Dia Nacional da Consciência Negra busca inserção e igualdade

Celebrado todo dia 20 de novembro desde 2003, o Dia Nacional da Consciência Negra, instituído por lei federal, relembra a morte de Zumbi dos Palmares e frisa a importância do empoderamento da população negra e sua inserção na sociedade.

A data também atenta para o fato de que o racismo no país é algo extremamente presente e que precisa ser discutido. Negros ainda recebem menos – o rendimento dos trabalhadores negros e pardos é de R$1.531, enquanto o dos brancos é de R$2.757 – e ainda compõem a maioria das vítimas de homicídio – a cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras.

Essa forma de preconceito marca profundamente o desenvolvimento da pessoa que sofre e afeta todas as áreas de sua vida, atentando contra sua saúde mental.

A própria invisibilidade do racismo na sociedade faz com que as pessoas negras que procuram atendimento psicológico não comentem sobre essa questão nas sessões, por isso é importante que a(o) própria(o) Psicóloga(o) aborde o racismo na consulta e busque ajudar a(o) paciente a compreender o que está vivendo.

Confira a entrevista com a Psicóloga Fernanda Pedroza (CRP-08/21395), que afirma não ser possível separar a dor causada pelo racismo de outras dores ou demandas das pessoas negras, uma vez que estão interconectadas.

 

1. Qual a importância de um atendimento psicológico de qualidade para a vítima? Como a(o) Psicóloga(o) deve agir?

O racismo no Brasil é um problema estrutural e que também influencia nas questões subjetivas do indivíduo. O atendimento psicológico de qualidade da vítima de racismo faz toda diferença no que diz respeito à preservação de sua saúde mental. O Psicólogo deve primeiro entender sobre a construção histórica do racismo no Brasil para não invalidar o que a pessoa está trazendo. Além disso, deve buscar estratégias junto ao indivíduo para o combate do racismo.

 

2. Como a(o) profissional pode se preparar e ajudar a(o) paciente a compreender a necessidade de conversar sobre o racismo sofrido?

Pelo que aparece em meu consultório percebo que, para além da invisibilidade do racismo, a pessoa negra que procura atendimento tem receio de ser invalidada, rotulada como paranoica ou até patologizada pelo Psicólogo, que, segundo relatos, é o que acontece muitas vezes. O profissional deve buscar conhecimento histórico e técnico para enfrentar o racismo institucional. Entendo que, ao estudar sobre o racismo, o Psicólogo deve buscar debates sobre o tema, que vai muito além de conhecimento técnico. Deve-se levar em consideração o lugar de fala de cada indivíduo.

 

A(O) Psicóloga(o) deve buscar conhecimento histórico e técnico para enfrentar o racismo institucional. Deve-se levar em consideração o lugar de fala de cada indivíduo.
3. Qual a importância de o Dia Nacional da Consciência Negra ser divulgado e discutido em diferentes ambientes da sociedade?

Serve como uma data necessária para não ser esquecida toda a luta contra o racismo. Porém, infelizmente, o que acontece é que a sociedade parece delimitar a luta a apenas esse dia. Seria ótimo ver debates raciais em todos os espaços durante o ano inteiro.

 

4. Em sua opinião, a formação acadêmica dos estudantes de Psicologia é satisfatória em relação às questões que envolvem o racismo?

Sei que a formação vai depender da universidade, porém vejo que é bem insatisfatória. Eu, por exemplo, não tive uma aula sequer sobre o assunto. Acredito que o primeiro passo é falar sobre relações raciais no Brasil como uma matéria obrigatória em todas as universidades de Psicologia para que, futuramente, o debate sobre o tema seja algo perpasse todas as matérias dentro da Psicologia. Afinal, estão formando profissionais que certamente lidarão com vidas negras. Além de saber quem são as pessoas negras na história da Psicologia, se e como o racismo tem sido tratado dentro desta ciência.

 

 

Para saber mais

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) editou, em 2002, uma Resolução que estabelece normas de atuação para as(os) Psicólogas(os) em relação ao preconceito e à discriminação racial. Leia aqui. 

 

Além disso, a publicação ‘Relações Raciais: referências técnicas para a atuação de psicólogo(s)’ também é importante para entender as dimensões históricas do racismo, como ele se apresenta na sociedade e como deve ser a atuação da Psicologia. Acesse aqui.