CRP-PR demonstra preocupação com ensino a distância na área de saúde

O Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) se une aos demais conselhos regionais da área de saúde do Estado e acompanha com preocupação o crescimento na abertura de vagas para a realização de cursos de graduação em saúde na modalidade a distância na maior parte da carga horária. Apesar de não ocorrer na Psicologia, essa já é a realidade de cursos como Serviço Social, com 150 mil vagas em EAD pelo país; Nutrição, com 80 mil vagas; e até Medicina Veterinária, que já tem 11 mil vagas de graduação na modalidade. No total, de acordo com levantamento do Conselho Federal de Farmácia (CFF), existiriam, em março deste ano, 616,5 mil vagas autorizadas em EAD na área de saúde, um aumento de 124% na comparação com dados de fevereiro de 2017.

O assunto também é visto com preocupação por parlamentares e foi debatido em audiência pública na Comissão de Seguridade Social e Família realizada na Câmera Federal no dia 15 de maio. Na Casa, a proibição do ensino a distância em cursos de saúde é tema de uma série de projetos de lei, sendo o principal o PL 5414/16. Em âmbito estadual, o assunto também já havia sido discutido na Assembleia Legislativa do Paraná no último dia 8, oportunidade que contou com a presença de representantes de diversos conselhos regionais, entre eles o CRP-PR.

Para a conselheira do CRP-PR e professora universitária Mari Angela Calderari Oliveira, o ensino totalmente a distância é inviável na área de saúde, sobretudo na Psicologia. “A graduação prepara o profissional justamente para atuar nos relacionamentos e comportamentos humanos e o contato é imprescindível para a formação. As disciplinas técnicas como a avaliação psicológica, estágios e disciplinas aplicadas também não têm possibilidade de realização com qualidade mínima nessa modalidade”, avalia. “Nosso posicionamento é de manutenção dos 20% da carga horária total que já estão previstos para o curso de Psicologia. A ampliação desse percentual pode prejudicar a qualidade de formação dos profissionais”, afirma.

Para o coordenador de curso de Psicologia e colaborador do CRP-PR, Milton Magnabosco, a(o) Psicóloga(o) é a(o) profissional que trabalha justamente as questões relacionadas às dificuldades de relacionamento, de vínculo, de avaliação, de dificuldades no aprendizado, e tantas outras possibilidades, enfim, mas sempre será um trabalho que envolve pessoas, uma ou mais, e a afetividade envolvida. “Falar de emoção, falar de encontro, falar de acolhimento, falar de calor humano sem a presença deste nos parece difícil. A Psicologia não é uma ciência que lida bem com o distanciamento. Aliás, as pessoas buscam este profissional por se sentirem cada vez mais distanciadas, sem quem as ouça, sem quem as acolha, sem afeto. Experimentar e viver isto na formação deste profissional é primordial, porque que não se pode admitir que um profissional da Psicologia seja emocionalmente ‘frio’. Frio basta o mundo”, complementa.

O tema está sendo também tratado nos Fóruns de Coordenadores de Curso de Psicologia, Professores de Ética, Responsáveis Técnicos de Serviços-Escola e Professores de Avaliação Psicológica, mantidos com o apoio do CRP-PR.

Estrutura adequada

Outra preocupação dos Conselhos Regionais é com a infraestrutura mínima requerida pelas resoluções e decretos em vigor. A coordenadora da Comissão de Educação do Conselho Regional de Farmácia do Paraná, Ester Dalla Costa, que representou os CRs na audiência pública realizada no Paraná, comenta que a estruturação dos cursos é um ponto que demanda análise. “Um relatório elaborado pelo Conselho de Enfermagem nos deu uma demonstração de que os polos de ensino, mesmo os que têm regimentos mais rígidos, estão desestruturados, sem pessoal qualificado e estruturas de laboratórios desconsideradas”, explicou.

Segundo ela, as estruturas físicas são obrigatórias para todos os cursos a distância semipresenciais. No entanto, a instalação de novos polos de EAD tem crescido consideravelmente. “Mais sob um viés econômico de mercado de educação, com a proposta de levar condição às pessoas que não têm acesso, porém sem a preocupação de qualificar os profissionais que neles atuam”, conta. Segundo Ester, um decreto de 2005 flexibiliza, por exemplo, a presença obrigatória de professores como responsáveis pelo conteúdo repassado aos alunos na educação a distância, listando para tal, por exemplo, a figura de tutores.

Outra questão é a própria vivência acadêmica, como pondera o professor Milton. “A vivência na graduação nos permite ver a dificuldade atual do aluno em trabalhar de forma cooperativa, no compartilhamento grupal, na produção de consenso e na aceitação do outro ou do diferente. Numa graduação EAD podemos supor que haveria uma tendência à maximização disto, que representa tudo o que não se quer neste profissional. Os cursos já têm uma carga de disciplinas mediadas a distância suficientes. O ser humano é social. A frieza e o distanciamento do contato humano são, justamente, fatores desencadeantes de muitos sofrimentos de que se queixam quem nos procura”, avalia.

Com informações das agências Câmara e Alep