A conta que não fecha: crianças com mais de sete anos são maioria nos abrigos, mas mais de 90% das famílias querem até esta idade

“Não procuramos uma criança para uma família. Procuramos uma família para uma criança.” A frase é da Psicóloga Angela Sanson Zewe (CRP-08/06216), que atua na Vara da Infância e da Juventude de Pinhais. Isso porque um dos maiores entraves nos processos de adoção é o perfil de crianças aceitas pelas famílias: 91,7% dos candidatos a pais aceitam crianças com no máximo sete anos, enquanto 61,86% das 8.766 crianças e adolescentes que aguardam adoção nos abrigos já passaram desta idade. Desta forma, o trabalho das equipes que buscam um lar substituto para aqueles cuja guarda foi destituída de sua família biológica se torna mais difícil conforme os anos avançam. “A família que não tem um filho ou filha não perece necessariamente, mas a criança que não tem uma família perece”, afirma a Psicóloga.

A adoção tardia é ainda considerada um tabu no Brasil. Até alguns anos atrás, segundo Angela, a motivação que levava casais à adoção era de “substituir” filhos biológicos ou ajudar as crianças a terem um lar, mas isso mudou. “Hoje em dia há muitas famílias que veem na adoção uma forma de expandir a família, tendo ou não filhos biológicos”.

É o caso do comerciante Wil König, de 40 anos, e de seu companheiro Tiago Rodrigo Bueno. O casal, que atualmente mora em Mafra, em Santa Catarina, entrou com o pedido de adoção em 2016 e agora está em vias de levar o filho, de sete anos, para casa. “Quando escolhemos o perfil, pensamos em crianças de dois a seis anos. Mas uns três meses depois fomos lá e mudamos para até oito anos. Percebemos que uma criança com esta idade também pode ser o nosso bebê, precisar de colo e carinho”, conta o quase papai, que se sentiu “grávido” quando foi habilitado a receber a tão esperada ligação em março de 2017. Antes da adoção, uma amiga de Wil já havia se oferecido para ser sua “barriga solidária”, e esta hipótese não está descartada após a adoção. “Eu já sou pai e posso vir a ter outros filhos, até mesmo biológicos”, afirma.

Ainda de acordo com a Psicóloga, muitas vezes as famílias sentem medo de adotar uma criança mais velha devido à sua história de vida, pois já passaram mais tempo com a família de origem e, em alguns casos, por situações graves de negligência. “Quando percebemos que a família é mais flexível com relação ao perfil de idade, procuramos trabalhar, juntamente com a equipe de Assistentes Sociais, para aproximar esta família de uma criança mais velha.”

No entanto, nem sempre a adoção tem sucesso. “Tenho o caso de um menino de quase 13 anos, para quem já tentei até a adoção internacional, já que em outros países o perfil esperado costuma ser mais flexível, até cerca de 10 anos, mas até agora não conseguimos.”

Estatuto da adoção

Um projeto de lei em tramitação no Senado Federal vem despertando preocupação de profissionais que atuam no contexto da adoção e, também, do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR). Conhecido como “Estatuto da Adoção”, o PLS 394/2017 propões algumas alterações no processo de destituição familiar, tornando-o mais rápido.

Segundo Angela Zewe, é importante que as(os) Psicólogas(os) participem destas discussões porque, se o projeto for aprovado, haverá situações que conflitam com o próprio Estatuto da Criança e do Adolescente. “Há a garantia de convivência familiar e comunitária e também a previsão do trabalho das equipes para a reinserção das crianças que estão acolhidas em uma situação provisória”, analisa a Psicóloga. “Às vezes esse processo acaba demorando muito e a gente entende que existe uma preocupação de que as crianças não percam tempo para conseguir uma família substituta. Mas, por outro lado, a gente também tem preocupação com este trâmite, se ele não seria abreviado, se não seria prematuro”, pondera.

Ela conta, como exemplo, a história de uma criança que foi acolhida temporariamente e, após algum tempo, conseguiu voltar a viver com a mãe, que realizou alterações em sua rotina familiar para reconquistar a guarda do filho. “Se aquela criança tivesse ido para a adoção neste período, não teríamos esta reinserção”.

A Psicóloga gravou um vídeo falando sobre esta questão e destaca que é fundamental que algumas questões sejam revistas e que o projeto não seja aprovado na maneira como está. “A gente entende que o Conselho deve centralizar algumas ações, até para dar mais corpo a elas. A gente tem abertura para receber a contribuição destas pessoas [as(os) profissionais que atuam no contexto da adoção] para que elas nos ajudem a construir isso.