atenta(o) a estes desafios que se apresentam, buscando outras áreas, como educação, administração, sociologia e antropologia, para embasar uma ação integrada.

Complementando sua fala, o professor José Carlos Zanelli resgatou um pouco da literatura da POT já dos anos 1960 e 1970, lembrando que a área de recrutamento e seleção já existia muito antes de a Psicologia ser regulamentada e chegar na clínica. Atualmente, Zanelli destaca que a atuação em organizações e empresas deve ir além do nível individual e, principalmente, não deve se focar na resolução de problemas, mas na Gestão Preventiva de Riscos Psicossociais. Concluiu citando um exemplo da depressão causada pelo trabalho, problema que afeta cada vez mais organizações: “quantos profissionais estariam preparados para lidar com estas questões?”, questionou ao concluir sua fala.

Já os dois últimos debatedores, Maria Julia Trevizan e Jairo Eduardo Borges Andrade, falaram sobre a POT no Paraná e na América Latina, respectivamente. O Psicólogo apresentou sua pesquisa sobre a formação e atuação em diversos países, mostrando a deficiência que muitas nações enfrentam no que diz respeito à formação, muitas vezes generalistas na graduação e com poucos cursos de mestrado e doutorado – o Brasil e a Colômbia são, segundo o pesquisador, mais avançados no continente. “Começamos muito parecidos e hoje somos profundamente diferentes”, disse, citando percentuais de Psicólogas(os) atuando em POT que variam de 10 a 40%, dependendo do país.

Já Maria Julia trouxe uma reflexão sobre o status que estas(es) profissionais encontram diante de colegas de outras áreas. “Na formação não se incentiva a POT, e muitas vezes nos sentimos profissionais de segunda categoria. É preciso mais iniciativa para mudar esta realidade”, afirmou ela. A Psicóloga, que possui mais de 35 anos de experiência na área Organizacional e do Trabalho, alertou também sobre a falta de capacitação de muitas(os) profissionais, que vão atuar em POT por questões financeiras – frequentemente tendo a clínica como segunda ocupação – mas não sabem exatamente o que oferecer dentro da empresa. “Aí faz o que o gestor manda e não consegue se posicionar sobre seu trabalho, com ética.”

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